Escuro.

Não havia dor.

Não havia som.

Não havia… nada.

Por um tempo…

aquilo foi suficiente.

Então—

algo falhou.

Um batimento.

Fraco.

Instável.

Outro.

O ar invadiu seus pulmões de forma irregular.

Como se seu corpo tivesse esquecido… como viver.

Seus olhos se abriram.

Lentamente.

A luz incomodou.

Forte demais.

Errada.

O mundo parecia… distante.

Desconectado.

Como se ele estivesse olhando tudo de fora.

Ele não sabia onde estava.

Não sabia quem era.

Não sabia… o que era.

Apenas uma sensação permanecia.

Vazio.

Profundo.

Silencioso.

Como se algo tivesse sido arrancado dele.

Como se algo…

nunca tivesse existido.

Seus dedos se moveram.

Rígidos.

Lentos.

Ele observou a própria mão.

Como se aquilo fosse… estranho.

Como se não pertencesse a ele.

Um pensamento tentou surgir.

Fraco.

Fragmentado.

Não havia palavras.

Não havia nome.

Nada.

Apenas… existência.

E então—

passos.

Firmes.

Controlados.

Diferentes de tudo ao redor.

Alguém se aproximava.

Ele não reagiu.

Não por calma.

Mas porque…

não havia motivo.

A presença parou à sua frente.

O silêncio mudou.

Pesou.

Como se o ar tivesse sido comprimido.

Pela primeira vez…

algo dentro dele respondeu.

Um instinto.

Fraco.

Mas presente.

Seus olhos se ergueram.

E encontraram os do homem.

Frios.

Profundos.

Antigos.

O homem o observava.

Sem pressa.

Sem emoção.

Uma breve pausa.

Então, ele falou:

— Você está vivo.

Não era uma pergunta.

Era uma constatação.

Os olhos do homem se estreitaram levemente.

Como se tivesse encontrado algo…

fora do lugar.

— Interessante.

— Qual é o seu nome?

Silêncio.

— De qual família você vem?

Silêncio.

O homem fechou os olhos por um breve instante.

Como se decidisse algo.

— Você vem comigo.

O garoto não respondeu.

Mas também… não recusou.

Seus olhos apenas o acompanharam.

Vazios.

Sem intenção.

Sem medo.

O homem virou as costas.

Já certo… de que seria seguido.

E foi.

Passos leves ecoaram atrás dele.

Irregulares.

Como se aquele corpo ainda estivesse… aprendendo.

Ou lembrando.

Os olhos do homem se estreitaram levemente.

Ele não olhou para trás.

Mas percebeu.

Cada passo.

Cada respiração.

Cada detalhe.

Errado.

—

O lugar era simples.

Frio.

Funcional.

Nada além do necessário.

O garoto foi colocado sobre uma maca.

Pessoas se aproximaram.

Vozes.

Perguntas.

Movimentos rápidos.

Ele não reagiu.

Não resistiu.

Não questionou.

Apenas… observava.

Como se tudo aquilo… não tivesse importância.

— Frequência instável…

— Os sinais não estão consistentes…

— Isso não faz sentido…

Uma pausa.

— O corpo dele deveria ter parado.

— Já deveria estar morto.

— Então por que…

Silêncio.

Ninguém terminou a frase.

— Verifica o núcleo.

— …não há padrão.

— Como assim “não há”?

— É como se…

Hesitação.

— …não tivesse nada ali.

O ar ficou pesado.

— Impossível.

— Um Virkhyn sem núcleo não sobrevive.

— Então explica isso.

O silêncio voltou.

Mais denso.

Mais desconfortável.

— Isso não é normal…

— Ele não deveria estar vivo.

Do outro lado da sala…

o homem observava em silêncio.

Sem surpresa.

Apenas confirmando…

que algo estava profundamente errado.

Foi quando o garoto virou o corpo.

Sem intenção.

Sem perceber.

O tecido deslizou levemente.

E então—

algo foi revelado.

— …o que é aquilo?

A voz veio de trás.

Tremida.

Incerta.

Nas costas do garoto…

havia uma marca.

Metade de um círculo.

Quebrado.

Incompleto.

Como se algo tivesse sido arrancado.

Ou… nunca tivesse existido.

— Isso… não está certo.

— Marcas não são assim…

— Isso é algum tipo de deformação?

— Não…

Uma pausa.

— Isso parece… incompleto.

Ninguém se aproximou.

Ninguém quis tocar.

Porque todos sentiram.

Aquilo estava errado.

O homem observava.

Mais atento agora.

Um pensamento cruzou sua mente.

“Se isso for uma ameaça…”

“é melhor que esteja sob meu controle.”

Ele se aproximou.

— Você vem comigo.

Não era um convite.

Era uma decisão.

—

— Se não tem um nome…

Seus olhos se fixaram no garoto.

— então eu lhe darei um.

— Nihil.

O garoto repetiu, baixo:

— …Nihil.

Como se, pela primeira vez…

algo lhe pertencesse.

— A partir de agora… você está sob meu controle.

Uma pausa.

— Vharion.

Foi assim que ele se apresentou.

Sem títulos.

Sem explicações.

Apenas um nome.

E, de alguma forma…

aquilo já era o suficiente para impor respeito.

— Fique de pé.

Nihil obedeceu.

— Me ataque.

Silêncio.

Vharion avançou primeiro.

Rápido.

Direto.

O corpo de Nihil reagiu.

Instantaneamente.

Desvio.

Preciso.

Outro golpe.

Mais pesado.

Bloqueio.

Impacto.

— Interessante…

Um terceiro ataque—

E Nihil contra-atacou.

Sem hesitar.

Direto para o pescoço.

Letal.

Vharion parou o golpe.

— Você não está aprendendo…

Uma pausa.

— Você já sabe.

Nihil olhou para a própria mão.

Confuso.

— Quem… sou eu?

A pergunta saiu baixa.

Quase inexistente.

Vharion não respondeu.

Mas seus olhos…

diziam o suficiente.

“Isso não é um sobrevivente.”

“Isso é algo que deveria ter morrido.”

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.