Errar é Divino

5 4. Gritos, fofocas e uma decisão


Manhã seguinte. Contavam agora cinco dias que as mãozinhas gordas e azarentas de Loukás, filho de Eros, haviam feito sua mais nova vítima sobre a Terra.

O tal passarinho daquele ninho perto da varanda acordara feliz, recuperado dos traumas da cantoria de Elisabete, e agora piava todo serelepinho para anunciar o início de um lindo dia ensolarado naquele país tropical abandonado por Deus e... ah, não, espera, abençoado por Deus, e bonito pela natureza que ainda resta. Desculpe, parece que a melancolia de Benjamin é meio contagiosa.

— Bom dia! – Alguém gritara lá na rua, e a resposta viera em tom mal-humorado exatamente no mesmo segundo:

— Bom dia é o cacete!

Não tinha contexto melhor para Benjamin Lago acordar; o Universo o entendia, afinal.

Ele estava agora sentado à mesa redonda de madeira lisa, com o rosto todo inchado e a coluna envergada para frente como se estivesse prestes a cair deitado sobre o tampo. Sua expressão também não era das melhores: havia perdido aquele olhar suave, aquele ar de tranquilidade que tanto lhe era característico. Tornara-se um sujeitinho apático, nervoso, de olhos vazios e expressão distante. Parecia viver pensando num fim de mundo eminente e inevitável, ou em alguns outros milhares de tipos de catástrofes em níveis globais que nada faziam a não ser desgraçar e confundir ainda mais os seus divertidamentes já tão suficientemente desgraçados e confusos.

Foi por isso que, ainda cedo naquele quinto dia, tia Betty o chamou para conversar.

Benjamin saíra do quarto apenas para tentar tomar uma xícara de café; e agora ela fumegava sobre a mesa, meio assustada por estar sendo encarada por um par de olhos vazios, que pareciam ao mesmo tempo a examinar minuciosamente e não fazer a menor ideia de que ela estava ali. Quando tia Betty chegou e chamou o sobrinho pelo nome, a pobre xicrinha teria soltado uma exclamação de agradecimento ao deus das xícaras, se tivesse boca.

Aquele olhar gélido saiu de cima dela. Elisabete sentiu um frio na espinha ao sustentá-lo.

— Não vai comer? – Perguntou ela, cautelosamente.

Benjamin piscou. Parecia exausto, e de fato estava. Quando falou, sua voz parecia anunciar que ainda não se acostumara com o fato de ter acordado.

— Estou sem fome – disse ele.

Novidade.

A velha puxou a cadeira ao lado e se sentou, juntando as mãos sobre a mesa e pousando sobre a face do jovem os seus olhinhos já acinzentados pela catarata. Sentira falta de receber seu tradicional beijinho no topo da cabeça quando ele chegara à cozinha, mas achou melhor não dizer nada – Ele não parecia lá nos melhores humores para algo assim.

Bom, paciência. Iria direto ao ponto.

— Sabe... estive pensando – Começou ela, após umedecer os lábios rapidamente com a língua – O que o médico disse ontem, lá na consulta. Talvez não seja tão absurdo, na verdade.

Benjamin a olhava de volta. Não dava para saber se ele estava prestando atenção. Elisabete prosseguiu:

— Você não acha, meu bem... que pode estar se sentindo assim, diferente... por causa da presença dessa menina, a Emiko, aqui em casa?

Os olhos dele pareceram se fixar nos dela por alguns momentos. Ele respondeu:

— Como...?

— É que estive pensando no que aquele médico falou, e eu venho achando que por incrível que pareça, talvez ele tenha alguma razão. Desde que essa sua amiga chegou, bêzinho, tu não tem sido mais o mesmo. Anda sempre distraído, avoado, esquecido das coisas... sem falar, é claro, que mal tem comido alguma coisa, e dormido menos ainda. Isso tudo, por mais estranho e confuso que seja, podem ser sim alguns sinais de paixão.

— Eu acho que saberia se estivesse apaixonado, tia – O rapaz revirou os olhos.

