Escalas e Destinos - A apaixonante vida de Blair
22 Capítulo 22 - Helsinque

Eu notei Blair deixando a sala com minha visão periférica enquanto todos pareciam chocados com o que falei. Minha visão estava nublado pelo ódio que sentia naquele momento. Eu já estava farto daquela situação, passaram a tarde inteira me mandando indiretas, como sempre faziam e eu suportei calado, mas passar a ofender a pessoa que eu amo? Eu nunca permitiria!
— O que você disse? — Boris estreitou os olhos, alternando o olhar entre minha ex namorada e eu.
— Dimitri, por favor — Olga suplicou.
— Conta a verdade — eu rosnei.
Todos pareciam perdidos entre nosso embate, mas eu pouco me importava.
— Dimitri!
— Conta que eu te pedi em casamento e você recusou, porque nunca se casaria comigo, porque eu seria um péssimo pai e marido — eu devolvi de maneira enérgica, escolhendo não compartilhar tudo o que ela de fato me falou, já não bastava aquela humilhação!
— Olga! — Irina encarou a filha de maneira questionadora enquanto lágrimas começavam a correr pelo rosto da minha ex.
— Depois de tudo o que você fez, eu tenho o direito de seguir em frente, e a Blair me faz feliz como ninguém nunca fez, então é bom você parar de tentar estragar minha vida mais uma vez!
— Dimitri, já chega — meu pai murmurou ao ver Olga chorando livremente enquanto seus pais sussurravam algo para ela em um tom duro.
Kátia deixou a sala parecendo bastante abalada com o rumo que a comemoração de seu casamento havia tomado, sendo seguida por meu irmão. Meu pai se aproximou dos Yahantov, oferecendo o próprio escritório para que pudessem conversar com a filha com um mínimo de privacidade, me deixando ali apenas com minha mãe, Masha e Alexei.
— Onde está a Blair? — eu olhei em volta, notando que ela não tinha retornado.
— Ela subiu e parecia bastante chateada — Masha avisou.
— Graças a Deus ela não entende Russo — minha mãe suspirou aliviada.
Para mim aquilo também era um alívio, eu poderia sentar com calma e explicar para ela o que foi aquilo de uma maneira que ela pudesse compreender.
— Vocês falaram em Russo o tempo todo? — Masha estreitou os olhos.
— Sim, por que?
— No ano novo eu sugeri a ela que usasse o tradutor do celular quando se sentisse muito perdida em nosso meio — ela mordeu o lábio inferior, parecendo arrependida.
Eu me lembrei que ela pegou o celular assim que a discussão começou a ficar mais acalorada.
MAS QUE MERDA!
Eu corri em direção às escadas, mas a encontrei descendo com sua mala. Blair tinha trocado de roupa e estava com os olhos vermelhos, mas a determinação que brilhava ali me assustou.
Minha mãe indicou que Masha e Alexei nos deixassem sozinhos, e logo todos saíram.
— Blair.
— Não, eu não quero ouvir — ela me cortou.
— Mas você precisa. Blair, o que aconteceu foi um erro — eu tentei apelar.
— Não, isso tem sido um erro, a gente tem sido um erro! Um erro que eu tenho ignorado porque eu te amo, mas não pode continuar — eu vi seus olhos se encherem de lágrimas.
Aquela frase fez o desespero começar a aflorar em meu interior, ela não podia estar falando sério! Não pode terminar assim!
— Blair, por favor.
— Você queria se casar com ela, construir uma família!
— Sim, eu queria, no passado! — acabei elevando a voz ao deixar o desespero me dominar.
Por que ela não podia entender o meu lado da história?
— A grande questão, Dimitri, é que meu pai sempre me ensinou a não aceitar ser a segunda opção de ninguém, eu não sou um prêmio de consolação, por mais que eu te ame — ela respirou fundo na tentativa de impedir as lágrimas de saírem.
— Blair, você não é.
Um som de buzina soou do lado de fora da casa, atraindo nossa atenção.
— Dimitri, eu não consigo mais seguir adiante com isso, não posso mais, está acabando comigo.
— Eu não vou aceitar, Blair, eu não quero que termine — eu supliquei em um tom baixo.
— Você não pode me obrigar a ficar em um relacionamento, Dimitri — ela foi incisiva.
Ela tinha razão. Por mais que eu a amasse eu não poderia obrigá-la a ficar comigo, e nem queria.
— Vamos conversar sobre isso mais tarde — eu pedi.
— Dimitri.
— Por favor, vamos nos acalmar e conversar mais tarde, se você tiver certeza sobre isso, eu vou aceitar. Mas…
Ela não me respondeu, se limitou a respirar fundo e sair pela porta, me deixando para trás, assistindo a mulher que eu amava entrar em um táxi e sair da minha vida.
Caminhei até o sofá, me sentando ali de maneira automática ainda tentando compreender como tudo chegou tão longe. Era nosso primeiro dia dos namorados, devíamos comemorar e não terminar tudo! Permaneci ali por alguns minutos até que Yuri se sentasse ao meu lado.
