Eram 7 Horas em Setealem

1 Eram Sempre 7 Horas, Porque?


Notas iniciais
Espero que gostem do capítulo.

Los Angeles — USA

Quarta-feira 5:30 AM

Eram 5:30 da manhã e Sam não conseguia pregar seus olhos desde as 11:00, hora que deitou-se naquela pequena cama de solteiro para descansar e conseguir trabalhar com eficiência no dia seguinte, mas a única coisa que conseguiu foi ficar rolando naquele pequeno espaço até de madrugada.

O dia anterior fora extremamente cansativo com todas aquelas horas de trabalho, contando com as 2 horas extras que seu chefe havia estipulado para ele pagar caso quisesse subir de “status” naquela empresa.

Sam sabia que o comportamento do seu chefe era abusivo com ele, mas mesmo assim queria ficar com seu emprego, mesmo se sentindo exausto, pois tinha se esforçado muito para conseguir uma vaga naquela empresa e ainda dentro da área que havia se formado: contabilidade.

Novamente seus olhos miraram o pequeno relógio digital que se encontrava em cima do antigo criado mudo que herdou de sua falecida avó materna, uma mulher bondosa que o criara desde que sua mãe mudou-se de cidade após o nascimento dele. O relógio marcava 7h, hora que deveria levantar, mas parecia que seu corpo havia virado gelatina de tão mole que estava.

“Será que estou ficando doente?” pensou se sentando na cama e esfregando seu rosto com ambas as mãos, uma tentativa falha de espantar o cansaço.

Com muito esforço, Sam se dirigiu ao banheiro, um pequeno cubículo com paredes revestidas com pequenos azulejos azuis claros e chão com azulejos antes brancos, mas que agora se encontravam encardidos por conta do tempo e a falta de cuidado do funcionário de limpeza daquele hotel barato.

O jovem mirou seu reflexo no único espelho do local e assustou-se com as enormes olheiras que havia debaixo de seus olhos castanhos escuros, passou novamente as mãos em seu rosto para espantar o sono e mirou-se mais uma vez. “Essas horas extras não estão me fazendo bem” constatou ele olhando para o estado deplorável que se encontrava: olhos baixos com olheiras escuras mostrando-lhe todo o cansaço, ombros para baixo, lábios secos e cabelos oleosos por falta de tempo para lavá-los.

Sam deu um alto e cansado suspiro enquanto tirava suas roupas para em seguida entrar debaixo da água morna do chuveiro e mais uma vez suspirou, dessa vez o suspiro era de total deleite. Aquela água morna era como um abraço, um abraço aconchegante que fazia seus músculos tensionados, por ter que ficar sentado por longas horas em uma cadeira dura para trabalhar e pelas noites mal dormidas, ficarem relaxados.

Já no quarto, após fazer sua refeição e toma-lá lentamente, Sam vestiu seu terno e ajeitou seu material de trabalho para aquele dia, o que não era muita coisa, pois naquela quanta teria visita de um grupo árabe aliado a empresa, então sairia mais cedo. “Graças a Deus” pensou ele dirigindo-se a porta do apartamento e a abriu.

O corredor do seu andar estava estranhamente silencioso e frio. Sam olhou para os lados de forma desconfiada e mirou seu relógio de pulso: 7:00.

— Que? — Sam pensou alto enquanto apertava seus olhos e sua testa mostrava leve enrugação. Com os dedos indicador e médio, o contador deu leves tapas no relógio para tentar fazê-lo funcionar. — Merda! — Murmurou desistente e resolveu deixar aquele problema para depois.

A passos ligeiros, andou até o elevador e apertou o botão para que o elevador viesse para seu andar e rapidamente as portas abriram, novamente a expressão confusa estampou o rosto dele, pois aquilo era incomum de acontecer naquele prédio. O elevador era velho, velho até demais, as portas demoravam, no mínimo, 1 minuto para se abrirem totalmente quando o elevador chegava.

