Eros Moment
1 Novo na Vizinhança
— De onde você disse que veio mesmo, moço? — a mulher meio baixinha, de olhos verde-musgo e cabelos curtos ala Olivia Colman questionou, enquanto girava o molho de chaves estridente entre os dedos e procurava a que abria a fechadura a porta vermelho-mogno de pura madeira a sua frente.
— Eu não disse — Levi respondeu, meio envergonhado. Uma brisa leve vinha do horizonte e agitava os cachinhos de seu cabelo preto. — Mas sou daqui de São Paulo mesmo, de outro bairro, sabe, — afirmou, observando a incessante busca da mulher pela chave adequada, diante de centenas delas em mãos. Carregava uma prancheta debaixo do braço e cheirava à alfazema e arnica. — E como é essa vizinhança, senhora...? — ele questionou, tendo um branco para se lembrar do nome da corretora que o acompanhou desde o momento da compra à primeira visita ao imóvel. A mulher engoliu seco e pareceu suar frio.
— É, bem... é... Comum, sabe? Como todos os bairros — respondeu de imediato, com um olhar meio assustado — Josefina Jordânia. Pode me chamar de Jojo — Levi riu baixinho com a ironia do apelido. — E como foi que encontrou esse imóvel? — ela questionou, meio que tentando mudar de assunto. — Eros Moment não é o bairro mais conhecido de São Paulo.
Levi sorriu. Realmente, não sabia da existência desse bairro mesmo morando a vida toda nessa cidade, numa rua até que próxima dali.
— Também não faço ideia — afirmou, coçando as sobrancelhas escuras como o cabelo — Parece que alguma coisa conspirou para que eu encontrasse, na verdade. Justo no dia que eu decidi deixar meu antigo emprego e começar de novo... Veio um pedaço de jornal voando na minha cara mostrando um imóvel muito bom para poder montar meu consultório e por um preço beeeeem acessível. Cheguei a achar que era falcatrua — respondeu. Jojo riu meio nervosa.
— Bobagem, obviamente não foi armado. É tudo normal e legalizado aqui — ela afirmou, num tom quase que se autodenunciando, com um risinho nervoso. Finalmente encontrou a chave da porta, suspirou aliviada e girou na fechadura de puro aço antigo. O imóvel tinha um estilo meio clássico, arcaico, mas estava relativamente bem conservado. Era pequeno em largura, mas tinham dois andares e, segundo o que constava no anuncio, um sótão.
Os olhos de Levi se encheram de um brilho apaixonante e cheio de esperanças quando a luz do interior do imóvel encontrou seu rosto meio avermelhado sob a pele um pouco retinta. Sorrir era involuntário. Seu sorriso era tão branco quanto um colar de pérolas verdadeiras, conservadas nas mais delicadas caixas de joias. Os óculos redondos faziam seus olhos escuros parecerem ter o dobro do tamanho. Os cachinhos voavam com a brisa repentina do inverno. Sentiu seu coração palpitar cheio de esperança e felicidade: finalmente, depois de tantos anos sonhando e imaginando, teria um lugar para chamar de seu.
— Bem-vindo a Eros Moment — Jojo afirmou, com um sorriso amigável, indicando a porta para que Levi seguisse. O rapaz não fez por demorar, segurando a mochila mais perto do peito e puxando a mala que vinha aguardando no chão a porta ser aberta, e indo de encontro a sua nova perspectiva de vida, naquele misterioso bairro, naquela acalentadora casa, naquela estranha vizinhança.
O assoalho era de madeira. As paredes tinham um tom de escurecido, com pregos onde outrora haviam quadros, provavelmente. Estava parcialmente mobiliada, com mesinhas de madeira, estantes com bibelôs antigos, algumas cadeiras e poltronas e dois sofás azul-escuros de puro couro. Levi sorriu de orelha a orelha. Era melhor do que ele podia imaginar, no fim. Havia uma sala de estar bem grande logo na entrada, em seguida chegaram à cozinha, mais média, com os armários brancos clássicos por todas as paredes. Lá mesmo encontrou a escada que os levou ao segundo andar, onde estavam o banheiro, o quarto e uma salinha vazia.
