Escalas e Destinos - A apaixonante vida de Blair
5 Capítulo 05 - Amsterdam

Dimitri veio em minha direção com um sorriso contido no rosto. Minha mão foi envolvida pela sua quando a estendi para cumprimentá-lo. O meu próprio sorriso foi mais espontâneo diante de sua presença, apesar de não saber bem como agir, agora que estávamos finalmente frente a frente.
— Hey comandante, eu quase não te reconheci sem a roupa manchada — eu o provoquei.
— Você não está carregando nenhum copo, então acho que minha roupa ficará a salvo. Pelo menos até chegarmos ao restaurante — ele garantiu — estou hospedado no Sheratom, você quer ir até lá?
Sheratom era um dos três hotéis que ficavam dentro do complexo do aeroporto, que também contava com uma estação de trem que nos levaria até o centro de Amsterdam em cerca de quinze minutos.
— Você está brincando? Nós não vamos ficar no hotel tendo uma cidade incrível para conhecer, comandante — eu neguei.
— Eu já conheço Amsterdã — ele achou graça.
— Mas nunca a visitou na minha companhia, te garanto que será uma experiência completamente nova — eu envolvi sua mão, o puxando em direção ao terminal de vendas de tickets para o trem.
— Onde você vai? Pensei em alugar um carro.
— E pagar o triplo do que gastaríamos em um trem que sai aqui do aeroporto?
— Com um carro nós podemos nos locomover melhor pela cidade — ele avisou.
— Estamos em Amsterdã, Dimitri. O transporte público é ótimo, e além disso, podemos caminhar, eu adoro caminhar.
Ok, a última parte não era exatamente verdade.
Ele ponderou por um momento antes de aceitar, permitindo que eu o levasse até o terminal e logo estávamos acomodados lado a lado no banco do trem, observando a paisagem correr do lado de fora.
— Eu não sabia que você viria para a Europa essa semana — ele comentou.
— Na verdade eu deveria estar na Argentina, mas uma comissária ficou gripada, então aqui estou eu — eu sorri para o homem.
Minha mente trabalhava em uma maneira de questioná-lo sobre o seu sumiço. Uma que não parecesse algum tipo de cobrança, mas no fim, não necessitei utilizar nenhum artifício para descobrir o que queria.
— Entendo. Esses últimos dias foram uma loucura. Eu participei de um treinamento da equipe e não tinha muito tempo de sobra.
Então foi isso! Aquelas drogas de treinamento, eu odeio quando me inscrevem para algum!
— Sobre o que foi o treinamento?
— Prevenção de atos terroristas.
— Eu tive o meu faz dois meses — eu fiz uma careta ao me lembrar o quanto o assunto era desagradável e necessário.
Eu me sentia estranha por estar tão próxima a ele, tinha me acostumado a conversar apenas à distância e aquilo tudo era novidade para os dois.
— Então você entende bem — ele sorriu minimamente — foi um par de dias cansativos, mas agora estou retomando a rotina.
Eu voltei meu rosto para a cidade que começava a surgir ao nosso redor, prédios antigos se misturavam à arquitetura moderna, me fascinando.
— É uma boa paisagem, certo? — ele comentou.
— Sim, é muito bonito — eu sorri.
— Eu gosto muito dessas cidades. Amanhã vou voar para Viena.
— Eu nunca visitei Viena — eu franzi o cenho ao notar que não teríamos tanto tempo juntos.
— A cidade é linda — ele continuou — a arquitetura, a natureza que a rodeia. A Áustria é um país muito bonito.
Eu voltei a olhar pela janela, me sentindo desapontada por ter tão pouco tempo ao seu lado, mas uma tarde ainda era uma tarde, e eu pretendia aproveitar ao máximo.
Nós finalmente chegamos em nosso destino, eu me apressei, puxando-o para fora da estação, sentindo o vento gelado atingir meu rosto assim que saímos da construção.
Dimitri se virou, admirando a grande construção da estação central de onde haviamos acabado de sair.
— Você gosta mesmo de prédios antigos, não é, comandante — eu o provoquei.
— E você gosta de praias — ele devolveu.
— Sou especialista, Dimitri — Eu pisquei para ele, cruzando os braços na tentativa de me aquecer quando uma brisa gelada nos atingiu.