“Bom, talvez tenham consertado” pensou ao entrar no elevador e calmamente apertar o botão para a garagem.

E pela segunda vez no dia, seus olhos miram seu reflexo. Sam não se achava feio, mas também não se achava um galã de filme americano. Tinha 1,80 de altura, corpo magro, olhos castanhos escuros, cabelos loiros escuros e pele branca, mas que agora parecia mais pálida por conta do cansaço.

No meio do percurso o elevador parou bruscamente levando Sam a cair pela falta de equilíbrio que o movimento brusco daquela caixa grande de metal lhe deu. Ainda assustado, ele levantou lentamente enquanto segurava o corrimão do elevador.

As luzes piscavam rapidamente, como se estivesse tendo um curto circuito dentro do prédio, o elevador tremia de forma violenta como se fosse cair a qualquer momento e o ponteiro que indicava os andares se movia de um lado para o outro rapidamente, como se o elevador estivesse passando por todos 15 andares de uma forma absurdamente rápida.

Sam, em desespero, começou a gritar alto ao mesmo tempo em que tentava apertar o botão que abria as portas e em algum dado momento ele conseguiu esbarrar um de seus dedos no botão fazendo com que as portas abrissem.

Para o espanto de Sam, o elevador realmente passava pelos andares em uma velocidade que aquela caixa pesada de metal não poderia aguentar, era impossível, completamente inacreditável. “Eu só posso estar sonhando” pensou ele com o rosto espantado.

E após vários minutos, que para o contador pareceu horas, as portas se fecharam de forma brusca, os cabos fizeram um estalo alto, como se estivesse se partido, as luzes desligaram, o elevador deu um parada brusca e novamente seu corpo foi ao chão.

Com as mãos trêmulas e respiração descompensada, Sam agarrou o corrimão, mas se manteve ajoelhado enquanto tentava enxergar em qual andar o elevador havia parado, mas naquela escuridão era impossível.

Novamente as luzes começaram a piscar e Sam pensou que tudo iria ocorrer de novo, mas para sua sua surpresa as luzes param de piscar e o elevador voltou a funcionar de forma correta. Seus olhos foram para o indicador de andares e constatou que estava perto do andar da garagem.

Lentamente, Sam levantou-se, arrumou seu terno que se encontrava meio amassado e pegou sua maleta, ainda com as mão trêmulas, que estava a alguns centímetros de seus pés. Seus olhos miraram a porta de metal e inspirou lentamente pelo nariz e expirou pela boca, repetindo por mais algumas vezes até se acalmar.

Quando as portas abriram, Sam saiu correndo desesperadamente em direção ao seu carro; deveria estar muito atrasado para o trabalho por conta daquela loucura que houve dentro do elevador. Já dentro, Sam ligou o carro e olhou para o relógio do próprio automóvel: 7h.

— Mas o que?! — Falou exasperado.

Sam agarrou o volante com ambas a mãos, esticou-se para trás e suspirou fechando os olhos e inclinando a cabeça para trás. “Hoje não será um dia bom, com certeza” pensou ele cansado.

— Ok, são coincidências. Coincidências acontecem, certo? — Falou para si mesmo enquanto ajeitava-se para conseguir chegar ao trabalho a tempo. — Bom, eu olho nos relógios da cidade mesmo. — Disse por fim saindo da garagem.

…

Fazia bastante tempo que Sam estava dirigindo pelas ruas de L.A, ele olhava para os lados estranhando a movimentação estranha que estava sua cidade natal, ou melhor dizendo, a falta dela. Não havia uma alma viva transitando, nem carro ou ônibus, apenas ele e aquele silêncio perturbador.

Respirando fundo, Sam mirou pela vigésima vez o relógio do carro: 07:00. “Mas que merda!” pensou ele batendo no volante do carro. Ele estava completamente perdido no tempo e não adiantava olhar para os relógios da cidade, TODOS marcavam 7 horas em ponto, como se por algum motivo estivessem quebrado ao mesmo tempo.

