\"\"

– Acorda Ana. – ouvi uma voz familiar despertando-me e arrancando o edredom que cobria meu corpo.

– Vamos faltar Mad. – pedi baixinho ainda sem abrir os olhos.

– Nem pensar! Mamãe nos mata, e eu sei que você tem apresentação de um trabalho de história pra hoje. – ela começou a me puxar pelo pé enquanto eu me agarrava inutilmente aos lençóis.

– Não saio daqui nem por decreto! – exclamei forçando os olhos fechados.

– Veremos... — o tom desafiador era presente e não demorou nem mais de um minuto para eu ser arremessada no chão duro. – Quando eu digo para acordar, é para acordar. – deu um sorriso diabólico e foi arrumar minha cama.

– Chata. – murmurei de cara amarrada levantando e observando sua roupa. – Que é isso Mad? Foi pra guerra com essa calça? – perguntei rindo observando o tecido cheio de rasgos.

– Idiota... Você bem que já pegou emprestada essa calça.

– Sim, mas nunca vi essa blusa... Quero emprestada depois ok? – ela assentiu enquanto eu ainda tinha os olhos na regata preta do AC/DC.

– Agora vá se arrumar, eu faço o café. – dirigi-me para o banheiro pegando a escova de dente na bancada.

– Está bem “mamãe”. – revirei os olhos.

– Alguém tem que cuidar da pirralha. – ela lançou um beijo no ar e então a vi desaparecer pela porta.

Já trocada desci as escadas enquanto amarrava o cabelo num rabo de cavalo, segui para a cozinha e lá encontrei Mad jogando panquecas no prato de Matt que aguardava ansioso a refeição.

– Virou restaurante aqui agora? – perguntei arqueando uma das sobrancelhas. – Vou começar a cobrar pela comida.

– Eu não pago porque sou gerente do estabelecimento. – disse ele.

– Nada disso Matt, você paga sim, de outra forma... – Mad o olhou maliciosamente enquanto jogava panquecas em meu prato.

– Ok, pode ficar com minhas panquecas. – entreguei o prato para ela e fingi nojo de seu comentário, os dois riram.

– Como se você nunca tivesse feito uma coisa dessas com o cenoura... – sugeriu Matt enquanto dava um grande gole na coca em seu copo.

– Olha pode até não parecer, mas... Éér... EU NÃO TRANSO LOUCAMENTE OK? Sou virgem! – enfiei o rosto entre as mãos enquanto os dois riam. – MERDA! – sai da cozinha batendo os pés, e sem meu café da manhã.

Acabei abrindo a porta da frente no mesmo instante em que Sam chegava, beijei seus lábios.

– Você sumiu ontem.

– Estava ajudando minha avó com a mudança. – se explicou segurando e balançando minhas mãos nas suas.

– Que mudança?

– Bom, o centro que ela frequenta vai mudar de local... – prendi minha atenção no maldito óculos escuro que ele usava, não estava nem sol para enfeitar o rosto com aquela merda.

– Porque você está usando isso? – indaguei arrancando-lhe o óculos e me preocupando com o hematoma roxo rodeando seu olho esquerdo, além de um corte no supercílio.

– Ana... Eu... – ele murmurava com a voz trêmula.

– Foram aqueles filhas da puta de novo né? Porra Sam, já se passaram três meses! TRÊS MESES!- o sentimento de desespero afogava em meu peito.

– Eu vou dar um jeito ok? – ele me puxou para um abraço.

– Não! Eu já ouvi isso diversas vezes, não quero mais saber desses caras, nem que você tenha que sair da cidade e... – ele não me deixou terminar.

– Vá para a escola com o Brian, mais tarde a gente se fala. – ele me virou e foi me empurrando para onde o outro estava na esquina.

– Não Sam! – reclamei relutante. – Não pense que essa conversa acaba aqui! – exclamei quando estávamos mais perto e eu vi que ele não me deixaria escapar do Haner.

– Ok, eu já sei que a conversa não acaba aqui, mas agora você vai para a escola com ele, e eu vou trabalhar. – fiz um bico protestante, ele beijou minha bochecha ternamente, pegou os óculos de minha mão e começou a andar em direção contrária.

– O que você está fazendo aqui? – perguntei um tanto ríspida para Brian que encarava o céu nublado.

– Não sei. – respondeu confuso chutando cascalhos com o pé. – Comecei a andar sem pensar e acabei aqui. – sorri instantaneamente.

