Era Uma Vez

6 Capítulo 6


Syaoran foi guiado por Sakura até o jardim de trás do castelo, só pararam de andar ao chegar num banco de madeira cercado do que deveriam ser plantas muito bonitas se não fosse inverno e elas estivessem todas secas. De repente, ele começou a suar frio, lembrando do que o trouxera ali.

— Desculpe pelo meu irmão, eu não sei o que deu nele. Juro que ele não é sempre assim. Quer dizer, ele é sempre chato, mas hoje...

— Não... Tem problema.

— Você... O que queria falar comigo?

Ele chegou a pensar em ir embora correndo. “Provavelmente ela nem lembra mais o que aconteceu...”. Depois de uma pequena pausa em que a princesa o viu tornar-se rubro, ele falou sem encará-la parecendo concentrado em algo muito interessante no chão gramado que ele remexia com um pé.

— Eu... Sobre o que eu disse na manhã de natal, eu só... estava irritado e...

— Eu fui muito intrometida, me desculpe.

— Não...Você não ficou irritada? – Ele falou de repente, passando a encará-la, como se quisesse decifrar seus sentimentos.

— Não, no momento eu só estava um pouco confusa. Algo muito grave devia ter acontecido, você parecia tão desesperado... Queria poder fazer algo para ajudar... Quando soube que não havia nada que eu pudesse fazer eu me senti muito triste... Porque você tinha razão, quer dizer, eu sei o que você deve pensar: “O que uma garota como eu entende de qualquer coisa?”... É que na verdade é muito estranho... Quando eu estou com você acabo esquecendo que devo tratá-lo como uma pessoa mais velha... – Ela deu uma risadinha sem jeito – É muito estranho... Me desculpe.

Syaoran, que a olhava nos olhos, achando que ela parecia bem sincera, voltou a encarar o chão ao ouvi-la dizer aquilo, ele próprio já esquecido de sua condição.

— De qualquer jeito eu não devia ter dito aquelas coisas... – O vermelho do rosto dele ia ficando ainda mais intenso.

— Tudo bem, você só tem que me prometer uma coisa, tá?

Ele virou o rosto novamente para ela.

— O quê?

— Que você vai me falar quando houver algo que eu possa fazer... E que vai me deixar ser sua amiga.

— O quê???

— É isso mesmo, assim não preciso tentar ser formal... – Ela deu outra risadinha, dessa vez mais à vontade. – Desculpe se estou sendo mal educada. – Ela estendeu o dedo mindinho para ele que estava sem ação – Então... Pode ser?

Ele olhava o dedo que ela apontava para ele sem saber o que fazer, só depois de alguns instantes, ele conseguiu falar:

— T-tudo bem...

— Legal! É uma promessa, né?

— É.

— Então, vamos, entrelace seu dedo mindinho no meu.

— Hã?

— Assim. – Ela entrelaçou seu próprio dedo mindinho no que ele tinha levantado timidamente – Agora é uma promessa. – Ela concluiu com um grande sorriso.

Ele olhava seus dedos entrelaçados cobertos pelas luvas que usavam para se proteger do frio, ficando, se é que isso era possível, ainda mais corado.

— Ei – Ele pareceu levar um choque e retirou o dedo bruscamente, Sakura, que tinha se levantado do banco, colocou as mãos nos joelhos e, com o rosto bem perto dele, falou, ainda sorrindo: — Quero te mostrar uma coisa, vem comigo?

— Aonde?

— É um pouco longe, mas juro que vale a pena. Venha. – Ele levantou e ela voltou a puxa-lo pela mão, guiando-o por um caminho à direita, enquanto continuava a falar: — Você sabe andar à cavalo, né?

— Eh... sei.

— Ótimo. – Syaoran tinha sido levado a um estábulo a vários metros de onde tinham estado. Sakura saiu correndo em direção à um cavalo branco de manchas pretas e crina e rabo da mesma cor. Lá, ela o apresentou a um homem que cuidava do lugar.