— Mas é que faz tanto tempo desde que tu sentiu algo assim, não é? Normal que tenha perdido um pouquinho a prática. Quando foi a última vez que você se apaixonou, mesmo...? – Ela levou uma mão ao queixo, pensativa – Hum, se eu não me engano, a única namoradinha sua que eu tive conhecimento foi aquela mocinha que veio aqui com o seu pai uma vez, para buscar o presente do seu aniversário de dezessete anos... como era mesmo o nome dela? Cecília... Patrícia...

— Letícia.

— Letícia!

— Faz anos que não ouço falar nela.

— Por isso mesmo! Vai ver que faz tanto tempo que o seu cérebro deu uma travada, se desacostumou com a sensação, e agora é por isso que tu tá aí, todo perdido desse jeito.

— Pensei que já tivesse deixado claro várias vezes que a Emi é só uma amiga.

— Já sim, mas...

— O que foi que te levou a voltar a esse assunto tão batido? – Ele voltou a encará-la. Não parecia muito feliz em reviver essa discussão, apesar de permanecer com aquela expressão fria no rosto. – Porque que eu bem me lembre, quando o médico sugeriu isso lá no consultório, cabeças quase rolaram.

Tia Betty abaixou os olhos, assumindo um ar tão culpado que quase parecia um cachorrinho ao ser pego no flagra fazendo alguma coisa bem errada. Se eu fosse compará-la, inclusive, diria que parecia um pinscher. É, sim, é isso: um pequeno pinscher, nervoso e cabeçudinho, que se encolhia todo ao ver o dono chegar em casa no exato segundo em que ele tinha feito uma traquinagem daquelas.

— Eu vi a Emi saindo do seu quarto de madrugada – Ela confessou.

E pronto, tá aí a traquinagem.

— Ah... – Benjamin arqueou as sobrancelhas, embora não parecesse realmente surpreso com isso – Não rolou nada, se é isso que você quer saber.

— Ora, Benjamin, pode me poupar desse papo careta. Eu não sou desse tipo de parente que acha que só porque te vi nascer, você tem a obrigação de continuar virgem! – Disparou, na lata. O jovem voltou os olhos para ela, desacreditado – Por mim, desde que tenham usado proteção...

— Tia.

— Hum?

— Eu não transei com a Emi. Não rolou absolutamente nada.

— Oh. Quer dizer que vocês só decidiram tirar um cochilinho juntos?

— Estávamos conversando e eu dormi.

— Sei...

— Mas também, se não quiser acreditar é problema seu.

Ele voltou a encarar a xicrinha indefesa. Enfim resolveu levar uma mão para ela, sentindo a porcelana já fria, e tomou um longo gole de café agora gelado. Sentir o líquido frio escorrer para o seu estômago não foi lá algo muito confortante; ele jamais entenderia como uma atrocidade daquelas se tornara tão popular nos Starbucks da vida.

Tia Betty, por sua vez, se calou diante da pequena grosseria do rapaz, que ganhara um certo peso se considerar que ele praticamente nunca era grosseiro com ninguém – em especial com a sua tia preferida. Às vezes acontecia de ele soltar uma farpinha irônica aqui, outra acolá, é verdade, mas nunca com aquela carranca irritada. Ela não pôde evitar de sentir uma leve pontinha de mágoa por isso.

— Então... – Arriscou a velha novamente, perto de desistir – você não sente mesmo nada a mais por ela?

Benjamin abriu a boca imediatamente para responder – e aí, do nada, tornou a fechar. Seus olhos assumiram um breve ar de confusão, por um momento ele realmente hesitou. Quando tornou a abrir a boca, disse um:

— Não... – Sem lá muita firmeza. Lembrou da noite passada; do conforto da mão de Emi sobre a sua, do alívio no peito que a presença dela transmitia. Pensou então em como tudo começara justamente após a chegada dela da rodoviária, e naquele revoar frenético na boca do estômago, e em como tudo o que vinha sentindo ultimamente, apesar de extremamente intenso e bagunçado, realmente parecia se assemelhar um pouquinho ao que sentira anos atrás, quando começara a namorar a tal Letícia na escola. – Sim...? – Arriscou. Mas aquilo também não parecia certo. – Não, não, nada a ver... – Meneou a cabeça, em negação – Mas... talvez... – Hesitou – Humpf... Eu não sei...

