Era para ter sido apenas um jogo
2 Desaforos
Notas iniciais

Eles caminharam juntos, através da plataforma da Estação de Hogsmeade, como se não se importassem com a presença um do outro ou com o que as pessoas diriam se os vissem tão próximos. Mas não havia muitas pessoas ali naquele momento, pois o grupo de alunos ao longe já havia se dispersado nas charretes que esperavam para transportá-los até Hogwarts.
Mais recomposta, Hermione agradecia mentalmente ao rapaz por tê-la ido buscar na cabine, quando percebeu que ela tinha ficado para trás. Agora se lembrava de que não tinha ido ao banheiro, como tinha planejado, por isso desejou que aquela viagem ao castelo fosse rápida. Avistou uma charrete à uma distância considerável e apressou seu passo até ela, esquecendo-se momentaneamente que não estava sozinha.
Quando se aproximou o suficiente e colocou a mão sobre a maçaneta, assustou-se com o contato das mãos frias de Draco, pois ele fizera o mesmo que ela, praticamente ao mesmo tempo. Olharam-se por um instante, esperando que um deles tomasse a iniciativa de se afastar, mas não foi preciso, pois a porta da cabine abriu-se repentinamente, obrigando a ambos retrocederem alguns passos para se protegerem do impacto.
— Não acredito! Você, de novo, Malfoy?
Hermione reconheceu aquela voz e por isso se aproximou, tonando-se visível aos ocupantes da cabine. Quando Rony a notou, ficou levemente desconcertado, o que não passou desapercebido por ela. Os demais, Harry e Gina, a olharam de uma forma atravessada, como se desconfiassem dela por estar na presença do Sonserino, muito embora ela não tivesse planejado aquilo.
— Draco? Draco! – Um rapaz vinha gritando o nome dele, correndo como se sua vida dependesse daquele chamado – Ainda bem que encontrei você. E uma cabine vazia.
— Não, essa já está ocupada. Vamos, Blaise, procurar outra. – Draco o interrompeu a ponto de entrar na charrete.
— Não há outras. – Blaise informou, um pouco ofegante pelo esforço físico – Essa é a última.
Com aquela informação, estava óbvio que haveria um impasse se formando entre eles, afinal, os Grifinórios já a tinham ocupado antes deles.
— Vocês podem vir conosco, há espaço suficiente. – Hermione tomou à frente, percebendo que nenhum dos seus amigos falariam nada a respeito.
Draco direcionou seu olhar para ela, envolvido por uma expressão de incompreensão e uma leve ponta de irritação, por algo que Hermione não sabia o que era. Ela tinha a impressão de que ele estava com os nervos muito sensíveis naquele dia, pois ao menor dos motivos ele se transformava.
— Não precisamos da sua piedade, sangue-ruim. – Ele disse, ríspido nas últimas palavras.
Fazia algum tempo que ela não ouvia aquele termo, e não era diretamente chamada daquilo. Por isso, talvez, as palavras do rapaz a tenham afetado mais do que o esperado, obrigando-a a desviar o olhar para disfarçar seu desconforto.
— Você e o idiota do seu amigo Sonserino não são bem-vindos nessa cabine. – Harry anunciou.
Draco mordeu os próprios dentes com a menção ao termo grosseiro feita pelo Grifinório, e sentiu que podia avançar no rapaz em dois passos, para mostrar quem realmente era idiota de tentar afrontá-lo em um dia nada bom.
— Você, Potter, meça bem as suas palavras antes de direcioná-las a mim. – Draco avisou, a voz cadenciada.
— Meça as suas também, Malfoy. – Harry revidou, inquieto em seu assento na cabine – E não ouse chamá-la disso novamente, ou verá do que sou capaz de fazer com você.
— Isso não é necessário, Harry... – Hermione se manifestou, prevendo uma reação explosiva do moreno.
Ainda faltava tanto para deixarem aquele povoado e chegarem à Hogwarts, e aquela discussão só servia para atrasar ainda mais a partida.
