Por Camille.

—CONSEGUIIIIII.-Scott gritava enquanto corria pelos corredores vindo em minha direção.

—Conseguiu o que, pelo amor de Deus?-Perguntei rindo.

Ele me olhou sério.

—Achei um parente de primeiro grau da Emilly.

—Mentira!!!!!!-Disse me joguei no pescoço dele.

—Verdade! é um cara chamado Albert Finx, irmão da mãe da Emilly, e ainda tem mais! eu consegui o endereço dele.-Ele disse balançando um pedaço de papel no ar.

—VOCÊ É DEMAIS.-Disse o abraçando novamente.

—Eu sei, eu sei.-Ele disse convencido e eu lhe dei um tapa no braço.-Ai, eu mereço um beijo não um tapa!

Dei risada pela sua indireta.

—Podemos ir agora?-Perguntei empolgada e ele assentiu.-Vou pegar minha bolsa.-Lhe dei um selinho e fui pegar minha bolsa.

Quando voltei ele já estava com a chave do carro do Jake na mão balançando no ar em minha direção.

—Eu dirijo!-Ele disse e eu levantei as mãos em sinal de rendição.

—Sim senhor, motorista.-Disse e ele me guiou até a vaga onde o carro estava estacionado.

Não era um lugar muito longe, e a ansiedade estava tanta que nem consegui falar nada durante o caminho.

—Chegamos.-Ele disse, vi que era um bairro de classe média baixa.-Está dizendo aqui que é nessa rua, numero 523.

Procuramos a casa e assim que a encontramos eu fui basicamente pulando até a campainha.

—Trouxe os bipes pra caso o hospital nos chamar?-Perguntei a Scott, mas em resposta ele me mostrou os bipes.-Ótimo.

—Mas está com pouco sinal.-Disse analisando, mas foi interrompido pela porta que se abriu mostrando um homem forte, alto, moreno, pinta de galã que já me mostrou um sorriso nada respeitoso.

—A que devo a visita?-Ele perguntou sem tirar os olhos de mim.

—Boa tarde.-Disse Scott basicamente se colocando a minha frente.-Sou Scott Black, enfermeiro, e ela é a doutora Wilson, nós estamos aqui por conta da sua sobrinha Emilly, a filha da sua irmã Binna Finx junto com o Flinn Jones.

Albert de repetente ficou sério.

—Podem entrar.-Disse nos dando espaço.

Scott foi o primeiro e eu o segui. Entramos na casa que era simples, nada de muito luxuoso, apenas o necessário pelo o que se aparenta.

—Aceitam chá?-Perguntou Albert.

—Não, obrigada. Vai querer, amor?-Perguntou Scott dando uma enfase no amor me fazendo segurar a risada.

Só neguei com a cabeça.

—E então, podem seguir o assunto.-Disse Albert sentando em uma cadeira e nos mostrando outras pra também podermos nos sentar.

—Acredito que saiba que depois que sua irmã veio a óbito e Flinn foi preso a pequena Emillly foi levada para um orfanato.-Scott começou a explicar.

—E ela foi adotada, e até ai tudo bem. Mas ela infelizmente foi diagnosticada com leucemia.

—Não é o primeiro case desse na família. Minha vó morreu disso e se não me engano meu avô também.-Albert continuou falando, mas não prestei muita atenção porque Scott me cutucou.

—O bipe está sem sinal.-Ele disse me mostrando.

—Então pode me esperar lá fora que eu termino de falar com ele.-Ele me olhou sério.-Se o hospital bipar e a gente não atender estamos mortos.

—Eu não quero te deixar sozinha com esse cara.-Ele sussurrou para que somente eu ouvisse.

Sorri pra ele transparecendo tranquilidade.

—Vai ficar tudo bem.

Scott se levantou, agradeceu pela atenção e explicou a situação e disse que ia me esperar no carro.

—Finalmente a sós.-Disse Albert voltando a sorrir de um jeito nada respeitoso.

Ignora, só ignora.

—Como eu estava falando... Emilly está em uma nível muito grave da doença. E no momento a única opção de cura que temos é por doação de medula óssea de algum parente de primeiro grau. Então busquei mais informações sobre ela e acabei chegando até o pai dela e por fim até você.