No quarto não havia nada, nem sequer pregos nas paredes. Levi estranhou, no fim, pois todos os aposentos tinham pelo menos um traço do dono anterior, mas ignorou para prosseguir. Na salinha vazia, que assim o chamou por não poder lhe definir como quarto, sala ou cozinha, havia uma lareira, mais pela decoração que pelo uso, ele pensou, algumas estantes para por livros, prateleiras, uma poltrona negra como a noite, uma mesinha de centro de mogno e um divã rosa como batom feminino. Sim. Definitivamente era um divã rosa. Levi arqueou as sobrancelhas, confuso com a coincidência do antigo dono ter um móvel daqueles... Seria ele psicólogo, terapeuta ou algo do tipo?
Jojo entrou assinando alguns papeis, com o rosto meio rosado como se estivesse prestes a espirrar. Havia poeira voando pela casa, no fim, ela não devia ter sido limpa há meses.
— O serviço de água e energia vai ser religado assim que eu der uma ligação pra eles, Levi — ela afirmou, sorridente — Talvez a conta venha com o nome do antigo dono no começo, mas logo eles ajeitam isso — contou, estendendo a prancheta com os papéis para que o rapaz assinasse. Levi pegou com delicadeza, juntou a caneta nas pontas dos dedos e começou a assinar — Duas rubricas, três assinaturas e sua digital na última página, por favor — informou, enquanto passeava pela salinha, com um olhar distante e pensativo — Esse era o lugar favorito dele — contou.
— Do antigo dono? — Levi questionou, curioso. Jojo confirmou com um olhar — O que houve com ele, no fim?
— Ninguém sabe, exatamente, deixou a casa a venda e sumiu — ela respondeu meio curiosa — Mas viveu aqui por décadas, não se preocupe. Não é pela casa, pode ter certeza — afirmou. Levi cerrou os olhos meio desconfiado, mas assentiu.
— E essas coisas que ele deixou? — questionou — Mobília e tal.
— Bom, vem junto com a compra da casa — respondeu, sentando na poltrona e deixando uma nuvem de poeira voar pela salinha — Jesus.
Levi riu baixinho e voltou a assinar os papéis.
— Não tem ratos, baratas, essas coisas aqui, não é? — questionou, meio assustado. Jojo engoliu seco.
— Claro que não! — afirmou — Eu acho... — sussurrou. Levi arregalou os olhos, surpreso — Mas não tem tanto problema, não é? São só bichinhos!
Levi engoliu seco e sentiu um comichão de ansiedade percorrer a espinha. Sorriu num tom de nervosismo e deu uma risadinha falsa, não querendo transparecer seu medo... Que existia e era constante.
Muito, muito, mas muito longe de ser a pessoa mais corajosa do mundo, Levi tinha sérios problemas com situações e coisas traumáticas dignas de fobia. Tinha medo de tudo, em exceção daquilo que não tinha. O rapaz dividia sua vida em duas instâncias, num maniqueísmo clássico e simples: o que era digno de medo, ou seja, tudo na sua vida que não lhe fazia sentir-se bem por completo, ou que lhe provocava reações corpóreas desagradáveis, como ânsia de vômito, coceira e vertigem, e coisas que não são dignas de medo, como os amigos, borboletas e coelhos brancos (Pois qualquer outro tipo de coelho não era assim tão confiável). É, muito provavelmente Levi era a pessoa mais medrosa da face da terra. Nunca soube como explicar a origem de tantas fobias e tantas inconstâncias, mesmo tendo se formado em psicologia com isso em mente. O mais próximo que chegou a desvendar foi quando estudou a máxima de Freud e a questão de como uma infância inconstante pode trazer traumas para toda a vida, que se guardam no subconsciente e são ativados por gatilhos que surgem a todo momento. Bem, Levi foi órfão, cresceu em um orfanato e só saiu de lá quando era grande o suficiente pra tomar suas próprias decisões, junto dos melhores amigos Savine e Killian, então, provavelmente, inconstância na infância era o que não faltava em sua vida... Agora, o porquê disso se manifestar em tantos medos irracionais, como ratos, coelhos que não são brancos e vendedores ambulantes nem Freud explica.
Todavia, para não se sentir um estranho por completo, Levi preferia fingir ser normal e não transparecer todos os seus medos, na esperança de que, volta e meia, eles se resolveriam... Ou de que os gatilhos nunca venham.