— Então, você vai querer brigar, cicatriz? – Draco atiçou, um sorriso de lado brincando nos lábios, em provocação.
Inconsciente do efeito que causou em Harry com aquele chamado indireto para uma discussão física, Draco já se preparava para dar as costas a todos quando foi violentamente empurrado para o chão com o peso do corpo de alguém. Quando bateu as costas contra o chão de pedra e terra batida, fechou os olhos durante o impacto e não conteve uma expressão de dor que se formou em sua face. Harry havia se atirado contra ele, pulando fora da cabine em apenas um passo, tomado por uma raiva que ele próprio desconhecia. A cena teria atraído a atenção de muitas pessoas, se agora eles não fossem os últimos a embarcarem nas charretes.
— Rony, faça alguma coisa! – Gina gritava de dentro da cabine, vendo os dois rapazes prestes a se estapearem.
— Deixe eles se entenderem, Gina. – O ruivo disse, achando muito divertida a cena.
O que Harry não tinha previsto, era que ele também acabaria se machucando com sua atitude imprudente, e agora sentia os joelhos doloridos. Mas, aparentemente, isso não foi o suficiente para fazê-lo soltar o Sonserino. Percebendo que nenhum dos rapazes ali presentes tomariam qualquer atitude para apartar a briga, Hermione deu uma rápida olhada na direção da Gina e sinalizou com a cabeça para dizer que elas tinham que fazer algo.
Rapidamente, Hermione agarrou Harry por um dos braços e começou a puxá-lo para longe do Sonserino, ao tempo em que Gina descia da charrete e o puxava pelo outro braço também. De longe, Rony observava torcendo para que as meninas não fossem mais fortes que o amigo. Mas elas eram, juntas, e foram capazes de afastá-los, mesmo com muito esforço, o que deixou Rony bastante decepcionado. De repente, Draco se pôs a gargalhar, deixando a todos bastante espantados.
— Olha só para você, Potter... um covarde! – Ele dizia entre os risos, ainda deitado de costas contra o chão – Quem é o idiota, agora?
Harry estava a ponto de se desfazer das amarras cridas pelas meninas, diante das afrontas de Draco. A vontade que tinha era de pular contra o pescoço do rapaz novamente e, dessa vez, acertá-lo com um soco igual àquele que Hermione lhe dera uma vez, no terceiro ano.
— Esqueça, Harry. – Hermione dizia, lutando para afastar o amigo o máximo que podia – Não perca seu tempo com imbecis como ele.
Ao fundo, Draco voltava a gargalhar, após as palavras de Hermione. Para ele, estava muito claro o que deixava Harry tão nervoso, afinal. Apoiando-se contra as pedras no chão, ele foi se levantando até estar de pé e conseguir bater a poeira das suas vestes. Olhou para trás e avistou o amigo, parado.
— E você, hein, Blaise, francamente! – Ele exclamou, deixando claro para o amigo que tinha esperado uma reação de defesa da parte dele.
Blaise só conseguiu mover os ombros em resposta, como se dissesse que não havia nada que ele pudesse fazer, ou que para ele não importava tanto se Draco estava perdendo ou ganhando aquela briga. Qual das duas situações, Draco descobriria depois em uma conversa mais particular.
— Quer dizer, Potter, que você me jogou no chão só por causa da sabe-tudo? – Draco disse, já recomposto da queda – Só porque eu chamei a sabe-tudo de sangue-ruim, que é exatamente o que ela é.
— Não a chame disso novamente, Malfoy! – Harry exclamou com os dentes cerrados, conseguindo desvencilhar-se das mãos de Hermione que o segurava com o braço para trás.
Percebendo que aquele era o motivo certo para que Harry avançasse sobre o Sonserino novamente, Hermione correu para ficar à frente de Harry e pôs as mãos em seu peito, afastando-o para trás com toda a sua força.
— Chega, Harry! – Ela determinou, olhando firme em seus olhos – Agora, sou eu quem resolvo isso.