Aquilo fez surgir uma luzinha no cérebro de Loukás, que também estava presente ali no cantinho da cozinha. Ele abriu um sorriso largo e sinistro à medida que uma sombra de ideia começava a tomar forma em sua cabecinha peculiar; ora, mas quer dizer então que o humano estava começando a considerar aquela possibilidade...? Interessante!

Muito, muito interessante!

Elisabete estava prestes a prosseguir naquela conversa, aproveitando a leve abertura do rapaz, quando foi interrompida pelo som inconveniente da campainha. Ela soltou um suspiro – iria atender. Levantou-se vagarosamente, fazendo estalar de maneira bastante jovial os ossinhos dos seus jovens joelhos, e caminhou resmungando até alcançar a porta onde ainda gritou um “já vai!” para a criatura impaciente que já começava a tocar pela segunda vez.

— Opa, bom dia, minha patroa! – A figura sorridente de um homenzinho pequeno e bronzeado surgiu diante da mulher, tão logo ela o encarava com uma mão apoiada na maçaneta e a outra na cintura. – Mas como você está radiante essa manhã!

— Bom dia, Ricardo – ela respondeu sem conseguir conter um sorrisinho todo sensível à bajulação de toda semana. Abriu espaço para o rapaz passar carregando suas sacolinhas de compra da mercearia lá da rua de baixo, e o seguiu até a cozinha onde ele começou a depositar as mercadorias na mesa tranquilamente ignorado por Benjamin. – Como tem passado? Espero que não venha com uma de suas fofocas dessa vez.

— Ah, minha musa, essa é daquelas! – Ele colocou a última sacola sobre a mesa e puxou uma cadeira para se sentar, já recebendo uma xícara vazia das mãozinhas empolgadas da idosa. – Sabe a Deolane, filha da sobrinha do seu Manoel do primeiro andar? Pois é. Tá de caso, juro pra você! Com um médico, médico casado, e daquele postinho aqui perto ainda mais.

Puxou distraidamente a garrafinha verde limão das mãos de Benjamin, que tinha começado a pegá-la para colocar mais um pouquinho de café, e ficou com a maior cara de tacho segurando vento.

– Opa, desculpa, Ben – Ricardo pediu então, risonho, mas sem devolver a garrafa. – A propósito, parou de tocar violino às tardes, foi? O que aconteceu? Conta aqui pro tio, vamo conversar!

O rapaz revirou os olhos. Arrastou a cadeira para trás e começou a se retirar, murmurando algo como “vou para a faculdade” antes de deixar os dois sozinhos na cozinha.

Ricardo olhou para Elisabete, surpreso. É claro que ele sabia que Benjamin não o suportava, mas era a primeira vez que ele deixava tão evidente assim.

— Deixa. – Disse ela, dando um tapinha no ar em sinal de pouco caso enquanto buscava a garrafa para encher a sua própria xícara também. – Ele anda meio ranzinza esses dias. Jovens, né, tu sabe.

E eles já tinham debatido por A + B sobre o caso da filha da sobrinha do cunhado de não sei quem mais, e agora discutiam animados sobre o que fariam se ganhassem no jogo do bicho daquela semana (assunto que surgira quase naturalmente, depois de certas comparações envolvendo chifres e bois), quando Benjamin novamente passou pela porta da cozinha, já com a mochila e o violino muito bem pendurados nos ombros, pronto para enfrentar uma das últimas provas do semestre da faculdade.

Eles estavam mesmo correndo para dispensar todos os alunos antes do natal, de modo que em dezembro permanecessem frequentando o campus apenas aqueles que fariam as segundas chamadas e as provas finais – ou seja, aqueles que todos queriam desesperadamente não ser. E foi por isso, só por isso, que o jovem resistiu a todas as tentativas do corpo de convencê-lo a ficar quietinho em casa e se aprontou para sair.

Antes de alcançar a porta ainda ganhou um “boa sorte” de uma Emi semiacordada e toda descabelada zanzando pela casa ainda metida em seus pijamas de Cinderela, como uma perfeita zumbi de cabelo colorido. Ele a pegou delicadamente pelos ombros e a soltou já na direção do banheiro, que era para onde pelo visto a garota estava tentando ir, apesar de estar andando meio sem rumo pela sala.