– Não, você começou a andar sem pensar pra praia e parou aqui porque sentiu o cheiro da comida da Mad. – ele riu levando o olhar para mim.

– Pode ser também, mas porque para a praia? – perguntou curioso enquanto eu ajeitava a mochila nas costas.

– Porque quando eu ando sem pensar acabo na praia. – ele sorriu brevemente e eu comecei a andar, sendo seguida por seus passos.

– Aonde você vai?

– Escola. Tenho trabalho de história para apresentar. – bufei desgostosa.

– É, acho que vou pra escola também. – murmurou e pôs – se a andar ao meu lado.

Folhas de outono cobriam em montes em alguns quintais de casa, e rajadas de vento sopravam vagarosas sacudindo os fios rebeldes soltos de meu cabelo, a ponta do nariz já estava congelada e meu estômago gritava de fome, implorando pelas panquecas... O silêncio aprofundava mais ainda o buraco dentro de mim.

Brian sabia preencher essa falta, sabia como restaurar minha alma que parecia mais velha que a quantidade de fios brancos no cabelo de vovó... Mas Brian e silêncio não era uma combinação muito boa, significava que pensávamos demais, e que talvez nos incomodássemos com a presença do outro. Nesse caso, eu abominava o silêncio.

– Tem algo para comer aí? – perguntei desapressando os passos.

– Devo ter algum bolinho amassado, serve? – rolei os olhos pela rua percebendo que não tinha alternativa.

– Dependendo do estado de “amassado” serve sim. – sorri enquanto parávamos e ele fuçava na mochila tentando encontrar o bendito bolinho.

– Aqui ó. – ele estendeu uma embalagem daqueles bolinhos que se vende em mercado, peguei na mão examinando e abri, constatando que não estava tão mal assim.

– Ainda tem gosto de bolo, então acho que tá bom. – admiti depois da primeira dentada. Sentei na calçada e ele se juntou a mim.

– Não esqueci o abraço que você está me devendo... – sussurrou perto de meu ouvido, o bolinho parou em minha garganta.

– Hum. – fechei os olhos sentindo sua respiração próxima de mim e quando os abri novamente o vi me encarando com os olhos encantados.

– Quer uma carona aqui atrás? – perguntou divertido segurando minha mão na sua.

– Ahn... Não sei, eu... – ele me jogou para suas costas sem esperar resposta e levantou.

– Você quer sim. – respondeu rindo rouco e eu enlacei meus braços em seu pescoço enfiando o rosto nos cabelos cheirosos e macios.

O resto do caminho seguiu-se silencioso novamente. Na verdade eu passei a apreciar esse silêncio, pois nele eu podia identificar cada base do cheiro de Brian, sentir os minúsculos pelos se eriçarem em algum movimento que eu fazia, e até mesmo os braços se apertarem em volta de minha coxa como se não quisesse que saísse de lá nunca mais.

Reclamei internamente quando ele me pôs no chão em frente aos portões da escola, encontramos agarrados às grades Jimmy e Johnny.

– Cadê o puto do Zacky? – perguntei me aproximando deles enquanto Jimmy me sufocava em um abraço.

– Deve tá na casa do traveco. – ouvi a voz de Mad atrás de mim.

– Chegamos juntas? – perguntei enquanto ia beijar a bochecha do anão.

– Na verdade não, fui comprar balas lá na esquina com o Matt, chegamos mais cedo. – ela me entregou um saquinho com balas e meus olhos reluziram na variedade de sabores.

– Alguém quer? – ofereci girando o saco na mão e todos fizeram questão de roubar uma, mas certo infeliz pegou a minha preferida. – DEVOLVE A DE IOGURTE BRIAN! – gritei pulando para pegá-la de sua boca, ele tinha a bala presa entre os dentes.

– Vemcápegarana. – a frase saiu embolada, pois ele tinha dificuldade de falar e manter a bala entre os dentes.

– Não! – cruzei os braços em frente ao peito fazendo bico.

– Pare de drama Belle, depois nós compramos mais! – Mad passou o braço por meus ombros guiando-me para dentro da escola.

– Mas era iogurte Mad, i-o-g-u-r-t-e. – ela riu enquanto parávamos em frente a minha sala.

– Agora, você vai entrar e apresentar o melhor trabalho de todos sobre Os Apaches! – virei os olhos.

– Mad só você gosta dessa merda de matéria. – resmunguei enquanto ela me enxotava para dentro.

