Errante
3 Maior que as muralhas
E quando a luz parece se desviar.
Nosso sangue carece de um pouco de ar.
Não encontramos nada pra segurar.
Me resta gritar.
Acordei para minha surpresa, não sabia que horas eram, o sol já estava fraco, sinal que o dia já estava indo embora e a noite chegava, a luz estava se desviando. Eu estava me sentindo sufocado, me sentia em uma queda sem lugar pra segurar, eu gritei. Eu gritei porque sentia que nada mais, agora, fazia sentido, eu estava me sentindo vazio.
Haviam se passado três meses e ela nunca mais me procurou, às vezes ela ligava e eu não atendia, às vezes ela mandava mensagem e eu não respondia, mas de um tempo para cá ela não andou mais me procurando. E isso doía, tudo ainda doía, quer dizer, eu cheguei a sentir pena de mim mesmo, uma pena maior do que eu sentia por ela. E isso doía.
Sentei-me na cama, coloquei as mãos sobre minha cabeça e comecei a chorar, pena, pena de mim, pena do que sou, pena da minha existência. Pena por eu ser um errante e nunca tomar um rumo, pena de mim por nunca saber lidar, pena por ser... pena por ser eu mesmo.
- Chega. – sussurrei para mim mesmo, enxugando minhas lágrimas. – CHEGA, EU NÃO SEI LIDAR, EU NUNCA SOUBE. – gritei, sentindo um grande alivio no peito, sentindo como se todas as dores estivessem dando trégua. – Eu nunca soube lidar, eu estou sem rumo, eu sou um errante.
Levantei-me da cama e fui para o banheiro, entrei no chuveiro e deixei que a água fria corresse sobre meu corpo, era o melhor agora. A água se misturava com minhas lágrimas que caiam devagar e eu sentia que novamente minhas dores estivessem dando trégua.
Chegou a hora de ser maior que as muralhas.
Tentarão me vencer em vão.
Fiquei pensando, minha cabeça doía de tanto pensar, eu sou um errante, e eles sempre tentam mudar um errante, se eles não conseguem então eles tentam vencer um errante. Um errante para eles, que tem rumo, são como nada, são como uma vitória já conquistada, afinal, somos errantes, somos sem rumos e para nos vencer basta se afastar de nós.
- Tentarão me vencer, mas será em vão. – falei, para mim mesmo e para as paredes sentindo as minhas lágrimas geladas no rosto. – Chegou a hora de ser maior que as muralhas. Chegou a hora de ser maior que qualquer dor, que qualquer problema que um errante como eu possa ter.
Recomecei a pensar sobre o ar gélido que a água deixava, sim, eu já pensei em deixar de ser errante, em tomar um rumo. Mas acontece, eu nunca consegui, eu sempre tive medo demais para tomar um rumo, eles pareciam perigosos demais, eles são perigosos demais, medonhos demais, ruins demais, eu não gosto de rumos, eu gosto de me perder, de ser o que eu sou, e o que eu sou sempre diz que eu devo me perder.
Sai do chuveiro e fui para o sofá, fiquei parado sentado, imóvel, pensamento vai, pensamento vem. Valéria, erros, família, medo, rumo, muralhas, desafios, qualquer coisa, medo, muito medo, eu não sou mais quem eu sou, eu não quero um rumo, medo, Valéria, ligações, amor, pena, pena de mim, pena dela, pena dos rumos que eu deixei de seguir por querer continuar sendo o que eu sou, eu me recuso a mudar, recuso.
E quando a noite teima em prosseguir.
E a luz do sol não queima nem se faz sentir.
Qualquer lugar parece melhor que aqui.
Eu percebi.
Fiquei no sofá pensando em tudo, até que a noite chegou, olhei para a janela e percebi como os dias estavam passando tão rápido. A luz não queima mais e nem se quer me faz sentir. Senti frio, me senti frio, senti uma queda, senti lágrimas, senti dor, senti como se a minha muralha, agora, estivesse desabando. Eu estava sentindo falta de sentir pena dela, eu estava sentindo falta do dia em que eu pudesse sentir algo por ela.
Ah, Valéria...
Se ela soubesse o quanto eu me sinto vazio por não poder sentir nada em relação a ela, nem pena, nem ódio, nem raiva, nem nada.
Ah, se ela soubesse o quando dói ser apenas um errante sem sentimentos. Ficar sem rumo e ser completamente vazio, e nunca, nunca saber lidar.
