Era Uma Vez ...
5 Capítulo 5 - Um caminho de Tijolos Amarelos.
A sensação de pânico, aos poucos, bem poucos mesmo, foi diminuindo. No momento em que o motorista deu partida no latão-sobre-rodas, meu coração começou a se acalmar, e já não palpitava mais com tanta velocidade. A medida que começávamos a nos afastar da Rodovia 51, minha respiração ia voltando ao seu estado normal, e meus músculos já relaxavam.
A única parte do meu corpo que ainda doía cruelmente, era a cabeça. Sentia como se houvesse uma bomba de ar perto da nuca, que enchia e esvaziava continuamente, esmagando o meu crânio e comprimindo meu cérebro. — Toda vez que eu pensava na possível possibilidade de virar para trás e relembrar o que havia acabado de acontecer, a dor piorava.
Talvez fosse um dispositivo próprio do meu corpo, tentando desesperadamente impedir que eu me descontrolasse mais uma vez. — Porque era um fato, e eu tinha absoluta certeza de que, se eu começasse a pensar na burrada que havia feito ao fugir de casa, e o perigo que estava correndo naquele exato momento, eu definitivamente teria outra crise de pânico, ainda mais tensa do que todas as outras que eu já havia tido.
Mas uma hora ou outra, eu sabia que aquilo viria à tona, e eu teria que aguentar como uma pessoa forte, adulta. — Encarar as consequências de meu ato de frente, e não voltar atrás como uma criança. Afinal, eu era quase uma adulta agora.
Mas todo aquele drama podia esperar. Agora, a única coisa que eu realmente queria, era descansar um pouco, antes de pensar qual seria meu próximo passo. — Arrumei-me como uma pessoa civilizada na poltrona esburacada, e deixei a minha coluna o mais ereta possível. — Cruzei as pernas e, decidida, foquei meus olhos na verruga monstruosa que a mulher sentada na minha frente tinha, bem no canto do pescoço.
Ela era horrorosa, por sinal. Tinha pelos do tamanho de bigodes saindo de sua superfície arroxeada, e uma gosma verde-avermelhada rodeando suas bordas. — Um arrepio nauseante correu minha espinha logo nos primeiros dez segundos a observando, mas não tirei os olhos dela.
A luta que eu travava contra a minha quase que insuportável vontade de olhar para algo mais agradável — mesmo sabendo que não encontraria coisas muito menos piores que aquilo ali dentro — me garantia a concentração que eu precisava, para não sucumbir a segunda vontade mais forte que me torturava naquele momento: dormir.
Já havia perdido minha poucas coisas da ultima vez que havia feito aquela burrada, de dormir. Não perderia algo mais valioso, como talvez a minha virgindade, cometendo o mesmo erro. — Afinal, era a unica coisa de valor que me restava, e eu não a entregaria a qualquer idiota-estuprador-assassino. — Então me esforcei para impedir que as pálpebras cedessem, e que meu cérebro continuasse a ouvir os rugidos que meu estômago faminto clamava, na esperança dele parar de se preocupar com o maldito sono.
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A lareira estava acesa, e o fogo alto queimava e aquecia os pequenos pedaços de tora no seu interior, produzindo uma leve fumaça que subia pela abertura da chaminé. No centro das chamas, um grande caldeirão jazia pendurado por algumas correntes, e fazia com que a água borbulhasse enquanto fervia. — Estava muito quente, assim como o resto daquela pequena e agradável sala-de-estar.
Eu havia acabado de encher minha xícara com o chá do bule, que estava arrumado junto à pequena mesinha de centro, forrada com macios biscoitos açucarados e lencinhos rendados. — Em volta dela, algumas das cadeiras além da minha estavam ocupadas com ursos de pelúcia, que usavam babadores e lacinhos. — Eu me sentia exatamente como uma boneca, participando de uma festa do chá.
Mas aquilo não estava realmente me incomodando. Na verdade, eu estava calma como nunca antes. — Talvez fosse porque meus olhos encontravam-se ocupados demais, apreciando os quadros que cercavam boa parte das paredes a minha volta. — Neles, as figuras se repetiam familiarmente, com diversas imagens de porquinhos, cada um em diferentes posições a medida que as fotos iam mudando de quadro em quadro.
