Erase This
114 Say
Notas iniciais
Boa Leitura *-*
T
Take all of your so called problems,
Better put 'em in quotations.
Acordei com os raios de sol que entravam pelas frestas da janela, digamos que a noite no meu quarto em Los Angeles sempre seria um tanto estranha... Sai da cama me espreguiçando e agradecendo por não ter que arrumar os lençóis e edredom desarrumados.
Rumei ao banheiro e sem pensar duas vezes arranquei a roupa e fui para debaixo de uma ducha fria, eu adorava férias de verão por isso, tomava banho gelado sempre e me sentia revigorada após o choque matinal que recebia em minha pele por conta da temperatura baixa.
Vesti as primeiras roupas frescas que encontrei pela frente e penteei os cabelos antes de descer as escadas, parei por um momento no hall de entrada concentrando em me lembrar onde Angélica disse que era a sala de jantar.
– Srtª Anabelle! Está com problemas para andar pela casa? – Clair apareceu feito um fantasma e eu tomei um susto com sua presença.
– Nossa, você me assustou... – ri brevemente. – Chame-me apenas de Belle, e sim, estou com problemas. – balancei os ombros e ela sorriu doce.
– Deve estar procurando pela sala de jantar onde servem o café da manhã certo? – afirmei com a cabeça. – Bom, hoje como exceção, a mesa do café foi montada na área externa, seu pai voltou de viagem e pediu por isso. – meu coração parou por um momento, eu finalmente veria meu pai após tanto tempo.
– E onde fica exatamente? – ela pousou a mão sobre meu ombro delicadamente.
– Pode deixar que eu te levo.
Assim ela foi me guiando, passamos pela porta de entrada depois tomamos o lado esquerdo da varanda e partimos por ali, passamos por um breve caminho entre belas árvores e jardins e finalmente chegamos ao que parecia ser a mesa que havia sido montada. Estava localizada perto de grandes macieiras.
Quase travei quando o vi ali, ele conversava com Angélica e os dois riam, se entreolhavam com tanta paixão que era difícil esconder o sentimento que havia ali. Meu pai não tinha mudado nada, continuava com os mesmos cabelos escuros e os olhos num tom de verde acinzentado que era praticamente único no mercado...
– Anabelle? – meu nome saiu feito indagação de sua boca e eu apenas corri e o abracei fortemente.
Respirei fundo sentindo seu perfume caro me preencher e lutei para não desatar em choro, era bom abraçá-lo novamente, eu que sempre tive uma conexão tão forte com meu pai me sentia quase que completa ao seu lado... Ao final eu sempre sentira mais falta dele do que Mad ou mamãe naquela casa, sentia sua falta porque de alguma forma éramos completamente iguais.
– Senti sua falta minha menininha... Como você mudou! – nos afastei rapidamente e ele passou a mão por meus cabelos praticamente não acreditando no que via.
– É faz um tempo já... – murmurei cheia de rancor e fui arrebatada por um enorme sorriso que surgiu em seu rosto.
– Fico feliz que esteja aqui. – assenti sorrindo de volta e me virei para sua namorada.
– Bom dia Angélica! – a cumprimentei e tomei meu assento.
– Bom dia Anabelle. – respondeu-me sorrindo.
Parei por um momento olhando a mesa cheia de guloseimas, imaginei que seria rude de minha parte atacando tudo que havia por ali e fui obrigada a reprimir uma risada imaginando todos os meninos aqui, só Matt acabaria com tudo isso em um minuto.
– Então Ana, sua mãe não me explicou direito o motivo de você querer vir para cá de repente... – minha espinha congelou, por um momento mantive os olhos presos no dele antes de finalmente responder.
– Apenas um garoto pai. – murmurei sem querer prolongar o assunto e ele estreitou as sobrancelhas enquanto eu pegava uma uva e enfiava na boca.
– Ele te fez algo? – engoli o alimento e instintivamente fechei as mãos em punho.
Brian e Sam vinham em minha cabeça, o primeiro com mais força devastando toda muralha que havia construído para não ter que pensar na noite frustrante ao seu lado. Já o segundo causava a mesma dor de sempre abrindo um buraco em meu peito e fazendo com que as feridas quase cicatrizadas se abrissem de novo.
– Ele morreu. – expirei com força, e inspirei com raiva, eu tinha que me controlar, nenhuma lágrima poderia cair.
O clima se tornou tenso e eu podia perceber que meu pai não sabia muito bem lidar com a dor dos outros, porém a famosa frase dissipou-se de seus lábios:
– Eu sinto muito Ana. – disse por fim antes de voltar atenção ao copo de suco de maracujá.
