Eroica

1 One-shot


Notas iniciais
Fic para amigo secreto do ~homoclub~, não saiu como deveria, mas eu terei oportunidades de me redimir. Desculpe, Kiri, mas seu ship não apareceu muito, eu realmente não consegui desenvolver como queria, não estava no clima de Máscara da Morte com Afrodite. Estou shippando com o outro (como é perceptível. dsclp). Isso não ficou metade do que eu queria, dsclp de novo, Kiri, foi um erro fazer em três dias. Foi escrita com base no mangá, eu não me recordo se o anime original foi muito alterado, qualquer diferença foi ocasionada por esse motivo.

As pétalas brancas absorviam toda sua atenção naquele instante, embora tivesse a consciência de que, em breve, não teria tal oportunidade. Ali, o veludo como neve, que o tempo logo trataria de corroer – não se tratava uma rosa sangrenta, afinal, somente uma rosa –, apresentava-se como um deleite passageiro.

Uma rosa branca.

Devoção.

(Não no Ocidente, no Japão, claro, mas era a interpretação que mais se identificava.)

Exatamente o que possuía por aquela pessoa.

A paz só poderia ser alcançada com alguém que detivesse um imensurável poder, fracos caem pelo caminho, são enganados por inimigos e perdem tudo aquilo que um dia foi conquistado. Um bom coração pode ser falho e levá-lo à morte, fraquezas humanas podem colocar em risco maiores glórias. Algumas vezes, a morte de alguns é necessária para a manutenção da paz. Por isso, somente alguém poderoso o suficiente conseguiria manter a ordem – semelhante aos deuses, pois, não era assim que mantinham o domínio sobre a humanidade?

Ele sabia qual lado escolher.

Nunca pensara que a justiça fosse doce. Bela, talvez (ao menos para ele), mas o sabor que deixava nos lábios nem sempre seria agradável. Alguns possuíam a tola ideia de associar o agradável aos olhos com benéfico ou prazeroso ao corpo, ou às crenças. Não funcionava assim, é preciso ter perdas menores quando se anseia por algo grande.

(Não hesitar.)

Foi o que encontrou em Saga, se ele pôde usurpar o posto era porque o merecia. Porque superou o que já estava ultrapassado, no sentido mais literal possível, representava um novo sopro de vida. Ele atendia suas expectativas em vários aspectos, seus padrões não ditos.

A admiração logo tornou-se devoção. Como uma fonte silenciosa dentro de si, discreta, que regou sua inquietação, o desejo em agradá-lo, de provar sua própria força. Não um desejo carnal, o que sentia não poderia ser reduzido à vontade humana de ser possuído ou de possuir (nos diversos sentidos existentes do termo), nem mesmo no sentido mais romântico. Quem sabe, fosse temor também, pela consciência do que Saga era capaz, e de seu lado mais cruel para a obtenção do que almejava. Era como alguém que fascina-se com um deus.

E cega-se por suas convicções e veneração.

(Como ocorre a qualquer um.)

Afinal, não fora escolhido por ser perfeito. Nem ele, nem qualquer um ali.

— pensamentos que ainda não se manifestavam, conclusões distantes –

Afrodite de Peixes era detentor de inestimável beleza. A beleza conhecida por todos, a física, aquela que apaixonava à primeira vista, que ocasionava suspiros e olhares demorados. Além de relativa (embora pudesse ocasionar disputas e mortes – somente os mitos da Grécia antiga possuíam uma coleção para escolha pessoal), modifica-se de acordo com a cultura, não era a única existente.

Alguns enamoravam-se pela inteligência, pelas virtudes – ah, o bom coração humano – pelas danças, pela graciosidade das coisas. Pelo poder e força. Entre preferências como estas, e outras, não tornara-se narcisista, não no sentido comum. Sua referência e padrão eram outros; o que lhe agradava não poderia resumir-se tão pateticamente à perspectiva popular. Não significava, todavia, que não apreciasse o belo em sua forma física, apenas não permitira ser controlado por ele. Ou o aplicava no que lhe possibilitava maiores vantagens.

