Era Uma Vez ...
6 Capítulo 6 - Anti-Herói.
Notas iniciais
— Essa loira já tem dono, desgraçado. — Disse uma estranha, mas ao mesmo tempo conhecida voz às minhas costas. Ela estava extremamente irritada, e parecia vir acompanhada de um rosnar baixo, quase inaudível.
Aquelas palavras entraram pelos meus ouvidos tão rápido e tão surpreendentemente inesperadas, que eu mal podia acreditar no que estava acontecendo. — Era impossível, eu só podia estar ficando completamente louca, ou delirando pelo desespero. — Mas aquela voz rouca, ignorante e de um tom extremamente agressivo soava às minhas costas, tão próxima, tão estranhamente conhecida, que de algum modo tive certeza absoluta que não estava tentando outro sonho bizarro, muito menos alucinando.
Senti meus pelos da nuca se arrepiarem, e uma sensação de alívio nauseante tomar conta dos meus sentidos, que até alguns minutos atrás pareciam incapazes de relaxar, pelo menos pelos próximos cem anos. — Minhas mãos ainda tremiam compulsivamente, assim como minhas pernas e meus dentes. Porém, eu me sentia segura. — Principalmente, por ver o ogro-gordo-desdentado caído aos meus pés, sangrando.
Ele segurava com uma das mãos os lábios, agora inchados, e tinha um olhar psicótico direcionado para algum ponto acima da minha cabeça. — Naquele momento, senti uma vontade quase que incontrolável de virar para trás, e verificar se quem havia me salvado, era quem eu estava imaginando.
Mas, antes que eu pudesse sequer enviar a ordem para que meu corpo se movesse para trás, uma música ridiculamente alta invadiu meus ouvidos, chegando a machuca-los por conta do violento barulho. — Fechei os olhos por instinto, recolhendo a cabeça entre os ombros em um movimento involuntário. — Logo, antes mesmo que eu pudesse me recuperar do susto, tomei um empurrão nas costas.
Não um empurrão normal, que obviamente me faria cair em cima do homem nojento jogado ao chão. — Era diferente. Seja lá quem estivesse às minhas costas, havia segurado meus ombros, me virado em direção à portinha estreita do banheiro e, ai sim, me dado um baita empurrão nas costas, com uma força desumanamente desnecessária.
E eu simplesmente xinguei, não pude evitar. Afinal, haviam acabado de quase descolar meu ombro na violenta tentativa de me enfiar novamente dentro do banheiro. — Mas quem me empurrou, não parecia ter se importado com o meu atual bem-estar. — Se seu plano era apenas conseguir me enfiar dentro do banheiro, havia funcionado perfeitamente.
Eu quase tropecei na privada e cai de cara do chão, assim que me corpo voou para dentro daquele minúsculo e claustrofóbico banheiro. — No entanto, antes que a desgraça acontecesse, me segurei em uma das paredes, e me virei imediatamente, para continuar despejando xingamentos em cima de seja lá quem fosse que havia me empurrado.
Mas eu estanquei no momento em que meus olhos depararam-se com essa pessoa. — Mesmo meu subconsciente dizendo, à alguns minutos atrás, que era exatamente ele que estava ali, me salvando, a parte consciente do meu cérebro parecia ignorar aquele aviso, como se não se importasse com o que aquilo significava. — Mas afinal de contas, ele se importava, mais do que conseguia admitir. E deu o sinal positivo à isso, assim que visualizou aquela imagem.
Cabelos castanhos, curtos e desgrenhados. Sobrancelhas grossas, nariz fino e empinado, combinando mais do que simetricamente com o rosto magro e másculo. Uma pequena cicatriz, como um corte, em uma das maçãs do rosto. — Era impossível que eu não o reconhecesse.
E ainda mais impossível não deixar as lembranças do ultimo encontro virem a tona, com mais força do que eu esperava, depois de tanto tempo tentando conte-las. — Todas as imagens, vindas em fleshs, toda a sensação de terror agora tomavam conta do meu corpo, que tentava desesperadamente freá-las.
Mas ele não conseguiria, não enquanto meus olhos estivessem grudados Nele. Eu não era forte o bastante para simplesmente ignorar o fato de que aqueles homens não eram os primeiros a tirar proveito de mim tão descaradamente, me assediar. — Claro, eles estavam sendo extremamente mais grosseiros, mas Ele certamente não havia feito o mesmo porque tinham testemunhas demais dentro daquele "restaurante".
