Era Uma Outra Vez...
52 Confissões
Notas iniciais
— Já chegou?
Anita se sobressaltou com a pergunta de Giovana. Ela havia entrado no quarto sem fazer barulho por acredita que a garota mais nova já dormia, mas ao que parecia sono era algo que a ruiva não tinha. Tateando na escuridão, Anita acende o abajur sobre a mesinha de cabeceira.
— Por que tá acordada ainda?
— Por favor, né? Como eu posso dormir sabendo que tô perdendo uma festa incrível? Sacanagem o senhor Ronaldo me proibir de ir. – Giovana bufa de maneira infantil fazendo com que Anita sorrisse.
Quem dera se seus problemas se resumissem em perder uma festa ‘incrível’, refletiu Anita, retirando os sapatos. A aspirina ainda não havia feito efeito, seus pés doíam e um peso se instalou em seu coração. Sua noite foi um fracasso e o pior é que ela não podia compartilhar com ninguém as suas preocupações. A verdade é que única pessoa capaz de lhe proporcionar um pouco de paz estava distante demais dela, embora precisasse apenas de alguns passos para alcança-lo no ‘quarto garagem’. Anita sabia que a distância era muito mais emocional do que física e que não poderia fazer nada. Não depois daquela noite, do que viu... foi impossível evitar um suspiro de pesar ao pensar em Benjamim.
— Você tá bem, Anita? Tá séria... – Observou Giovana, intrigada pelo abatimento da ‘irmã’. – Aconteceu alguma coisa?
— Não, Gio. Eu que estou cansada e já é tarde. Então, melhor dormimos.
— Aqui?
— Aonde mais? É o meu quarto também... que pergunta! – Anita tentou rir, mas o olhar desafiador de Giovana a fez se calar. Desde que ela e Ben transaram pela primeira vez que a garota escapava a noite para dormir com o namorado. Pela manhã, ela voltava para o quarto antes que alguém acordasse, mas pelo visto Giovana havia notado sua ausência. – Não conta pra ninguém.
— Não sou dedo duro! – A ruiva exclamou indignada, mas logo sorriu cumplice. – Não falei nada antes e nem agora. Fico feliz por você está com o meu irmão. O Ben merece alguém legal como você, Anita.
— Merece... – “E eu? Mereço alguém que parece estar mais preocupado com minha própria irmã?”. — Relacionamentos são complicados.
—‘Taí’, sabia que tinha rolado algo! Essa sua cara... me conta, por favor!
Anita fita Giovana odiando-se por envolve-la naquela história, mas precisava desabafar ou teria um colapso. Internamente, pedia perdão por ser tão fraca.
— O Ben brigou com o Serguei. – Anita sentia-se a beira das lágrimas.
— Com o Serguei?! Mas por quê?
— Eu não sei ao certo... mas tudo indica que foi por causa da Sofia.
— X —
— No meu coração só existe... você.
A confissão de Sofia saiu baixa, mas clara o suficiente para Serguei entender cada palavra. Com carinho, ele ergueu o rosto da garota para que ela olhasse para ele. Apesar de reticente, ela sustentou o olhar do ruivo. Eles tinham chegado àquele ponto onde aparentemente não tem volta. Estavam apaixonados e pela primeira vez diziam em voz alta, um para o outro, o que sentiam. Era impossível para Sofia esconder seu nervosismo, o que não passou desapercebido por Serguei. Como aconteceu? Eles não faziam ideia. Nenhum dos dois escolheu estar naquela situação.
— Eu acho que te surpreendi. – Sofia quebrou o silêncio. Serguei sorriu pela escolha de palavras dela. – Então?
— Você não sabe como é bom ouvir isso.
— O quê?
— Que você está apaixonada por mim.
— Eu não... – Sofia se interrompe quando Serguei a puxa de encontro a ele. As palavras e qualquer negativa fica em segundo plano quando ele a beija. Em algum momento em que ela não soube definir, ele a deitou no colchão sem interromper o contato. – Serguei, nós estávamos conversando... – A garota ri contra os lábios do ruivo.
— Tarde demais para voltar atrás. – Serguei a alerta, carinhoso. – Você não vai escapar tão fácil.
