- ANABELLE ACORDA! TELEFONE! – gritava a mulher em meu ouvido, olhei diretamente para os olhos profundos da enfermeira e tive um ódio gigante pela mesma.

Ainda sem coragem, me apoiei nos cotovelos e saltei da cama, cambaleando e batendo o corpo contra o batente da porta. Quem seria o maldito que me acordava cedo? Antes de partir em direção ao telefone, dei uma olhada no relógio, 11h em ponto, resmunguei e peguei o aparelho na mão.

- Quem fala? – já iniciei ríspida.

- Ana? – a voz do moreno soou aveludada e eu quis morrer, morrer por tal traição.

- Oi. – respondi amigável, mas sem dar corda.

- Então, a Mad precisa de roupas, será que você poderia trazer aqui em casa?

- Ela fugiu né? – perguntei quase que numa afirmação.

- É...

- Está bem, vou fazer uma mala pra ela. Beijos. – desliguei antes de ouvir sua despedida.

Corri as escadas para o quarto da fugitiva e ali comecei a atirar roupas na mala, Mad sabia que eu não dobraria nem nada, e não se importaria também... Terminava de ajeitar a última peça quando admiti as lágrimas que molhavam meu rosto.

Caí sentada em sua cama e solucei pela falta de ar, num minuto e eu sentia todo o peso dos últimos meses sobre meus ombros... Jurava, jurava que podia ouvir a voz de Sam suavemente dizendo “Fica tranquila...”, mas me tranquilizar era algo impossível quando a culpa da traição martelava em minha cabeça, eu nunca amaria alguém do mesmo modo que amava Sam. No fundo eu sabia que não seria capaz de me entregar a alguém novamente.

Enxuguei as lágrimas teimosas com as costas das mãos e levantei, já havia aprendido que chorar não era a solução e a partir do dia em diante eu me reergueria, eu orgulharia Sam e quando perguntassem o que me fez tão forte responderia seu nome... A partir daquele dia eu estaria curada, curada e fechada, fechada para qualquer novo amor, pois mesmo sem ter o ruivo ao meu lado, continuaria comprometida a ele.

Fechei a mochila, a carreguei até meu quarto, lá troquei de roupa rapidamente e prendi os cabelos, no fundo da gaveta de camisetas tirei a aliança que usava com Sam, mamãe havia me proibido de usa-la, dizia que me fazia mal, assim como o colar... Porém agora me sentia bem o suficiente para voltar com os adereços.

Desci a escada já numa postura diferente, minha vontade de me manter firme pelo meu amado transbordava em meus poros, transbordava tanto que eu podia sentir seu sorriso em cima de meus ombros. Passei a mochilas pelos braços e me dirigi a porta, apenas deixando um bilhete para não se preocuparem.

As ruas tinham um aroma fresco, e não era do verão, o sol que irradiava trazia a alegria que há tempos não sentia em meu tempo... Se fosse um pouco mais insana juraria que tinha o falecido ao meu lado, brincando com meu cabelo e fazendo comparações dos verdes das folhas com meus olhos. Sentia até sua proteção, e seu olhar malvado para os pervertidos que me olhavam... Sam vivia em mim e agora eu era feliz por senti-lo tão perto, mesmo que sua matéria estivesse longe.

Estava tão entretida no jogo de core do céu com as árvores que enfeitavam as calçadas que quase passei reto pela casa dos Haners, chegando nela fui recebida pelo Sr. Brian, que notou meu brilho diferenciado.

Ao entrar no quarto corri até Mad a abraçando e acariciando seus cabelos, respirei fundo a apertando forte e sorrindo, minha irmã, uma pedra preciosa que ainda estava sendo lapidada... Separamo-nos e eu tirei o borrado de sua maquiagem com os polegares, provavelmente ela devia ter percebido meu brilho, mas o interpretado de forma errada.

- Olá garotos. – os cumprimentei num aceno enquanto os dois olhavam chocados para mim, Mad me puxou junto ao seu corpo até que sua boca chegasse em meu ouvido.

- O que aconteceu com você garota? – a empurrei para o lado rindo.

- Vai dar um jeito nessa sujeira e depois a gente conversa. – pisquei para a mesma e indiquei a porta do banheiro, que seria seu paradeiro junto à mala.

Acomodei-me melhor na cama e olhei para os dois que continuavam me olhando atônitos, neguei mentalmente o espanto de ambos.

- Que é gente? Perderam a língua? Sou eu a Belle... – admiti os encorajando a um início de conversa.

- Cara você tá... tá... – Brian gaguejava recebendo o riso de Matt.

- Vai babar daqui a pouco guitarrista. – pisquei lhe lançando um beijo e o chamei para se sentar ao meu lado, junto de Matt. – E então, o que me contam de bom?

- O Brian que tem que te conta... – o ogro disse antes de sair e nos deixar a sós.

- Você tá bêbada, tomou remédio a mais ou o que? – perguntou o moreno me fazendo rir.

- Estou sóbria! – exclamei orgulhosa.