— Dia perfeito para um passeio, hein? – O homem comentava começando a preparar a sela do cavalo dela – É bem raro termos dias assim em pleno inverno.

— É mesmo. – Ela respondeu animada ainda acariciando de leve o animal. – Syaoran, pode escolher um. – Ela falou sem desviar os olhos enquanto Syaoran passava a analisar cada cavalo – Como vai minha menina? Ela esteve com medo da tempestade?

— Todos eles estavam bastante agitados esses dias. Ela vai gostar muito de poder andar por aí.

O príncipe era acostumado a lidar com aqueles bichos e soube escolher um belo alazão de ar elegante que logo também estava pronto para ser montado e os dois partiram num passo meio lento enquanto conversavam:

— Poderíamos cortar caminho pela cidade, mas acho lindo o caminho pelo campo, você se importa? – Sakura perguntou.

— Não.

— Certo, vamos lá, então. – Com um comando firme à égua que montava, a princesa disparou num trote rápido à frente de Syaoran, que seguiu-a sorrindo.

O castelo real do país de Clow ficava numa área alta, meio afastada da cidade. Os dois seguiram um caminho de descida que passava por várias plantações e um riacho. O caminho voltou a subir quando eles tomaram uma trilha larga numa floresta de pinheiros que iam se tornando menos espaçosos à medida que avançavam, apesar dos raios de sol havia bastante neblina. Num momento, a trilha dividia-se e eles seguiram para a esquerda. À frente de Syaoran, a princesa começou a diminuir a velocidade e ele imitou-a até pararem. Tinham chegado ao fim da trilha, à sua frente, as árvores cresciam bem juntas e não se enxergava o que havia adiante. Agora sem o som dos passos dos cavalos, ele tinha certeza de poder ouvir o som forte de muita água caindo.

— Podemos deixá-los aqui. – Ela disse, apontando para os cavalos. — ...Certo, por aqui. – Ela tomou a mão dele, levando-o em frente.

Eles deram alguns passos esbarrando nos galhos dos pinheiros, até chegar ao fim da floresta, onde também se dispersava a neblina e Syaoran viu-se diante de toda a cidade e dos campos que a cercavam além do castelo ao lado direito. Pelo visto estavam no meio da subida de uma montanha alta, uma das várias que cercavam o lugar.

— É isso... o que eu queria que visse. – Sakura tinha dado mais uns passos à frente e estava bem próxima da beirada, para sua surpresa, ela não apontava para a vista da cidade e sim para um ponto à frente no lado direito em que a vista acabava e a montanha se dobrava para o lado.

Um pouco de neblina ainda cobria esse ponto, por isso Syaoran demorou um pouco para divisar num ponto acima o inicio da cachoeira de onde vinha o barulho de água. Aproximando-se do lugar onde estava Sakura, o príncipe pôde ver uns metros abaixo uma rocha grande que a fazia se dividir em duas antes de desaguar no rio. Para completar o espetáculo da natureza, um pequeno arco-íris se formara entre a cachoeira e o rio.

Os dois sentaram-se ali perto da beirada e ficaram por um tempo admirando tudo. Syaoran tinha percebido entre umas pedras um pequeno monte de neve.

— Ah, é mesmo – Sakura respondeu a seu comentário mudo – Se fossemos mais para cima, encontraríamos muito mais.

Com as mãos apoiadas no chão atrás de si, ele estava achando muito lindo o modo como a cachoeira e a montanha à esquerda e as árvores ao lado direito pareciam formar uma espécie de moldura para a cidade à frente.

— Você precisa ver isso aqui na primavera, é magnífico!... Você acha que vai estar aqui na primavera?

Ele se virou para encará-la.

— Não sei.

— Pretende voltar para seu país?

— Não sei quando vou voltar...

— Sua família toda vive lá?

Ele ficou calado um tempo e depois respondeu:

— Sim.

— Você tem filhos? Netos?

— Não. – Ele respondeu rápido, horrorizado com a pergunta.