Pouco confiáveis e facilmente subornáveis, mas tinham.
E agora, justo agora quando eu pensei que estaria sendo salva pelo meu Príncipe, que ele acabaria com aqueles homens e me tiraria dali, me levaria para um lugar seguro... Me lembro que ele é tão baixo quanto um simples Sapo nojento e pegajoso, e certamente não perderia sua oportunidade de vingança, pelo tapa que eu havia lhe dado no meio da cara. — O tapa, a vingança. — Eu estava mais ferrada do que conseguia imaginar.
Pela fresta da porta que ficou aberta, eu conseguia espionar o que acontecia do lado de fora, mesmo estando paralisada no mesmo lugar que havia ficado, assim que me virei na tentativa xingar e descontar minha raiva. — Minhas pernas tremiam demais, então não arrisquei move-las para chegar mais perto. — Apenas fiquei ali de longe, observando o rosto em perfil Dele, esperando uma reação, torcendo secretamente para que ele não viesse em minha direção.
Talvez até mesmo que se esquecesse da minha existência, e fosse embora.
Mas seus lábios se moveram, obviamente dizendo algo, e mesmo que eu não pudesse escutar o que era, fez com que meus pelos voltassem a ficar arrepiados. — Logo em seguida, aquela expressão colérica e os olhos verdes furiosos tomaram uma nova forma, obviamente ainda irritada, mas que agora esboçava um pequeno sorriso torto, maldoso.
Ele então saiu do meu campo de visão, indo em direção a onde os homens haviam ficado. — E eu já não podia mais acompanhar o desenrolar daquilo, já que ainda estava assustada demais para me aproximar e colocar a cabeça para fora da porta. — Acho que se eu pudesse, me trancaria ali dentro e nunca mais sairia, contanto que o resto do mundo ficasse bem longe de mim.
Principalmente, aqueles estranhos tarados. — Que mesmo me causando tanto medo, ainda me faziam sentir uma enorme vontade de vê-los, machucados, sofrendo.
Mas enquanto minhas pernas não me obedecessem, eu não poderia ter o que queria. Não ia conseguir me aproximar para ver. Então me concentrei em algo que também estava me incomodando. Realmente me incomodava. Aquele maldito barulho, aquela música alta que estava prestes a explodir meus tímpanos, mas que mesmo assim eu continuava a ouvir. Ouvia o refrão uma, duas vezes e já não conseguia tirar mais aqueles fones das minhas orelhas. Minha atenção agora estava voltada para a letra da música, que por algum motivo, me deixava mais tensa do que eu já estava.
...She should not lock the open door
(run away, run away, run away)
Fullmoon is on the sky and he's not a man anymore
Sees the change in him but can't
(run away, run away, run away)
See what became out of her man...
E eu não sabia o porque daquilo. Mas imaginei que talvez fosse por puro desespero, de estar a ouvindo ao invés de estar tentando saber o que se passava do lado de fora do banheiro. — Talvez o pânico que eu estaria sentindo ao saber quem havia botado quem para correr causava aquela sensação. Porque seja lá quem fosse, seria ruim do mesmo jeito.
Voltei a ignorar a letra da música, mas não tirei os fones dos ouvidos. Ela estava me fazendo esquecer da gravidade daquela situação, mas ao mesmo tempo me ajudando a manter a calma, apesar da tensão continuar ali. — Tentei apenas me concentrar na possibilidade de sair correndo loucamente dali, caso eles houvessem levado a briga para longe. — O que era algo praticamente impossível, somado a minha grande "sorte", mas que não deixava de criar uma esperança, visto que eu sequer sabia o que estava acontecendo do lado de fora.
Respirei fundo, e consegui dar três lentos passos, que foram suficientes para me colocar em frente à minúscula fresta da porta. — Devagar, já tremendo ao imaginar o que estaria por vir, estiquei o pescoço até que meus olhos pudessem ver o lado de fora.
Estava vazio.
No lugar onde o Ogro havia caído, restava uma poça de sangue apenas, e ele já não estava mais lá. — Os outros dois homens que o acompanhavam, também haviam desaparecido, e sequer davam sinais de que ainda poderiam estar por ali. — Não haviam sombras, de nenhum dos quatro. Eu não conseguia ver ninguém por aquele pequeno buraco, e tudo parecia visualmente calmo.
