Eu desembarquei no aeroporto Princesa Olga em Pskov na manhã do dia 14 de fevereiro. Eu me sentia contrariada em estar ali mais uma vez, quando na verdade meu desejo era aproveitar o fim de semana em Bora Bora.

Mas ao invés de estar tomando sol em um paraíso paradisíaco, como havíamos combinado inicialmente, eu estava mais uma vez presa no paraíso de gelo, onde parece que nunca deixa de nevar!

Eu arrastei minha mala pela área de desembarque esperando logo encontrar Dimitri. Tentei de toda maneira melhorar meu humor antes de encontrá-lo.

Tudo bem, meu plano inicial para a comemoração do nosso primeiro dia dos namorados juntos era melhor, mas como meu cunhado e a noiva decidiram que a data seria romântica para o próprio casamento, então aqui estou eu, prestes a passar o dia dos namorados com a família e a ex namorada odiosa do Dimitri.

Se isso não é prova de amor, não sei o que é!

Dimitri me mandou uma mensagem avisando que já estava me esperando no saguão, eu apressei meus passos, pensando em quanto tempo eu teria para me arrumar para o almoço de comemoração.

Tudo bem, nós participaríamos do almoço e depois teríamos a noite toda livre para comemorar, e Dimitri prometeu que tinha preparado algo especial, então não seria tão ruim.

Nós teríamos outra oportunidade de ir para Bora Bora.

Não foi difícil avistá-lo parado à minha espera com um buquê de flores nas mãos. Um sorriso instantâneo chegou aos meus lábios, esquecendo todas as minhas frustrações anteriores. Nós passaríamos o dia dos namorados juntos, e isso era o que importava.

— Eu adoro te ver caminhar — foi a primeira coisa que Dimitri declarou quando me aproximei.

Eu beijei seus lábios, me afastando em seguida com o cenho franzido.

— O que?

— Eu disse que amo o seu jeito de caminhar, assim como eu amo tudo em você — ele repetiu me entregando o buquê — e eu te trouxe isso.

Eu levei o buquê até o rosto, aspirando seu aroma enquanto o encarava com desconfiança.

— O que você fez?

— Como assim?

— A última vez que você me paparicou tanto foi antes de contar que não conseguiria ir ao casamento da Abby — eu expliquei.

Aquilo o fez rir, ele pegou minha bolsa e a mala, me deixando apenas com o buquê antes de passar o braço pelo meu ombro, me levando para a saída.

— Não dessa vez, eu apenas estou com saudades e feliz que você esteja aqui, faz quase um mês que não conseguimos nos encontrar — ele garantiu.

Nós caminhamos juntos até onde o carro estava estacionado, me encolhendo cada vez que o vento soprava. Será que não para de nevar neste país?

— Quanto tempo eu tenho? — eu questionei assim que me vi segura dentro do carro.

Ele consultou o horário em seu celular, antes de fazer um cálculo mental.

— Nós vamos levar cerca de meia hora para chegar, então eu diria que você terá quase uma hora para se arrumar.

Quase uma hora para me arrumar para um casamento!

— Eu te odeio — eu zombei enquanto ele começava a dirigir.

Ele gargalhou em resposta.

— Você tem sorte de eu ser 80% naturalmente perfeita. Então o tempo não será um desafio para mim.

— 80%? — ele me encarou antes de voltar sua atenção para a estrada.

— Se eu ainda tivesse aquele nariz, aí sim teríamos um problema.

Dimitri se limitou a rir, indicando o porta luvas com a cabeça.

— Tem uma caixa de bombons pra você ali. Pra te animar à tarde.

— Você está mesmo ganhando pontos comigo, comandante.

— Eu espero que sim — ele riu.

Nós seguimos para a casa dos meus sogros em um clima descontraído, aproveitando para matar as saudades que sentimos um do outro antes de acabarmos rodeados por tantas pessoas.

Ao chegar, encontramos o lugar mergulhado no mais completo caos. Os pais de Dimitri haviam acompanhado o filho até o cartório e deixado Masha responsável pela organização da recepção que teria após o casamento. E ela claramente não sabia o que estava fazendo.

No fim, Dimitri me levou até o quarto que ocuparemos na casa da sua mãe, me deixando ali para que eu me arrumasse enquanto ele ia com o cunhado buscar o bolo.

Eu consegui tomar uma ducha e me arrumar em tempo recorde antes de descer para ajudar minha cunhada nos preparativos. Eu agradecia internamente pelo aquecedor que me permitia usar um vestido leve para o clima negativo.

— Blin, Aqueles dois se perderam? — Masha soltou exasperada.

— Blin? Isso não é uma panqueca? — eu franzi o cenho, a fazendo rir.

— Ahh sim, mas também é uma expressão. Então se acostume, você vai ouvir muito.

Perfeito, os russos usam "panqueca" para tudo. E eu achando que eles não poderiam ficar mais estranhos.

— Eu definitivamente vou contratar profissionais para cuidar de tudo — Masha murmurou quando terminamos.

— Então você vai se casar logo?

