Era tarde: após uma longa caminhada pelas ruas estreitas da cidade, finalmente encontrei a casa que procurava: um único andar podia ser visto, era pequena e possuía um jardim no quintal. Pela calçada de pedras, dei a volta na casa, observando o jardim florido. Entre as flores de todas as cores, os identifiquei: um casal risonho dançando sob o sol das 17h. Pulei o cercado de madeira com cuidado e me dirigi a uma cadeira de sol, de onde pude observá-los mais atentamente: a jovem moça vestia um vestido comprido e alaranjado, a única coisa que indicava vida naquele corpo esquelético e fraco; se ainda tivesse cabelos, eles voariam acompanhando o movimento do vento. Seu marido, ainda com o pijama de bolinhas acinzentadas, se movimentava devagar; seu toque era delicado, quase como se tocasse um objeto sagrado. No fundo, eu sabia que era medo de machucá-la, mesmo com um simples contato. Não havia música, o som que escutavam era o dos pássaros que passavam voando em volta, se despedindo: a noite se aproximava.

Às vezes, eles eram ousados: se atreviam a valsar na grama, por todo o jardim, e aquilo durava uma eternidade; por vezes, ele a rodopiava bem devagar, apenas para variar os passos. Nenhuma palavra precisava ser dita: seus olhos já diziam tudo. A única coisa de que precisavam era daquele momento, uma dança, um carinho, um olhar.

— Não é como nos velhos tempos... — Ele disse com voz suave.

— Tudo evolui, querido.- Era sua resposta, um sussurro.

E ele fechava os olhos; a frase por ele não dita era: "ou regride...", mas se conteve: não queria ser desagradável. Apenas suspirou e, abraçando a esposa novamente, se aconchegou em seus braços, desejando que tudo não passasse de um sonho ruim. Sonhos ruins não fazem sentido; às vezes, pioram.

Conferindo o relógio, soltei o ar: já era a hora. Com os olhos fixos no casal, observei a cena que se seguia: O coração da jovem moça desacelerou, seu corpo se arrepiava sem motivos aparentes. Abraçando o marido um pouco mais forte, tentava entender o que sentia antes de dizer qualquer coisa.

— Eu... E-eu...

Sua voz vacilava. O homem, percebendo que algo estava errado, se afastou um pouco, seus braços ainda em volta da cintura da amada.

— O que houve?

Porém, ela não respondeu. Seu corpo se rendeu à gravidade, sendo segurado pelo rapaz que, aflito, chamava por ela. Ele a sacudia pelos ombros com certo cuidado para não machucá-la... sem resposta; tocava em seu rosto... as cores sumiam; sentia seu pulso... parado; beijava-lhe os lábios... frios; ela não estava ali. Não mais. Assistir cenas assim já não me afetava. Com o tempo, tudo parece normal, pouca coisa te surpreende.

Me levanto, então, da cadeira e me aproximo do casal... Ex-casal. Com uma mão em seu ombro, pronuncio baixinho:

— Sinto muito.

Ele não me ouve, e eu sei disso. Me agacho no chão, próximo à moça, seguro sua mão com delicadeza e a chamo. Ela se levanta com a minha ajuda, sorrindo. Era um sorriso lindo, leve, amável. Me permiti sorrir também. Ela ainda queria dançar, então, meio sem jeito, a envolvi em meus braços e começamos a nos mover; ela me guiava: eu não dançava há tempos. Nossa dança era acompanhada por uma música que tocava em seu coração e me contagiava de forma sutil. Já não ouvíamos o choro de seu ex-marido, dançávamos rumo ao paraíso, uma valsa desajeitada por minha parte.

Ela me perguntou durante todo o trajeto a respeito de seu ex-companheiro. Respondi a todas as suas perguntas, com a certeza de que, contra o regulamento, deveria buscá-lo em breve. Por ela. Ela não mais ouvia, mas eu sim: as ambulâncias chegavam no jardim. Era tarde.

Notas finais
"Era tarde", "era tarde"... Mas era cedo quando postei a história haha
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!