Bastava saber se não estavam por perto, no corredor do lado. Mas para descobrir isso em segurança, eu precisaria tirar os fones e tentar ouvir alguma coisa. — No entanto, minha coragem não permitia que eu fizesse isso. Me sentia mais segura apenas observando, criando alguma esperança, que não aceitava ser destruída pela audição.
E estava confortável com aquela ideia, de não ouvir. — Então nem precisei pensar muito, antes de dar um empurrãozinho na porta. Eu só precisava dar mais uma espiada, bem pequenininha, para ver melhor o que tinha ali do lado de fora...
A porta se abriu alguns centímetros, e eu imediatamente dei um pulo para trás quando vi o que tanto queria ver. — Minhas duas mãos voaram até a maçaneta, e puxaram furiosamente a porta para que ela voltasse a se fechar, com muita mais força do que o necessário.
Tombei meu corpo para trás, para fazer peso e aumentar minha patética força, se é que podia ser chamada assim. — Meus dedos se entrelaçaram ao redor da maçaneta, e eu estava praticamente deitada no ar tentando fazer com que a porta continuasse fechada, enquanto do outro lado desta, alguém fazia o mesmo, tentando abri-la.
A fresta ia e voltava, a porta abria e fechava. — Quanto mais força eu fazia para puxa-la para o meu lado novamente, mais forte as investidas ficavam do outro. — Minha visão começou a ficar embaçada a medida que aquele embata se arrastava, e minhas bochechas logo sentiram o risco quente das lágrimas transbordarem novamente, deixando evidente o meu desespero.
Meus braços doíam, meus dedos queimavam, e a medida que o tempo passava, a fresta de luz que entrava no banheiro escuro ia aumentando cada vez mais e mais. Eu já não aguentava continuar com aquilo, e parecia que quem estava do outro lado estava apenas começando, brincando comigo.
— ME DEIXE EM PAZ! POR FAVOR!! — Gritei desesperada, entre o choro. — EU NÃO AGUENTO MAIS! Está doendo.. por favor..
E que a ultima coisa que eu esperava, aconteceu, como um milagre.
A porta finalmente se decidiu, e os puxões que atentavam contra os meus pararam abruptamente, sobrando apenas a minha quase que inexistente força, abrigando ela a ficar parada, fechada para o meu lado.
Meu coração estava acelerado, e a respiração ofegante. — Podia sentir as batidas cardíacas na ponta dos dedos, que apertavam desesperadamente a maçaneta da porta, já vermelhos e doloridos. Que mesmo naquele estado, sequer pensavam em solta-la, ainda amedrontados com a ideia de que não tivesse terminado. — Mas parecia exatamente o contrário. Um bom tempo se passou, e não pude sentir mais nenhuma investida. Era como se o meu pedido houvesse surtido efeito, mesmo que não pudesse acreditar naquilo.
Aos poucos, bem lentamente, fui deixando com que apenas uma das minhas mãos se soltasse da maçaneta, subindo até os fones e abaixando-os até o pescoço, deixando com que meus ouvidos ficassem livres. — Eles estavam levemente "ocos", mas ainda assim consegui encostar a cabeça na porta, e ouvir o que estava do lado de fora.
Nada, silêncio. A única coisa que eu ouvia, era meu coração, com aqueles conhecidos e ingênuos "tuques" palpitando dentro da minha cabeça, que me davam aquela sensação de tensão traumática. Como se esperasse pelo pior, antes dele vir.
E de repente, ele aconteceu. — Um baque. — Uma dor ainda mais forte na ponta dos dedos, e um arder incomodo nos olhos, causado pela claridade que entrara da porta sendo escancarada, antes que eu conseguisse tentar mantê-la fechada. Antes que eu pudesse ter qualquer reação, que não fosse me crucificar mentalmente por aquela ingenuidade.
A segunda e única coisa que consegui pensar em fazer depois daquilo, foi correr. Correr para fora dali, para longe, para as colinas, qualquer lugar seguro, longe dali. — Mas obviamente, não me restaram tantas opções assim, muito menos alguma que fosse inteligente e pudesse me salvar. Fiquei com a pior delas, e desesperada, corri para o fundo do minúsculo e claustrofóbico banheiro, dando minhas costas na parede a abaixando, me encolhendo.
— NÃO ENCOSTE EM MIM! Por favor.. Não encoste.. Não se aproxime.. Fique ai.. Por favor, me deixe em paz..
Meus braços agarraram-se em torno das pernas, e coloquei a cabeça entre os joelhos, formando uma "bolinha" com meu próprio corpo. Eu fungava e chorava como uma criança, enquanto apertava os olhos. Não queria ver o que aconteceria. Não queria ver mais nada.