Desistente sobre saber que maldita horas eram, Sam ligou o rádio na estação que sempre costumava ouvir quando estava no caminho da empresa, estava precisando relaxar e nada melhor que uma boa música para fazê-lo.

— Olá moradores de Setealem. — Sam automaticamente enrugou a testa e apertou os olhos, claro sinal de dúvida. “Setealem?” — Hoje o dia está calmo e com um céu maravilhoso. Além disso temos um visitante inesperado. — Nesse momento a respiração de Sam trancou na garganta. “Meu Deus, o que ta acontecendo?” — Devemos dar boas vindas e mostrar que somos ótimos anfitriões à ele, não é todo dia que as recebemos, não é mesmo? — A cada palavra do locutor, que na opinião de Sam era louco, mais sua respiração ficava desregular e alta. — Bom, bem vindo a Setealem…. Sam. — O locutor falou seu nome com um tom mais grave e malicioso, como se estivesse vendo sua expressão de medo e indignação e se deliciasse com ela.

Sem pensar duas vezes ele desligou a rádio do carro e pisou no acelerador como se sua vida dependesse disso. Queria chegar rápido ao trabalho, haveria uma reunião importante. “Talvez seja uma pegadinha” Pensou Sam sobre o que havia ocorrido a alguns minutos atrás “É, uma pegadinha. Meus amigos tem essa mania, eles sabem a minha rádio favorita… Mas… Mas como sabiam a hora que iria ligar? Talvez uma tecnologia nova. É, foi uma pegadinha” pensa rindo. Ele não podia estar louco.

— Setealem, — Fala a palavra em um bufo risonho se achando muito bobo por ter caído naquela pegadinha idiota e religou a rádio ao mesmo tempo em que desacelerou o carro.

Uma música calma invade o local fazendo-o relaxar e relaxou tanto que o sono que não havia sentido a noite, veio. Seus olhos pareciam pesar uma tonelada, quase impossível de segurá-los. A mão relaxou no volante e a pressão no acelerador ficava cada vez menor.

— Olá Setealem! — Uma voz gritou na rádio fazendo Sam entrar em alerta e olhar para frente dando-se conta que havia alguém no meio de seu caminho e automaticamente pisou no freio. — Aparentemente sua visita atiçou a curiosidade de alguns moradores, não é mesmo Sam? — O locutor terminou sua fala com um risinho rouco e malicioso.

Sam olhou para aquele ser e se espantou com a fisionomia daquela mulher. Aquela criatura tinha uma estatura média, corpo esguio, ombros finos, pele branca e estava vestindo um vestido azul florido mostrando pernas bonitas, mas a atenção de Sam estava direcionada a enorme cabeça de bode que aquela mulher tinha.

A mulher com cabeça de bode olhava atentamente para Sam, de vez em quando sua cabeça inclinava para os lados como se estivesse em dúvida por vê-lo ali. Os olhos daquela criatura piscavam rapidamente, incrédulos, assustados.

Sam encarava aquele ser sem nem ao menos respirar, seus pulmões ardiam pedindo por ar, mas Sam não conseguia, ele nem ao menos se mexia. Era como se estivesse em um transe que foi logo retirado ao ouvir a voz do locutor.

— Ora, ora Sam. — Sam direcionou seu olhar para a rádio e soltou um suspiro surpreso fazendo assim sua respiração voltar. — Parece assustado. Não fique, somos ótimos com visitantes. Ela só está assustada, nunca viu um carro antes. — Novamente aquele homem estava rindo ironicamente.

Sam tirou seus olhos, que no momento se encontravam arregalados, completamente assustado com o que estava ocorrendo com ele, e novamente olhou para a aquela mulher e notou que haviam mais. Alguns entravam em lojas, outras estavam comendo em padarias e docerias, outros estavam andando pela calçada; todos com enormes cabeças de bode e olhos amarelados, grandes e redondos.

“Como?” Sam se perguntava. Como havia tantos deles, se a minutos atrás não havia ninguém nas ruas. “O que são essas coisas?” se perguntou novamente, apavorado com o que via.