—E?-Ele perguntou aproximando a cadeira dele da minha.

—E gostaria de saber se tem alguma possibilidade de você estar doando, ou pelo menos me ajudar a falar com o pai dela.

—E como funciona a doação?-Ele perguntou aproximando mais a cadeira de mim.

Me levantei e fiquei perto do balcão,em uma certa distância dele.

—É um processo cirúrgico, que é necessário ter pelo menos 24 horas de internação, anestesia geral ou peridual, vai de acordo com o recomendado pelo cirurgião. E na cirurgia é retirada da sua bacia a medula, dura em torno de 90 minutos o procedimento e em dentro de 15 dias estará novinho em folha.

Ele se levantou e veio até mim.

—Acontece que tem um problema. Eu não posso falar com a idiota do Finn. E segundo, eu não quero ajudar a filha dele.-Ele disse sério, seco e totalmente sem emoção.

Como assim? como ele pode se recusar a ajudar uma criança? que ainda por cima tem o sangue dele. CRÁPULA!

—O que?-Peguntei ainda sem acreditar no que havia ouvido.

—Mas eu poderia ajudar você.-Ele disse se aproximando ainda mais e com um sorriso malicioso no rosto. Mas quando ele chegou perto eu lhe dei um tapa -com muito gosto e prazer- na cara dele.

Ele ficou assustado com o tapa e eu aproveitei esse silêncio pra gritar tudo o que queria dizer.

—COMO VOCÊ PODE SER TÃO SEM CORAÇÃO ASSIM? VOCÊ TEM NOÇÃO QUE ESTÁ ACABANDO COM A VIDA DE UMA CRIANÇA? UMA CRIANÇA LINDA E INOCENTE!!!! QUE INFELIZMENTE CARREGA SEU SANGUE NA VEIA, MAS GRAÇAS A DEUS NÃO PUXOU AO TIO, QUE É UM ORDINÁRIO, E IMBECIL!!!!... ESSA ERA A ÚNICA ESPERANÇA QUE TINHA PRA EMILLY!!!!!!!!!-Gritei a última parte. Gritei não, berrei! e já senti as lágrimas invadindo meu rosto.-MAS PODE TER CERTEZA QUE SE A MINHA EMILLY MORRER POR CAUDA DE UM VAGABUNDO COMO VOCÊ EU VOU VOLTAR E DERRAMAR TODA A CULPA NAS SUAS COSTAS ATÉ EU ME CANSAR...-Ele me prensou na parede com força tampando minha boca.

—Quem você pensa que é pra falar comigo assim?-Pude ver sangue em seu olhos, eu realmente havia o deixado nervoso. Ótimo! porque eu também não estou em meu estado normal.

—SOLTA ELA!!!!-A partir dai virou tudo um borrão na minha mente, acho que por conta da adrenalina não consigo lembrar de muita coisa. Só lembro de Scott literalmente arrombando a porta, puxando Albert e distribuindo diversos socos em seu rosto.

—Scott, para! -Disse chamando sua atenção e ele olhou pra mim.

É todos estamos nervosos.

—Não vamos perder nosso tempo com esse cara! vamos embora que a Emilly está nos esperando.

Nem esperei Scott só fui pro carro ainda sem acreditar muito no que havia acontecido.

Como ele se recusou a ajudar a própria sobrinha?

Depois de algum tempo -que não sei ao certo quanto- Scott entrou no carro e me abraçou beijando minha testa. Eu somente chorei, chorei por Emilly.

....

...Alguns dias depois...

—Camille, meu casamento é depois de amanhã. Não dá pra arrumar outra madrinha em cima da hora!!!!!!-Alice gritou do outro lado do telefone.

—Eu amiga, mas eu tenho que ficar com a Emilly. O cirurgião disse que ela tem apenas mais alguns dias de vida e eu tenho que ficar com ela!!! não posso deixar ela sozinha agora.

—Mille, eu sei, eu entendo. Mas desde que foi visitar aquele tal de Alberto, Albert, Alnerd, sei lá! enfim... desde que ele se recusou a ajudar você não sai do hospital, amiga. Não está comendo direito e amiga... suas olheiras estão do tamanho da calda do meu vestido.

