Era uma vez um trovador

1 Uma tão divina donzela


Notas iniciais
Essa é a primeira one-shot que escrevo, então vamos ver no que vai dar! Hahaha.
Tenham uma boa leitura!

O sereno da noite caía, umedecendo as folhas das árvores e a estrada de terra fofa sobre a qual eu pisava, incerto de cada passo que dava. Meus pés possuíam bolhas pela constante caminhada, pelo movimento que parecia nunca acabar, e eu tremia por baixo das roupas meio rasgadas que usava conforme o vento aumentava, assoviando suas palavras frias.

Aquelas terras não eram lugar para bardos solitários vagando como eu, afinal. Nenhum forasteiro era bem-vindo, e as estalagens deixavam isso claro quando os donos perguntavam o que eu tinha para oferecer.

“Algumas moedas de prata”, era sempre a resposta, e também sempre insuficiente. Então, balançavam a cabeça, negando minha estadia. Nem mesmo música bastava para alugar um quarto como antigamente.

Os tempos de guerra haviam levado embora o gosto pelas artes daqueles povos. Os estalajadeiros perguntavam se eu possuía uma espada para servir em troca de uma cama e alguma comida, mas tudo que eu levava comigo era meu alaúde.

Sons agitados interromperam meus pensamentos. Levantei o olhar que mantinha no chão e vi luzes um pouco desfocadas a alguns metros, no fim daquela estradinha que levava do nada a lugar nenhum. Música alta e conversas acaloradas vinham de lá de dentro, e o cheiro de comida e fumaça que saía pela janela era entorpecedor.

Uma estalagem.

Segui até ela sem pensar muito bem no que fazia. Talvez eu merecesse uma cerveja ou duas por ter conseguido chegar tão longe. Isso certamente não poderiam me negar. Além do mais, estava exausto por ficar tanto tempo caminhando; estava quase dormindo em pé. Precisava descansar, nem que fosse por apenas uma hora.

O barulho aumentou à medida que me aproximei. Quando abri a porta da frente, o ar quente do interior me atingiu em cheio no rosto, assim como o aroma de comida recém-saída do forno. Vi empregados servindo javali com batatas em algumas mesas, e meu estômago se contorceu desagradavelmente.

A estalagem borbulhava de gente. Grupos de homens brindavam fazendo algazarra, erguendo os cornos de cerveja. No sótão, mulheres ofertavam seu ganha-pão, enquanto as mais novas circulavam no andar de baixo oferecendo seus serviços.

Ao me sentar no balcão, porém, o que mais me chamou a atenção foi o grupo que se apresentava na frente. Um grupo de trovadores que enchia o estabelecimento com sua música, e entre eles, como atração principal, estava uma garota querida por todos, que dançava e cantava.

Pedi uma caneca de cerveja ao balconista, já que era o que eu podia pagar, mas em nenhum momento deixei de analisar os passos daquela moça. Uma escrava ela era, mas para mim, uma rosa desbotada. Seus longos cabelos castanhos caíam soltos por suas costas, como uma cortina de seda. As feições do rosto eram delicadas, e seu vestido esvoaçava no ritmo da coreografia.

Enquanto ela dançava, meus olhos brilhavam. Lá estava ela, uma tão divina donzela. Como poderia eu me aproximar com meu tão pobre visual? Sua beleza era muito mais daquilo que eu poderia resistir.

Porém, meu coração estava aquecido. Havia tempos desde que eu me sentira daquela forma, e não soube precisar se era devido à música, a qual tanto amava, ou àquela garota que tinha uma áurea tão envolvente.

Direcionei minha atenção ao copo diante de mim, querendo afastar aqueles devaneios da cabeça. Homens que pensam demais sempre acabam onde não devem.

Mas não tive a oportunidade para isso. Assim que a música acabou, ouvi aquela voz melodiosa bem perto:

— Tu que estás ao canto! — Senti mãos finas e pequenas me tocarem o braço. — Compartilha comigo esta dança e toca teu alaúde!

Antes que pudesse responder, fui puxado para o centro, onde ela antes estava. Estranhei seu modo de falar; se parecia muito com o de uma nobre. Mas não lhe perguntei nada sobre isso. Eu mesmo não poderia julgá-la com o passado que tinha.

— Qual é teu nome? — a moça me perguntou, bem perto de meu ouvido para que eu a ouvisse por cima das conversas. Seus olhos eram de um azul escuro brilhante, grandes e profundos. Perdi-me neles por longos instantes.

Mas não respondi.

Eu não tinha um nome. Não mais, pelo menos. Uma vez, há não muito tempo, eu era um jovem com nome e sobrenome importantes, dono de terras e de um futuro promissor. Era respeitado, cobiçado. Costumava ser chamado de Tom das Sete Cordas.

Essa época, no entanto, havia acabado abruptamente. Um dia, as coisas corriam bem, no outro, meus planejamentos caíram por terra. Por culpa de meu pai, talvez. Ou então da guerra. O fato era que eu perdera tudo, todos os meus bens. Perdera tudo o que uma pessoa era capaz de perder na vida, incluindo o nome, algo que deveria ser impossível. Minha identidade estava destroçada, largada em um passado não tão distante como eu desejava.

Jamais me considerei a melhor pessoa do mundo, muito pelo contrário. Cometera erros como qualquer outro. Mas até o pior dos piores aprende sua lição quando é abandonado com nada além das roupas do corpo, ouvindo que, se seu sonho era cantar em tavernas, que o fizesse sozinho.

— Qual é o teu? — acabei por perguntar à linda garota que me fitava.

Ela sorriu abertamente.

— Thea.

Então perguntei se podia cantar uma canção, com a linguagem dos velhos e eruditos. Juntaram-se os homens em nossa volta, eu e a garota vestindo trapos.
Logo as melodias eram ouvidas por todos. Os frequentadores da estalagem nos acompanharam, batendo palmas e dançando no ritmo da música. Cantaram-na conosco, mas eu sabia que não entendiam seu verdadeiro significado, o relato por trás das notas.

Ao contrário do resto, Thea deixava claro no olhar que aquele conto lhe era conhecido, e ela se juntou a mim para entoá-lo.

As histórias há tempos esquecidas ainda estavam frescas em nossas memórias, apresentando nossas habilidades onde fôssemos. Aquela canção em especial era a prova de que eu precisava, pois era ela que os plebeus olvidavam e que para sempre os nobres guardariam.

A história sobre uma rainha e uma forasteira que certa vez se enfrentaram em uma batalha sangrenta. Ambas lutavam pelos mesmos motivos e eram mais parecidas do que alguém duvidaria, com passados similares, ainda assim destruíram uma a outra de modos indescritíveis.

Terminei minha história quando recebi um beijo. Ouviram-nos cantar, viram-nos dançar, cantaram conosco aquele conto, o qual a música manteria vivo até que os poetas não existissem mais.

Notas finais
Então, o que acharam? Comentem comigo para deixar suas opiniões, é muito importante para mim e eu vou adorar respondê-los!
Obrigada por ler!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!