Convenhamos: viver à mercê dos gatilhos é terrível e tão assustador quanto qualquer trauma. E, bem, talvez Eros Moment não tenha sido o melhor lugar para um cara tão apavorável começar de novo.
Jojo já havia ido embora e deixado com Levi um cartão com seu número e endereço eletrônico, após a assinatura de todos os papéis. Como ela mesma prometeu, meia hora depois de tudo ter se resolvido e todas as burocracias terem sido sanadas, já havia água encalhada saindo pelas torneiras e as lâmpadas podiam ser acessas nos candelabros. Levi suspirou aliviado, se ajeitou um cantinho próximo a tomada na parede e colocou o notebook para carregar. Não existia sensação que pudesse descrever aquele momento: estar sozinho, finalmente, num lugar que podia chamar de seu e de mais ninguém. Era como sentir uma brisa geladinha numa tarde de calor tortuosa ou quando você chega cansado no trabalho e se joga na cama para contemplar o nada numa intensidade tão grande e tocante, sem precisar se mexer, pensar ou agir, só viver seu momento de descanso e revitalização dentro de sua infinidade residencial, dentro de tudo que era seu e que ninguém podia tomar — sensação que Levi conhecia muito bem e temia mais do que qualquer coisa que existisse.
Ligou o computador e acessou sua pasta de e-mails. Chegou algumas mensagens de despedida dos colegas de trabalho, felicitando sua conquista e parabenizando por sua coragem; viu alguns lembretes de Savine para que conhecesse a vizinhança nova e não ficasse enfurnado dentro de casa o dia todo, e, enfim, percebeu mais uma mensagem dele. Levi revirou os olhos.
— Lucas vai continuar insistindo — afirmou para si mesmo, num tom de desprezo e irritação. Lucas e ele haviam terminado faziam quase dois meses e o ex continuava insistindo em tentar reatar aquele namoro fajuto e frio como gelo. Suspirou e marcou a mensagem como spam sem nem ler.
Havia um último e-mail, de um nome desconhecido e com um título curioso: Não confie em trasgos, por allymoon666@gmail. Não havia mensagem, só um arquivo anexado. Havia chegado alguns minutos antes. Levi sentiu seu coração acelerar um instante, engoliu seco e moveu o e-mail para a lixeira, sem sequer abrir o que estava anexado.
Pegou o celular, discou o número de Killian, suspirou e ligou para o irmão de consideração.
— Hey! — Killian cumprimentou, num tom amigável e animado. Havia um estranho burburinho de pessoas ao fundo Levi sorriu.
— Onde vocês tão? Achei que iam vir aqui! — Levi questionou, num tom irritado.
— Savine ainda tá brava com você, apesar de estar na cara que ela só tá triste e preocupada mesmo — Killian afirmou, meio receoso. Levi suspirou.
— Ela me mandou um email... Praticamente me xingou se eu não fizer amigos na vizinhança — afirmou. Killian riu.
— Ela tem razão, no fim, é bom você fazer algumas amizades aí, mano — respondeu — E ela só precisa de um tempo pra se acostumar com a ideia de que você quer ter seu próprio espaço... Sabe, sempre foram nós três... E de repente somos só nós dois. — contou. Levi revirou os olhos.
— Ai, Killian, falando desse jeito parece até que eu sou um monstro que tá sumindo da vida de você — afirmou irritado — Só mudei de casa... Só precisava do meu espaço, afinal.
— Sim, eu sei, mano, eu entendo — Killian respondeu — Mas a Savine... — Levi riu baixinho.
— Eu sei como é a peça. É minha irmã, no fim das contas — afirmou — Vocês dois são. Eu amo vocês demais, sabe disso, né? — questionou. Killian engoliu seco, meio choroso.
— Sei, cara, sei... Também te amamos. Nunca esqueça disso — afirmou. Levi sorriu.
— Não vou — contou — E é bom vocês virem aqui logo... Não vou conseguir terminar minha mudança sozinho!
— E a casa, como é? É em Eros Moment mesmo? — questionou.
— É bem bonita, na real, melhor do que eu imaginei. Tem dois andares, como dizia no anúncio, e tem uma sala perfeita pra fazer um consultório! — Levi suspirou, olhou ao redor pela casa e sorriu — Parece que foi feita pra mim — contou. Killian riu baixinho.
