Por Camille.

—Mille, me passe o relatório do caso da Emilly e meu estetoscópio por favor.-Disse Jake.

Nós estávamos indo apresentar mais uma vez o caso de Emilly para o cirurgião chefe para conseguirmos mais recursos. Era só o que fazíamos nessas ultimas 2 semanas que se passaram desda minha "conversa" com Scott, não o vi desde então, o que é bom, porque assim não me desconcentro. Meus pais já receberam alta então agora estou totalmente focada para conseguir o bem estar de Emilly.

Lhe entreguei o relatório e entramos na sala do chefão.

—Boa noite, doutores.-Eles nos cumprimentou.

—Boa noite.-Disse formal, afinal, não sou fã desse cara, então não precisamos falar nada além do necessário e nenhum pouco de empolgação, só neutralidade.

—Boa noite, chefe.-Cumprimentou Jake um pouco animado e apertou a mão do chefe-Estamos aqui mais uma vez para pedir recursos para Emilly Libert.-Disse Jake lhe entregando os relatórios.

—Prossiga, Jake.-Disse ele.

—Desculpe chefe, mas quem está totalmente a pá do caso é a doutora Wilson, que passa toda a sua carga horária cuidando dela.

Então o chatão olhou pra mim e não disse nada, somente esperou que eu começasse a falar.

—O caso dela se agravou um pouco desde quando vinhemos aqui a 4 dias atrás, estamos fazendo o que pudemos para retardar o agravamento da doença, Emily está feliz e animada o que ajuda no retardo também, mas sabemos que uma hora ou outra se não encontrarmos o melhor recurso rápido será inevitavel.-Disse com uma voz chorosa.

Jake sorria pra me reconfortar, ele sabia do meu conflito interno de quando estou na frente do chefe. Ele me dá arrepios, não medo, mas repulsa. Já o chefe olhava pra mim com um olhar desafiador, parecia esperar que a qualquer momento eu falhasse, era como se ele achasse que não sou capaz.

—O problema eu já sei, quero soluções.-Disse seco

—A melhor chance que temos é o transplante de medula óssea.-Disse, mas ele me interrompeu.

—Sim, mas para isso precisamos de um parente de primeiro grau. Não sei se você pulou essa parte do relatório que lhe foi entregue, mas, os pais de Emily a adotaram. E as chances de medula óssea sem parentesco darem certo são extremamente pequenas e arriscadas para Emilly.

—Sim eu sei..-Ele me interrompeu de novo.

—Então o que você quer fazer? testar cada medula óssea de cada ser humano do planeta até ela não aguentar mais as sessões e morrer?!!!-Ele disse praticamente gritando comigo.

—Se o doutor não estivesse me interrompendo toda vez que eu tentasse falar já estaria entendendo minha ideia.-Disse e ele me olhou com raiva e respirou fundo.

—Tudo bem. Então me diga o que se passa por essa sua cabeça imprestável.

Respirei fundo, já havia o respondido uma vez, não posso me descontrolar e ser demitida, não agora! preciso aguentar e cuidar da Emilly, mesmo que pra isso eu tenha que aguentar esse cara.

Respirei fundo mais uma vez. Jake segurou minha mão e a apertou. Olhei pra ele que sorriu.

—Creio que não conseguimos bons resultados porque estamos muito presos aos recursos que estão dentro do hospital.-Ele me interrompeu.

Calma, Camille, não voa no pescoço dele agora.

Jake me olhou assustado, eu não havia contado minha ideia nem pra ele.

—Sempre desconfiei que não era capaz para seu cargo!-Ele disse e por mais que eu não quisesse aquelas palavras me atingiram, de tal forma que senti algumas lagrimas vindo.

Chorar na frente desse crápula não!

-Tá, digamos que eu como brilhante cirurgião no auge de um surto de loucura permita isso, como seria?-Disse olhando de um modo intimidador pra mim.