Enquanto isso eu mastigava uma torrada com geleia ainda me lembrando mentalmente de não chorar, apesar de ter certeza que após dar as costas aos dois e ter algum lugar privado eu provavelmente desabaria.
– Eu e seu pai estávamos pensando em passarmos o dia os três juntos, podíamos visitar alguns lugares da cidade... – repentinamente olhei para Angélica ela possuía um lindo sorriso no rosto e agora eu entendi porque meu pai havia se encantado pela moça.
– Na verdade Angélica planejou tudo. – interferiu o velho e ela lhe lançou um olhar repreensivo.
– Seria legal. – admiti tomando um gole do suco de abacaxi em meu copo.
– Certo, saímos após o café então! Prepare suas pernas garotinha, nós vamos rodar LA inteira...
Por um momento eu me amedrontei com suas palavras, havia acabado de chegar e já seria torturada numa caminhada? Imaginei que pessoas ricas usassem carros para irem aos lugares. Resolvi esquecer o assunto e me concentrar a comer um pedaço de bolo de chocolate que estava magnífico.
Após o café fiquei esperando na varanda enquanto papai resolvia algumas coisas e Angélica trocava de roupa, não que ela fosse aquele tipo de madame que troca vinte vezes por dia de roupa, mas devo encarar que seu vestido floral longo não estava apropriado por um passeio casual por LA, além de meu pai ter encrencado com o tamanho do decote.
– Hora de irmos mocinha! – Fillipe apareceu já com o carro em frente a entrada e prontamente desceu para abrir a porta para mim.
– Você que vai nos leva? – perguntei irradiante, já gostava do motorista.
– Sim!
Logo Angélica e meu pai chegaram os dois se acomodaram no amplo banco de trás do carro junto comigo. Seguimos por várias ruas até que Fillipe estacionou diante de um grande museu, revirei os olhos pensando se isso era chamado de diversão por aqui.
Adentramos no local, todo decorado por obras, obras que de fato eu nem sabia o nome não eram famosas... Não me levem a mal, eu nunca fui uma pessoa sem cultura, mas digamos que nunca me dei bem com a arte que envolvesse tintura ou desenhos.
– Essa pintura foi realizada em 1863 quando... – me obriguei a desligar os ouvidos para o instrutor.
E continuamos o tour, por dizer... Horas talvez? Não sei, só sei que Angélica percebeu minha impaciência e sussurrou algo no ouvido de meu pai, depois sorriu e se dirigiu a mim.
– Está a fim de sair daqui? – perguntou baixinho e eu acenei com a cabeça. – Então vem!
Ela me puxou e eu obviamente a segui, andávamos calmas por entre as obras, porém quando chegamos fora do museu saímos feito duas loucas desvairadas, ao final acabei percebendo que Angélica era muito legal, porque me diga qual madame que correria pelas escadas do museu apenas para se afastar dali o mais rápido o possível?
– Seu pai tem cada ideia às vezes... – murmurou ofegante assim que pegamos o primeiro táxi que parou.
– Então você também odeia museus? – perguntei rindo enquanto ela dava as instruções do local para o motorista.
– Se eu odeio? Nossa aquilo é um tremendo tédio, só seu pai que é lunático por ver obras e mais obras. – ela encostou a cabeça no banco. – Estamos indo pra um parque que tem aqui perto, não é algo grandioso, mas creio que vai se divertir mais do que no museu.
Sorri para ela realmente apreciando sua preocupação em me agradar, e eu estava aprovando tudo isso, afinal, se não fosse por ela eu teria continuado dentro do maldito museu.
Em poucos minutos chegamos ao local, ela pagou a corrida enquanto eu continuava olhando os grandes portões abertos do parque... Realmente não era algo grandioso, parecia mais com aqueles parques antigos de filme de terror, apenas tirando o fato de que nenhum dos brinquedos estava enferrujado e nada parecia sombrio.
– Entusiasmada? – perguntou a mulher em meu ouvido e eu apenas movi a cabeça num “sim” mudo.
Senti sua mão sobre meu pulso ao mesmo tempo em que me guiava aos primeiros passos. Já fora do choque resolvi escolher qual brinquedo enfrentaria primeiro, tinha uma pequena montanha russa em forma de centopeia, uma roda gigante, carrossel e carrinhos de bate-bate, também tinham outras atrações como tiro ao alvo e jogos parecidos.
– E então já escolheu em qual vai primeiro?
– Acho que vou começar pela montanha russa. – ela assentiu e então fomos juntas para a fila.
Eu não estava com medo, até porque o brinquedo não era muito alto e nem parecia perigoso. Angélica sempre fazia algum comentário engraçado me fazendo rir e chegou a contar sobre quando era criança e que parques assim no Brasil eram muito mais precários.
Finalmente minha vez chegou e eu olhei instantaneamente para a mulher ao meu lado.