— Fico muito feliz por isso, mano, de verdade — afirmou — você merece... Mas em Eros Moment? Tem certeza? — Killian questionou num tom meio preocupado. Levi suspirou.
— Killian nem começa com as bobagens — afirmou impaciente — É um bairro normal, super comum, inclusive — Levi afirmou, deixando o computador no chão, se levantando e caminhando para uma das janelas que dava para a rua, observando o movimento e buscando normalidades — Olha, super normal: tem velhinhas conversando na rua, crianças pulando cordas, carros passando e... — Levi se calou por um instante, percebendo uma luz misteriosa numa janela do prédio que ficava na frente do seu, como o flash de uma câmera. Arqueou as sobrancelhas, engoliu seco e suspirou — Misericórdia — deixou escapar um suspirou.
— Levi? O que aconteceu? — Killian questionou num tom de preocupação. Levi se afastou da janela de imediato, com o coração acelerado e um burburinho no estômago.
— Não foi nada, eu acho — era o que ele queria acreditar, no fim — Pensei ter visto uma luz... Mas devo ter confundido — contou. Killian não estava convencido. Havia um pesar no tom de voz de Levi. — Killian, escuta, não tem essas coisas que você ouviu de algum velho doido... Os únicos monstros que existem são os capitalistas, os traumas e os políticos brasileiros. Tenho que ser racional.
— Ser racional não te impede de ser sensato — afirmou irritado — Adivinha onde eu e a Savine estamos indo? Pra uma passeata de apoio aos vampiros! Até alguns anos atrás eles também não existiam, não é? — Killian questionou. Levi revirou os olhos.
— Para com essa merda, cara, você sabe que isso me deixa agoniado — afirmou irritado — E eu não acredito nessa baboseira. Vou desligar. Depois vocês vêm aqui me visitar.
— Em Eros Moment? Tô... — Levi desligou antes que Killian pudesse responder. Suspirou, olhou as horas pelo celular e percebeu que já eram quase seis da tarde, lembrando-se que não comia nada desde o almoço. Suspirou novamente, pegou sua bolsa de lado, ajeitou os cabelos no espelho e caminhou para a porta.
Estrear as chaves da casa foi uma sensação única que Levi teve de fazer lentamente, aproveitando casa segundo até finalmente trancar a fechadura. Sorriu, olhou para a fachada mais uma vez, jogou a bolsa nas costas e guardou as chaves no bolso, enquanto caminhou pela calçada, observando a rua com certa timidez.
Começava a escurecer, mas o céu ainda estava meio dourado e avermelhado por conta do pôr do sol. A “Golden hour” deixava tudo mais dourado, num show de luzes digno de uma boate chique em Ibiza. Levi ajeitou o blusão mais próximo do corpo para se acalentar da brisa geladinha daquele fim de tarde outonal, enquanto caminhava delicadamente pela calçada e olhava atentamente algumas pessoas que ali viviam, voltando de suas jornadas de trabalho, fazendo exercícios físicos sob a luz do pôr do sol, conversando na calçada, andando de bicicleta, etc. Em certo momento do percurso pelo bairro desconhecido se viu sozinho numa rua mais cinzenta que a sua própria, flanqueada por enormes árvores encarquilhadas que tapavam a luz e faziam a noite chegar alguns minutos antes à Eros Moment. A brisa ali era mais forte, chegando a fazer um alardeador barulho próximo ao ouvido, chacoalhando as folhas das árvores com violência e acertando o rosto do rapaz com certa impassibilidade.
Estava tudo num silêncio tão ensurdecedor que fazia até Anitta se sentir assustada. Levi engoliu seco, tentando manter a respiração constante e bem organizada, afastando os pensamentos assustados e os medos reprimidos, focando, única e exclusivamente, na felicidade que era ter sua própria casa. Era um cenário perfeito para que os medos do psicólogo se aflorassem com certa desinibição. Engoliu seco e continuou tentando limpar sua mente e acalmar seus pensamentos.
Ouviu passos atrás de si. Constantes como os seus, como se alguém estivesse parado até certo momento e começou a caminhar quando o viu pela rua. Estavam na mesma frequência, na mesma continuidade e até o mesmo ritmo. Levi engoliu seco, sentiu o coração acelerar e quase saltar pela boca e os poros se abrindo, mas permaneceu calmo, na mesma velocidade e tentando não transparecer o mais assustado possível.