Merci... Gracias... obrigada – Ela murmurou com um sorrisinho confuso, começando a caminhar arrastadamente para dentro do corredor. – É “obrigada”, right...? Pff... português...

Benjamin riu. Ela era mesmo maravilhosa, até mesmo quando acordava toda grogue desse jeito. Mas se ele pensava mesmo isso, por que é que seu coração não decidia logo de uma vez o que estava rolando? Por que é que tudo parecia tão certo, tão óbvio, mas tão totalmente errado ao mesmo tempo?

Uma rápida olhada no relógio pendurado na parede da sala foi o suficiente para fazê-lo abandonar esses tais pensamentos e meter o pé antes que ficasse realmente atrasado. Nem só de dúvidas amorosas, café e ódio vive o homem – de desespero acadêmico também.


* ☕ *


Foi um dia daqueles.

Não exatamente por causa da prova, que, para sua própria surpresa, tinha sido até fácil demais. O problema começou quando ele saiu da sala. Em algum ponto entre a porta e o corredor, a lei de Murphy resolveu assumir pessoalmente o resto do dia, e o universo, com uma eficiência admirável, pareceu se organizar só para tirar uma com a sua cara.

Ele cruzou o campus sem se despedir de ninguém — apenas mais um entre centenas de alunos, como sempre. Subiu no bom e velho ônibus de todo dia e, já nos primeiros segundos, percebeu: tinha esquecido o cartão de passagens estudantil. Ia precisar pagar em dinheiro vivo, algo que envolvia coisas tipo papel e moeda. Um conceito que, até então, jovens da sua idade associavam mais às aulas de história do que ao próprio cotidiano. Maravilha.

Ainda esqueceu de pegar o troco com o motorista, enroscou o violino na catraca, sentou numa cadeira reservada para idosos, e foi só quando se viu obrigado a levantar para dar lugar a um velhinho muito irritado, que percebeu que estava no ônibus errado. Ora, deveria estar indo para casa. Por que raios estava indo para o ensaio tão cedo?

O dinheiro que ainda daria para algum lanche agora tinha ido quase todo para a passagem. Não dava tempo de ir para casa almoçar. Ficou então em um jejum forçado esperando a hora do ensaio, onde misturou uma música com a outra, perdeu o tempo e invadiu a hora dos instrumentos de sopro, levou uns bons esporros da spalla, e ainda recebeu o golpe de misericórdia de um dia que já tinha tudo para dar errado desde o momento que um estranho gritou a palavra “cacete” na rua: estava sendo chutado da orquestra.

Bom, pelo menos foi esse o sentimento que deu quando o regente simplesmente o olhou fundo nos olhos e disse que ele não estava em condições de se apresentar.

— Temos pouquíssimos ensaios até o próximo concerto, e você não só faltou a todos os últimos como ainda cometeu uma série de erros grotescos hoje, Benjamin. – Justificou o homem, que era literalmente o estereótipo ambulante de um maestro: branco, magro, calvo e com cara de maluco. – Eu não sinto você com o grupo, entende? Sinto muitíssimo, mas não posso te deixar tocar assim.

— Mas...!

— Escute. – Ele apoiou as mãos em seus ombros – Você já está conosco há alguns anos, e como é a primeira vez que algo assim acontece eu resolvi te dar essa colher de chá: fique em casa. Eu sei, eu entendo, meus filhos também estão em final de período letivo e está tudo uma loucura, é normal que de vez em quando fique difícil de conciliar as duas coisas. Então vá, descanse, termine as suas provas, e depois volte conosco. Tenho certeza que você estará novo em folha pro concerto de fim de ano.

O regente sorriu. Aquele velho sorriso pequeno, amigável e que ao mesmo tempo tinha o dom de revelar que se tratava de algum assunto já encerrado. Benjamin deveria é se sentir grato por ser aconselhado a não participar dessa apresentação, quando sabia perfeitamente que aquela série de gafes já era mais do que suficiente para justificar um desligamento permanente.

Assim, a muito contragosto, ele teve que aceitar.