— Ela foi embora? — ele perguntou.
Eu me limitei a balançar a cabeça de maneira afirmativa como resposta.
— Eu não sabia sobre a Olga — ele prosseguiu.
— Ninguém sabia, eu nunca contei o que aconteceu, não queria que soubessem — eu respirei fundo.
Ele balançou a cabeça, respirando fundo em seguida.
— Se eu soubesse, eu não teria ajudado ela pensando ser o melhor para você — ele admitiu.
— Ajudar? — eu franzi o cenho, encarando meu irmão pela primeira vez naquela estranha conversa.
— No ano novo eu contei a ela que você traria a Blair, ela não viria se eu não tivesse sugerido que seria uma boa ideia ela agir se não quisesse te perder de vez.
Eu o encarei boquiaberto enquanto processava o que ele tinha acabado de revelar. Ainda hoje Blair reclamou que meu irmão não queria sua presença aqui, e eu garanti que era a imaginação dela. Mas não, ele estava em um complô para acabar com o meu relacionamento!
Talvez se Olga não tivesse aparecido no ano novo, Blair não estaria tão saturada e as coisas não teriam chegado tão longe hoje.
— Eu apenas…
— Sai daqui — eu soltei entre dentes.
— Dimulya.
— SAI! — Eu praticamente gritei, fazendo com que ele se levantasse depressa e fosse para a cozinha, sem olhar para trás.
Meu pai veio da cozinha, parecendo surpreso com minha explosão com meu irmão, mas eu não queria mais aguentar aquilo, me limitei a pegar a chave do meu carro e sair de casa. Masha estava encostada no capô do lado do motorista, esperando que eu me aproximasse.
— Você está bem? — ela se desencostou quando eu fui em direção à porta.
— Não — eu destravei o carro, me acomodando ali, me preparando para partir.
— Quer conversar sobre isso? — Ela se debruçou na janela.
— Não. — Eu dei partida, esperando que ela se afastasse.
— Você vai ficar bem? — ela deu alguns passos para longe do carro.
Eu não me dei ao trabalho de responder. Me limitei a dar ré e me afastar daquela casa, sentindo meu peito se apertar mais uma vez por tudo o que aconteceu.
Acabaria assim? Eu demorei tanto para me abrir para uma pessoa e simplesmente acaba assim?
Eu não dormi naquela noite, tentei falar com Blair, mas seu celular estava desligado, servindo apenas para que a preocupação substituísse a tristeza pelo término.
Apenas na manhã seguinte eu tive notícias dela, quando uma chamada sua apareceu em meu celular.
Eu não hesitei em atender, vendo minha agora ex namorada com olheiras profundas e os olhos ainda vermelhos surgir na tela.
— Blair, onde você está?
— Eu estou em Helsinque, na Finlândia — ela se esforçou para manter a voz firme — eu peguei o primeiro voo internacional que consegui e me hospedei em um hotel perto do aeroporto, no começo da noite embarco para Atenas e depois volto para casa.
Eu me senti aliviado em saber que ao menos ela estava em segurança e não perdida em qualquer buraco em uma cidade que ela não conhecia.
— Me espera, eu vou conseguir um voo ainda hoje — eu pedi.
— Não!
— Blair…
— Você disse que queria conversar, agora é a sua chance — ela respirou fundo.
Eu a encarei por um segundo, tudo bem, não era o ideal, mas nós poderíamos resolver isso, mesmo que por telefone!
— Blair, eu não sinto nada pela Olga, ela pra mim representa apenas um fantasma do meu passado — decidi ir direto ao ponto.
— Eu sei — ela declarou, para minha surpresa.
— É você quem eu amo, você precisa acreditar nesse sentimento!
Blair fechou os olhos, contendo um pequeno soluço com as costas da mão, deixando as lágrimas correrem por seu rosto.
— Eu acredito.
Eu franzi o cenho, dividido entre me sentir aliviado e confuso com sua reação.
Talvez ela tenha se arrependido!
— Você mudou de idéia?
— Não.
Aquele buraco voltou a se abrir em meu peito, me deixando sem entender o motivo da sua atitude.
— Você… não sente o mesmo por mim? — eu perguntei, temendo a sua resposta.
— Eu sinto.
Eu fechei os olhos, respirando fundo para conter os ânimos. Meu desejo era gritar que ela não estava fazendo sentido algum, mas aquilo pouco me ajudaria.
— Por que você está fazendo isso? — foi o que perguntei.
— Eu acredito no seu amor e eu também amo você — ela começou sua explicação — Mas uma relação precisa de mais do que amor, Dimitri. Nós estamos apenas adiando o inevitável.
— Eu não entendo! — a frustração começou a tomar conta de mim.
— Você pelo menos cogita a ideia de deixar a Rússia?
Aquela pergunta me pegou desprevenido, sei que já tínhamos sondado um ao outro sobre esse assunto, mas pensei que com o tempo eu a convenceria a mudar de idéia sobre a Rússia!