— Calma, Levi — ele pensou — deve ser só alguém na rua... — afirmou para si mesmo, com certa falta de confiança nas próprias palavras. Uma gota de suor frio desceu pela nuca de Levi e correu sobre sua espinha — Respira, respira, respira... — pensou, novamente, fechando os olhos por um meio instante e se enchendo de toda coragem que havia dentro de si para não surtar.
Gatilho número vinte e dois: perseguições. A primeira vez que sentiu isso foi quando tinha dez anos, quando voltava da escola e foi perseguido por dois garotos estranhos que acompanhavam seus passos e seu ritmo à suas costas, sussurrando insultos e preconceitos, mas se escondiam todas as vezes que Levi se virava para tentar reconhecer seus rostos. Sua última lembrança desse dia foi uma pedrada que levou nas costas. Desde então perseguições sempre foram um gatilho. Para qualquer um, acho eu, não só Levi.
Os passos continuavam no mesmo ritmo que o seu. Levi, não conseguindo mais esconder todo seu medo e todo seu nervosismo, engoliu seco mais uma vez e apertou seu passo, num ritmo mais acelerado. Para sua surpresa ou seu alívio, quem quer que fosse que estivesse às suas costas diminuiu os passos, como se fosse contra a aceleração de Levi, possibilitando que ele se afastasse por completo muito facilmente.
Quando já estava numa distância segura pôde, finalmente, respirar aliviado e limpar o suor da própria testa. Olhou para trás e a última das árvores encarquilhadas e macabras estava tão pequena quanto uma formiga no horizonte. Não havia ninguém atrás de si — e, se houvesse, teria ficado para trás, felizmente.
Todavia, percebeu que já não sabia mais onde estava — no fim, saiu de casa sem conhecer exatamente nada do noivo bairro, sequer perguntou a Jojo se havia algum mercadinho pelas redondezas. Engoliu seco e coçou os cabelos, meio desapontado.
— Merda — disse a si mesmo, olhando ao redor. Havia poucas pessoas naquela rua, mais residencial que comercial. Precisava pedir uma informação, disso ele tinha certeza.
Um carro prata, elegante e moderno, parou do outro lado da calçada onde se encontrava. Dele saiu um rapaz, na casa dos vinte, provavelmente, com uma pele extremamente pálida, olhos escuros e cabelos negros curtos. Os lábios eram exageradamente vermelhos, como cerejas ou sangue. Usava uma camisa lilás-escuro e calça jeans. Assim que se viu de fora do veículo pegou o celular do bolso, discou um número e o colocou próximo ao ouvido. Levi, meio perdido naquele bairro misterioso, se aproximou do rapaz com certa timidez e com um carismático sorriso.
— Ei, me desculpe... — ele disse, mais próximo ao carro. O rapaz arqueou as sobrancelhas e olhou para Levi com um certo tom de impaciência. Seus olhos eram intensos como uma imensidão de galáxias na escuridão do espaço. Levi se assustou com eles por um instante, ficando momentaneamente boquiaberto, mas se recompôs.
— Não tenho tempo pra fotos agora, foi mal parceiro — afirmou friamente, voltando-se ao telefone e ignorando completamente a existência de Levi, que se sentiu diminuir em vergonha, ficando quase do tamanho daquela árvore velha e encarquilhada do horizonte. O psicólogo engoliu seco, arqueou as sobrancelhas, desconcertado com tamanha arrogância, riu baixinho da ironia e chacoalhou a cabeça.
— Desculpe, majestade, só queria saber onde fica o mercadinho daqui — Levi afirmou, com a irritação marcada na voz. O rapaz com telefone cerrou o cenho, confuso, deixou o celular de lado por um instante encarou.
— Você não quer uma foto? — questionou confuso. Levi revirou os olhos, fez um olhar de asco, deu as costas para o rapaz e caminhou em frente — Você não sabe quem eu sou? — o rapaz gritou, ainda surpreso.
— Vai se ferrar! — Levi gritou de volta, impaciente. Detestava gente arrogante.
