Era Uma Vez ...

2 Capítulo 2 - Doces para a Vovozinha.


Qual foi o pior jeito que já acordou? Caindo da cama? Com um balde de água fria? Com um cachorro lambendo sua cara ou talvez com um cara demente fantasiado de Jason em plena sexta-feira 13 em seu quarto ligando uma serra-elétrica e usando ela no lugar do seu querido despertador?

Bom, seja como for.. Aposto que não se compara à como eu acordei. — Seis horas da manhã, com a luz do Sol penetrando, ardendo e queimando meus olhos e uma dor insana no pescoço. Sem contar o fato do ônibus ter dado um pulo e arremessado minha testa contra a janela, onde eu, por sinal, estava apoiada e babando lindamente enquanto dormia.

Até ai você pode até estar pensando que não foi algo tão trágico assim. " Isso acontece com qualquer um. " Mas, acho que já tinha mencionado o porque de eu não querer dormir dentro do ônibus, não é? Pois bem.

Enquanto eu aproveitava do meu querido sono de beleza, eu simplesmente fui ASSALTADA! Assaltada! Eu sabia que uma hora ou outra isso ia acontecer.. E aconteceu! No momento em que eu previa. Exatamente quando eu dei uma cochilada.. Algum maldito ladrãozinho aproveitou a situação e levou ela embora! Minha mochila, que a dias eu vinha agarrando e cuidando com a minha própria vida se necessário agora não estava mais lá!

Então comecei a ter um acesso de pânico. Meus olhos encheram-se de lágrimas e eu não sabia se estava mais frustrada ou irritada com a situação. Revirei-me umas três ou quatro vezes no banco onde estava sentada, olhando em minha volta, na esperança de apenas ter deixado a mochila cair. Mas não. — Aquilo definitivamente não podia estar acontecendo! — Todo o meu dinheiro.. Minhas poucas roupas.. Naquele momento eu deveria estar parecendo uma criança perdida da mãe, de tão desesperada que estava.

Foi então que, em meio as lágrimas que escorriam pelo meu rosto e embaçavam minha visão, notei algo. Algo que eu deveria ter notado antes, ah se deveria!

Ao meu lado, no assento que durante toda a viagem, para minha sorte, havia ficado vazio, encontrava-se agora um homem. Este, ao contrário de todos que eu havia visto nos últimos dias era um tanto quanto.. Bonito. Muito bonito. Ele usava uma jaqueta de couro pesada, calças e botas no mesmo estilo. Seu cabelo estava todo bagunçado, o que o deixava com um estranho ar de Bad-Boy, como daqueles galãs malvados dos filmes, sabe? Sem contar as correntes, anéis a acessórios de prata.

Ele estava sentado todo largado, quase deitado no assento. Seus olhos encontravam-se fechados, parecendo dormir serenamente. Podia até mesmo acompanhar o vai e vem que seu peito fazia, lentamente. — Afinal, desde quando eu presto tanta atenção em um estranho?

Desde que aquele estranho era maravilhosamente lindo, e havia feito com que eu me esquecesse completamente de que acabara de ser roubada. — Eu não percebi naquele momento, mas acho que passei uns 3 minutos olhando para ele, analisando cada detalhe. — Sabe, ele era realmente muito bonito. Daqueles tipos que as garotas definem como príncipes, perfeitos e sem defeitos, como nos contos de fadas.

Eu estava completamente envolvida por aquela atmosfera radiante que ele emanava. — Ou talvez apenas encantada com o fato de dividir a poltrona ao lado com alguém que não me assustasse ou tivesse a aparência de um dos dez mais procurados. — Mas aquilo era, sem sombra de dúvidas, um grande incentivo para seguir viajem.

Foi então que meus devaneios foram bruscamente interrompidos, por um tranco que quase me fez voar em cima do Príncipe ao meu lado. — Aquela voz raivosa que meus pobres ouvidos vinham aguentando há dias voltara a praguejar, aos berros e pigarros.


— Rodovia 51, Cold Springs, Homemade Food’s. Vocês têm 15 minutos, não vou esperar mais que isso! — E enfiou na boca um pedaço do fumo de corda que carregava embaixo do braço, mascando-o repugnantemente. — Vermes nojentos...