— Você está com frio, quer meu casaco? — ele franziu o cenho preocupado.
— Não é necessário. Vamos caminhar que vou me aquecer — eu neguei, o arrastando pelas ruas da cidade.
Ele riu me acompanhando com facilidade, eu sentia seu olhar sobre mim o tempo todo, me avaliando.
— Você não gosta do frio.
— Eu gosto de conhecer lugares novos, não me intimido pelo clima — eu devolvi.
— Pensei que você já conhecesse Amsterdã.
— É sempre uma experiência nova, comandante — eu pisquei para ele.
— Então você pretende me guiar por Amsterdã hoje, Blair?
Ele parou de caminhar segurando minha mão para impedir que eu prosseguisse. Eu me virei, observando o homem parado diante de mim, seu olhar estava preso ao meu, parecendo tão satisfeito por estar ali comigo como eu estava.
— Vamos, Dimitri, nós temos muito o que conhecer.
— Vamos começar pelo almoço — ele devolveu, nos levando para um restaurante.
Nós conseguimos uma mesa, fazendo com que eu lembrasse o quanto estava faminta.
— Eu juro, participar de um jantar de noivado foi o bastante — eu relatei mais tarde, enquanto comíamos — agora ela espera que eu cruze o país para participar de outro jantar, e eu não posso recusar por ser a madrinha.
— Qual é o grande problema? Pensei que você estivesse empolgada para o casamento — ele devolveu.
— Não é que não esteja. Ele a faz feliz, e l isso é o bastante para mim — eu comecei — mas quando penso em todo esse trabalho por um único dia.
Ele riu, antes de bebericar um pouco do copo de suco que havia pedido.
— Eu não tenho muita experiência em casamentos, mas quando tinha algum casamento na família, as garotas ficavam felizes em ajudar em todos os detalhes — ele me desafiou.
— Talvez eu não seja do tipo que se empolga com facilidade.
— Ou talvez você esteja com ciúmes da sua amiga — seu olhar me avaliou.
Aquela declaração, porém, fez com que um sentimento estranho tomasse conta de mim. O que ele quer dizer com ciúmes? Eu não tenho ciúmes da Abby, ela e o Noah estão juntos desde sempre!
— Isso não é verdade, por que eu teria ciúmes dela?
— Eu não sei, mas o jeito que você fala...
— Eu não tenho ciúmes. Abby é minha vizinha, melhor amiga, vai se casar, e eu estou feliz por ela!
— E ainda assim se incomoda por ela se ocupar tanto com o casamento — ele devolveu.
— Eu não me incomodo, apenas considero perda de tempo! Por que se dar ao trabalho de viajar mais de três mil quilômetros para conseguir uma igreja? Existem belas igrejas em New Jersey.
Decidi expor minha real opinião sobre toda aquela situação. A melhor parte é que ele não conhecia Abby, então não teria como ela descobrir nada do que eu lhe contasse.
— Existe algum motivo para ela querer uma igreja tão distante? — Ele ponderou.
— Ela tem essa ideia de se casar na mesma igreja e na mesma data que seus pais.
— Então ela tem um motivo — ele devolveu.
— Mas é ridículo, Ela terá pouco mais de quatro meses para organizar tudo vivendo tão longe — eu gemi — será um pesadelo, e vai sobrar pra mim.
Aquela declaração arrancou um riso espontâneo do homem, atraindo minha atenção imediata.
— Você não é nem um pouco romântica, não é? — ele gargalhou, me surpreendendo.
O que ele quer dizer com isso? É claro que eu sou romântica!
— De onde você tirou isso?
— Sua ideia sobre casamento — ele esclareceu.
— Ah, deixa eu adivinhar, você é daqueles que sonha com um casamento perfeito, comandante? — eu zombei.
— Eu não sou.
— Não é o que parece. Você parece ter uma definição clara sobre o que seria uma boa forma de se casar.
— E você tem? — ele devolveu.
Aquela pergunta me deixou sem fala por alguns segundos, fazendo com que seu sorriso aumentasse ligeiramente, mas eu logo me recuperei.
— Isso é ridículo, você está mesmo querendo falar sobre casamento na primeira vez que nós nos encontramos? Vou pensar que você é algum maníaco — eu o provoquei.