A porta se fechou, e ouvi um "cleck" dela sendo trancada. Logo, a luz do cômodo foi acesa, e a pessoa que havia conseguido entrar no banheiro se aproximava. — Passos lentos, quase inaudíveis. — Se não fosse pelo som da tampa da privada sendo abaixada, eu sequer saberia que havia mais alguém ali dentro, tão próximo de mim.
Ele se sentou, e pude sentir pela primeira vez sua presença. — Estava do meu lado praticamente, e eu não conseguia controlar meu corpo, que tremia de um modo tão intenso, que pensei seriamente se estaria tendo algum tipo de convulsão.
Eu estava com tanto medo.
E aquele silêncio mórbido, apenas fazia meu estômago revirar de ansiedade. Era a sensassão mais horrivel que eu sentira em toda a minha vida. Era mortal, assustador. — Me peguei implorando para que alguma coisa acontecesse, que meu cérebro explodisse por toda aquela tensão, quando meu "convidado" acendeu um cigarro.
O cheiro conhecido, que ardia meus pulmões e dominava o ambiente.
— Você parece assustada. — Finalmente Ele disse, com uma voz rouca e que transbordava um divertimento oculto. — Qual seu nome?
Eu me encolhi ainda mais, espremendo o que podia e não podia do meu corpo, comprimindo cada centímetro, como se tentasse junta-los eternamente. — Não respondi, apenas respirei fundo e apertei um pouco mais os olhos.
Ouvi um som fraco, que parecia um riso.
— Vai mesmo me ignorar? Sabe, é a segunda vez que salvo sua pele em menos de 24 horas. O mínimo que mereço, é um "obrigada", e não vou sair daqui sem ele. — Continuou ele o monólogo, parando apenas para dar outra tragada no cigarro. Já eu, estava imóvel e gelada como uma estátua no Alasca. — Posso passar a noite inteira sentado aqui esperando, você que sabe princesa.
Engoli em seco quando o ouvi dizer aquilo, mordendo fortemente o lábio. — Princesa, quem ele pensava que era para me chamar assim? Aquele desgraçado, idiota. Estava brincando comigo de novo. A cada vez que abria a boca para falar alguma coisa, com aquela voz irritante e egocentrica, meus nervos pareciam reagir. — Em uma mistura de medo e raiva, juntas.
— E é claro que ao contrário de você, eu tenho a noite toda para esperar. Não acho que aquela lata velha que chamam de ônibus vai demorar muito para voltar a se arrastar. Vai querer estar dentro dela antes que isso aconteça, não é?
Onde ele queria chegar com aquela conversa? Eu pensei, enquanto escutava o que ele dizia. Não parecia mesmo estar querendo mais do que um agradecimento por ter salvado a minha pele, era estranho demais. Podia jurar que ele queria acabar comigo, quando o vi do lado de fora, com tanta raiva naquelas feições. Mas o que estava acontecendo agora? Eu não conseguia entender. Ele estava sendo... Legal, comigo. Um pouco, talvez. Não estava sendo agressivo, apenas conversando normalmente comigo. — Mas mesmo assim, eu ainda estava assustada, o bastante para ainda querer manter meus olhos muito bem fechados, e não baixar minha guarda.
— Eu tenho que ir. Por favor, me deixe ir embora.. — Eu enfim consegui falar, com um tom baixo e fraco. Não era exatamente a resposta que ele queria ouvir, mas já era alguma coisa, afinal.
— Para onde está indo? — Ele perguntou mais uma vez, curioso, e eu voltei a ficar calada. O ouvi soltar um longo suspiro em seguida, por conta do meu silêncio. Logo, uma coisa quente tocou a pele fria da minha nuca.
Eu estremeci por completo, e só voltei a ficar mais calma quando percebi que seus dedos só haviam raspado no meu pescoço, quando ele pegou os fones que estavam presos ali, desligando o chiado da música que soava por eles. — Em seguida, uma coisa pesada e quente caiu sobre as minhas costas.
Automaticamente, esquecendo do medo que estava de abrir os olhos, levantei a cabeça, virando-me ligeiramente em pânico para ver o que era aquilo. Me deparei com uma jaqueta de couro preta, que cobria meus ombros e parte da minha cabeça. — Impressionada, voltei-me quase que imediatamente para o garoto sentado na privada, olhando-o diretamente pela primeira vez desde que entrara ali, com uma interrogação estampada na cara.