—É mais simples do que imagina.-Disse respirando fundo mais uma vez.-Podemos perguntar pra senhora Libert onde fica o orfanato que eles adotaram a Emilly, vamos até a direção de lá, pedimos informações sobre os pais dela.

—E se eles estivessem mortos?

—Estarei satisfeita por ter tentado.-Rebati.

—E quem em sã consciência iria fazer esse trabalho extra?-Perguntou ele.

Jake estava paralisado, creio eu que não acreditando que estou prosseguindo com essa discussão.

—Eu faço, sem problema. Emilly merece ter um futuro, e eu farei o que for preciso pra que ela o tenha.-Disse já alterada.

Ele deu um sorriso maléfico.

—Pois bem, permitirei que faça isso.-Sorri.-Mas, não poderá fazer isso na sua carga horária aqui, não sairá nenhum segundo mais cedo para ir em busca da sua aventura insana.-Assenti orgulhosa.-E outra coisa, porá sua conta em risco, pois qualquer consequência cairá pra você e somente pra você!

—Justo.-Disse seca.

Me levantei e abri a porta para ir embora mas quando eu estava saindo ele voltou a falar comigo.

— Só mais uma coisa, se algo der errado fique sabendo que eu farei com que nunca mais consiga emprego em nenhum hospital do mundo, sujarei sua reputação até o ultimo segundo de sua vida.

Eu poderia nesse exato momento ir até ele e dizer algumas verdades, sobre o quanto ele é machista e hipócrita, até lhe dar um tapa por tudo que ele vem me falando nessa ultimas semanas. Mas logo em seguida seria demitida, não poderia ficar com a Emily nem ajuda-la e por ela valia a pena passar por isso.

Não olhei para que a raiva aumentasse, só saí e bati a porta com força.

Quem ele pensa que é? tem prazer em me diminuir toda vez que me ver.

Aaaaaaaaaaa. Preciso colocar essa raiva pra fora!

Quando percebo já estou chorando, ando pelos corredores e vou em direção ao vestuário. Vou em direção ao meu armário e pego minha garrafa d'agua. Agradeço mentalmente por esse lugar estar vazio, tranco a porta, me sento no banco e fico ali chorando.

Assim que parei de chorar me lembrei que estava na hora do remédio de Emilly, e ela amava que eu que o desse, então fui em direção ao seu quarto. Abri a porta e vi que ela estava dormindo. Sentei na poltrona ao lado dela, peguei em sua mão e voltei a chorar.

—Porque tudo tem que ser tão difícil minha pequena? estou dando o melhor de mim, pra você, mas não sei se sou capaz.-O choro deu lugar para o soluço.-Prometo fazer o que eu puder para curar você, meu anjo.-E beijei as costas da mão dela e infelizmente ela acordou.

—Tia Mille? porque você tá cholando?-Ela perguntou me olhando assustada.

—É que a tia está um pouco triste hoje.-Disse limpando as lagrimas que teimavam em cair.

—As quando quando eu estou triste eu gosto de cantar uma música que minha mãe escuta.-Ela disse.

—Aé? qual?

Ela começou a cantar.

—Você diz que está sozinho

Mas Deus diz: Estou contigo

Você diz que não tem jeito, não

Mas Deus te diz que tudo é possível

Sorri pelo jeito fofo e cantar certinho e também conhecer a música comecei a cantar junto com ela.

—Você diz: Eu não posso

Você diz: Eu não aguento

Diz: Meus sonhos estão perdidos

O que passou não volta mais

Mas Deus está dizendo

Eu ainda realizo os sonhos.

Ela parou pra recuperar o folego, mas voltou a cantar ainda mais alto.

—Volte a sonhar, volte a sonhar

Deus ainda realiza sonhos

Você diz: Eu não posso

Você diz: Eu não aguento

Diz: Meus sonhos estão perdidos

O que passou não volta mais

Mas Deus está dizendo

Eu ainda realizo os sonhos

Volte a sonhar

Se, por um tempo, a dor te fez parar

Volte a sonhar

Deus ainda realiza sonhos

Volte a sonhar

Se, por um tempo, a dor te fez parar

Volte a sonhar

Deus ainda realiza sonhos.