— Por que eu seria um maníaco? Não é como se eu estivesse te pedindo em casamento, Blair.
— Eu vou fingir que acredito, mas eu entendi todo esse seu interesse na minha opinião sobre casamentos — eu o cutuquei.
— Eu não quero me casar com você, Blair. Nem sonhe com isso — ele gargalhou.
— Alguém está na defensiva — eu cantarolei.
Nós terminamos de comer, decidindo deixar aquele assunto de lado. Após dividir a conta, logo estávamos de volta às ruas de Amsterdã.
— O que eu quero dizer é que se casar na mesma igreja que os pais é importante para sua amiga — ele retomou o assunto inicial enquanto caminhávamos lado a lado.
— De novo isso? — eu gemi — eu não devia ter te contado.
— Mas contou — ele me provocou.
Para meu alívio, eu avistei algo que poderia nos distrair daquele assunto.
— Uma feira! Vamos fazer compras, Dimitri — Eu corri na frente, o deixando para trás.
Ele balançou a cabeça com um meio sorriso nos lábios antes de me acompanhar. Eu passei por todas as barracas, analisando os produtos em busca de algo aproveitável.
Aquela era uma das minhas partes preferidas de cada viagem, eu adorava encontrar souvenirs que me lembrassem os destinos que já visitei, e geralmente era algum enfeite para meu apartamento. O que talvez acabasse me transformando com o tempo em uma espécie de acumuladora internacional.
— Olha, comandante. Eu preciso dessas botas! — eu exclamei, apanhando um par de botas estampadas, que pareciam um daqueles suéteres natalinos bregas.
— Blair essas são as botas mais feias que eu já vi — ele gargalhou, tirando os calçados da minha mão — pra que você quer isso?
— São botas feias de Amsterdã — eu devolvi, decidindo me afastar ao notar a expressão carrancuda da vendedora em nossa direção.
Eu o puxei para a barraca oposta, que vendia bijuterias, começando a escolher algumas.
— Você gostou? — ele perguntou enquanto eu observava um colar que tinha um pingente de uma flor presa dentro de uma resina.
— É uma boa lembrança de Amsterdã, não acha?
Dimitri pegou o colar de minha mão, o observando antes de se afastar, me deixando ali escolhendo alguns anéis. Eu apanhei um anel masculino feito de metal negro e entalhado com imagens de animais. Eu o girei em meu dedo pensando se seria uma boa ideia. Ele nem parecia o tipo que usava anéis.
Mas, por que não?
— Aqui, deixa eu te ajudar — ele afastou meu cabelo para prender a peça em meu pescoço.
— O que?
— Eu comprei para você — ele avisou, me pegando de surpresa.
Eu toquei o pingente, contendo um sorriso ao senti-lo.
— Mesmo?
— Você gostou — ele deu de ombros
— Nesse caso.
Eu segurei sua mão, deslizando o anel que tinha escolhido antes em seu dedo mindinho.
Dimitri franziu o cenho ao observar a peça em seu dedo, sem saber como reagir.
— Blair, eu já disse que não vou me casar com você — ele pontuou com uma expressão séria, antes de sorrir.
Eu revirei os olhos, estendendo uma nota para pagar o anel antes de me afastar.
— Eu não...
— Só estou falando, somos apenas amigos, não vai acontecer — ele comentou me seguindo — é melhor você parar de fantasiar com isso.
— É melhor você ficar quieto antes que eu arrume uma bebida pra jogar em você!
Ele riu, mas deixou de me provocar enquanto eu me esforçava para permanecer séria. Nós dois seguimos para outra barraca que vendia luminárias e lustres.
— Olha como são lindos, me ajuda a escolher um — eu pedi.
Com certeza meu loft ficaria muito mais bonito com uma luminária holandesa.
— Escolher? Como você planeja levar pra casa? — ele cruzou os braços me encarando.
— Eu quero uma lembrança para deixar na minha casa — eu expliquei, apesar de admitir que provavelmente não seria uma boa ideia.
— Leve um globo de neve — ele propôs, indicando outra barraca.
— Um globo de neve? Você realmente não tem imaginação. Vem.