Olhei para minha casa, tão vazia, tão solitária, tão cinza, tão medonha, tão errante? Ela era igual a mim, igual ao que eu sentia, tão sem rumo, tão parada, tão eu. Eu preciso sair daqui, eu tenho que ficar sem rumo em um lugar que tenha rumo, qualquer lugar é melhor que aqui, eu percebi isso, qualquer lugar é melhor do que esse lugar sem rumo.
Qualquer lugar é melhor do que ficar ao lado dela, preso as memórias dela.
Chegou a hora de ser maior que as muralhas.
Tentarão me prender em vão.
Quantas vezes na minha cabeça eu já repeti “chega”? Então, por que essa dor não para? Por que esse sentimento de culpa? Por que essa pena de mim? Por que estou tão preso às memórias... as memórias dela. Está tudo bem, não está?
Está tudo bem ser um errante e não saber lidar, não é?
Às vezes eu acho que não, às vezes acho que a memórias me perseguem por causa disso.
A gente pode crescer perdendo a batalha.
Não deixe a vida escorrer das mãos.
Palavras são armas e,
Estão apontadas pro peito de quem tentar me impedir.
Crescer? Crescer é mudar e não tomar um rumo, crescer é você aprender a filtrar os sentimentos, filtrar o que se é bom ou ruim, crescer é ser o que você antes nunca se imaginou ser. E nós crescemos perdendo a batalha, perdendo alguém, perdendo algo, perdendo a si mesmo, e eu perdi... bem, eu vivo de perdas.
E bem, perdas nos fazem mais fortes, e ser mais forte nos faz segurar a vida em nossas mãos. E eu nunca deixei minha vida escorrer das mãos. Quer dizer, na verdade sim.
Eu deixei a escorrer das minhas mãos, eu deixei a Valéria escorrer das minhas mãos.
Mas talvez ela não fosse a minha vida, mas agia como se fosse. Eu estou melhor sem, agora.
E todas as palavras que ela me disse com o olhar foram armas para mim, e estavam apontadas para o meu peito.
Agora sou eu que aponto essas palavras pro peito de quem tentar me impedir de seguir sem rumo por qualquer estrada que um dia a vida me mostre, de quem me impedir de ser quem eu aprendi a ser sem ela.
Sem ela e sem ninguém.
Por mim tanto faz.
Chegou a hora de ser maior que as muralhas.
Tentarão me apagar com escuridão.
Parece, apenas parece que a vida sempre tentou me apagar com a escuridão do vazio, do vazio que eu sempre sinto depois de uma queda, desse negócio pós-morte, dessa coisa vazia que dizem que se chama frieza, mas não é frio... só é escuro. Muito escuro, de vez em quando é frio, mas é muito mais escuro.
Mas eu tenho que ser maior que as muralhas, certo? Eu tenho que crescer, eu tenho que ser, eu tenho que ser a minha própria luz no fim do túnel, eu tenho que crer. Eu tenho que ser. Eu tenho que aprender a ser.
A gente aprende a viver.
No fio da navalha.
De que adianta viver em vão.
Não deixe a vida escorrer das mãos.
Eu aprendi a viver em meio a um milhão de cortes. A vida é um fio de navalha, qualquer coisa faz a gente se machucar, e eu aprendi a viver com esses machucados, esses cortes ardentes e mais essas um milhão de coisas que me fazem cria-los em mim mesmo.
Meus braços foram as maiores provas desses cortes.
Dizem que não adianta viver em vão, mas bem, eu vivi em vão durante todo esse tempo e adiantou muita coisa, eu aprendi a crescer, eu aprendi a fingir, eu aprendi a desfazer, eu aprendi a perdoar, eu aprendi a viver sem ninguém, a viver sem ser algo pra alguém.
Ou talvez tudo isso não tenha sido em vão.
Mas eu nunca deixei a vida escorrer das mãos, bem que eu tentei, mas ela é a minha chance de provar para todo mundo que um errante um dia também aprende a ser feliz.
Mesmo estando sem rumo.
Mesmo não sabendo lidar.
A madrugada chegava e eu decidi que a vida se passava lá fora, peguei minha jaqueta, minha carteira, meu celular e minha chave, e sai pela porta da casa.
Eu esperava nunca mais voltar aqui.
Fale com o autor