Erros
1 Único
“Você promete deixar tudo que você ama para trás? Ceder sua existência para mim?”
Ele moveu-se, tentando soltar-se das amarras. Algo em si queria aceitar aquela promessa, como uma vez aceitara, no entanto também existia alguma coisa que tentava impedi-lo de repetir os mesmos erros. Ele podia sentir o gosto do sangue quente, seu sangue.
“Você promete se tornar um imortal, assim cedendo aos desejos de sua Deusa?”
A voz continuava. Ela nunca pararia. Em desespero ele podia sentir seu corpo se desfazer, a dor surgir, rugindo e jogando aquela torrencial de magia dentro de si. Ele queria gritar, dizer que não estava pronto para tamanha responsabilidade, ou tamanho problema. Ainda assim sua garganta parecia fechada, sua voz não saía. Seu próprio eu era apagado para que outra coisa surgisse.
Ele era, inevitavelmente, atraído para aquela magia santa.
“Você não pode negar essa promessa Sieghart. Nunca mais.”
Então ele acordou.
Estava suado, ofegante. Porém era silencioso. Uma breve olhada ao redor foi o suficiente para identificar o quartel onde todos dormiam. A beliche, acima de sua cabeça, rangeu, indicando que seu ocupante se mexera no colchão.
Há quanto tempo ele não conseguia uma boa noite de sono? Desde a fatídica tarde que achara que seria capaz de entrar naquela guerra? Ou pela noite, quando sentiu sua carne ser despedaçada e sua vida arrancada de si? Não importava, realmente. Repensando aquele momento, tudo o que ele podia lembrar-se era dos cabelos ruivos, compridos. Os olhos apáticos, cansados.
Olhos de alguém que estava há muito trazer a salvação para um povo ignorante.
Ele jogou as pernas para fora da cama, tentando se achar naquele momento, e ergueu-se, convencido que precisava cansar-se o suficiente para dormir pesado. Um sono sem sonhos. Então colocou algumas roupas de treino, tomando cuidado para não acordar os outros que dormiam, e partiu para o exterior, seguindo a trilha iluminada pelas estrelas, sentindo o gelado do vento contra sua pele.
O campo de treinamento ficava há quinze minutos do quartel, então tomou aquele tempo para apreciar a noite, o silêncio e a paisagem completamente diferente de Vermécia. Finalmente chegando à arena, queria correr, suar, desfazer-se em treinos, chutes e socos até que esquecesse do que era. Esquecesse quem era.
E, portanto, durante o treino pesado, permaneceu com pensamentos estranhos rondando sua cabeça, tentando achar-se naquele turbilhão. Quais eram as coisas que estava deixando para trás apenas pela vontade de viver? Quem estava deixando para trás por seu desejo estúpido por uma batalha? Então, pelo cansaço ou pelos pensamentos, seus joelhos cederam e, visto que já estava quase caído, preferiu jogar-se de costas no chão de terra batida. A poeira ao seu redor se ergueu.
A noite estava linda, ele teve que admitir. Uma lua enorme no céu e as estrelas que brilhavam fracas ao seu redor. Será que ele era jovem demais para ter feito uma escolha daquele calibre? Suspirou. – Será que eu estava errado? – O fio de voz saiu, deixando a pergunta no ar. Foi quando ouviu as passadas, até que os pés parassem próximos de seu corpo, virando-se, pode ver o homem alto, moreno.
—Se todos os outros tivessem o seu vigor para treinar dessa maneira a essa hora da madrugada... O mundo provavelmente já estaria em paz. – O outro brincou, o primeiro acabou rindo, sem graça. Então o mais velho abaixou-se próximo, tentando compreendê-lo. – O que houve Ercnard?
Ele levantou-se, sentando-se na terra batida, e olhou o outro. Não o conhecia há muito tempo, na verdade, na única semana que estivera ali, falara com vários outros novatos, mas os Highlanders eram intocáveis. – Você já sentiu como se tivesse feito uma escolha... Imprecisa? – Tinha medo de falar daquela maneira. Tinha medo, pois todos eram leais às Deusas, principalmente à Ernasis, a Deusa da Batalha qual trazia todos de volta à vida, e um comentário desse poderia leva-lo para as catacumbas de Calnat, para uma punição talvez eterna.
No entanto, ao contrário do que esperava, o mais leal dos imortais, o primeiro dos Highlanders, o líder de todos eles, apenas sentou-se na terra batida, junto dele, e amenizou sua expressão. – Já. – Confidenciou, sorrindo ameno. – Quem nunca pensou nas pessoas que deixou para trás? Quem nunca pensou que se tivesse mais tempo para escolher naquela hora, talvez recusasse? – Ele pausou, então ergueu seu olhar para as estrelas, tentando buscar algo no invisível da noite. – Você ainda era uma criança, tão mais jovem que todos nós. Foi uma pena o ver cair no campo de batalha, para um daqueles demônios infernais.
Ercnard balançou a cabeça, negando. Seu olhar caiu sobre suas mãos suadas, cheias de terra. – Foi culpa minha, apenas. Achei que seria capaz de enfrenta-lo... Achei que... – O moreno pausou, sem saber como completar aquela frase.
—Você achou que fosse imortal. – O outro, portanto, a concluiu. O mais novo arriscou um olhar para ele, fixando seu olhar prateado no rosto tranquilo dele, eternamente paralisado aos vinte e tantos anos. – Todos nós achamos isso um dia. Todos nós chegamos ao ápice de nossas habilidades, naquele momento em que nada poderia nos enfrentar. E perdemos. – Ercnard pode ver o sorriso tranquilo que surgiu em seu rosto. – Você sabe o por que dos Highlanders serem todos imortais? Pessoas erguidas da perdição? – O líder assistiu enquanto ele negava. – Porque todos passamos por aquele segundo: o momento crucial onde você decide entre a vida e a morte e, por outras pessoas, você escolhe a morte. Ernasis tem uma maneira estranha de se comportar, de fato, mas ela sempre escolheu os melhores guerreiros.
