Escalas e Destinos - A apaixonante vida de Blair
6 Capítulo 06 - Amsterdam

Eu estava efetuando o pagamento com o cartão enquanto observava Blair com a boneca e as flores que dei a ela em suas mãos.
Ela era tão bonita que era quase inacreditável. Mais do que isso, era engraçada, inteligente e espirituosa. Tudo o que eu já tinha percebido nos últimos dias havia se confirmado nessas poucas horas que passamos juntos até aqui.
— O senhor quer que eu embrulhe o buquê ou sua namorada vai levá-lo assim? — A senhora que me atendeu indicou as flores que eu ainda carregava.
— Aqui, pode embrulhar. Mas ela não é minha namorada — eu expliquei, entregando o buquê para a mulher.
— Não? Vocês agem como um casal, talvez devam pensar na possibilidade — ela sorriu, apanhando uma caixa comprida de acetato e acomodando as flores ali — uma garota bonita assim não fica disponível por muito tempo.
Eu me limitei a sorrir enquanto apanhava o embrulho. Eu sabia que ela tinha razão em relação a Blair, e se a situação fosse mais favorável, talvez eu tentasse algo sério com ela. Mas precisava encarar a realidade, e não me explicaria a uma estranha.
— O que você acha, Gertie. O laranja ficaria ótimo na prateleira perto da janela, não é?
— Você está falando sozinha?
— Não, com a boneca — ela respondeu com naturalidade.
— Ahh sim, isso é muito melhor.
— Hey, não me olhe como se eu fosse maluca — Ela reclamou.
— Você não é maluca. É normal conversar com brinquedos — eu zombei — me diz Blair, a Gertie te respondeu?
Ela se limitou a me mostrar o dedo do meio, me fazendo gargalhar antes de ir até a saída, mas ela não me acompanhou.
— Você não vem?
— Vou, mas...
Eu segui seu olhar até o expositor repleto de enfeites de cerâmica que imitavam tamancos holandeses.
Ela só pode estar brincando!
— Você quer comprar isso, não quer?
— Seria uma ótima lembrança — ela se justificou.
Eu fui depressa até ela, passei o braço ao redor de seus ombros a levando para fora da loja.
— A Abby vai se casar, eu vou ter que dar um presente — ela argumentou, olhando para trás.
— Você vai ser a madrinha e essa é a sua ideia de presente?
— É um símbolo de boa sorte — ela devolveu.
— Mesmo, de onde você tirou isso?
— Não importa, não é verdade — ela suspirou, desistindo do tamanco.
Nós caminhamos lado a lado na beira do canal em um silêncio confortável. Blair admirava sua boneca e eu constantemente tinha que me policiar para não passar tempo demais a admirando.
Aquele dia estava sendo bem melhor do que pensei que seria quando embarquei no avião pela manhã, era uma pena que não teria mais tempo para aproveitar sua companhia.
— O que você acha? Quer tentar? — eu indiquei um barco com a cabeça, quebrando o silêncio entre nós, a convidando para percorrer os canais.
— Mesmo? Seria ótimo — ela sorriu abertamente.
Não tive dificuldade alguma em conseguir um para o passeio, e alguns minutos depois nós dois estávamos lado a lado na embarcação. Blair observava encantada cada detalhe da paisagem, apontando uma ou outra construção que lhe chamava atenção.
— Por que você escolheu essa profissão? — eu questionei, observando o vento agitando seus cabelos.
— Não foi algo que eu planejei desde sempre — ela colocou uma mecha atrás da orelha, evidenciando os traços delicados de seu rosto.
— Como aconteceu?
— Quando eu me formei no High School, eu não sabia o que fazer. Meus pais estavam com a data marcada para mudar de vez para Istambul, e eu teria que tomar uma decisão. Eu poderia escolher ficar nos Estados Unidos para estudar ou acompanhá-los.
— Você estava em dúvida? — eu reprimi o desejo de passar meus dedos por seus cabelos.
— Definitivamente — ela sorriu — mas tudo mudou em uma viagem.
— Mesmo?
— Eles me levaram para a Austrália como presente de formatura, e lá eu conheci a praia das conchas.
— Praia das conchas?
— É uma praia que não tem areia, apenas conchas. Eu me apaixonei — ela sorriu — então eu contei à minha mãe que gostaria muito de conhecer mais lugares como aqueles, e ela sugeriu que eu me tornasse comissária.