– Você também vai? – perguntei indignada, mulheres de alta classe geralmente largavam os filhos em parques como esse e ficavam no máximo 5 minutos debaixo do sol.
– Mas é claro que eu vou, você quer se divertir sozinha? – neguei com a cabeça e então partimos em dupla para um carrinho.
O brinquedo começou a se mover e senti o famoso friozinho na barriga quando estava prestes a despencar nos trilhos, montanha russa trazia uma sensação ótima, o vento se espalhava em meu cabelo e ao invés de gritar como os outros eu sorria, sorria como nunca. Soltei um muxoxo quando o brinquedo deu sua última volta e parou.
– Gostou? – perguntou Angélica enquanto saíamos, ela prendia os cabelos num coque.
– Adorei! Agora podíamos ir ao bate-bate! – ela assentiu e andamos ao outro brinquedo que possuía uma fila menor.
Enquanto aguardávamos discutíamos sobre a montanha russa, ela reclamava que o cabelo tinha entrado em sua boca e que a criança de trás tinha gritado tanto que ela pensou que ficaria surda, mas ainda assim, igual a mim ela completava dizendo que montanha russa sempre trazia uma sensação boa.
Nossa vez chegou rapidamente e logo nos aprontávamos cada uma em seus carros.
– Eu vou acabar com você menininha! – comentou em tom de brincadeira semicerrando as sobrancelhas.
– Você vai comer poeira... – aticei e lhe dei a primeira porrada no carro.
Ela veio em minha direção rapidamente e me atirou do outro lado da pista com seu carrinho, rindo segui o trajeto e bati no seu, e ficamos assim, uma batendo na outra até que o tempo acabasse.
– Acho que o placar ficou igual né? – indagou enquanto eu nos guiava a um carrinho de doces e bebidas.
– Creio que sim, mas agora preciso beber algo...
Ela logo sacou o dinheiro e comprou dois refrigerantes um pra mim e um pra ela, ainda fiquei observando atônita enquanto ela dava a primeira golada no líquido, será que nem dieta ela fazia?
– Vamos pra roda gigante? – sugeriu e eu apenas assenti a acompanhando.
Quando já tínhamos entrado em nossa cabine eu parei para relaxar, amarrei os cabelos num rabo e limpei o pouco suor da nuca e da testa com a mão, em LA fazia um calor insuportável.
– Desde pequena a roda gigante sempre foi um dos meus brinquedos preferidos... – iniciou enquanto olhava pela janela.
– Por quê? – perguntei olhando para o mesmo ponto que ela.
– Porque ela demonstra exatamente o que pode acontecer em sua vida, num momento você pode estar no ponto mais baixo, ou no topo. – um suspiro dissipou-se de seus lábios. – O importante é saber que a vida da voltas e mais voltas, e você nunca sabe se estará por baixo ou por cima. – tomei seu conselho para mim.
– Faz sentido... – ela sorriu e despertando de nosso devaneio a porta da cabine se abriu denunciando que o tempo havia acabado.
– Agora o que acha de irmos para a casa almoçar? Depois usar a piscina...
– Ah com certeza, eu preciso de uma piscina agora! – ela riu e saímos fora.
O táxi nos levou depressa para casa e seguimos o roteiro assim como ela tinha falado... Meu pai estava presente no almoço e fez diversas perguntas, se eu tinha me divertido e tudo mais, e não fui obrigada a mentira, na realidade, Angélica era uma ótima companhia.
E um pouco mais tarde quando o sol ainda estava a pino, partimos para a piscina. Papai teve que sair para resolver algo na empresa, porém me diverti ao máximo com Angélica ela era do tipo que não tem medo de estragar os cabelos na água com cloro e adorava dar pulos acrobáticos.
Só sei que quando deixamos a água já escurecia e após o banho eu estava morta, comi uma tigela de sucrilhos com leite e fui para meu quarto... Ficar deitada na cama assistindo TV. Pois é eu tinha uma televisão em meu próprio quarto, não havia coisa melhor nesse mundo.
Estava prestes a dormir quando Clair entrou em meu quarto...
– Sua irmã Madson no telefone. – anunciou e já ia sair...
– Diga a ela que eu não estou Clair, por favor, estou morrendo de sono. – ela manteve a expressão séria por um momento.
– Está bem.
No fundo algo me dizia que eu devia ter atendido Mad, mas meu travesseiro clamava que eu dormisse, e com certeza a segunda opção era bem mais tentadora, por isso acabei por cair nos braços de Morfeu enquanto ouvia um clipe qualquer de música passar na TV.
You better know that in the end
It's better to say too much, than never to say what you need to say again.
Notas finais
Beijos da Shadows ;*
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