Error 404 - O Reinado Norken
1 Chapter 1
Tudo mudou. Hoje, quem manda é aquele que sobrevive. O mundo chegou ao seu limite. O homem, o ser humano, destruiu tudo o que conquistou. Guerras, imprudência, péssima liderança e o desperdício trouxeram a desgraça em que estamos. A falta de água na terra fez com que os cientistas tomassem medidas drásticas. Os Norkens foram criados para eliminar indigentes e pessoas de baixíssima renda, a fim de economizar o que nos resta para sobreviver. Norkens são nada menos que humanos modificados geneticamente, conhecidos por ter um dos olhos prateado. Em seus cérebros, eles são pacificadores, pessoas que estão apenas ajudando a salvar o que nos é de direito. Mas para os indigentes, eles são monstros. Com isso em mente, eles decidiram reagir. Fogo contra fogo. Claro, os Norkens sempre ganham, e como prêmio, escolhem os melhores indigentes para serem modificados, aumentando assim seu poder e domínio. Quando modificados, a maioria perde sua memória, e consegui-las de volta é praticamente impossível. Eu sou uma Norken, e sei que já fui uma indigente. Mas, eu não tinha família, não tinha ninguém, e o importante agora é me manter viva. Mas isso não vem ao caso. Uma grande guerra está por vir, e os Norkens estão em pequeno número. Outras regiões declararam guerra à Lorsaken quando perceberam como estávamos lidando com o fim. Muitas são contra e dizem ser desumano. Mas nós não temos escolha, estamos morrendo lentamente, a terra está morrendo, e ninguém se preocupa em achar uma solução, apenas um modo de retardar o fim.
“Aileen?”
Meus pensamentos são interrompidos por Jacob, um dos Norkens mais humanos que conheço. Jacob foi capturado no mesmo dia que eu. Desde então, andamos juntos. Ele conseguiu recuperar alguns fragmentos de suas lembranças e assim como eu, não tinha ninguém. Permanece aqui para sobreviver.
“Ei, Aileen, vamos. Temos que ir.”
Levanto-me do chão e vou até Jacob, cutucando seu ombro. Uma vez por semana nós fazemos uma varredura pela cidade buscando novos indigentes. Particularmente, isso é algo que eu não me agrado, mas eu sou uma Norken e isso é o que eu devo fazer. Mesmo sabendo que eu já estive do lado oposto.
Vamos até o pátio principal e pegamos o armamento. Coloco duas pistolas no coldre em minha cintura, adagas e carrego um fuzil em mãos. Jacob pega suas armas e nos juntamos com o grupo que irá para a varredura. São cerca de quinze Norkens, incluídas, apenas, cinco mulheres, pois poucas de nós tem capacidade para lutar. Nos posicionamos em fileiras e começamos a caminhada de, mais ou menos, quarenta minutos até o centro de Lorsaken. Jacob caminha ao meu lado esquerdo.
“Jacob.” sussurro. Ele me olha e sinalizo para irmos para o final da fila. Paramos lado a lado e caminhamos mais devagar.
“Estou com medo.”
“Medo? Logo você...”
“Estou falando sério. Estou com um pressentimento de que algo vai acontecer. Só não se isso é bom ou ruim.”
“Relaxa! Você não...”
“Atenção soldados!”
Nos aproximamos da fila enquanto Dante, o líder do meu grupo de varredura, dá as orientações de sempre.
“Estamos aqui para pacificar, mantenham isso em mente. Indigentes acima de quarenta e cinco anos devem ser imediatamente eliminados. Crianças e adolescentes devem ser avaliados. Caso haja alguma resistência, está autorizado o uso de força bruta. Porém, tentem conversar civilizadamente. Vocês serão separados em duplas e tem uma hora para voltar ao centro. Caso ocorra atraso, seguiremos com ou sem vocês. Tenham um bom trabalho.”
Assim que Dante se cala, eu e Jacob seguimos para o lado sul da cidade, no setor C. É a primeira que vamos para esse setor, e algo me diz que não será agradável. Com o fuzil posicionado, entro no setor C com Jacob logo atrás. Deixamos tudo para trás assim que passamos pelos enormes portões de ferro que separa o setor C do centro da cidade. A miséria predominava. Não se sentir incomodado era quase impossível. Afinal, já estive no lugar de todas essas pessoas. Jacob se mantém calado durante toda a varredura. Apesar da situação em que se encontram, todos os indigentes estão circulando pelas ruas, conversando alto e animadamente. Algumas crianças brincam de pegar umas as outras e logo caem na gargalhada, outras apenas se agarram as pernas de suas mães e observam-nos. Tenho uma vaga lembrança de uma menina bem pequena e de cabelos laranjas esvoaçantes correndo pelas ruas estreitas que ficam entre uma casa e outra. Ela ri e puxa outra garota, um pouco mais velha, pelas mãos. Trato de afastar esses pensamentos assim que sinto um aperto em meu peito e me concentro em minha tarefa. Caminhamos por mais alguns minutos quando tudo começa. Os Indigentes começam a se aglomerar e fazem muito barulho. Jacob logo empunha sua arma, pronto para qualquer ataque ou movimento suspeito. Um grande círculo é formado e Jacob e eu ficamos do lado de fora, com armas em punho, prestando atenção em tudo. As crianças que antes corriam e brincavam, agora choram e se agarram em suas mães. Um garotinho chora e procura por alguém. Antes que ele entre no meio do tumulto, pego-o no colo e o entrego para uma mulher morena, que cuida de outras três crianças. Ela me observa com olhos curiosos.
“Tire as crianças da rua e permaneçam dentro de casa até tudo estar resolvido.”
Assim que ordeno, ela agarra os pequenos e grita com outros que estão correndo, curiosos com toda a bagunça. Todos entram em uma casa não muito distante e fecham as portas e janelas. Vejo que as outras mulheres seguem esse exemplo.
“Jacob, devemos ver o que é. E rápido, temos quinze minutos antes de partir.”
Ele apenas concorda com a cabeça. Nos esgueiramos no meio dos indigentes que formam o círculo e levo algumas cotoveladas antes de chegar ao centro. No meio, um homem por volta dos vinte e cinco anos grita palavras em uma língua estranha. Quando termina uma frase, todos em volta urram, parecendo concordar. Chego mais para o centro e me ponho na frente do homem.
“Você entende o que digo?”
O homem nada responde, apenas continua me encarando. Jacob se põe ao meu lado e cutucando meu braço, sussurra em meu ouvido.
“Temos que ir, faltam menos de dez minutos.” apenas concordo com a cabeça.
“Senhor,” viro-me e continuo a falar com o homem. “você está me entendendo? Preciso que pare de tumultuar. Está assustando as crianças. Peço que por favor, retire-se ou serei forçada a...”
Antes de terminar a frase, sinto um baque em meu queixo. Logo o gosto de sangue toma conta da minha boca e pequenos pontos pretos se formam em minha visão. Depois disso tudo se torna um tremendo alvoroço. Pessoas gritando, correndo, e entrando para suas casas. Jacob me ajuda a me equilibrar e me arrasta para os grandes portões de ferro.
“Acho que por hoje já chega. Foi um soco em cheio.” ele ri.
Voltamos para o centro da cidade e chegamos em cima da hora. Dante nos repreende com olhar e encara meu rosto inchado.
“Parece que tiveram problemas... Resolvemos isso assim que chegarmos.” depois disso, ele apenas dá ordens para seguirmos nas filas.
Depois de chegar continuo pensando no homem do setor C. Ele me olhava com nojo. Talvez fosse só impressão, mas tenho quase certeza do que vi.
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