Com certa raiva no coração, Levi continuou em frente, seguindo a própria intuição lhe guiando por aquele misterioso e desconhecido bairro, quando finalmente chegou a uma área mais movimentada e viu a fachada de uma espécie de loja, próxima de uma pracinha com uma igreja de arquitetura romântica e gótica. Suspirou aliviado, apertou a bolsa melhor contra si mesmo e foi até o mercadinho.
A porta tinha uma sineta que tocou quando ele atravessou. Haviam prateleiras de frutas frescas, verduras e grãos. Mais à frente encontrou embutidos, comidas enlatadas e em conserva. Finalmente chegou ao corredor com bolachas, biscoitos e salgadinhos. Pegou alguns vários pacotes de todo tipo de baboseira, umas cinco maçãs para equilibrar sua alimentação em saudável e diabético, e caminhou até o caixa. A mulher atrás do balcão era sinistra, foi o primeiro pensamento que Levi teve. Já era uma senhora, definitivamente, tinha cabelos num tom de azul escuro, meio arroxeado, e embaraçados. A pele era enrugada e rosada. Seus olhos eram lilases como o céu tempestuoso. Carregava joias pesadas, cheias de cristais coloridos e armações douradas e prateadas. Os brincos tinham também penas coloridas como num cocar indígena. As unhas eram ENORMES e pintadas de roxo, tal qual o batom nos lábios.
— Boa noite, meu rapaz — ela disse, com certo sotaque na voz estridente. Ela tinha um sorriso simpático e acolhedor, meio amarelado, provavelmente por cigarro (O que ela cheirava, inclusive: cigarro e alecrim). — Nunca o vi em Eros Moment. Está visitando ou é novo no bairro? — questionou, com olhos atentos e curiosos. Os olhos da mulher eram estridentes como raios no céu de tempestade.
— Eu... — engoliu seco, meio surpreso — Me mudei pra cá hoje — afirmou, com um sorriso tímido. A mulher bateu palmas, animada, com um olhar misterioso e carinhoso. — Eu sou Rafael Levi, mas pode me chamar só de Levi — contou, estendendo a mão. A mulher encarou Levi, observou sua mão estendida, mas não fez menção nenhuma a cumprimentar com o toque.
— Zoraya. Zoraya Vechernyaga — contou sorridente — E, uma dica: não costume oferecer sua mão para qualquer pessoa aqui — ela se aproximou de Levi e sussurrou — Principalmente para uma que pode descobrir mais sobre você por meio do toque — se afastou e deu um risinho — Mas, felizmente, não preciso desses modos ultrapassados... Tenho meus próprios truques, se é que me entende... — ele não entendia, mas achou melhor não questionar.
— É, claro — afirmou sem ter certeza das próprias palavras. A mulher deu um risinho novamente, juntou as compras de Levi numa sacola e afirmou.
— Dezenove e oitenta e cinco — Levi sorriu, entregou uma nota de vinte para a mulher, pegou sua sacola e já estava próximo a ir embora, quando ela tocou seu ombro — Seu... troco... — Zoraya disse, num tom meio surpreso, meio assustado, como se tivesse visto um monstro ou algo do tipo. Seus olhos lilases e tempestuosos se acalmaram num marasmo aterrador, enquanto encaravam toda a imensidão da presença de Levi, sem nada dizer, falar ou agir — Quanto medo você guarda no coração, garoto — ela afirmou, com uma voz mais intensa e grave, como se falasse mecanicamente — Mas é sensato temer tanto depois de tanto ter sido atormentado, também — afirmou. Levi engoliu seco, começando a se assustar com a bizarrice daquele momento. Zoraya parecia estar em transe — Existe muita bondade em você... e muitas Flores... Mas também muito medo, muita escuridão — contou. O coração de Levi se acelerou novamente, engoliu seco, pegou a sacola, apertou a bolsa contra o próprio peito e correu dali o mais rápido possível.
— Pode ficar com o troco — ele disse antes de sair.
Já havia anoitecido por completo quando finalmente chegou em casa. Suspirou profundamente, aliviado, tirou a bolsa do ombro e jogou as sacolas de compras numa das mesinhas da sala de estar. Tentou não remoer mais a conversa estranha com Zoraya ou o acontecido enquanto atravessava a rua das árvores encarquilhadas — tendo, inclusive, encontrando outro caminho que contornava o de outrora, pra poder fugir da sensação de perseguição de mais cedo. Tirou o celular do bolso, subiu as escadas com um pacote de bolachas aperto, e se sentou no divã rosa, enquanto observava as notificações do Instagram.