Aquela figura humanoide se moveu e veio em sua direção ainda inclinando a cabeça e o longo pescoço em sinal de dúvida. Mesmo com medo, Sam não conseguia se mover, seu corpo virou uma pedra, ele só conseguia olhar para aquela criatura enquanto a mesma se aproximva lentamente.

O bicho parou bem próximo de sua janela e o olhou atentamente. A mão humana levantou em forma de punho e bateu 3 vezes na janela como se o pedisse para baixa-la e olhando-a em espanto faz o que é pedido como se por alguma razão estivesse hipnotizado.

— Bem vindo Sam, espero que goste de Set... — A grande cabeça falou com uma voz melodiosa e bonita que foi completamente ignorada e cortada pelo grito estridente de Sam que logo em seguida deu uma pisada no acelerador com toda força que seu corpo tinha e voltou a transcorrer pelas ruas de forma acelerada, que para ele eram de Los Angeles.

— Sam, não precisa de toda essa velocidade meu amigo, você pode machucar alguém. — Falou a voz risonha e sarcástica do locutor. — Vamos, respire e se acalme, ainda é cedo para isso, são apenas 7 horas da manhã. — E a frase termina com uma enorme gargalhada.Com a respiração acelerada e os olhos quase saindo de sua órbita de tão arregalados, Sam desligou a rádio e mira o relogio: 07:00.

— Apenas 7h, são 7h, porque ainda são 7 horas? Por que? Por que? Já deveria ser 8; ou será que 9? 10 talvez, não sabia. Que pora! POR QUE AINDA SÃO 7H?” — Gritou esmurrando o volante com uma das mãos em completo desespero. Seus olhos pinicavam e lágrimas acumulavam em seus olhos, queria chorar, estava com medo. — Eu só queria chegar cedo para descansar quando chegasse em casa, eu só queria descansar, só isso. — Murmurou ele enquanto lágrimas escorriam pelas bochechas magras até o maxilar quadrado.

— Ora Sam, não seja tão escandaloso uh. — Diz o locutor do rádio assustando e tirando Sam de seus pensamento. “Que? Eu desliguei o rádio… Desliguei?” — Sim, você desligou, o que eu achei muito mal educado. — Disse o locutor risonho. — Mas tudo bem ,eu perdoo você. E cuidado por onde anda Sam. — A voz sussurrou, mas antes de Sam se quer pensar sobre o que aquele estranho homem falava, Sam sente um tranco forte e seu corpo vai bruscamente para frente como se estivesse sido arremessado, mas foi fortemente segurado pelo cinto de segurança e airbags.

…

Sam abriu os olhos lentamente e tentou olhar para os lado, tudo ainda estava desfocado; passou ambas das costas das mãos nos olhos e esfregou preguiçosamente. Seus corpo estava mole, mal conseguia mover os próprios braços, parecia que havia sido atropelado por um caminhão.

Suspirou profundamente e olhou em volta novamente. Estava em uma sala pequena de hospital e a maioria das coisas em sua volta era branco e monótono, conseguia escutar, além das máquinas que estavam próximas de si, vozes e passos do corredor.

Sam voltou seu olhar para o teto e decidiu levantar-se, estava com muita sede e sua garganta doía como um inferno. Ao tentar se mover Sam percebe que seu tornozelo estava algemado ao pé da cama, mas não teve tempo de pensar sobre isso pois a porta foi aberta e dois policiais adentraram o pequeno quarto.

— Vejo que acordou, senhor Samuels. Eu sou o oficial Mario Thompson e esse é meu colega Robert Johnson — Falou o policial mais alto, aparentava ter quase dois metros; corpo magro, cabelos bem penteados para o lado com aparência de molhado, talvez com gel de cabelo, usava o típico uniforme e estava segurando uma caderneta de tamanho médio. — Sam Samuels, 30 anos e contador de uma das empresas mais famosas de L.A, mora sozinho e não se dá bem com a vizinhança, não tem muitos amigos e não sai muito. Isso lhe descreveria, senhor Samuels? — Perguntou o olhando seriamente.