Com essas palavras, o corpo de Harry respondeu ao pedido e se acalmou, demonstrando para Gina que podia soltá-lo sem maiores problemas, até porque a ruiva não conseguiria mais detê-lo sozinha. Aproximando-se do Sonserino lentamente, Hermione ia despertando a curiosidade nele, que ainda não acreditava que a garota seria capaz de enfrentá-lo.
— Nem pense em se aproximar mais do que isso, sua imunda. – Ele despejou, rispidamente.
Mas seu pedido não surtiu nenhum efeito, pois ela não apenas continuou a aproximação como o empurrou para trás com uma mão em seu ombro. Nem mesmo ela sabia de onde tinha tirado toda aquela força, ou coragem.
— A última coisa que queremos é que algum de nós saia machucado daqui, hoje, Malfoy. – Ela começou a dizer, a mão ainda sobre o ombro esquerdo dele – Portanto, retire-se enquanto ainda consegue sair com as suas próprias pernas.
A reação imediata de Draco foi novamente gargalhar, como fizera antes, pois lhe pareceu muito absurda aquela ameaça, especialmente porque ele sabia como dar fim àquela discussão usando a própria varinha e, aparentemente, todos eles tinham se esquecido que eram bruxos. Draco deu uma rápida olhada para baixo, onde a mão dela repousava sobre seu ombro, e repuxou os lábios para cima maquiavelicamente.
Com um movimento rápido, as posições se inverteram e era Hermione quem estava sobre o seu domínio, pois agora ele a segurava pelo pulso, com força, obrigando-a a ficar cara-a-cara com ele, enquanto apontava sua varinha para seu pescoço. Só então, nesse momento, todos pareceram se dar conta do que estava acontecendo, e cada um deles sacou a própria varinha das vestes, apontando todas para Draco. Um pouco afastado, Blaise Zabini apontava a sua para todos, ao mesmo tempo, caso precisasse se defender.
— Está tudo bem, ele não vai me machucar. – Hermione afirmou, querendo sinalizar para os amigos abaixarem as varinhas.
— Como tem tanta certeza disso, sangue-ruim?
— Não me chame disso, novamente. – Ela ordenou, uma fúria latente crescendo em seu olhar.
— Ou vai fazer o quê? – Ele a provocou, dando-lhe um puxão no braço que segurava com firmeza.
Hermione estremeceu, sentindo um desconforto pela posição que estava sendo forçada a ficar. Foi então que ela se deu conta, naquele momento, da diferença de tamanho e força física que havia entre eles. Draco era muito maior que ela, os ombros largos, e muito mais forte também, pois quase não precisava se esforçar para mantê-la naquele aperto. Parecia que todos os garotos estavam diferentes naquele ano. Ela pensou se talvez o mesmo valesse para ela, afinal, seu corpo tinha ganhado umas curvas novas nos últimos meses.
— Vou ensiná-lo o significado de respeito. – Ela respondeu, reunindo um pouco de coragem.
— Talvez você devesse ensinar isso para os seus amigos, primeiro. E depois a gente conversa, novamente.
— Imbecil. – Ela explodiu, no momento em que ele planejava largá-la, por isso não a soltou.
— Você andou chorando, Granger? – Ele perguntou, soltando um riso debochado em seguida.
— Não é da sua conta. – Ela respondeu, achando estúpido da parte dele revelar sobre seu momento de fraqueza na cabine do Expresso.
— Que pena. – Ele encenou uma expressão de tristeza – É que eu precisava de lágrimas de dragão para uma poção nova.
Ele riu de sua própria piada, acompanhado da risada de Blaise, que ele nem se lembrava mais que estava ali também. Mas Hermione não viu graça alguma, só conseguia pensar no quão irritante aquele Sonserino podia ser, ainda mais quando achava que estava em vantagem, o que não era bem verdade, pois havia mais pessoas apontando as varinhas contra ele do que ele teria coragem de feri-la. No fundo, ela sabia que se ele tivesse que machucá-la, algum dia, não seria com tantas pessoas testemunhando.