Considerava o poder belo, bem como a justiça; ambos, contudo, sob seu julgamento. Aparentemente, alguns jovens discordavam dele; não fosse assim, não estariam subindo as escadas para tentarem derrotar o Grande Mestre.

Tolos.

Ele é invencível.

Vocês irão morrer.

Aspirou o perfume da rosa, não como um ritual para acalmar-se, tudo não passava de um capricho, apego com o que passara anos submerso. Sua arma, seu ego. Sua beleza.

Ah, você também não concorda.

Recordou-se da pequena figura de cabelo lilás e grandes olhos verdes, rara beleza, uma mente fantástica, amável e educado. Afeiçoara-se a ele, cultivara uma amizade como cuidara de suas rosas. Mesmo assim, nada disse quando o fato ocorrera, nem mesmo depois, nenhuma palavra, nem mesmo mostrou perceber a angústia no pequeno cavaleiro ao notar as diferenças. Justiça estava acima de amizades, assim como o Grande Mestre.

Amizade, também, não poderia compreender-se como pessoas de fora o fariam – na verdade, talvez não houvesse nada ali que poderia, eles treinavam desde crianças, sob circunstâncias horríveis e controversas, tudo em busca do melhor. As relações humanas que tivera, os laços e sentimentos, tudo deveria ser entendido através de uma lente da realidade que vivia.

Ainda muito jovem recebeu sua armadura, como outros no Santuário. Uma criança que já possuía a responsabilidade de lutar pela paz na Terra, soaria absurdo a um desconhecido. Eles aceitaram, treinaram e defendiam aquilo o que acreditavam. Por isso estava ali, caso os visitantes chegassem até a última casa.

Trabalhar com a possibilidade, entretanto, soava risível. A diferença entre cavaleiros de ouro e os outros era enorme, como uma batalha cujo resultado parecia óbvio, ainda que nem todos fossem conscientes de tudo o que envolvia e desconhecessem a verdade sobre o Grande Mestre.

Especificadamente Afrodite e o guardião da casa de câncer – Shura havia sido motivado por outras questões.

Suas personalidades em muito destoavam uma da outra, havia, porém, detalhes que os aproximavam. Ambos poderiam ser perversos quando queriam, a crueldade pode habitar alguém venusto, assim como toda aquela personalidade sádica de Câncer poderia ter um lado estúpido – e sem limites para sua natureza sanguinária, sem objetivos claros como os seus. Todavia, teria de ser muito petulante para resumir indivíduos a duas ou três características – as mais evidentes –, ainda que tenham crescido em um ambiente um tanto quanto diferente, eram indivíduos mais complexos do que uma batalha poderia revelar – mas ele não se importava com o que seu inimigo pensava, ele não possuía tempo para isso, muito menos disposição.

Fazer-se entender requere demasiada benevolência, provavelmente teria de compreender o outro lado e, definitivamente, aquilo não estava nos requisitos para continuar a ser um cavaleiro de ouro. Não com o atual Grande Mestre.

Se o inimigo não entende suas razões, não importa.

Ele irá morrer.

Uma pétala tocou o chão frio, sem nenhum motivo, a rosa parecia morrer. Em seguida o desaparecimento definitivo do cosmo de Máscara da Morte.

Uh, então ele perdeu para os cavaleiros de bronze.

Não ficaria em prantos sobre o que ocorreu, não tentaria compreender o motivo do desfecho ao ponto de enlouquecer-se e jurar vingança – dramas e cenas exageradas não condiziam com quem era. Não estava, porém, a ser indiferente, frio e distante de quem se relacionava (adjetivos estes que se aplicavam melhor a outro cavaleiro). Estava a ser racional, sentia pelo ocorrido, mas não podia permitir-se ser levado por emoções.

Não hesitar no que deveria ser feito.

Além disso, sua devoção era reservada a outra pessoa.

Parecia-lhe, porém, interessante concluir que, em uma das últimas vezes que encontrara com Câncer, havia sido para outros fins, menos formais, mais humanos. Em uma situação bem melhor do que entre os rostos na quarta casa – um troféu sem formosura não possuía valor, mas Máscara da Morte não seria o melhor exemplo de bom gosto que encontraria.