- Mas você está, tão diferente... tão Belle, mas não aquela Ana, não sei... – murmurou confuso e eu peguei seu rosto pela ponta do queixo o fazendo olhar para mim.

- Eu resolvi que ficar me lamentando não adianta de nada. – ele sorriu com minhas palavras e se aproximou... me afastei. – Eu vou me reerguer, eu vou viver, eu vou ser feliz... sozinha. – deixei claro a última palavra sentindo um nó na garganta se formar quando vi seus olhos castanhos murcharem.

E então eu tinha matado metade de mim, suas reações tiraram metade da minha alegria, e cedendo ao diabo, ao pecado, o abracei... Não como amiga, mas sim como uma amante vinda de longe, ele deveria entender que aquele era nosso abraço de despedida, não haveria volta e se houvesse então eu entenderia que era Sam abençoando nossos caminhos.

Separei-nos, passando a mão por seus braços e sentindo seu desespero atravessar meus poros, ele estava a ponto de explodir e se fosse, que explodisse ao meu lado.

- Você sabe que não pode fazer isso consigo mesma! – exclamou ríspido.

- Mas essa é uma decisão minha Brian, e como você pode ver, eu estou bem. – o assegurei.

- Não, não! Isso não está certo! — sua voz elevava o tom e numa fração de segundo assisti um soco ser disparado contra o armário. – EU NÃO VOU DEIXAR VOCÊ SE PUNIR, NÃO É JUSTO, NÃO É JUSTO QUE MESMO DEPOIS DE MORTO ESSE CARA CONTINUE TE TIRANDO DE MIM! – gritou alto com os pulmões, avançando em minha direção e me erguendo pelos braços. – POR QUE VOCÊ NÃO ENXERGAR TUDO QUE EU QUERO FAZER POR VOCÊ? POR QUE VOCÊ NÃO ENXERGA QUE EU TÔ AQUI PRA TE AJUDAR? – perguntava desconsolado enquanto eu continuava em espanto.

- Já está decidido! – persisti.

- NÃO! — gritou antes de colar brutalmente sua boca na minha.

E se a batalha em me desvencilhar de seu aperto já estava difícil, pior era a que se inflamava em meu peito, uma parte incitada a sucumbir no desejo e ser dominada na cama de lençóis embolados, enquanto a outra gritava ensandecida “traição”, milhares de vezes a palavra se repetia em minha cabeça. Perturbada pela voz racional o empurrei fortemente e quando estava liberta lhe transferi um tapa no rosto.

- Você não tem o direito de fazer isso! – esbravejei.

- Quer saber? Eu estou cansado dessa história, com tanta mulher no mundo eu fui escolher a mais complicada. Se você não me quer, tem quem queira, eu não vou mais te esperar Anabelle! – as palavras cortaram de fora a fora meu inútil coração e contrai em desespero.

- Que bom que entramos num consenso. – bati mão sobre a roupa guardando o choro que queria passar.

Por algum motivo meu corpo não conseguia simplesmente se retirar o quarto e quando senti a proximidade de seu corpo, esquivei e andei até a porta, tendo sua mão sobre meu braço.

- Nossa história é longa... – sussurrou baixinho encostando seu peito em minhas costas. – Eu não seria capaz de desistir de você. – admitiu mais para si mesmo, recebendo meu sorriso. – Mas as pessoas cansam, e te ver assim dói mais do que te ver com outro cara.

Ele me virou em seus braços e quando percebi já estava prensada contra a parede, a respiração ofegante e os nervos ligados na sua próxima ação.

- Você está livre Brian, livre para fazer o que quiser, não persista no erro se você sabe que nunca me conseguirá. – liberei as palavras numa mentira em que eu estava disposta a acreditar, e para ter efeito eu precisava que ele acreditasse nisso.

Desviei de seu corpo seguindo até a porta e mais uma vez sua mão rodeou meu braço.

- Você sabe que não acabou... nossa história não acaba assim Anabelle. – sussurrou em meu ouvido me estremecendo antes de deixar-me intacta no mesmo lugar e sair do quarto primeiro que eu.

Meu estado de choque era maior do que qualquer sentimento, eu estava sem cabeça para pensar, sem coração para sentir, mas a verdade é que por dentro eu me sentia mais morta, e então eu entendia que parte do meu problema de dependência tinha o nome de Brian, e se esse era um dos problemas eu o acabaria. Respirei fundo e segui para o corredor, esbarrando em Matt que devorava um pacote de bolachas e sorriu com os dentes sujos para mim.

- Avisa pra Mad me ligar, tô indo pra casa. – ele assentiu e eu segui até a saída.

O caminho foi rápido para a casa, andei quase voando, talvez por medo de encontrar o moreno nas ruas. Usaria essa noite para resolver o que seria de mim, e como eu me reconstruiria.

Não era fácil estar sem Brian, e sem Sam, eu basicamente dependia dos dois e acabei percebendo que para ser alguém precisava me tornar independe, independente de qualquer amor, amando-me primeiro acima de tudo... Esse era meu novo projeto: Projeto Independência.