— S… Sim. — Sam gaguejou por conta da garganta seca. — Como sabe disso?

— Bom, você está desacordado a duas semanas. É um bom tempo pra pesquisar o suficiente sobre você. — Respondeu o policial mais baixo e pouco perrudo, aparentava ter seus 40 anos e um bigode esquisito.

— Duas semanas? — Perguntou Sam com os olhos arregalados, incrédulo do que acabou de ouvir. — Mas o que aconteceu comigo? — Se apressou a perguntar.

— Dois de seus vizinhos o viram agir estranho de manhã, no corredor do seu andar. Eles disseram que você parecia um zumbi, olhava apenas pro relógio de pulso e quando entrou no elevador eles o ouviram gritando. — O policial mais alto falou. — Após isso você foi visto dirigindo em alta velocidade, quase atropelou uma mulher e em seguida trombou em um caminhão, a sua sorte é que ele estava parado.

Ao fim do relato Sam lembrou-se do dia horrível que viveu aquela manhã de quarta, os acontecimentos passavam pela sua cabeça nitidamente como se houvesse acontecido a poucas horas atrás. Horas… Sam mexeu seus olhos de modo apressado pelo quarto, precisava ver as horas, queria saber que horas eram agora.

— Tudo bem, senhor Samuels? — Perguntou o policial parrudo o olhando de forma desconfiada

— As horas, que horas são? — Indagou em desespero, ele necessitava daquilo, precisava saber as horas, precisava saber se tinha saído realmente de Setealem, ou seja lá o que o seja aquele lugar.

— Ah… São… — O policial parrudo olhou para seu relógio de pulso atentamente. — Dez e quarenta da manhã, porque? Você não vai sair daqui. — Respondeu designado.

— Dez e quarenta? Dez e quarenta. — Falou sorrindo. — Eu consegui. — Sam gargalhou alto. — Meu Deus, eu consegui, obrigado, obrigado, obrigado. — Sussurrou repetidamente.

Os policiais ali parados perto a porta o olhavam incertos do fazer ou dizer, estavam estranhando aquela reação de Sam, achavam que o mesmo poderia esta louco por conta da batida que o deixou desacordado por dias.

— É isso, senhor Samuels, estamos de saída. Mais tarde voltamos para falar mais com o senhor e o senhor poderá dar suas explicações. — O policial mais alto

falou já com as mãos na maçaneta longa da porta para logo sair com o colega em seu encalço.

…

Sam olhava para o céu escurecido pela janela do hospital e de vez em quando soltava longos e audíveis suspiros, estava visivelmente exausto de ficar naquela cama de hospital e ainda algemado, ou seja, não poderia nem ao menos sentar-se confortavelmente.

Após aquela a visita dos dois policiais, Sam voltou a dormir e só acordou horas depois com os mesmos policiais querendo que desse seu depoimento do que havia acontecido, do porque ter agido tão estranhamente naquela manhã de quarta e ainda ter se jogado de frente com um caminhão parado.

Sam explicou que não havia dormido aquela noite e levantou 7 da manhã, contou o quanto estava exausto e mesmo assim não conseguia dormir. Falou sobre o que tinha acontecido no elevador e das horas que não passavam das 7 da manhã; citou as enormes cabeças de bode e os olhos amarelos que aqueles seres humanoides tinham; do locutor que sabia seu nome e que sempre era sarcástico com ele, sempre com o risinho malicioso e voz grave como se quisesse o assustar; também falou que homem sempre citava Setealem, mas que ele nem havia saído de Los Angeles e quanto era estranho tudo que via.

No fim de seu depoimento os policiais o olhavam como se Sam fosse algum tipo de louco, o policial parrudo até havia parado de escrever desde a parte que o contador falou sobre as luzes do elevador estarem estranhas naquela quarta. “Pobre homem, realmente ficou louco após a batida.” pensou o policial mais baixo enquanto fazia anotações em sua caderneta sobre o estado mental do pobre homem deitado naquela cama hospitalar.