Oito mensagens não lidas de Lucas. Levi revirou os olhos. Ele não ia desistir tão fácil, realmente.
Jogou o celular num canto, se recostou no divã e encarou o teto, se deixando preencher pela sensação de mais cedo, de quando, finalmente, tinha um lugar para chamar de seu, aquela casinha meio estranha em Eros Moment, um lugar mais estranho ainda. Ainda que tivesse ignorado as palavras de Killian e se proibido de pensar sobre, era praticamente impossível não deixar os pensamentos flutuarem sobre a perspectiva dos boatos e das lendas que haviam sobre aquele bairro em específico: as estranhas histórias de mortes misteriosas, suicídios, aparições de fantasmas, monstros e, bem, vampiros. Não havia muito sobre Eros Moment na internet ou em qualquer meio oficial, só nas bocas das pessoas mais velhas e na cultura paulistana no geral. Era como se Eros Moment não quisesse que soubessem da sua existência e que cultivassem esse ideal surreal de um bairro completamente sobrenatural e atormentado por almas, espíritos e criaturas inomináveis.
Levi suspirou. Queria se fazer acreditar que tudo não passava de baboseira.
Uma luz, como o flash de uma câmera, iluminou uma janela do prédio do outro lado de sua rua. Levi saltou do divã com o coração acelerado, arregalou os olhos e quase engasgou com um pedaço de biscoito. Correu pra janela, fechou a cortina e começou a limitar sua respiração ofegante, organizar seu pensamento e controlar seus pavores.
Gatilho número trezentos e sete: estar sendo observado. Esse surgiu do nada, num dos surtos de traumas de Levi, que sentia estar sempre sendo vigiado quando criança... Ainda que todos dissessem que não havia ninguém por perto.
Suspirou, foi conseguindo acalmar o coração, parou de suar frio e o coração desacelerou. Se ajeitou num cantinho da parede, respirou profundamente e estava bem novamente.
Então ela desceu da cortina empoeirada e caminhou por seu ombro, braços, perna e pulou para o chão. Levi ficou estático sentindo os pezinhos gelados percorrerem sua pele e fazendo seus pelos se arrepiarem e sua espinha gelar como se estivesse no polo norte. Só quando a barata já estava no chão que ele pôde ter a atitude mais sensata do mundo: gritou e saiu correndo como se tivesse visto o próprio diabo.
Só parou de correr quando percebeu que já estava fora de casa — onde, felizmente, barata nenhuma poderia lhe perseguir, mas onde estava a mercê dos olhos vigilantes de quem quer que estivesse lhe vigiando. Bem, agora ele teria que escolher: a barata ou um observador misterioso?
Seu coração estava acelerado, novamente. Sentia frio e não havia trazido a blusa. A brisa gelada do outono debatia-se contra sua pele. Sentiu seus dentes baterem e os pelos ficarem mais arrepiados ainda.
— Ei — Levi quase gritou novamente, mas se conteve. Suspirou e se afastou alguns passinhos, mas voltou a ficar bem quando viu o rosto pálido de mais cedo. Era ele: o rapaz arrogante, de olhos intensos como galáxias. — Desculpe, eu tava passando de carro e te vi... Queria te pedir desculpas por mais cedo, de novo.
— Tu... Tudo bem — Levi afirmou, tentando disfarçar o temor, mas não conseguindo esconder o frio. O rapaz cerrou os olhos, desconfiado.
— O que aconteceu? Tá tudo certo? — questionou. Levi afirmou que sim — É que, sabe, eu achava que todo mundo aqui me conhecia... — afirmou, meio desconfiado.
— Eu acabei de me mudar — respondeu, apontando para a casa. O braço tremia de frio — Meu nome é Levi.
— Eu sou o Faraday — ele respondeu, observando que Levi estava evidentemente mal — Você disse que tá morando... Ali? — questionou.
— Sim... Eu... — Levi estava sentindo frio e medo demais para aguentar — Você poderia me fazer um favor? — suplicou, com olhos tão preocupados e desesperados que seria desumano negar. Faraday assentiu. Levi sorriu meio tímido e suspirou aliviado — Vem, por favor.