— Minha família está toda aqui, Blair, e eu…
— Tem um bom emprego e um bom apartamento, eu sei disso tudo — ela completou.
As coisas começaram a fazer sentido em minha mente, mas ainda assim, eu me recusava a deixá-la partir. Eu a amava e faria tudo para estar com ela!
— Nós não precisamos discutir isso agora — eu balbuciei.
— Eu não vou mudar de ideia, e não acho que você vá também. Então qual o sentido em adiar? — ela me cortou.
— Eu não quero te perder — o desespero tomou conta da minha voz.
— Dimitri…
— Você quer que eu mude para o seu país? Essa é a sua condição para ficar comigo?
— Não!
Mais uma vez aquela onda de frustração tomou conta de mim, me fazendo desejar gritar.
— Eu nunca pediria a você algo que eu não estou disposta a fazer. Essa é a questão, a gente se ama, mas não o suficiente para abrir mão da nossa visão de futuro ideal. Nós merecemos alguém que nos tenha como prioridade — ela voltou a chorar.
Eu senti o peso esmagador de suas palavras, e a pior parte, é que era tudo verdade. Ela tinha razão em cada ponto, e por mais que me doesse admitir, continuar com aquilo esperando que o outro mudasse de idéia seria apenas adiar o inevitável.
— Você tem certeza sobre isso? — eu me forcei a perguntar.
Blair se limitou a balançar a cabeça afirmativamente. Naquele momento eu soube que não teria volta para nós dois.
— Você pode me avisar quando chegar em casa? Eu preciso saber que você está em segurança — eu fiz um último pedido.
Ela não parecia mais ser capaz de falar, apenas balançou a cabeça, sufocando seus soluços sentidos com a mão enquanto seu rosto era lavado por lágrimas.
Eu encerrei a chamada sem dizer nada mais, as palavras de minha irmã voltaram a rondar minha mente.
"Você vai ficar bem?"
Eu ficaria? Não sei, mas eu teria que seguir em frente com a minha vida. Não podia parar por conta de um relacionamento falido, por mais que eu a amasse.
Mas na teoria aquilo era mais fácil do que na prática. Blair apenas entrou em contato para avisar que já tinha desembarcado em sua cidade, depois disso, não tiv see mais notícias.
Durante os meses que seguiram nosso fatídico término, eu me sentia como um robô, eu ia trabalhar, caminhava por cada cidade que eu visitava de maneira mecânica, indo em cada ponto turístico famoso do lugar, mas para mim, tirar fotos não tinha mais sentido.
O que eu faria com elas? Para quem enviaria? Todos os prazeres que eu descobri ao lado da Blair perderam o sentido, na verdade, eu buscava evitar qualquer coisa que pudesse fazer com que eu me lembrasse dela, mas aquilo era em vão.
Ela estava em minha mente o tempo todo.
Retornei para meu apartamento depois de mais um voo bem sucedido vindo de Viena, e naquela cidade eu me recusei a sair do hotel.
Dizem que o tempo cura tudo, mas para mim, os cinco meses e meio que haviam se passado apenas serviram para evidenciar o grande vazio que havia em minha vida. Um vazio que eu nunca tinha notado até a chegada de Blair.
Eu destranquei a porta e caminhei pelo apartamento deserto. Odiava aquele silêncio sepulcral que parecia me perseguir. Depois de verificar minhas mensagens, eu abri a foto do último ultrassom de Katia que meu irmão havia me mandado. Há cerca de três meses ela descobriu sobre a gravidez e todos estavam radiantes.
Eu também me sentia feliz por eles, mas não conseguia deixar de me sentir impotente diante da situação, eu era o filho mais velho, e meu irmão caçula era quem daria o primeiro neto a todos!
Não era isso que eu tinha planejado para a minha vida.
Uma notificação do meu celular me tirou do meu devaneio, eu respirei fundo antes de abrir a mensagem do Joe.
" Me diz, qual a possibilidade de você conseguir descontos em duas passagens para St Petersburg no próximo mês?"
"Duas?"
"Estou combinando uma viagem com minha nova namorada"
Eu franzi o cenho com aquela mensagem, Joe namorando era novidade para mim.
"Apenas escolha a data"
"posso me hospedar no seu apartamento?"
Ele só pode estar brincando comigo!
"Isso é alguma piada?"
" Meu pai não paga mais meu cartão, eu preciso me virar com o meu salário"
Por um lado eu me sentia feliz por sua independência tardia e nova carreira, mas em alguns momentos pareciam que ele nunca deixaria de ser dependente.
"Nós podemos combinar"
Decidi por fim. Eu pensei alguns segundos antes de fazer a pergunta que eu sempre evitava fazer quando conversava com ele.
"Como ela está?"
Eu senti meu coração martelar com força em meu peito enquanto aguardavam a resposta.
" Você não soube?"
"Soube o que?"
Eu respondi de imediato. O que aconteceu?
"Eu não tenho boas notícias"
Fale com o autor