Voltou para casa absolutamente arrasado. Se sentia um idiota, um inútil, uma bomba emocional na eminência de explodir. Precisava de um tempo para se recuperar. Assim, ele entrou em casa, ignorou o espanto de tia Betty em vê-lo de volta tão cedo, e caminhou aos suspiros até o quarto, onde se trancou pelo tempo que precisasse se trancar.

Os dias então passavam. E como aquela sensação ruim não ia embora nunca, Benjamin também não saía de lá para quase nada.

Deixou de ir para a faculdade. Deixou de tomar seu ventinho na varanda de madrugada. Deixou de tomar o cafezinho de lei no fim da tarde.

No décimo dia de efeito da flecha, Benjamin Lago estava simplesmente acabado.

— Sabe, eu tive uma ideia meio maluca... – Loukás murmurou para o irmão, com um arzinho inocente típico, aproveitando que Paris estava meio distraído com um pergaminho que surrupiara para estudar ali no quarto do rapaz. – E se nós fizéssemos esse humano se apaixonar pela Emiko?

Paris ergueu os olhos para ele. Parecia nunca ter ouvido coisa mais idiota na vida, e pior que não tinha mesmo.

— E já não é justamente isso que estamos tentando fazer? Desesperadamente? Há terríveis sete dias na Terra?

— Bom... – o caçula virou os olhos, cutucando as unhas como se temesse que elas fossem mordê-lo. – É que eu tenho pensado que, sei lá... a flecha fez efeito, né? Beleza, isso é um fato, um fato horrível, mas um fato, e assim o humano está inegavelmente apaixonado... mas por quem? – Ergueu os ombrinhos – Por ninguém!

— Isso não melhora nada a coisa toda. Uma paixão mal direcionada é praticamente uma doença. Ele vai ficar cada vez pior e pior, até a saúde dele ficar comprometida de verdade!

— E é por isso – abriu os braços, empolgado – que eu tive a brilhante ideia de fazer essa direção se voltar pra Emi!

Paris piscou, completamente perdido, consideravelmente irritado, o pergaminho inútil pendendo em uma das mãos e os olhos fixos naquele idiota que o destino escolhera como seu irmão. Poxa, tanto lugar para um cara daqueles nascer! Tantos pais diferentes! Por que tinha que ter saído justamente do saco do mesmo deus emocionalmente instável que ele?

— Cala a boca – ordenou então, voltando a ler seu pergaminho.

— Não, escuta, é genial – Loukás prosseguia, empolgado. – O humano tá confuso. Eu ouvi ele conversando com a tia, e ele tá realmente começando a considerar a possibilidade de se apaixonar pela garota. Isso é excelente!

— Cala a boca!

— Ele só precisa de um empurrãozinho de nada. Uma sugestão, uma indireta...

— Loukás!

— E aí com a flecha já direcionada, e é claro que com a sugestão de um cupido ela vai ser direcionada, basta só atirar a segunda metade e aí...

— Eu disse pra você calar a boca! — Paris gritou de repente. E, dessa vez, Loukás de fato calou.

Isso porque tinha sido um grito diferente, aquele. Do tipo que explode, como se empurrado com pólvora para fora da garganta. Do tipo que anjinhos com problemas com sutilezas conseguem perceber a raiva nada sutil. O caçula engoliu a própria língua e se encolheu no próprio corpo à medida que o do irmão crescia diante dele, completamente furioso.

— Papinho de redirecionamento, sugestão de cupido, é sério isso? – Prosseguia Paris, totalmente vermelho de raiva. – Você já estragou tudo, será que ainda não percebeu?! De novo! Mais uma vez, como sempre, você conseguiu estragar tudo! Estragou a sua chance de voltar pra artilharia, estragou a minha chance de continuar na artilharia, estragou a vida desses mortais, e agora quer arruinar mais o quê?! – Ele se aproximou, os olhinhos cor-de-rosa brilhando ao refletir a face estupefata do mais novo. – Tudo que você toca vira ruína... absolutamente tudo. Então por favor, senta essa bunda ali no canto e me deixa descobrir um jeito de nos tirar dessa enrascada. Não ouse me atrapalhar. Entendeu??

O quarto mergulhou num silêncio pesado. As paredes num bege claro engoliram o reverberar da voz de Paris. Os grilos lá fora aproveitaram para começar a cantar de fininho, embora soasse mais ou menos como se estivessem se entreolhando lá embaixo, cientes de estarem embalando o maior climão.