Algum tempo depois nós dois estávamos caminhando lado a lado as margens de um dos canais da cidade. Eu observava com satisfação a boneca de pano com roupas holandesas que tinha comprado.
— Então você tem problemas com compras — Dimitri rompeu o silêncio que havia se formado entre nós dois.
Eu o encarei sem saber ao certo sobre o que ele estava falando.
— Na feira, você queria levar tudo — ele explicou.
— Eu não tenho problemas com compras, só gosto de levar lembranças para casa. Você não guarda lembranças dos lugares que você visita? — eu o observei, notando o quanto ele era bonito, ainda mais tendo as casas coloridas de Amsterdã ao fundo.
Dimitri franziu o cenho, pensando no que eu havia acabado de perguntar. Acho que já tenho minha resposta.
— Não exatamente, minha mãe gosta de globos de neve, então às vezes eu levo algum para ela.
— Globos de... — eu parei de caminhar — por isso você queria que eu comprasse um?
— Parece uma boa lembrança para mim — ele deu de ombros.
— Dimitri, você me vê como sua mãe? — eu o provoquei.
— Definitivamente não — ele gargalhou — você não é nada como minha mãe, Blair.
— Eu não sei se posso levar isso como um elogio.
— Isso não é um elogio nem uma ofensa — ele se aproximou, ficando a poucos centímetros de mim — é uma constatação.
Eu prendi a respiração mais uma vez observando sua beleza, pensando em tudo o que estava acontecendo naquele dia. Eu não esperava encontrá-lo, e a forma como tudo está acontecendo faz com que meu corpo reaja a cada detalhe, meu coração disparava, eu me sentia ansiosa sempre que ele se aproximava demais.
Mas isso não significa nada, certo? Somos amigos.
— Você deveria voltar lá e comprar um globo pra ela — eu avisei.
— Não.
— Vamos Dimitri, sua mãe merece uma lembrança.
— Ela tem lembranças o suficiente Blair.
Eu olhei para o outro lado do canal, avistando várias barcaças lotadas de flores.
— Flores! Você devia dar flores a ela! — eu o arrastei pela ponte em direção à feira
— Nós precisamos mesmo discutir seu problema com compras — ele gargalhou me seguindo.
— Eu não tenho problema algum. Apenas acho que ela iria gostar de flores.
Eu me aproximei de uma das lojas, me inclinando para cheirar uma das tulipas que estavam expostas.
— Por que você está tentando encontrar um presente para minha mãe? — ele parecia divertido.
Aquilo fez com que eu percebesse o quanto a situação era ridícula, eu não deveria estar insistindo no assunto, era a mãe dele pelo amor de Deus! Talvez eu estivesse permitindo que a ansiedade tomasse conta de mim.
— Desculpe, eu me empolgo na hora de escolher presentes — eu entrei na loja, observando todas aquelas flores.
Elas estavam em todos lugares, haviam buquês prontos, vasos, botões solitários prontos para serem comprados, e cascatas penduradas no teto.
— Escolha as cores — ele indicou as tulipas expostas.
— Você vai fazer isso? — eu me aproximei animada, pegando uma de cada cor — como você vai fazer para levar para ela?
— Eu cuido disso — ele garantiu.
Eu estendi o buquê improvisado em sua direção, Dimitri logo o apanhou antes de pegar mais três botões de tulipa, um amarelo, um rosa e outro vermelho. O vermelho ele adicionou ao buquê, antes de me explicar.
— Não podemos levar um número par de flores a ela, isso é para funerais — ele piscou antes de colocar a tulipa rosa junto a boneca que eu ainda carregava — Rosa combina com ela, não acha?
— Eu não sabia que ela gostava de flores — eu devolvi.
— Aposto que gosta, e você também — ele me entregou a amarela.
— Por que amarelo? — eu sorri aceitando.
— Uma cor viva e alegre, combina com você — ele piscou antes de ir até o caixa.
Eu levei a tulipa até o nariz, aspirando seu aroma, contendo um sorriso que ameaçou chegar em meus lábios.
Eu olhei na direção do caixa, observando Dimitri, que devolveu o olhar acenando com a cabeça para mim.
Não podia negar, eu estava adorando cada detalhe daquele dia e não queria que acabasse.
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