Aquele era o motorista do ônibus, um velho gordo e enrugado, que parecia estar prestes a explodir caso algo tornasse a passar pela sua boca rechonchuda, que lembrava a de um porco em fase de engorda. — Em todas as paradas, ele repetia o mesmo discurso, só mudando o nome da cidade e a rodovia. — Era extremamente desagradável, principalmente pelo fato de que, depois que começava a mastigar aquele bolo gosmento, saliva começava a escorrer do canto de sua boca e a pingar no uniforme sujo que vestia.

Mas fazer o que? Vida de pobre é assim mesmo. Não podia reclamar, caso quisesse continuar viva. — Não tinha dinheiro para pegar um ônibus menos pior, muito menos comprar uma passagem de avião... Afinal, minha mãe não carregava tanto dinheiro assim na carteira. Principalmente no dia em que a afanei. — Era isso, ou alugar um jegue e vir cavalgando.

Mais calma, esperei até que a maioria dos passageiros passasse pelos corredores enferrujados do ônibus — Torcendo secretamente para que algum deles esbarrasse no Príncipe e o acordasse. — Para poder então descer. Assim levantei cuidadosamente, me espremendo entre o banco da frente e as pernas do meu novo companheiro de viagem sem encosta-las, até que finalmente consegui passar.

Bom, passar eu passei. Passei alguns quilos mais leve do que na ultima parada, o que me lembrou de algo que eu preferia esquecer. Minha mochila. — E aquele pequeno ataque de pânico parecia ter voltado e parado em minha garganta. — O que eu faria sem a minha mochila? Todas as minhas roupas, documentos, absorventes... Tudo. Tudo estava lá dentro.

Mas eu não podia desistir, não agora que já estava tão longe.

Engoli o choro e apressei-me para correr até o final do corredor, em direção à minúscula porta de saída. Lá, o grotesco condutor esperava sentado em frente ao volante, observando severamente todos os que entravam e saiam do ônibus, enquanto mascava seu fumo. — Tentei não prestar atenção nele, para não colocar pra fora o pouco de alimento que me restava no estômago. — E pulei para o lado de fora.

Uma brisa desagradavelmente fria veio de encontro com o meu rosto nesse momento, fazendo com que meus pelos se arrepiassem. — E mais uma vez me lembrei da mochila. — Uma blusa de lá grande e grossa não cairia nada mal. Afinal, eu estava vestindo apenas uma blusinha fina, e o tempo parecia estar prestes a esfriar.

Mas aquilo não era nada insuportável, pensei, tentando ser positiva. Relevei, dando de ombros e ignorando o tremer das minhas pernas.

Corajosamente, continuei andando de cabeça baixa, na esperança de conseguir suportar as rajadas de vento que pareciam travar uma luta contra o meu cabelo, jogando-o de lá pra cá e daqui pra lá sob meus olhos, tentando insistentemente me cegar. — Até chegar finalmente ao local indicado pelo motorista. — Homemade Food’s – Comidas Caseiras.

E fiquei completamente petrificada no momento em que me deparei com o lugar. — Conhecem aquela expressão: Pior que tá, não pode ficar? — Bom, infelizmente ela parece abrir uma exceção quando eu estou envolvida no caso.

O dito “restaurante” era pior do que um botequim de esquina. Não, engano meu! Aquilo era MUITO pior do que um pobre botequim de esquina. Era mil e uma vezes pior. Era grotesco.

Imaginei naquele momento o porquê de o condutor indica-lo. Era óbvio: Eles combinavam.

Era uma espécie de super-lixeira-abandonada. — Em cada canto que se era possível observar de onde eu estava, encontrava-se um bolo de poeira ou uma jarra cheia do mesmo grude que o condutor mascava. As portas e janelas eram embaçadas por uma gordura espeça, que parecia estar lá há séculos. Era possível ver também os vultos de algumas pessoas por trás das cortinas, sentadas em mesinhas do lado de dentro.

E eu pensando que nunca encontraria algo tão assustador, e ao mesmo tempo grotesco, que se comparasse ao filme Jogos Mortais. — Engano meu. — A única coisa que faltava agora, era um boneco esquisito saindo em um triciclo lá de dentro.

Tentando tirar essa cena da minha mente, avencei, entrando no lugar.

Era inacreditável. — Tudo do lado de dentro parecia ser ainda pior. — Era mal iluminado, e sujo. Poucas pessoas vagavam e bêbados riam enquanto conversavam com outros bêbados. Uma música antiga e vulgar tocava ao fundo, dando ao lugar um ar estranhamente.. Ruim. — No chão, manchas pretas estavam espalhadas por todos os lados e também.. Ah, eu realmente não queria ter visto a mesma quantidade de vermelhas!