Eles até que eram bonitinhos: rechonchudos e rosados. Algumas vezes, apareciam fazendo pose em frente a Torre Eiffel, ou até mesmo próximos ao Coliseu. — Eram porquinhos viajados, eu pensei, enquanto bebia um gole do chá.
Quem tem medo do Lobo Mau, Lobo Mau, Lobo Mau?
Quem tem medo do Lobo Mau, Lobo Mau, Lobo Mau?
Dei de ombros, quando aquela ritmada vozinha inundou os meus ouvidos. — Uma rápida olhada em direção ao caldeirão no fogo, e de algum modo, eu sabia que estava protegida.
Quem tem medo do Lobo Mau, Lobo Mau, Lobo Mau?
Quem tem medo do Lobo Mau, Lobo Mau, Lobo Mau?
TOC TOC. — Alguém batia na porta a qual agora eu observava, exatamente na minha frente. Ela era larga e feita de grossas estacas de madeira, e tinha uma grande fechadura. — TOC TOC. — E as batidas haviam se tornado mais agressivas, mas eu não queria destrancar a porta.
— Quem é? — Perguntei de onde estava, deixando a xicara na mesinha.
TOC TOC — Ele não me respondia. — TOC TOC TOC — Ele queria entrar de qualquer jeito, mas nada me convencia a deixa-lo participar da minha confortável festa do chá. Nem mesmo sabia de quem se tratava, nem mesmo meus convidados de pelúcia haviam gostado do estranho desconhecido, e agora se abraçavam e lançavam olhares assustados para a porta.
Tentei acalma-los, juntando-os no meu colo e levando para o alto, em uma das tantas prateleiras forradas de brinquedos, onde os três ursinhos juntavam-se ao resto de seus amigos. Logo que pareciam mais calmos, caminhei decididamente irritada até alguns centímetros da porta, e gritei novamente:
— QUEM É?
E novamente não ouve uma resposta. Ele sequer voltou a bater, sequer voltou a fazer qualquer ruído que fosse. — Esperei um, dois, três minutos e nada. Logo, abri um pequeno sorriso vitorioso, enchendo o peito com meu orgulho próprio. — Ele tinha ido embora, e não voltaria para importunar enquanto eu estivesse ali, pensei.
E foi então que ouvi um novo barulho. — Porem, este era muito mais alto, e mais violento que todos os outros. Ele fez com que meus pelos se arrepiassem, e uma familiar sensação de pânico tomasse conta do meu corpo. — Quando meus olhos, agora arregalados, voltaram-se novamente para a porta, ela já não estava mais ali. Ao invés disso, estava caída ao chão.
E agora, o que fazer?! Ele vai entrar! Ele vai entrar! Não deixe ele entrar! — Gritou minha mente entrando em histeria, desesperada por uma saída. Mas eu não sabia o que responde-la. Na verdade, eu nem sequer sabia mais o que estava fazendo ali. — A única coisa que importava no momento, o único foco do meu raciocínio estava diante de mim, oculto entre as sombras.
Meus olhos estavam vidrados nos dele. — E era apenas isso que eu conseguia ver, do estranho que a pouco batia à porta. — Olhos verdes raivosos, com pupilas finas como as de gatos. Eles me fitavam do escuro, silenciosos, magnéticos. Pareciam querer me dizer algo, alguma ameaça, mas continuavam parados, apenas observando.
E o pânico havia voltado. — Músculos atrofiados, coração acelerado, respiração ofegante. — Eu queria correr, correr na direção contrária à que ele estava. Fugir, escapar do que me causava tanto medo.. Mas eu simplesmente não conseguia.
Ele se aproximou alguns centímetros. — Tentei gritar, mas minha voz não saia. — Os olhos verdes estavam cada vez mais próximos, mais assustadores. Eles queriam me pegar. Eu precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa para impedir que ele me encontrasse.
E então a música baixa e ritmada voltou à soar aos meus ouvidos, enquanto o estranho predador saia das sombras.
Quem tem medo do Lobo Mau, Lobo Mau, Lobo Mau?
Quem tem medo do Lobo Mau, Lobo Mau, Lobo Mau?
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Meus olhos abriram-se arregalados, e eu parecia ter acabado de soltar a respiração após muito tempo prendendo-a. — Por vários segundos, fiquei imóvel, sem conseguir me mexer. Tentava repassar o que havia acabado de acontecer, e só então me dei conta de que estava apenas sonhando. — Ou melhor, tendo um pesadelo.