— Uma poção? – Hermione perguntou, fingindo alguma curiosidade – Talvez isso não o ajude quando eu lhe azarar. Sinto muito.
Dessa vez, foi ela quem esboçou um sorriso de vitória no canto dos lábios, enquanto Rony deixava uma risada escapar, mas parou assim que viu os amigos olhando feio para ele. Os segundos se passaram lentamente enquanto uma troca de olhares se formava entre eles, e diversos pensamentos ganhavam forma em suas cabeças. As discussões com Draco estavam intensas naquele dia, desde o Expresso, e Hermione não compreendia como podia ter deixado as coisas chegarem àquele ponto. Teria sido tão mais fácil se Harry evitasse as provocações do loiro.
— Então, vai me soltar ou não? – Hermione questionou, demonstrando confiança.
— Você tem sorte. – Draco gracejou, largando o pulso dela em um movimento grosseiro – Estou de bom-humor hoje.
Hermione bufou, massageando o próprio pulso, achando que não seria ouvida:
— Imagine se estivesse de mau-humor.
— O que disse? – Se aproximou novamente, obrigando-a a se afastar para trás.
Com o movimento, ela terminou colidindo contra Harry, que a amparou em um abraço nitidamente protetor, a varinha ainda em punhos e uma vontade angustiante de estuporar o loiro só pela ousadia de ter tocado em Hermione.
— Eu disse para você ir, Malfoy. Vocês dois. – Ela apontou para o amigo dele.
— Não é você quem dita as ordens aqui, garota. Contente-se com a sua ralé, tenho certeza que eles fazem tudo o que você manda.
As provocações não teriam fim, se um deles não desse fim a elas. E a única pessoa que realmente estava a ponto de explodir, era Harry. E foi ele quem avançou sobre Draco novamente, agarrando-o pelo colarinho e jogando-o de encontro a carruagem, que cambaleou ameaçando virar. As varinhas estavam em punho, ainda, mas era imprudente usar qualquer feitiço quando estavam fora de Hogwarts, e configuraria numa infração grave, do qual teriam problemas em justificar. Só por isso não tinham se ferido gravemente, ainda.
— Nunca mais toque em Hermione, novamente, Malfoy. Nem a chame daquilo. – Harry dizia, entredentes – Nós já toleramos as suas afrontas por tempo demais, está na hora de resolvermos isso de uma vez, não acha?
— Só se for para quebrar o seu nariz, Potter.
— Não seja por isso.
Com um movimento ligeiro, as posições foram invertidas e agora Harry o segurava com as mãos nas costas, o corpo virado para frente, sem lhe dar a chance de escapar. Mesmo sendo um pouco mais baixo que o outro, Harry conseguia ser mais forte, caso contrário, não conseguiria fazer aquilo. Ninguém se movimentou, nem mesmo Blaise, pois ele sabia que estava em desvantagem e, para ser arrastado para o chão, bastava um chute do Weasley, que estava mais próximo dele.
Sem que ninguém esperasse, Harry agarrou Draco pelos cabelos e forçou sua cabeça em direção à estrutura da carruagem, batendo-a ali com a testa. O ruído foi estridente, e assustou a todos, que ficaram divididos entre impedir o rapaz de machucar o outro, ou só observar o que ele faria depois. Hermione ficou incrédula com o tamanho daquela agressividade e Gina, que não se movia desde que Harry se soltara dela, só queria que aquilo terminasse com Draco Malfoy vivo, pelo menos.
— Agora peça desculpas a ela, Malfoy. – Harry ordenou, ameaçando repetir o movimento que tinha lhe deixado com uma marca na testa. – Vamos, peça.
Mas Draco não disse nada, nem demonstrou que o faria. O moreno estava prestes a machucá-lo novamente, quando sentiu as mãos de Hermione em seus braços, gentil, e só por um instante ele repensou o que estava fazendo.
— Harry, isso não é necessário. – Hermione ia dizendo, tentando acalmá-lo com sua voz, com o seu toque, notando o quanto ele respirava ofegante – Eu estou bem. Eu vou ficar bem.