E a primeira coisa que prendeu inteiramente minha atenção nele, como sempre, foram seus olhos. — Uma vez olhando para eles, não conseguia mais abaixar a cabeça, ou desviar meu rosto para qualquer lugar que fosse. Era praticamente impossível quebrar o magnetismo que tinham sobre mim.
— O-oque é isso? — Perguntei abobalhada, encarando-o.
— Uma jaqueta. — Ele respondeu simplesmente.
Eu revirei os olhos, ele abriu um sorriso convencido.
— Se prefere morrer congelada, pode me devolver. — Disse, dando de ombros.
— Não estou com frio. — Menti, mas sem mover um musculo para tirar a blusa de cima dos meus ombros, que tremiam gelados.
— Se não está com frio, deve estar com uma vontade muito grande de mostrar seu sutiã de rendinhas em público, não é?
Arregalei os olhos, corando instantaneamente ao lembrar que haviam arrancado minha blusa. — Imediatamente, apressei-me para enfias os braços nas mangas da jaqueta, fechando-a na parte da frente, sentindo uma estranha sensação de conforto. — Aquele pânico que me assolava parecia ter diminuído consideravelmente, e eu não estava mais com tanto medo. Na verdade, de algum modo, agora me sentia mais confortável para conversar como uma pessoa normal. Portanto, aproveitaria enquanto aquilo durava, e seria direta.
— Vai me deixar sair daqui? — Perguntei, sem conseguir conter minha curiosidade.
— Claro, mas só depois que te afogar nessa privada, e esconder seu corpo no meio do mato. — Agora era a vez dele revirar os lindos olhos, como se não acreditasse que eu havia perguntado aquilo. — Não precisa ter medo de mim, não vou te machucar.
— Então porque trancou a porta? — Perguntei novamente, com receio da resposta.
— Você faz perguntas demais, sabia?
— Estou presa em um banheiro com um cara três vezes maior e mais forte que eu, que trancou a porta e não quer me deixar sair daqui. O que queria, que eu ficasse quieta e te beijasse?
Ele me olhou parecendo momentaneamente espantado, erguendo as grossas sobrancelhas surpresas pelo que eu havia dito. — E eu, como sempre, só me toquei que havia falado uma besteira ridiculamente grande quando já era tarde demais. — Minhas bochechas queimaram rubras enquanto eu o olhava, e mais do que nunca eu queria desaparecer dali.
Porque diabos eu havia dito aquilo?! PORQUE?!
Abaixei a cabeça, olhando fixamente para meus joelhos.
— Pode me afogar na privada agora..
Ele riu descaradamente, se divertindo com a minha cara. — Como a conversa havia chegado naquele ponto? A alguns minutos atrás eu estava chorando de medo, e agora..
— Se quiser me beijar antes, não vou ver problema alg..
— C-COMO CHEGOU AQUI? — Interrompi ele em um quase grito.
— Do mesmo jeito que você, oras. Estávamos no mesmo ônibus.
— ESTAVAMOS? — Mordi o lábio para tentar controlar meu tom de voz, que estava pasmo demais com aquela resposta para sair normalmente. — N-não.. Impossível, não vi você entrar!
— Então deveria prestar mais atenção.
Sem esperar que eu respondesse, ele levantou-se, espreguiçando os músculos enquanto ia até a porta do banheiro e a destrancava, virando-se em seguida em minha direção.
— Vamos logo. O motorista já deve ter concertado o problema, e acho que você não vai querer se trocar com dezenas de pessoas te olhando.
— Não posso me trocar, roubaram minha mochila. — Eu disse soltando um suspiro triste, enquanto também me levantava.
— Roubaram? — Ele perguntou surpreso, me olhando. — Pensei que aquela mochila vermelha cheia de chaveiros que estava no bagageiro em cima dos assentos era sua.
— É MINHA! — Soltei novamente a voz em um grito, não conseguindo me segurar. — Ela ainda estava lá quando saiu?
— Estava. — Disse ele, como se fosse a coisa mais obvia do mundo. — E pare de gritar, ou vou reconsiderar a idéia de não te machucar.
E saiu do banheiro, deixando a porta aberta para que eu, no segundo seguinte, já o acompanhasse as pressas. — Estava tão feliz pela notícia de que minha mochila não havia sido roubada, que sequer me preocupei com o que estava acontecendo. A única coisa que importava naquele momento, era que tinha recuperado minhas coisas, e continuava viva.
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