E eu odiava ter pesadelos, mais do que qualquer outra coisa no mundo. Principalmente quando estava fora de casa, pois sempre que acordava depois de um, ficava ainda mais assustada do que durante ele. Sem saber o que fazer, perdida, querendo correr pra cama da minha mãe e me esconder em baixo dos lençóis. — Mas eu não tinha nem um, nem outro para me proteger no momento, então tentei simplesmente respirar fundo e manter a calma.
Devagar, quase como se houvesse uma bomba sensível ao toque no meu colo, eu arrumei-me mais uma vez no assento, olhando para os lados como um rato assustado. Tudo estava calmo, muito mais do que o normal, e o único som que eu conseguia distinguir era o do meu coração palpitando, estalando nos meus ouvidos como pequenos baques.
Levantei a cabeça, verifiquei o que estava acontecendo. — E eu não sabia se ficava feliz ou triste pelo que havia descoberto — eu estava sozinha, uma grossa nuvem de fumaça acinzentada passava pela janela ao meu lado e o ônibus estava parado na beira da estrada.
Certo, eu definitivamente não tinha motivos para ficar feliz. — Ou aquilo era um assalto e os ladrões não me acordaram porque pensaram que eu tinha menos que eles, ou o ônibus havia enguiçado e o resto dos passageiros saído e ido embora, me esquecendo ali dentro.
Nenhuma das duas opções era menos pior. — E eu já estava me preparando para levantar dali e sair correndo, quando aquela conhecida voz gritou na minha orelha.
— O que está fazendo aqui ainda, fedelha?! — Falava de modo grotesco o motorista-cara-de-porco, parado atrás do assento do lado. — Mandei todos saírem, o ônibus enguiçou! Se não quiser que eu te ponha pra empurrar essa merda, é melhor sair daqui e esperar no posto!
— Ah, ele enguiçou! — Disse eu mais para mim mesma, do que para o velho. Mas, como todo babaca que se preze, ele pensou que estava falando com ele.
— Você não ouviu o que eu disse? Está brincando com a minha cara? SAIA LOGO DAQUI, SAIA ! — E ele esticou o braço cheio de banhas imundas, me expulsando.
Claro, eu não daria uma de orgulhosa bem naquele momento. Não queria morrer ainda, muito mais pelas mãos sujas do motorista. — Fingindo não estar com vontade de bagunçar a cara dele, apenas forcei o meu melhor sorriso absurdamente falso, e apressei-me para sair daquela banheira.
Quando coloquei os pés do lado de fora, finalmente me toquei de que já era noite. O céu estava completamente escuro, e a Lua era apenas uma fenda branca no céu. — Pensava no que seria de mim naquela situação, quando avistei um velho posto de beira de estrada, até que bem iluminado.
A ultima coisa que eu queria, era ficar ali parada no meio do nada, no escuro e sem testemunhas válidas para depor ao meu favor, caso algo acontecesse. — Então pus-me a caminhar o mais rápido que minhas pernas conseguiam em direção ao lugar, não demorando muito mais que dez minutos para alcança-lo.
O posto, diferente de todos os outros lugares em que havia parado desde minha fuga fracassada de casa, era bem conservado. O chão era limpo, e as vidraças da vendinha 24 horas ao fundo chegavam a brilhar. As únicas duas coisas que me incomodavam, eram um grupo de homens assoviando e aquela gente estranha que tinha saído do ônibus, e que estavam amontoados próximos as bombas de gasolina, esperando o sinal para voltarem a sua viagem.
Eu, sinceramente, não estava muito preocupada com isso. Sabia que levaria ao menos uma hora para darem um jeito de arrumar o motor do ônibus, ou então para arrumar alguns jegues para arrasta-lo até uma oficina próxima. — Aproveitei a situação, e entrei na adorável vendinha para me distrair um pouco. Afinal, não era sempre que tinha essa oportunidade.
Fui direto até a senhora que servia no caixa, tentando desesperadamente não ver as guloseimas e salgadinhos que estavam espalhados por dezenas de prateleiras por todos os lados. Parei em sua frente, e ela me olhou com um sorriso nos lábios.
— Posso ajuda-la, mocinha? — Perguntou a senhora.