A situação estava grave. Muito grave. Meus pés se moviam sozinhos, indo em direção ao fundo do salão. Meu cérebro parecia ter parado de funcionar por alguns segundos, e eu me movimentava por puro instinto, observando tudo e todos a minha volta. — Aos poucos, consegui ir me aproximando vagamente de uma grande e alta bancada, onde uma garçonete magricela parecia me esperar, lendo uma velha revista rasgada.


— O que você quer? — Perguntou ela, ignorante, sem me olhar.

— Er... Você tem algo.. D-doce? — Perguntei de volta no mesmo instante, automaticamente. Nem sequer notei que estava gaguejando, tremendo e desviando meu olhar para todos os lados alucinadamente naquele momento.


Então, ao invés de me responder, a mulher fez um gesto, apontando seu fino e torto dedo indicador para baixo. Segui-o com os olhos, assim que parei de passa-los pelos cantos das mesas — Onde eu podia jurar ter visto um rato do tamanho de um cachorro. — Logo, me deparando imediatamente com...

Doces. Muitos e muitos doces. Doces de todas as cores, sabores e tamanhos possíveis imagináveis. Cinco ou mais prateleiras cheias e bem iluminadas, com boa aparência e que pareciam gritar pelo meu nome, enquanto esperavam naquelas bandejinhas coloridas e rendadas. — Afinal, COMO eu não tinha visto aquilo antes?!

Era uma pergunta que eu definitivamente não consegui responder. Estava hipnotizada, admirando por vários e vários segundos aquela cena maravilhosamente deliciosa. — Aliás, como eles eram parecidos com os doces que só a minha avó sabia preparar!

Eram tão brilhantes, suculentos e extremamente convidativos, que seria quase um pecado não come-los. — Um pecado ainda maior, não levar um daqueles a minha avó, que amava tanto doces. — Senti meu estômago roncar, minha boca salivar e minhas mãos tatearem loucamente todos os bolsos das minhas roupas, procurando desesperadas por algum dinheiro. — Eu precisava daqueles doces, e não iria sair de lá enquanto não devorasse um deles.


— Um desses mousses de chocolate e... Um quindim também, para a viagem, por favor. — Supliquei a garçonete, ainda procurando pelo dinheiro. Ele TINHA que estar lá.

— Cadê o dinheiro? — Perguntou ela, ainda mais ignorante do que da ultima vez. Continuava a passar os olhos vagamente pela revista desbotada, fingindo ler alguma coisa.

— Está aqui! Eu sei que está.. Em algum lugar.

— Aham, sei. — E finalmente tirou os olhos esbugalhados da maldita revista, me olhando pela primeira vez, de cima a baixo, com desprezo. — Pague primeiro, leve depois. Se não tem dinheiro, pode dar o fora daqui, ladrazinha de beira de estrada.

LADRAZINHA? Pensei aos berros dentro da minha mente, parando naquele exato momento de remexer minhas vestes, encarando a lombriga uniformizada a frente. — Ladrazinha. Quem ela pensava que era para falar assim comigo? — Amarrei a cara, sustentando seu olhar desprezível com a mesma intensidade. Ela tinha que pagar.

Então, fiz o que todo e qualquer cliente contrariado faz quando está irritado.


— Quero falar com o gerente.


E a lombriga ergueu uma das sobrancelhas, separando os lados em uma evidente expressão pensativa. Era óbvio que estava se preparando para dar uma resposta e, consequentemente, despejar todo seu veneno em mim...

No entanto, por mais incrível que possa ter parecido, ela nada disse. — Apenas voltou a cerrar os lábios de batom borrado, refazendo sua cara azeda. — Por um breve momento, eu pensei que talvez fosse minha pose autoritária que fizera com que ela se calasse.

Doce engano.

Naquele exato momento, uma voz grossa e rouca tomou completamente conta da minha atenção. — Sem contar que fez com que meus pelos se arrepiassem, mais do que o vento gelado do lado de fora. — Dizendo autoritariamente:


— Os doces são por minha conta, garçonete.

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Notas finais
Bom, ta aí o segundo capítulo, pessoal. Acho que me empolguei um pouquinho nesse, mas não resisti, sorry. HUSAUHSAUHASUH' Espero que gostem e, pra quem quiser visualizar melhor como é acordar com um maniaco e uma serra elétrica: http://www.youtube.com/watch?v=p2AaFDAGWtA <3