Sentei no mesmo lugar de sempre, nos fundos, e comecei a cantarolar mentalmente alguma canção insignificante... Logo a professora entrou os cabelos escuros lhe caiam pela face, os olhos estavam rodeados de lápis e a boca num batom roxo... Às vezes aquela mulher me dava medo.

– Hoje temos trabalho dos Astecas para ser apresentado. – começou a dizer com uma voz extremamente irritante enquanto eu remexia na mochila a procura do trabalho escrito.

A apresentação se seguiu tranquila, acabei descobrindo que eu tinha um grupo e os outros três integrantes eram completos nerds que praticamente voltaram ao passado para descobrir a história dos índios... Conclusão, nota máxima em minha média!

O resto das aulas se seguiu monotonamente insignificante, com certeza minhas notas no boletim viriam horrorosas, e as provas começavam na outra semana... Ainda assim, não conseguia me preocupar. No lanche preferi usar um cardápio variado à moda de Zacky.

– Porra! Uma coxinha, dois pães de queijo e meio litro de coca? Tá querendo explodir Belle?- perguntou Jimmy rindo enquanto andávamos até os caras que discutiam com um papel na mão.

– To com fome!

– Isso eu percebi. – ele arrancou a coca de minhas mãos e deu um gole, reclamei, mas depois voltei à atenção para os nomes estranhos que eram proferidos entre Matt e Zacky.

– Crawl Woole é o melhor!

– Crawl o que? – perguntei dando uma mordida na coxinha.

– Woole, o cara que o Zacky acha mais “foda” no basquete. – respondeu Brian que estava encostado num pilar com as mãos nos bolsos da calça.

– Eu acho o do Matt melhor. – disse Mad enlaçando o pescoço do namorado em seus braços, deixando Zacky irritado.

– Tá comendo mais do que eu hoje Belle, a Mad te fez passar fome esse fim de semana? – perguntou rindo.

– Claro que não Z! Ela que é frescurenta e não aguenta ouvir papo de sexo pela manhã. – respondeu minha irmã, mostrei a língua para ela enquanto terminava de devorar o último pão de queijo.

– Realmente você comeu demais hoje. – concordou Syn e eu lancei um olhar zangado para ele.

– Ainda não esqueci a minha bala de iogurte! – ele jogou a cabeça para trás rindo.

– Acho que vou morrer de má digestão por ter comido sua bala...

– Seria bom que morresse mesmo. – virei às costas para ele, mas o mesmo me fez voltar a encará-lo virando-me pelos ombros.

– Sem brigas ok? – a preocupação pairava em seus olhos.

– Eu não estou brigando com você Bri... Na verdade, não muito. Mas é que era bala de iogurte e...

– TÁ BELLE TODO MUNDO JÁ ENTENDEU QUE ERA PORRA DA BALA DE IOGURTE! – gritou Matt, virei a cabeça para encará-lo.

– VAI COMER A MINHA IRMÃ EM UM DOS RESERVADOS E ME DEIXA EM PAZ SEU OGRO! – rebati brava e todos riram, voltei a olhar Syn.

– Posso receber meu abraço agora? Não estou mais sujo de tinta. – o sinal bateu e eu suspirei pesadamente.

– Acho que deveríamos voltar para a sala agora.

– Deveríamos? – perguntou apertando mais meus ombros em suas mãos, assenti e virei começando a caminhar e percebendo que ele não me seguia.

Mais uma bateria de aulas e o segundo sinal do intervalo, mas nesse eu fiquei presa na sala sendo obrigada a responder um questionário de 20 perguntas de ciências... Acabei devorando as poucas balas que restavam no saco que Mad tinha me dado, o último sinal não demorou em vir.

– Você vai ao ensaio hoje à tarde Belle? – perguntou Brian na saída enquanto andávamos em bando para casa.

– Não sei, talvez. – respondi sorrindo fraco e ele se deu a liberdade de passar o braço por meus ombros, não se intimidando quando esquivei com seu toque.

– Vai sim, quero te mostrar uns arranjos novos. – ele sorria animado.

– Talvez Brian... Talvez. – paramos em frente a sua casa.

– Ok, te espero lá.

Sem aviso prévio ele me juntou em seus braços e eu fui obrigada a corresponder ao abraço, abraço que fez o buraco em mim ser preenchido por uma massa compacta de sentimentos... De repente eu sabia o que faltava em mim, era Brian, era ele que faltava.