— Por favor, a senhora pode me dizer onde acho um banheiro? — Perguntei gentilmente, retribuindo o sorriso amigável.
— Claro, claro. — E ela saiu de trás do balcão, fazendo um gesto para que eu a seguisse. Eu, obviamente, fui atrás dela, e paramos em frente a uma porta, a qual ela abriu e dava para a saída dos fundos da vendinha. — É só seguir o caminho de tijolos amarelos, que eles vão leva-la até o Toilet.
Eu agradeci, e passei saltitante pela senhora, encontrando imediatamente os tijolos amarelos no chão. — Ouvi a porta se fechar atrás de mim, e logo comecei a seguir o caminho indicado. Eles passavam por baixo de uma cobertura de telhas quebradas, acabando atrás de um galpão mal iluminado.
Completamente mal iluminado, aliás. A única fonte de luz ali, era uma lâmpada falha, em um dos cantos altos dos pilares. — Afinal, nem tudo era perfeito, em especial quando o assunto me envolvia no meio.
Parei diante de duas portas estreitas, que ficavam ao lado de um monte de mato, com vários destroços de móveis quebrados e podres. Uma delas, tinha um "F" pregado, enquanto a outra, um simples "M".
Rezei para que não me arrepende-se, quando girei e empurrei a maçaneta de uma delas, ouvindo um desagradável ranger até ela bater contra a parede. — Um, dois passos para dentro. Acendi a luz, e antes que eu pudesse parar para examinar o que havia ali dentro, um barulho me fez girar para o lado de fora.
Passos. Esmagar de folhas, um chute em um pedaço de madeira. Vários passos. Uma risada alta, de um homem adulto, provavelmente.
Meu sangue congelou, quando três caras barrigudos entraram no meu campo de visão. — Lembrei-me vagamente, que eram os mesmo do grupinho que tentou chamar minha atenção, assim que cheguei ao posto. — Eles pareceram se surpreender quando me viram, e eu pude notar um brilho perverso em seus olhos.
— Olha só o que temos aqui! — Disse um deles, se aproximando alguns passos e passando os olhos pelas minhas pernas descobertas. Eu imediatamente recuei, com as bases trêmulas.
— Ora, qual o problema loirinha? — Perguntou um outro, rindo e também se aproximando. — Não precisa ter medo da gente.. Vem cá, vamo conversa um poco!
Conversar o caralho, eu pensei. — Mas meus lábios não conseguiam reproduzir o que eu pensava, muito menos achar uma resposta boa. Estavam ocupados demais tremendo, tanto pelo frio quanto pelo pavor que eu estava sentindo. — O terceiro homem, parado um pouco atrás, passou pelos dois e chegou ainda mais perto de mim, curvando-se levemente para me olhar. Ele tinha um forte cheiro de álcool, e faltavam mais de quatro dentes em seu sorriso maldoso.
— E eu reclamando, de nunca aparecer novinhas nessa espelunca, hehe. — E sua mão se ergueu, em uma tentativa de tocar meu resto. Eu, enojada, tentei me afastar antes, mas ele foi mais rápido. Com a outra mão, segurou meu pulso e me puxou para perto de seu corpo.
Eu finalmente consegui gritar. Gritar loucamente, empurrar, chorar, chutar. Fiz de tudo, mas ele estava segurando minha cintura, apertando minhas coxas e erguendo uma de minhas pernas. Não havia sinal de ninguém que pudesse me ajudar, ninguém para pedir socorro. Eu continuei gritando como nunca antes, e a vontade de acordar daquele pesadelo só aumentou meu desespero, quando vi os outros dois homens começarem também a se aproximar.
Minha blusa se rasgou pelas mãos violentas daquele desgraçado, e ele sussurrou próximo ao meu ouvindo, da forma mais grotesca que já ouvi na minha vida:
— Você agora é minha, loirinha..
Eu fechei meus olhos, em um ultimo grito desesperado. Em seguida ouvi um baque. — Alguma coisa caindo, eu pensei. Mas estava desesperada demais para tentar ver o que era. Só queria fugir daquilo. — Foi então que as mãos ásperas que me assediavam se afastaram, e eu ouvi uma voz rouca, as quais me fizeram abrir os olhos imediatamente, me deparando com o homem que me agarrava caído ao chão, cuspindo sangue do ferimento na boca.
— Essa loira já tem dono, desgraçado.
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