Loukás encarou o irmão e ele o devolveu o olhar – um absorvendo a bronca, outro o observando fazer isso. Paris se recolheu de volta para a lateral da cama, resmungando, enquanto o mais novo continuava o olhando do mesmo lugar, pasmo, estatelado, parecendo incapaz de se mover ou falar. Quando enfim seus pés lembraram que existiam, ele se recolheu obedientemente para o lado oposto do cômodo, abraçado aos próprios joelhos, quietinho e cabisbaixo; iria tratar daquela parte de "não atrapalhar" dessa vez.

Afinal, tudo que ele tocava virava ruína. Absolutamente tudo.

Não era capaz de discordar de Paris quanto a isso.

Sentiu saudades dos Arquivos. Do cheiro de guardado, do eco e das músicas do ABBA que tanto alegravam os seus dias. Por que ele não podia simplesmente ter ficado ali, quietinho, cantando o refrão de algum jingle legal e deixando seus irmãos cuidarem da parte difícil? Por que tinha aceitado a missão de Paris, para início de conversa? O que é que tinha de tão incrível no mundo lá fora, para que quisesse reencontrá-lo tanto assim?

Como se adivinhasse a tempestade que se formava no interior do pequeno cupido, Benjamin pareceu decidir lhe dar a devida trilha sonora, caminhando para alcançar o violino jogado sobre a escrivaninha. Era a primeira vez que ele se movimentava naquela noite – até então havia apenas ficado horas e mais horas apenas parado, sentado, olhando para a bagunça do quarto com aquele olhar vazio e distante que se tornara seu nos últimos dias.

Ele pegou o instrumento com afetação. Levou-o ao pescoço. Loukás e Paris observaram, curiosos; e então, sob o deslizar do arco sobre a corda Mi, a primeira nota se ouviu.

Pois foi suave e agradável como o ranger das grades dos portões do inferno.

Era agudo, trêmulo, alto, horrivelmente alto. Benjamin franziu o cenho, comprimiu os lábios emoldurados pela barba malfeita, e continuou a levar o arco pelas demais cordas agitadamente, arranhando-as, produzindo sons caóticos e repulsivos de se ouvir. Paris levou as mãozinhas aos ouvidos, o rostinho se contorcendo todo, os dentes trincados de terror. Já o seu irmão, um pouco menos cavalheiresco, tratou de alçar um voo horrorizado até a altura do humano apenas para disparar um senhor tapa que se estalou com força sobre a sua bochecha direita.

— Para de ser doido, homem! – Gritou ele.

A "música" parou no mesmo segundo. Os olhos inchados de Benjamin se arregalaram.

E foi aí que Loukás enfim percebeu o que tinha acabado de fazer.

— Loukás! – Paris gritou, exasperado – Você tocou nele!

— Por Eros! – O caçula voou de volta até ele, agarrando-o pelos ombrinhos com os olhos quase saltando para fora – Eu toquei nele!

— Você bateu nele!

Eu bati nele!

— E... está surtando de novo, não está?

— Sim, mas vamos fazer isso direito, com licença.

Saiu então voando e gritando pelo quarto para estrear um novo surto, enquanto Benjamin, embasbacado, levava uma mão ao local atingido pelo tapa, onde cinco dedinhos começavam a se desenhar quentes sobre a sua pele. Ele conseguiu muito bravamente segurar o impulso inicial de gritar como uma garotinha, mas cedeu ao seguinte de catar o violino pelo braço, empunhá-lo como um belo de um porrete, e pular na cama para se defender enquanto Loukás gritava pelo quarto, algumas partituras se agitavam com o movimento das suas asas, e Paris apenas observava tudo em um resignado silêncio no meio do caos.

— Que foi isso?! – Exclamava o humano, ambos os joelhos tremendo embora agarrasse o violino com firmeza, pronto para tacá-lo na cara da primeira assombração que aparecesse. – Quem tá aí?!

AAAAaaaaAaAaAAAaaaAAAaA!