Sam novamente suspirou alto pensando se realmente estava louco. Será que tudo aquilo que havia vivido naquela manhã tinha sido apenas falta de sono por conta das horas exaustivas que passava trabalhando por conta dos abusos de seu chefe.

— É, talvez. — Falou fechando os olhos “pelo menos aqui eu posso descansar em paz.”

Seu pensamento logo é cortado com a porta sendo aberta e um enfermeiro magricela passar por ela rapidamente. Sam olhou para ele de forma curiosa, pois uma enfermeira tinha saído dali a poucos minutos. O enfermeiro olhou os aparelhos e perfurou o soro. Sam estranhou tudo aquilo, o enfermeiro simplesmente fazia tudo que a enfermeira havia feito a minutos atras, mas porque repetir?

Logo depois de fazer tudo o enfermeiro olhou para Sam e sorriu, mas não era um sorriso amigável como dos outros enfermeiros que entraram lá dentro pra cuidar da saúde e estadia de Sam naquele hospital, era um sorriso malicioso. Sam poderia jurar que via até crueldade na expressão daquele jovem magricela.

Do nada o sol começou a clarear o quarto e novamente os olhos do contador viraram para a janela. Mas como? Quando perguntou a enfermeira que horas eram ela respondeu que não passava das 9 da noite.

— Olá Sam. — Uma voz rouca foi ouvida, a mesma voz daquele locutor e rapidamente os olhos de Sam voltam para o enfermeiro.

— Você ouviu isso? — Indagou Sam. assustado. “Meu Deus, estou ficando louco” pensou em desespero.

— Ora Sam, isso é forma de tratar um amigo? — O enfermeiro falou irônico com uma voz tão rouca e arranhada que nem parecia sair daquele garoto. — O que foi, uh? Espantado? Ora Sam, não é hora para isso, são 7 horas ainda. — Finalizou gargalhando como se a expressão assustada Sam fosse a coisa mais engraçada que havia visto. — Vou lhe contar o segredo querido Sam. — O enfermeiro disse em um sussurro rouco enquanto ia em direção ao carrinho trazido pelo mesmo e de lá pegou uma faca grande, parecida com as de cortar carne em açougues. — Quem vem para Setealem, morre em Setealem. Setealem é um mundo sem lei, onde tudo ainda é muito desconhecido, até para aqueles que moram nela. — Falou caminhando em direção ao contador. — Então quando um visitante entra em um dos portais e atravessa a linha que os trazem para cá, Setealem fica estranha, incompleta, sem estabilidade e nós moradores temos o dever de aniquilar qualquer coisa que incomode nosso lar, não é mesmo? — Perguntou passando a faca na perna do contador, fazendo-o arrepiar assustado. — Então Sam, é isso. — Finalizou gargalhando e cravando, por fim, a faca no meio do peito de Sam.

A dor excruciante o fez arfar em desespero enquanto ouvia aquele enfermeiro gargalhando sem parar e alisava o peito ensanguentado do contador enquanto o olhava com os olhos brilhando em puro deleite.

— Bom dia, Sam. — Sussurrou ele em seu ouvido ao que Sam respirava cada vez mais lentamente até parar.

Lentamente o enfermeiro retirou a faca grande do peito do contador e a passou na roupa hospitalar do mesmo, retirando boa quantidade de sangue do objeto, colocou-o no carrinho que havia trazido e logo em seguida saiu do quarto deixado Sam, já sem vida, ali mesmo.

No corredor, o garoto de aparência jovial e magricela passeava calmamente com seu carrinho enquanto assobiava, ao chegar na recepção entregou seu carrinho a uma das recepcionistas e olhou para o relógio de parede.

— Sete horas. — Falou em um bufo risonho. — Um horário ótimo para um novo visitante, não é mesmo?

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!