Ercnard negou. – Eu não sei se ela teve uma boa ideia ao me escolher, Graham. – Ele murmurou baixinho, confidenciando aquele segredo tão bem guardado dentro de sua alma para alguém que ele sequer conhecia direito.
—Ercnard, você acha que Deuses falham? – Ele negou. – E quanto ao fato de serem capazes de compreender a morte, ou a vida? – Desta vez, uma afirmação. – Em ambos os casos, você talvez esteja errado. Eu fui o primeiro a ser feito. Eu assisti, de perto, enquanto as três erguiam este império que protegemos hoje. Eu as vi falhar, chorar e desejar, com todas as forças, serem tão humanas quanto qualquer um que vive aqui.
Graham riu do olhar embasbacado que o mais novo o lançou. – Você ser um erro? Eu não acredito ser o caso. Só acho que você precisa de um pouco de tempo, assim como todos os outros, para conseguir se livrar dos pesadelos. Para conseguir dormir uma noite inteira sem acordar com o chamado pela magia delas. – Levou a mão até o topo da outra cabeça morena, afagando seus fios. – Você é um bom garoto, vai compreender logo.
Então ergueu-se, sorrindo mais uma vez, e partiu, deixando para trás o mais novo que, novamente, assistia a lua.
—
Ercnard não soube quando aquele sentimento surgiu em si. Quando a vontade do novo dia raiar, para que ele pudesse mostrar todas as suas habilidades e talvez ser apreciado por ele, tivesse mais força do que os pesadelos no meio da noite. Tivesse mais força do que seu desejo por mais magia.
Não soube quando, silenciosamente, passou gastar todo seu tempo com ele, todos os momentos que não estava treinando arduamente, quando passou a deitar-se em sua cama e ceder aos caprichos do outro.
Então veio sua condecoração. Era finalmente um Highlander completo. O Highlander Sieghart.
Ele já não sabia delimitar um momento no tempo, que em uma hora ele era o aprendiz Ercnard, indeciso e assustado, escondendo-se do mundo nos braços dele, e noutra o Highlander Sieghart, alguém que era um exemplo para todos os outros, que, no entanto, nunca deixara seu lado.
—Finalmente um Highlander. – Conseguiu perceber o tom orgulhoso na voz de Graham enquanto ele apontava a medalha em seu peito, como se aquele pedaço de ouro significasse muita coisa. Ambos sabiam que não era assim. O mais novo sorriu para ele.
—Já era hora, também. Não poderia ficar vagabundeando por mais muito tempo. – Brincou e sentou-se próximo, somente para aproveitar sua companhia. Foi naquele momento que o mais velho se aproximou, dedicando-lhe um beijo rápido e carinhoso, enchendo-o com uma felicidade que nenhuma medalha o faria sentir, e ergueu-se depois. – É bom saber que tenho pessoas confiáveis em meu time, Sieghart. – Graham piscou um olho, dando alguns passos para frente, sendo chamado pelos outros, antes de continuar, no entanto, ele virou-se. – Eu te vejo mais tarde, Ercnard.
Ali estava.
Graham era seu marco de tempo.
Graham e aquela noite estrelada.
—
Talvez a vida necessitasse de vários marcos de percurso. Monólitos cinzentos que demarcam o caminho traçado, que mostram o começo, o meio e o fim. Graham sempre fora seu marco. Sempre fora o caminho que seguira. E, agora, era também o marco do fim que chegara. Fazia quanto tempo que havia deixado aquela noite estrelada para trás? Ele não sabia.
Ele não sabia quanto o aviso das Deusas havia se tornado uma premonição. No entanto sabia o exato motivo para as lágrimas que corriam por seu rosto, enquanto ele, de longe, observava a explosão.
Talvez se ele tivesse chegado mais cedo. Talvez se tivesse desobedecido suas ordens e ficado ao seu lado, mesmo quando ele o mandara para uma missão solitária. Talvez se tivesse desaparecido junto dele aquela dor não existiria.
“Você promete deixar tudo que você ama para trás? Ceder sua existência para mim?”
Não existia mais nada que ele amasse. Ele, talvez, nunca mais se permitisse novamente. Chegava, mais e mais, a conclusão que amar era um erro único, doloroso e silencioso. Que ele deveria ter aprendido da primeira vez que perdera tudo.
Existiam erros e erros. Coisas que nunca deveriam ser repetidas. Coisas que são necessárias apenas uma vez na vida, outra na morte, e aquele aprendizado seria levado por toda a eternidade. Seu amor? Era um erro.
Ainda assim, voltando atrás, para aquela noite solitária e assustadora... Ele repetiria tudo e aproveitaria cada momento que teria ao seu lado. Respirou fundo, virou suas costas para aquele momento, aquele pedaço de sua eternidade, e partiu sem olhar para trás.
Graham era uma lembrança. Um sentimento gostoso que lhe deixava um gosto doce no céu da boca. Ele seria, para sempre, o marco de um momento em que ele foi, genuinamente, feliz.
E ele repetiria aquele momento sob qualquer circunstância. A qualquer momento.
A promessa brilhava fundo dentro de seu existir. Não haviam mais Deusas em terra para que a magia o chamasse, implorando por sua presença, mas as correntes o atavam à vida. E ele a viveria completamente, sem cometer mais erros, porém sempre carregando a lembrança daquele marco do percurso consigo.
Talvez Graham nunca tivesse sido um monólito cinzento, mas um morno e carinhoso abraço.
“Sim.”
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