Sorri por não estar mais triste nem chorando, mas uma paz reinou entra a gente, fazendo que a gente cantasse ainda mais forte:

—Se deu tudo errado pra você

Se está no leito do hospital

Ou no chão de uma prisão

Há tempo de chorar

Há tempo de sorrir

Deus é o Senhor do tempo

E Ele ainda realiza sonhos

Nos olhamos e deixei ela cantar a última parte sozinha.

—Volte a sonhar

Se, por um tempo, a dor te fez parar

Volte a sonhar

Deus ainda realiza sonhos.

Quando ela terminou eu a aplaudi.

—Você canta muito bem.-Disse beijando a testa dela.

—Obrigada tia, você parece estar melhor.-Ela disse sorrindo.

—Estou mesmo, perto de você não tem como ficar triste.

Ela sorriu.

A enfermeira entrou e deixou o remédio e a comida dela, as enfermeiras que cuidam dela já se acostumaram com o fato de Emilly preferir que eu der os remédios e as refeições. Assim que ela tomou os remédios eu comecei a lhe dar comida.

—Hmmm, essa sopa parece estar uma delicia.-Disse.

—E tá mesmo tia.-Disse e riu.-Mas porque você estava triste? É porque você não está falando com o tio Scott?

Ela disse e eu a olhei surpresa.

—Mas como você sabe?

—Tio Scott disse que você não quer falar com ele.-Ela disse comendo mais uma colherada da sopa.

Eu rir por Scott ser tão criança ao ponto de me chantagear com a Emilly.

—Não é por causa do tio Scott, e eu não estou falando com ele porque estou ocupada, não porque não quero entendeu?-Disse lhe dando mais uma colher de sopa.

—Vou falar isso pra ele.-Ela disse quando engoliu.

Assenti.

—Então porque estava triste?

—Porque tem um medico aqui que eu tenho que obedecer, e ele não gosta muito de mim, e disse umas coisas feias pra mim hoje.

—O que ele disse?-Neguei com a cabeça insinuando que não ia contar.-Conta tia!!! já sou mocinha pra saber.-Ela disse se fazendo de séria e eu ri.

—É que eu tive uma ideia pra ajudar uma amiguinha minha, e ele disse que não vou conseguir, e se der alguma coisa de errado não vou poder mais ser medica.-Disse.

Ela fez uma careta.

—Que homem mais feio.-Ela disse colocando a mão na cintura.-Vou falar pra minha mãe dar uma bronca nele pra ele se comportar.

Eu ri.

—Não precisa, meu amor.

Ficamos um tempo em silêncio.

—Que amiguinha é essa, tia? eu começo ela?

—Conhece.-Disse sorrindo.

—Então quem é?-Ela arregalou os olhos.

—É você meu amor.-Disse dando um beijo na sua bochecha.

Ela riu.

—Que bom que sou sua amiga.

—E você ainda tinha dúvida?

Ela deu de ombro.

Outra enfermeira chegou pra dar banho nela.

—Emilly, eu vou ter que fazer uma ligação mas depois eu volto, tá?-Eu disse e ela assentiu.-Se comporta viu, mocinha.-Disse tocando na ponta do seu nariz e ela riu.

—Ó Dinna, se ela desobedecer você me fala que eu vou dar uns tapinhas nela.-Disse me fingindo de séria pra enfermeira que riu também.

—Pode deixar, doutora.

E saí, preciso ligar para a doutora Libert e pedir informações, pretendo assim que puder ir nesse orfanato e colocar meu plano em ação, não posso jogar essa possibilidade, no juramento de Hipocretes jurei que sempre faria tudo que estava ao meu alcance para azercer a arte de curar, e isso está ao meu alcance. Pelo menos tenho que tentar. Emilly merecia isso.