— Primavera do próximo ano. Eu espero que você venha — ela sorriu.

— Eu espero que não tenha neve — eu devolvi, a fazendo rir.

— Não se preocupe, sem neve — ela prometeu.

Dimitri e Alexei logo chegaram com o bolo, e eu passei os minutos seguintes conhecendo o rapaz enquanto Dimitri se trocava. Ele era inteligente, engraçado, e acima de tudo, era completamente devotado pela minha cunhada, e ela merecia aquela devoção.

Dimitri ainda não tinha voltado quando chegaram do cartório, prontos para iniciar a comemoração. Meu coração bateu com força em meu peito quando comecei a ouvir a voz de todos. Os primeiros que vi foram meus sogros, que logo vieram me cumprimentar.

— Blair, que bom que você chegou a tempo — Joanne declarou com um sorriso no rosto, enquanto eu torcia para que Dimitri voltasse depressa.

— Obrigada, Joanne. Parabéns pelo casamento — eu me aproximei dos noivos.

Os dois me ofereceram um sorriso sem graça e logo se afastaram, me deixando ali deslocada.

O que eu estou fazendo se sequer os noivos querem a minha presença!?

— Blair, você veio — Olga me encarou desgostosa.

Ótimo, pelo menos deixou de se fazer de amiga.

— É claro que ela veio, eu não deixaria minha namorada de fora de um evento assim — Dimitri surgiu na sala cumprimentando a todos antes de abraçar o irmão.

Uma pequena discussão em russo foi travada entre meus sogros e a mulher, notei um casal me observando com uma expressão não muito amigável.

— Blair, esses são meus pais, o senhor Boris Yahantov e a senhora Irina Yahantova — Kátia tomou a dianteira da situação, parecendo pouco disposta a permitir que a confusão da última vez se repetisse em seu casamento.

Eu sorri de maneira amigável para os dois, que responderam de forma mecânica em russo.

Ótimo, se eles não falam minha língua, eu não preciso me comunicar com eles!

Dimitri me levou para longe da família da noiva, me dando a chance de admirar o quanto ele estava bonito em seu terno.

— Você acha mesmo que foi uma boa ideia ter me trazido? — eu saí de minha contemplação, retornando ao assunto do momento

— Blair, você é minha namorada, eu te quero ao meu lado e a nova família do meu irmão terá que se acostumar com isso — ele garantiu.

— Mas nem mesmo seu irmão parece gostar de mim, e esse é o casamento dele!

Dimitri me calou com um beijo rápido, mas eu estava longe de me sentir mais tranquila.

— Isso é impressão sua, você só está ansiosa pelo o que aconteceu na última vez. Nós ficaremos longe deles e dará tudo certo — ele garantiu.

Eu assenti, permitindo que ele me levasse mais uma vez para junto de todos. A comemoração ocorreu de maneira relativamente tranquila, em alguns momentos os pais da Olga faziam algum comentário e Dimitri respirava fundo, mas eu não buscava saber sobre a tradução.

O tempo passou depressa, e eu consegui interagir bem com a família do meu namorado, ignorando aqueles que obviamente não queriam minha presença.

Após cerca de duas horas, Irina declarou algo em russo e logo os noivos se posicionaram em um canto da sala enquanto Masha correu para entregar uma grande vela ornamentada aos dois. Eu observei com curiosidade Irina e Joanne se aproximarem dos filhos, ambas com velas simples acesas, antes de se juntarem para acender a vela dos noivos.

— O que está acontecendo? — eu sussurrei para Dimitri.

— Desculpe, você deve estar perdida. É uma tradição, se chama iluminação do coração da família, é uma bênção sobre o casal, simboliza a união das duas famílias e os pais passando luz e calor para os recém casados.

Um sorriso involuntário surgiu em meus lábios, aquilo era tão bonito, se eu soubesse antes, teria feito a Abby incluir no casamento dela!

— Gostou?

— Adorei!

Ele parecia satisfeito com minha resposta, Olga por fim tomou a palavra, começando a fazer um discurso em russo, que Dimitri logo se prontificou a traduzir.

Os pais dela fizeram um brinde depois, e quando eu pensei que tinha acabado, Yuri tomou a palavra.

— Eu agradeço pela presença de todos, vocês não imaginam o quanto esse apoio significou para nós — Dimitri começou a traduzir — principalmente você, irmão. Você foi o primeiro a nos apoiar, mesmo não concordando com nossa decisão, e eu não poderia ser mais grato.

— Nesse caso, Blair é quem deve receber o crédito, ela quem me fez enxergar o quanto estava sendo injusto e egoísta com você — Dimitri respondeu em minha língua, para que eu conseguisse entender.

Um olhar surpreso surgiu no rosto do rapaz por um momento, mas ele logo se recompôs.

— Obrigado, Blair.

Eu me limitei a sorrir, erguendo a taça de champagne que segurava.

— Podemos cortar o bolo? — Olga nos interrompeu, parecendo pouco satisfeita.

Joanne sorriu, se aproximando da mesa.

— Masha, onde está a espátula?