— Ele machucou você, Hermione, eu vi. – Harry argumentou, e apertou as amarras quando um dos braços de Draco escapou de suas mãos, e agarrou-o pela veste, por trás, tentando se defender – E te insultou. Você é um verme, Malfoy.
Com aquele único braço livre, Draco ia tentando afastar Harry, puxando-o para trás, buscando acertá-lo com um tapa, mas como estava de costas, não enxergava muita coisa nem conseguia se movimentar muito bem. Ele não faria o que Harry estava pedindo, nem mesmo se sua cabeça estivesse para ser cortada, porque o seu orgulho não permitiria pedir desculpas.
Ele nunca pedia desculpas, a ninguém. Tinha crescido aprendendo a agir assim, e se tinha uma ofensa que o repudiava mais que qualquer outra, era ser chamado de verme, pois era o que seu pai costumava fazer quando se irritava com um comportamento mau criado de Draco.
— Harry, por favor, não faça isso... – ela pediu novamente, suplicante.
Aos poucos, o corpo de Harry foi relaxando, livrando-se daquele ódio, daquele desejo inesgotável de fazer justiça com as próprias mãos. Num único movimento, grosseiro, até mesmo rude, ele soltou o braço de Draco e o empurrou para frente quando largou seus cabelos, pelo menos a tempo do rapaz se proteger para não bater com o rosto contra a carruagem, novamente.
— Obrigada, Harry. – Ela agradeceu, afastando-o um pouco, só por segurança.
— Fique sabendo, Malfoy, eu não fiz isso por você, mas pela Hermione. Na próxima, ela não vai estar lá e eu vou terminar o que tiver começado com você.
Draco não respondeu, se quer olhou para ele. Ainda estava de costas, uma mão apoiada na carruagem, a outra massageando o local onde tinha batido com a cabeça. Mas deixou um riso escapar, como afronta, tentando demonstrar que aquilo não tinha sido nada para ele.
Vendo-o daquela forma, ela se preocupou e quase teve vontade de ir vê-lo de perto para saber se tinha se machucado muito, mas sabia que isso só traria uma nova onda de discussão. Ela ainda não entendia a razão pela qual defendera o Sonserino, pois em tempos anteriores, teria adorado vê-lo sofrendo as consequências de sua própria arrogância.
— Vamos entrar, precisamos partir. – Gina anunciou para os amigos, e paralisou quando notou Draco virando-se em sua direção.
Os olhares deles se encontraram, mas durou pouco, pois logo ele os dedicou à Hermione e Harry, que o observavam com a guarda alta. Ele sorriu de canto de lábio, pensando que a partir de agora seria sempre assim.
— Urg! – Ele exclamou, uma expressão de nojo na face, enquanto ajustava as vestes – Vocês formam um casal repugnante.
Não tinha sido uma afronta digna de revidar, pois Harry não se abalou com as palavras do Sonserino. Hermione, no entanto, teve vontade de ela mesma lhe acertar um tapa, agora. Mas engolindo duro, puxou Harry pelas mãos e o arrastou para dentro da carruagem, antes lhe direcionando uma última atenção:
— Como monitor, você só sabe causar desordem, Malfoy.
— E você não, Granger? – Ele devolveu, um sorriso brincante. – Afinal, só estou tentando manter a ordem.
Ela bufou, dando por encerrada sua discussão, ao tempo em que ele desviava a atenção, trocando olhares com seu amigo Sonserino, meio afastado demais para o seu gosto.
— Passar bem, Weasley. – Draco desejou para Gina, quando ela foi a última a subir na carruagem.
A ruiva ficou desconcertada, mas disfarçou. Depois que estavam todos acomodados lá dentro e a porta da cabine se fechou, respiraram aliviados. Ao menos, ninguém tinha se ferido gravemente. Hermione sentia uma latência no pulso, mas achava que isso passaria logo. Harry tinha alguns arranhões nos braços, devido à queda que sofreu sobre o Sonerino, e um joelho incomodava. E Draco, uma dor de cabeça infernal.