Dei risada.

—Não posso deixar ela, Alice.... desculpa amiga. Não vou poder ir ao seu casamento.

—Eu não acredito! minha própria madrinha dizendo que não vai ao meu casamento.-Ela disse fazenda drama.

—Alice....

—Camille, existem vários outros médicos, enfermeiros. Poxa, ela está em um hospital, tem lugar mais seguro? e vai ser só por algumas horas, aposto que Emilly estará dormindo em todas elas.

—E talvez não acorde.-Disse sentindo as lágrimas vindo novamente.-Eu preciso estar aqui, eu preciso....

—SE VOCÊ NÃO APARECER NO MEU CASAMENTO EU DIGO NÃO PRA MATIAS NO ALTAR. Não quero casar e minha melhor amiga não estar lá, vai ser basicamente o Hobbin sem o Wood.

—Alice... Hobbin Wodd é uma pessoa só.

—EXATAMENTE.

—Amiga, hora do remédio da Emilly. Depois a gente se fala.

Desliguei o telefone e fui para o quarto de Emilly. Abri a porta e ela me mostrou um lindo sorriso, nesses últimos dias ela teve uma piora muito grave, seu semblante não é o mesmo, mas a luz que a ilumina ainda continua lá. Emilly nunca deixou de sorri um dia se quer, seus pais também não. Na verdade o senhor e a senhora Libert estão crendo que algo vai acontecer, mas o que poderia acontecer? infelizmente não tem mais esperança pra Emilly, e eu quero estar aqui com ela... até o fim.

Me sentei ao seu lado dando o remédio que tomou sem pestanejar.

—Você não foi pra casa de novo, tia Mille?-Ela perguntou com aquele sorriso que me ilumina.

—Não, meu amor. Vou dormir com você. Posso?

—Claro que pode tia!-Beijei sua testa.-Tia Mille, posso assistir 7 monstrinhos no seu celular?

—Claro que pode.-Peguei meu celular no bolso do jaleco e coloquei pra ela assistir.

Os 7 monstrinhos virou o desenho favorito dela depois do dia que eu comentei que era o meu desenho favorito quando tinha a idade dela. E ela curiosa, é claro, pediu pra eu mostrar pra ela qual era. Foi paixão ao primeiro episódio. Não demorou muito e ela dormiu. Só ela mesmo, porque eu a dias não consigo pregar o olho, só temendo o dia -ou a noite- que a Emilly não vai mais acordar. Aprendi tanto com ela nesse tempo que estivemos juntas, acho que ela cuidou mais de mim do que eu dela, me parte o coração saber que a qualquer momento não terei mais a luz do sorriso irradiando meu dia, que não a terei mais para pintar suas unhas ou fazer maquiagem, que não ouvirei mais essa voz doce e meiga, que perderei o privilégio de a ouvir cantar, meu mundo será vazio sem Emilly e não sei como lidar com isso.

Peguei a mão ela e a beijei.

—Eu te amo minha pequena.-Disse e as lágrimas voltaram.

Já estava amanhecendo quando uma enfermeira veio dar o primeiro remédio dela.

—Bom dia.-A cumprimentei.

—Bom dia, doutora.-Ela disse simpática.

Fez o que tinha que fazer e saiu. Me espreguicei e levantei, a noite foi longa e meus pensamentos foram divididos entre cuidar de Emilly e imaginar o quanto Alice vai me odiar por não ir no casamento dela.

—Bom dia, doutora.-Disse outra enfermeira entrando no quarto.

—Bom dia.

—A senhora tem visita , está a sua espera na recepção.

Assenti. Mas antes de ir escovei os dentes e dei uma penteada no cabelo.

Cheguei na recepção e vi três policias. Ué, será que algum preso se feriu?

—Aqui está ela.-Disse a moça de recepção assim que me aproximei e vi os policias vindo em minha direção mas reparei em uma coisa que não havia reparado antes, entre eles tinha um homem algemado.

Mas o que eles querem comigo?

—Bom dia, doutora. Eu sou Finn Jones e estou aqui pra doar minha medula pra minha filha.