— Nunca teve filhos?

— Não.

— Nunca foi casado? – Ela parecia chocada.

— Não.

— Por quê?

Ele não respondeu, parecendo pensativo.

— Então, são seus pais que ainda vivem em seu país?

— Minha mãe e minhas... irmãs. – Ele concluiu com uma careta.

Ela sorriu, perguntando:

— O que é? Não se dá bem com elas?

— Mais ou menos. – Ele respondeu, também sorrindo. – Elas são meio... estranhas.

— Estranhas?

— Bem... muito escandalosas e irritantes...

— São mais novas?

— Não.

Ela olhou-o meio intrigada por um tempo, mas não disse nada, Syaoran percebeu o que ela devia estar pensando, mas também não disse nada. Sakura só voltou a falar depois de um tempo:

— Sabe, às vezes eu também acho meu irmão muito irritante, mas eu sei que no fundo gosto muito dele e sei que ele sente a mesma coisa em relação a mim... Você também sente o mesmo por suas irmãs, não é?

— Bem... elas são minhas irmãs... – “Gosto muito delas, contanto que mantenham distância segura.”

A princesa tinha voltado a contemplar a paisagem.

— É sério, você precisa ver Clow na primavera. Logo no início da primavera é meu aniversário, toda a cidade se reúne sob as cerejeiras que estão florescendo, temos torneios e danças...

— Seu aniversário é no início da primavera? – Syaoran a interrompeu.

— Sim.

— Quando?

— Dia primeiro de abril.

— Primeiro de abril?

— É.

Ele ficou muito admirado e depois pensativo.

— Algum problema?

— Também é meu aniversário.

— O quê???... Verdade?

— Sim.

— Ai, minha nossa. Que legal! Seria muito divertido se você pudesse vir também comemorar...

Syaoran mal ouvia o que ela falava, pensando na proximidade daquela data que ele esperara ansiosamente por muito tempo. O dia de seu 17º aniversário, em que ele seria coroado rei. Meio sem pensar, ele acabou perguntando:

— Quantos anos você vai fazer?

— 17... E você?

— Não sei. – Ele demorou para responder.

— Não sabe?

— De uns anos pra cá, parei de contar...

Sakura deu uma risada.

— Ai, não seja exagerado.

Ele não falou mais nada, parecia um pouco desconfortável. Sakura dobrou os joelhos, apoiando seu queixo neles, tinha ficado pensativa também de repente e, depois de um tempo falou baixinho, quase para si mesma:

— Daqui a alguns dias será ano novo... – Daí, ela levantou a cabeça bruscamente, com o rosto iluminado como se tivesse tido uma grande idéia: — Ei, você faria um grande favor para mim?

— Favor?

— É... sabe, daqui há alguns dias haverá um baile no país da princesa Tomoyo, você se lembra dela, não é? – Ele concordou com um aceno de cabeça. – Pois é. Eu preciso muito de alguém que me acompanhe, é muito importante.

— E você quer que...

— Sim, você seria meu acompanhante.

— Não.

— Sim, por favor! Olha, eu conseguiria para você uma bela roupa e nós iríamos juntos... por favor! – Ela tinha juntado as duas mãos num gesto de súplica.

— Olha, eu tenho certeza que você tem uma porção de pessoas melhores para convidar.

— Não diga isso, você é meu amigo agora, não é?... a maioria dos meus amigos vai, mas eles têm acompanhantes e... não é obrigado tê-los, mas é aí que entra a parte do favor que você estaria fazendo para mim.

Ele a encarava nos olhos que pareciam desesperados, sem entender porque ela estava fazendo aquilo.

— Você tem certeza disso?

— É claro!

— T-tudo... bem, então... mas eu não acho que...

— Ai, obrigada! – Ela tinha pulado em cima dele e o abraçara, deixando-o completamente desconcertado.

Continua...

Notas finais
Muito obrigada pelos reviews, continuem dizendo o que estão achando da fic, ok? Em breve o próximo capítulo bjos.