— Quem me bateu?! – Ele deu um pulo para o outro lado. O instrumento passou raspando pelo pezinho de Loukás, que dera um rasante e já voltava a subir para o teto. Uma folha da quinta sinfonia de Beethoven caiu voando sobre a sua cabeça. – C-crux sacra siti mihi lux – Começou então de improviso – N-non draco sit mihi dux. Vade retro satana!

O anjinho freou no meio da voadeira frenética, apenas para apontá-lo incrédulo com o polegar.

— "Vade retro satana"? – Reclamou indignado — Ah, tá de sacanagem.

... mala quae libas ipse... Hã... venena...

— Ele tá tentando me exorcizar?!

Você deu um tapa na cara dele!

— E por que ele sabe uma oração inteira em latim?

— Não é esse o problema aqui, Loukás!

— Nem eu sei uma oração inteira em latim!

— Ah, mas que inferno!! – Benjamin gritou de repente.

Surpresos, ambos os cupidos voltaram os olhares para ele bem a tempo de vê-lo jogar o violino em cima da cama e saltar para o chão, caminhando até a porta do quarto, e de lá até a da sala. Sob a escolta dos dois irmãos alados, calçou o primeiro par de chinelos que viu e ganhou a rua, sem se importar com o horário, com as roupas, ou até mesmo com o famigerado estojo preto que não levava consigo dessa vez. Cruzou as ruas iluminadas pelos postes, atravessou avenidas vazias, caminhou entre alguns grupos de jovens risonhos e bem vestidos, sem realmente se importar com os olhares tortos que recebeu ao passar por eles.

Por sorte tia Betty morava não tão longe assim da praia, pois foi apenas lá que ele resolveu parar.

Os barzinhos e quiosques estavam pouco movimentados, mas foi até melhor assim. Ele queria ficar só. Precisava ficar só. Atravessou o calçadão, caminhou até sentir a espuma das ondas sobre seus pés, encarou com raiva o horizonte escuro e longínquo de um oceano mergulhado no silêncio da madrugada.

E então, contrariando totalmente as expectativas dos cupidos por algum acontecimento extraordinário, Benjamin simplesmente sentou-se na areia e ficou lá, em silêncio, observando as ondas se formarem em uma distância tranquila. Parecia querer absorver para si a calmaria daquela paisagem quase vazia, composta por mar e céu, nuvens e estrelas. Por um segundo tudo pareceu mergulhado na mais perfeita paz – apenas três seres alheios uns aos outros, participando do caos da vida, cada um ao seu jeitinho.

Porém, de repente Loukás ouviu um fungado. Ele olhou para o lado, onde Benjamin estava sentado – e sentiu o coração quebrar em dois ao perceber que ele chorava. Pouco, a princípio. Mas não demorou muito para que as lágrimas tímidas virassem soluços, e ele deitasse o rosto nos joelhos, cobrindo-os com os braços para chorar baixinho protegido dos olhares curiosos de algumas pessoas no quiosque ali atrás.

Aquela era a gota d’água. Loukás voltou-se furioso para Paris.

— Certo – Disse ele – Agora chega.

Começou a voar para longe dali com um ar tão decidido que o mais velho se assustou e voou atrás dele.

— Como assim "agora chega"? – Indagou, nervoso – O que você tá pensando em fazer?

— Eu vou resolver isso. Vou acabar com o sofrimento dele.

— Por Afrodite, veja o que está dizendo! Nós ainda não temos um acordo sobre nenhuma ideia!

Loukás parou de voar de repente. Voltou-se para o irmão com o rostinho tão vermelho que chegava a ser perigoso sair fumacinha pelas suas orelhas.

— Escuta aqui – disse ele – eu não quero saber de acordo sobre ideia nenhuma, não quero saber de quem é a culpa disso ou daquilo, e também não sei o quanto você pensa que me conhece, Paris, mas não vou ficar parado assistindo esse humano definhar até sei lá o que mais acontecer – ergueu o indicador, apontando-o para o nariz do irmão – Eu não sou cruel assim!

Saiu voando decididamente para longe dali, deixando o irmão boquiaberto para trás.

Notas finais
Eita que lá vem, viu? Estamos prestes a encerrar o primeiro arco da história. Diz aí o que é que o cupido vai aprontar agora! Beijos e até a próxima ♥