—**-

Passou o indicador pelas costas bronzeada devido às lutas, embora fosse naturalmente morena. O suor escorria pela pele, tornando cada movimento mais sensual do que realmente era. Nos minutos de silêncio, durante (e após) atos como aquele, Máscara da Morte parecia melhor do que era, sem expressar suas preferências questionáveis.

(Muito questionáveis, e ele nem se referia ao extremo instinto assassino sádico, mas a falta de tato para harmonia.)

Endireitou o corpo, as mãos indo para a cintura até resolver utilizar uma delas para colocar os belos fios azuis, que caíam em sua face, para trás. Seu torso bem cuidado, ainda que cicatrizes dos anos de treinamento o marcassem (sua tez branca amenizava o efeito), compatibilizavam com o cabelo longo que caía como natural adorno – mais belo do que joias, mais sedutor do que perfumes.

Como uma rosa.

Provocou-o, em uma lentidão torturante para ambos, os quais àquela altura não pediam por delongas. Um capricho. Apenas quando o ouviu reclamar é que resolvera que era hora de mover-se, o preferia em gemidos. Apertou as mãos no quadril, satisfeito pelo serviço que fazia – Afrodite mostrava-se plenamente capaz de realizar desde missões, até atos comuns e íntimos, fosse qual posição assumisse.

E cumpria tudo com deslumbrante elegância.

Não, não estava usando Câncer, ninguém ali estava somente a aproveitar o outro para suprir desejos libidinosos. Eram adultos, sabiam o que significava atrações como aquela – e teria de ser muito ignorante para não perceber que a atenção de Afrodite indicava outra pessoa. Mas relações sexuais nem sempre estavam ligadas ao amor, ou a sentimentos de amizade, companheirismo; assim como era possível desejar estar perto de alguém sem desejar por sexo.

Os gregos antigos possuíam mais de um termo para o amor. Ele não ousaria dizer que sentia com o conceito moderno do sentimento, por ninguém. Quem sabe a paixão, o desejo primitivo, tempestuoso, em oposição à adoração, apego, obediência.

Era fascinado.

E, pelo outro, conservava o laço íntimo de amizade.

Quando finalmente atingiram o prazer esperado, não se despediram e caminharam em direção oposta, não fizeram comentários ácidos sobre qualquer assunto. Também não se abraçaram carinhosamente, aconchegando nos braços do outro, com trocas de beijos e carícias. Não. Eles riram, como velhos amigos após qualquer diversão juntos – claro, o riso de Afrodite muito mais suave, em contraste com o tom exclusivamente colérico de Máscara da Morte –, sem estardalhaço. Uma apreciação, uma forma de concordar que havia deleitante para os dois.

Ah, a afinidade.

—**-

Deixou a flor em um canto ao sentir que Shura também havia perecido – as próximas rosas que tocaria seriam letais. A morte sempre fora próxima deles, exigia muita ingenuidade para cogitar viver por longos anos sem nenhum problema naquele contexto; ainda assim, a sucessão dos fatos recentes não deixava de surpreender.

Somente a casa de Aquário o separava de quem quer que tentasse passar por sua casa, o significava que, em breve, ele precisaria eliminar vidas. E as eliminaria, como cavaleiro que era, cuja função era proteger o Santuário, aquele que estava sob controle do Grande Mestre. Em busca da realização do que tinha por justiça, sua paz no mundo.

(Porque isso era o esperado dele.)

Além de ser motivado por suas próprias convicções, as expectativas do Grande Mestre não envolviam nada menos.

Assim, saiu do interior da casa, caminhando até sua entrada com calma, sua aura com nuances aristocrática, bem como sua postura e gestos quanto em sua face. A rosa nos lábios, a marca de beleza próxima dos olhos, ao aguardar no alto das escadarias de Peixes, sua androginia atrairia a atenção de muitos em uma conjuntura normal.

Verdadeiramente, um cavaleiro cuja beleza brilha entre o céu e a terra¹.