— Por que ele disse para você passar bem, Gina? – Rony perguntou.
— Como vou saber? – Ela deu de ombros, sentada ao lado de Harry no sofá – O garoto está perturbado, só pode.
Rony não se convenceu com aquela resposta, nem os demais, mas permaneceram calados. Sentada do outro lado, dividindo o espaço com o amigo ruivo, Hermione observava o modo como Gina sempre encontrava uma forma de encostar em Harry, seja uma perna, um braço ou mesmo quase segurando em sua mão. Dessa vez, ela ouviu a ruiva sussurrar, perguntando se ele estava bem, se algo doía, e aos poucos ia encostando a mão sobre a perna dele.
— Por que essa coisa ainda não saiu do lugar? – Hermione explodiu, se dando conta de que a carruagem não se movera.
Eles se encararam por alguns segundos, mas não tinham uma explicação para aquilo. Do lado de fora, os Sonserinos ainda estavam lá, e um deles parecia bravo.
— Então agora me diz, como vamos chegar em Hogwarts antes do jantar, e sem levar uma bronca do Snape, ainda por cima? – Blaise perguntou, uma mão na cintura, olhando ao redor.
Só havia eles, ali, e a única carruagem estava ocupada, mas que aparentemente não pretendia ir a canto algum. Não sem que todos os alunos estivessem dentro dela. Foi essa a conclusão em que Hermione chegou depois de pensar.
— Escutem, é o único jeito de sairmos daqui e chegarmos logo no castelo. – ela disse, no que todos a olharam curiosos.
Sem pedir a opinião deles, Hermione abriu a porta da cabine novamente e deu de cara com os rapazes, que já tinham puxado suas varinhas novamente, instintivamente.
— Ou vocês vêm conosco, ou dão logo o fora daqui. – Ela anunciou, lá de cima – A carruagem não vai partir enquanto vocês estiverem aí, plantados.
Os amigos se entreolharam, incertos sobre aquilo e receosos também.
— Quer saber, Draco, se quiser, você fica, mas eu vou com eles. – Disse o amigo dele, já subindo.
Apesar de espaçosa a cabine, Rony se sentiu desconfortável com a presença do Sonserino e se deslocou de onde estava para dividir o mesmo sofá com Harry e a irmã.
— Depressa, Malfoy. – Zabini disse, impaciente.
Com uma rápida olhada para dentro, Draco viu a expressão de poucos amigos do trio e de Gina, e quase desistiu da ideia. Mas no fundo sabia que não tinha outra alternativa. Ou era isso, ou teria que recorrer ao pai para lhe conseguir um transporte, e ainda assim talvez chegasse apenas depois do jantar. Além disso, teria que ouvi-lo dizendo o quão imprudente ele tinha sido e que não merecia nenhuma confiança, coisas que o pai sempre dizia quando estava com raiva. Depois de ponderar, Draco cedeu, e subiu na cabine.
— Afasta para lá, Zabini. – Ele exigiu.
— Não mesmo, eu vou na janela. – O moreno argumentou.
Só havia uma opção para Draco, e era sentar-se entre o amigo e Hermione. E foi assim que ele teve que ir a viagem toda, espremido, desmoralizado e ressabiado. A carruagem começou a se mover depois que estavam todos acomodados, e a teoria de Hermione estava certa, como sempre.
A viagem era repleta de caminhos tortuosos, com pedregulhos, e a carruagem se debatia bastante, fazendo cursas sinuosas e obrigando-os a se segurarem para permanecerem nos assentos. Draco sempre detestou esse transporte, mas seus pais insistiam que ele tinha que fazer igual a todos, caso contrário, chamaria muito a atenção para si se chegasse em Hogwarts por qualquer outro meio, e ele tinha dito que naquele ano era bom não chamar muito a atenção das pessoas. Era um ano decisivo para Draco, e ele estava demasiadamente preocupado com as consequências de tudo o que faria.