Todos olharam para a jovem, que murmurava mil maldições.

— Blin, eu sabia que tinha esquecido alguma coisa.

— Masha…

Dimitri parecia estar se divertindo.

— Eu vou buscar — ela garantiu, sendo seguida de perto pelo namorado.

Todos se distraiam em conversas paralelas enquanto aguardavam pela espátula, Joanne se aproximou de mim, decidida a puxar assunto.

— Então Blair, o que você está achando? — ela perguntou.

— Estou gostando muito, eu não fui em muitos casamentos na vida, mas já posso falar que estive em casamentos americanos, turcos e russo — eu brinquei.

— E qual foi o seu preferido? — Meu sogro perguntou.

— Eu adorei a tradição das velas, mas se eu for a noiva, com certeza teria que responder o casamento turco.

Aquela resposta chamou a atenção de Dimitri, que pareceu ainda mais interessado no assunto.

— E Por que?

— Bom, pra começar, não seria obrigatório ter comida e bebida, apesar de que eu acho que é uma parte essencial da festa, então manteria assim mesmo — eu comecei.

— E o que mais?

— Os convidados devem levar dinheiro e ouro para os noivos, e nada de ser mão de vaca — eu confidenciei, arrancando risos dos pais dele.

— Definitivamente nós nos casaremos na Turquia — ele zombou, me fazendo arregalar os olhos.

Nós já havíamos entrado em acordo sobre deixar as piadas sobre casamento longe de sua família!

— Nada impede que se casem nos dois países — Yaroslav declarou com satisfação.

— Você tem alguma ideia sobre o casamento, Blair? — Joanne sorriu.

Onde a Masha se enfiou com a maldita espátula?

— Eu só sei que o Dimitri espera que eu esteja de branco — eu dei um sorriso amarelo, me sentindo desconfortável com o rumo daquela conversa.

— Por favor, que não seja aquele vestido que você experimentou aquela vez — Dimitri riu, me obrigando a me segurar para não esgana-lo.

— Blair, Você não deveria mostrar o vestido a ele — Joanne me repreendeu.

— Não, eu não…

Minha frase foi interrompida por Olga, que falou algo em Russo, atraindo a atenção de todos para nós.

Todos começaram a falar em Russo, me excluindo da discussão que tomou conta do ambiente. Eu alternei o olhar entre todos, na falha tentativa de compreender o que estava acontecendo.

Dimitri estava adotando uma postura cada vez mais exaltada com o pai de Olga, que o rebatia com fervor, e pelo olhar de Pânico que meus sogros me lançavam, apesar de estarem com um sorriso forçado no rosto, eu era o tema da discussão.

— O que está acontecendo? — eu tentei interrompê-los.

— Não se preocupe, querida. Não é nada — Joanne garantiu com aquele sorriso falso no rosto.

Como se eu fosse acreditar que não é nada! Se estão na falando de mim, eu tenho o direito de saber!

Peguei meu celular, seguindo o conselho que Masha me deu na última vez, eu esperava compreender pelo menos parte do assunto.

"Cuidado com o que você fala"

Dimitri ameaçou o ex-sogro.

"Cuidado? Você não teve o mínimo de cuidado com a minha filha! Você trouxe essa mulher aqui, a expondo a mais essa humilhação depois de tudo o que fez!"

O homem vociferou enquanto os noivos tentavam conseguir a atenção dele.

Eu me senti mal por toda aquela briga, parece que estou fadada a arruinar qualquer evento familiar para ele, estou mais para uma maldição que uma namorada!

" Eu não fiz nada e tenho o direito…"

Dimitri tentou se defender.

"Direito? Você tinha um dever com ela, você a iludiu, a usou e a descartou, provavelmente da mesma forma que fará com essa daí quando se cansar"

Eu estava prestes a me intrometer na discussão, mesmo que ele não entendesse uma palavra que eu falasse, mas a próxima frase de Dimitri me fez congelar.

"Eu a amava! Ela era tudo pra mim e eu teria me casado com ela se ela tivesse aceitado!"

Era como se meu coração tivesse parado de bater naquele momento, eu não tinha palavras para descrever os sentimentos que cresciam dentro de mim conforme aquelas palavras dançavam na tela do aparelho, como se zombasse de mim.

Eu fechei os olhos por um segundo, impedindo as lágrimas de chegarem. Foi Joanne que rompeu o silêncio sepulcral que sucedeu a explosão de Dimitri.

— Blair, você pode ir atrás da…

Eu não esperei ela terminar, me limitei a sair da sala, sabendo bem onde eu deveria ir. Mas antes que eu alcançasse as escadas, Masha veio apressada da cozinha, tentando arrumar da melhor maneira o vestido e penteado desalinhados, sendo seguida por Alexei.

— Blair, o que está acontecendo?

Corri escada acima sem me dar ao trabalho de respondê-la, eu gostava dela e no ano novo ela tinha feito eu me sentir melhor, mas não era isso que eu queria, ou precisava no momento.

Eu já tinha aguentado demais, e estava na hora de agir com o meu lado racional e deixar o emocional de lado.