E, mais do que beleza, sua força. Afrodite poderia ser associado às mais belas figuras mortais de contos e lendas, pois era como se apresentava: alta formosura e habilidades mortíferas igualmente superiores. Como um veneno encontrado em suas rosas, ludibriava com a perfeição para tomar a vida de qualquer um.

Exatamente o que esperava aqueles que se dirigissem à última casa.

Tolos.

Como ousavam atentar contra a soberania do Grande Mestre?

Poderiam ser cavaleiros de bronze, mas possuíam grande petulância. Insanos não chegariam até ali, loucuras ocasionadas por pura emoção não possibilitariam derrotar cavaleiros de ouro – fosse tirando-lhes a vida ou convencendo-os de sua perspectiva. Ainda assim, era seu dever impedi-los, não importava a ousadia nos atos, ou a surpresa causada, teriam de defender suas posições na batalha.

Seus princípios.

O que encontrou, todavia, não foi o que um dia poderia ter cogitado.

Determinação, de fato, era incrível. Mesmo quando nascida da ingenuidade.

E quando se possui apego ao que defende, e o que isso envolve, torna-se diferente.

— como o próprio Afrodite fizera até ali –

A primeira vez que usaria aquela técnica.

A última técnica que desferiria.

Sua última rosa.

Ela se tornaria vermelha.

Tingida em sangue, regada com a vida de seu hospedeiro.

A flor saiu de sua mão, cravando-se no peito de seu oponente, enquanto Afrodite caía à frente primeiro. Não precisava, porém, ver para saber o que viria a acontecer, ele estava no fim de sua vida, mas também tomaria a de Shun de Andrômeda – e, mesmo que aqueles jovens fossem além, de nada adiantaria, não seriam capazes de derrotar quem desejavam.

Ficara verdadeiramente impressionado, havia sido uma batalha melhor do que considerara no início. Viu, por fim, que não era por menos que chegaram até a décima segunda casa. Aquele rosto delicado, de aroma gentil, escondia grande obstinação, ocultando a real força. Não, não era proposital, não pretendia enganar seu oponente, tratava-se de outras convicções.

— semelhante a você, não é, Cavaleiro de Áries? –

(mas ainda diferente)

Durante os anos que se passaram, as perdas sentidas e a saudade não dita, permitiu que certas amizades não mais fossem como antes. Uma lástima. Ainda assim, nada mudou o carinho que um dia possuiu. Mesmo quando duas ideias chocam-se, e torna-se necessário a escolha de somente uma delas, não há completa exclusão da outra – é possível preservá-la dentro de si, reprimida para melhor realização da escolhida.

Afrodite acreditou em seu conceito de justiça, seguiu-o, não pôde ser um bom amigo como deveria (como poderia) devido a isso, mas não deixou de estimá-lo.

Justiça estava acima de amizades, o caminho escolhido para sua realização também.

Seria aquilo o que as pessoas pensam ao sentirem a morte? Não lamentava dramaticamente sua vida, tudo não passava de sussurros de sua mente, recordando-se de momentos perdidos no tempo, bons e maus, antes de levarem-no até onde estava. Se arrependimento exigia querer mudar o passado, então, ele não estava arrependido.

Ah, a diferença entre ter verdadeira confiança em seus princípios e somente ser levado pela emoção do momento, iludido por sonhos e fraquezas. Eis que percebia que, verdadeiramente, acreditava em todas suas palavras.

— Devoção—

Coberto de rosas, flores tão íntimas de si que seria difícil já não associá-lo a elas, não poderia impedir seus espírito de seguir para o submundo – onde outros já se encontravam. Uma realidade mórbida que o acompanharia por um tempo que ele não poderia ter ciência sobre. Seu corpo apodreceria durante os próximos dias, e tudo o que considerou belo se dissiparia, como espuma no mar – bela e passageira.

Ah, a deusa Afrodite lhe agraciava com algo mais além do nome.

Notas finais
1. Essa descrição é feita pelo próprio Kurumada no mangá. 2. Sim, Afrodite seme do Máscara da Morte. 3. O título se refere à terceira sinfonia de Beethoven, cujo segundo movimento é uma marcha fúnebre.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!