— Então é daí que vem sua paixão por praias — eu me aproximei um pouco.
— Basicamente, eu sempre busco conhecer as praias mais exóticas — ela sorriu para mim, fazendo com que meu coração acelerasse ligeiramente.
Ela era tão linda.
Blair voltou a falar sobre as praias que já visitou, se empolgando ao narrar suas experiências com o mar do mediterrâneo, fazendo com que eu admirasse ainda mais seu entusiasmo com o assunto.
— E quando sobrevoamos a praia de Öludeniz foi a visão mais incrível que eu já tive — Blair sorriu acomodada ao meu lado no trem enquanto voltávamos ao hotel no fim da tarde.
— Um dia eu vou te levar para a Islândia — eu soltei sem pensar muito, interrompendo seu discurso sobre uma praia na Turquia.
— O que? — ela piscou atordoada.
— Islândia, você já conhece?
— Você está querendo me levar para o País do gelo, comandante? — ela zombou — não ouviu nada do que eu falei? Eu gosto de praias!
— E eu acho que você gostaria muito das praias daquela ilha — eu expliquei — Te garanto que seria uma experiência única.
— E por que? — ela se virou em minha direção, me olhando nos olhos.
— São praias de areia negra, a atividade vulcânica no país é intensa e acaba transformando o cenário — eu relatei — de verdade, aquele lugar é diferente de tudo o que já visitei.
— Me conta mais, Dimitri — ela sorriu abertamente.
— Cristais de gelo invadem a praia, pedaços de Icebergs, dependendo da época é possível ver a aurora boreal, e...
— Você me convenceu, comandante — ela sorriu inclinando seu corpo — você tem a obrigação de me levar para conhecer a Islândia.
Ela estava próxima, muito próxima.
Se eu me inclinasse minimamente eu poderia beijá-la, e talvez eu deveria aproveitar a oportunidade, não sabia quando a teria novamente, mas antes que eu pudesse tomar alguma atitude o trem parou e foi anunciado no alto falante a chegada à estação do aeroporto, fazendo com que Blair se afastasse de imediato.
— Vamos — ela segurou minha mão enquanto nós desembarcamos do trem, seguindo pelos corredores da estação.
O silêncio reinou entre nós por alguns minutos, Blair lançava rápidos olhares em minha direção, fazendo com que eu pensasse na chance perdida de momentos atrás.
— Espero que você tenha gostado do dia, comandante — ela se manifestou.
— Foi muito melhor do que eu esperava quando embarquei de manhã, Blair. Espero que nós tenhamos a chance de repetir em outro momento — eu sorri para ela.
— A gente tem que marcar de novo, com certeza vamos nos encontrar em outro país, certo? Não preciso ir à Rússia ou você até os Estados Unidos.
Ela tinha razão naquilo. Aquele encontro me fez perceber que seria muito mais fácil que nós dois nos encontrássemos em outros países onde nossas escalas se cruzassem.
— O que você me diz de jantar mais tarde? — eu propus na tentativa de prolongar um pouco mais aquele encontro enquanto caminhávamos através do saguão do aeroporto.
— Claro, eu...
— Blair, finalmente te encontramos! — Uma voz feminina nos interrompeu, chamando nossa atenção.
Uma jovem da idade dela se aproximou, ela tinha a pele bronzeada, longos cabelos negros e os olhos ligeiramente puxados também negros.
— Olive, oi — Blair sorriu.
Não era o sorriso natural que eu tinha passado o dia admirando. Aquele sorriso parecia forçado e enfastiado.
— Nós estávamos te procurando, eu e a Micaela decidimos jantar juntas antes de encontrar o resto do pessoal no clube — ela parecia ter notado minha presença apenas naquele momento — desculpe, eu não queria atrapalhar.
— Não atrapalhou — Blair garantiu — Olive, esse é o Dimitri Voitovich. Um amigo meu.
— É um prazer — eu cumprimentei a jovem — Blair, eu vou voltar para o hotel, decolou amanhã cedo, então preciso descansar.
Estava claro que ela já havia feito planos com sua tripulação e eu não estragaria isso. Sua companhia havia transformado completamente o meu dia, mas eu não monopolizaria sua atenção.
Blair por um momento me lançou um olhar decepcionado antes de forçar um novo sorriso.
— Obrigada pela companhia, Comandante. Tenha um bom voo amanhã — ela desejou.
Eu acenei afirmativamente com a cabeça antes de dar as costas a ela, me afastando.
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