Faraday conseguiu se livrar da barata em instantes, para alívio de Levi que pôde suspirar e se aconchegar no blusão, para fugir do frio.
— Muito obrigado, de verdade — Levi disse — Eu tenho pavor de baratas — afirmou, aliviado. Faraday sorriu e olhou pela salinha onde ficava o divã, observando a cortina que cobria a janela.
— É essa cortina. Tá bem velha — afirmou — Acho melhor você tirar ela e... — Faraday fez menção a abrir as cortinas, mas parou quando Levi deu um gritinho baixo e estridente.
— Não, por favor — afirmou — Eu... é... Eu não gosto de ficar sem cortinas nas janelas.
— Tudo bem, de qualquer forma — Faraday respondeu, limpando as mãos da poeira e se sentando na poltrona de couro diante do divã — Quem diria, em? Logo você com medo de barata! — e riu baixinho. Levi não entendeu o “logo você”, mas atribuiu ao fato de ser um psicólogo.
— Eu acho que é mais normal do que se imagina — afirmou — Todo mundo tem seus traumas, no fim — os meus são todos, ele pensou. Faraday riu.
— Digo, logo você, um bruxo ter medo de um animal tão pequeno — afirmou. Levi arregalou os olhos, confuso e surpreso, e riu de nervosismo.
— O que? — questionou, com um olhar confuso com aquela atribuição. Faraday cerrou o cenho e arqueou as sobrancelhas.
— Você é o novo bruxo, não é? — questionou, observando Levi de cima a baixo — Novo, literalmente, nem sabia que existiam da sua idade. Enfim... Você tá morando nessa casa! — afirmou. Levi engoliu seco, confuso, sentia seu estômago borbulhar em nervosismo.
— Eu não sei do que você tá falando, Faraday, poderia ser mais específico, por favor? Eu só comprei essa casa porque me pareceu uma oferta muito boa — respondeu. Faraday cerrou os olhos.
— Você não é um bruxo? — questionou.
— Não, eu sou um psicólogo — respondeu. Faraday coçou os cabelos, surpreso, enquanto caminhou pela salinha, meio estupefato.
— Não faz sentido... Essa casa só pertence aos bruxos. Como você teve acesso?
— Eu comprei, já disse.
— De quem?
— Josefina Jordânia.
—Jojo — o tom de Faraday emanava desaprovação — Aquele amontoado de musgo e mofo — afirmou irritado — Mas, mesmo assim, a casa só aceita donos que são bruxos... Se ela te aceitou...
Levi estava irritado, cansado e esfomeado. Foi perseguido, enganado, leram seu futuro, seu passado e seus traumas. Tiraram fotos suas, recebeu e-mails do ex e foi atacado por uma barata. Estava completamente sem saco para qualquer tipo de baboseira. Revirou os olhos.
— Faraday, olha, me desculpe... — afirmou, irritado — Mas eu não estou com muita paciência pra brincadeiras hoje... Eu não acredito nessas coisas... Eu sei que Eros Moment tem sua fama, seus mitos e esse tipo de coisa... Mas eu sou adepto da ciência, da psicologia e prefiro ser racional...
Faraday revirou os olhos, se aproximou de Levi e fechou seu cenho. Em instantes sua expressão fácil mudou drasticamente, como se tivesse passado por uma metamorfose completa. Seus olhos ficaram avermelhados, as veias ficaram marcadas sob a pele, as pupilas de dilataram e uma enorme dupla de presas surgiu do céu da boca. Não era nada humano, nada racional e nem um pouco explicável. Levi ficou boquiaberto e pronto pra fugir, quando a expressão de Faraday voltou a ficar carismática, pálida e meio impaciente.
— Viu? — ele questionou.
— O que... O que é você? — Levi questionou, com o coração meio acelerado pelo medo do momento. Faraday coçou os cabelos.
— Eu sou um vampiro — afirmou. Ok. Definitivamente foi demais para um só dia. Levi não era de ferro, muito menos de papel. Sentiu seu mundo perder cor, sua cabeça girar e se preencher numa vertigem interminável. Quando Faraday percebeu, o rapaz já havia desmaiado sobre o divã rosa. Impaciente, ele suspirou — É. Bem vindo a Eros Moment.
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