Do outro lado da cabine, Gina tentava a todo o custo desviar sua atenção do Sonserino, mas inevitavelmente acabava voltando os olhares para ele, só para vê-lo lhe devolvendo outro repleto de ressentimento. Ela escondia um segredo de seus amigos, um segredo que só ela e o Sonserino sabiam, e que ele não estava nada contente em ter que o dividir justo com uma Weasley fedelha. Por isso estava tão irritado com ela, tinha tentado persuadi-la no Expresso, pedindo para que não contasse a ninguém e esquecesse o que tinha visto, mas a garota era teimosa.
Agora, ele tinha lhe prometido um favor, em troca do seu silêncio. Mas Gina ainda não tinha pensado no que pedir, achava até que seria impossível encontrar algo em que Malfoy pudesse ser útil a ela, e estava começando a ficar bastante inclinada em revelar toda a verdade aos amigos e acabar logo de uma vez com aquela troca de farpas entre eles. Draco achou que se a fizesse ficar constrangida, como quando lhe desejou passar bem, faria com que ela desistisse da ideia de suborná-lo, pois isso só o faria ficar ainda mais próximo dela, e ambos sabiam que nenhum dos seus amigos a perdoariam se descobrisse que estava planejando firmar uma parceria com ele.
Durante boa parte da viagem rumo ao castelo, Hermione tentara decifrar os enigmas daquela discussão, pensativa em seu assento, visivelmente cansada. Não tinha mais os traços em sua face de que havia chorado, mas ainda carregava uma expressão melancólica. Draco, por sua vez, não parecia absolutamente nada confortável dividindo aquela carruagem com os Grifinórios, especialmente depois de tê-los enfrentado, como sempre fizera, ano após ano, e sentia-se vitorioso apesar de tudo.
Assim que chegaram aos terrenos de Hogwarts, obviamente atrasados, foram recebidos pelo guarda-caça que já estava bastante eufórico com a demora deles. Assim, se separaram dos Sonserinos e rumaram para o Salão Principal, onde o jantar já era servido.
— Aquela foi uma grande discussão, não acharam? – Rony perguntou, indo um pouco atrás deles.
— Malfoy certamente não vai esquecer disso tão cedo. – Gina comentou.
— Por pouco o Harry não fez uma cicatriz igualzinha a dele na testa do Malfoy. – Disse Rony, rindo da piada.
No entanto, Harry não achou graça, pois a cicatriz dele jamais seria igual a qualquer outra. A sua tinha custado a vida de muitas pessoas.
— Por que não falamos de outra coisa? – Hermione sugeriu, percebendo o desconforto do moreno ao seu lado.
Não havia muito o que se discutir, na verdade, pois estavam mais famintos do que qualquer outra coisa. Assim, deliciaram-se com seus jantares e deram por encerrado aquele dia. Mais tarde, na Torre da Grifinória, eles se despediram com um boa noite e subiram para seus quartos, deixando para trás uma Hermione que preferiu ficar mais algum tempo terminando de ler um livro que tinha começado ainda na viagem de trem.
Ali, sentada confortavelmente no sofá, de frente para a lareira, seus pensamentos vagavam por caminhos indiscretos, e tudo o que menos fazia naquele momento era ler o livro que segurava nas mãos. De repente, foi surpreendida pela presença de alguém, que se sentou ao seu lado com um sorriso bastante tímido nos lábios.
— Você tem um tempo para mim, agora que foram todos dormir? – Harry perguntou, um pouco nervoso.
Ela sentiu vontade de deixá-lo ali falando sozinho, pois sabia que o problema não era ter que esperar todos irem dormir, mas sim a irmã mais nova dos Weasley’s. Antes, mesmo que Rony não soubesse de nada sobre eles, ainda assim costumavam ficar juntos sem despertar curiosidade em ninguém, porque eles sempre foram muito amigos, de qualquer forma. Mas agora com Gina envolvida, o cuidado era outro, ela tinha percebido. Agora, parecia que o tempo deles tinha se esgotado.
Continua...
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