— E qual o seu plano? Me seduzir? – Sofia o encara desafiante. Apesar da posição de desvantagem – sob ele – ela não facilitaria em nada a vida do ruivo, apesar de internamente já ter cedido. – Vai ter que fazer melhor do que isso!
— Duvida?
— Eu tenho certeza: muito papo e pouca ação!
Serguei sorriu irônico para Sofia antes de descer a cabeça até a dela. Os lábios do ruivo ficaram bem próximos dos da loira, mas ele não fez menção de beijá-la. Sofia mordeu o lábio inferior em expectativa, ansiando para que ele quebrasse a distância entre as bocas. No entanto, como que para castiga-la, Serguei dirigiu sua atenção ao pescoço da loira. Ela soltou um suspiro ao sentir os lábios dele roçando sua pele do pescoço ao ombro enquanto as mãos do ruivo deslizavam pelas laterais do seu corpo. Incapaz de continuar impassível, Sofia agarrou-o pelos ombros o trazendo ainda mais para perto dela. Nunca teria o bastante dele, pensou, contorcendo-se sob o ruivo. Serguei tinha a estranha habilidade de fazê-la esquecer todos os riscos e apenas sentir. Ele deixou escapar uma risada quando Sofia o empurrou-o para o lado da cama e sem nenhuma vergonha montou sobre ele.
— Pensei que eu que estava te seduzindo.
— Digamos que esse é um jogo que dois podem jogar. – Sofia pisca para Serguei, divertida. Ele ri e senta-se na cama surpreendendo-a e mantendo-a enganchada nele.
— Você disse dois.
— Eu disse.
Com as mãos, o ruivo ergue a loira para que ela se encaixe em sua ereção. Sofia passa os braços em volta do pescoço do ruivo a medida que é penetrada por ele. Ela estava bastante consciente do corpo do dele no seu, os seios esmagados pelo peito dele, a pernas ao redor de Serguei. Sofia passou a se mover guiada pelas mãos do ruivo, movimentos lentos, quase torturadores, para que ambos aproveitassem ao máximo aquele momento. Era mais do que sexo. Uma conexão indefinível surgia todas as vezes em que eles estavam daquela forma e se tornava mais forte a cada encontro. Gemidos eram sufocados com beijos, todos os sentidos em alerta. As poucas palavras eram sussurradas entre sorrisos até que eles chegassem ao orgasmo juntos. E mesmo minutos depois, eles ainda estavam na mesma posição.
— X —
— Já chega, Fla!
— Só mais um... Por Favor! – Flaviana ri sob o efeito do álcool.
Otávio suspira impaciente diante da insistência da prima. Definitivamente, a festa já tinha dado o que tinha que dar, refletiu desgostoso. Flaviana parecia ter encontrado na bebida a única saída para lidar com a decepções da noite. E embora ele não quisesse julgá-la, não podia ignorar o fato que se ela estava naquele estado não havia sido por falta de avisos. Ele tentava ser compreensivo, mas a cada instante isso se mostrava uma tarefa impossível.
— Ah, Tavinho... desfaz essa cara emburrada, sim? – Flaviana sorri para o primo de forma débil. Uma notificação do celular avisa sobre uma nova mensagem. Com um pouco de dificuldade a garota lê o que está escrito. – Martin.
“Foi mal pela festa, mas acontece que eu e a Micaela nos acertamos! Feliz aniversário. – Martin. ”
— O que foi? – Otávio encara Flaviana, preocupado pela expressão da prima.
— Nada... – Murmura a morena abandonando o celular sobre o balcão. Ela pega outra taça de champanhe, mas antes que bebesse o liquido, Otávio tira-lhe a taça da mão. – Para, eu preciso disso!
Flaviana elevou a voz mais do que o necessário, o nervosismo a flor da pele. Sentia que as lágrimas já marejavam seus olhos azuis e a expressão de compaixão do primo não ajudava em nada. Tinha certeza que estava escrito em sua cara o motivo do seu descontrole. E claro que a culpa era sua, que todos tentaram alertá-la quanto ao Martin, mas estava tão determinada a conquista-lo que simplesmente quis ignorar todos os avisos. E agora, ali estava ela, sendo tradada como uma coitada por uma das poucas pessoas que ainda se importavam com ela.
— Fla... – Otávio tenta argumentar, mas Flaviana não estava disposta a ouvir. – Ele não vale a pena.
— Não! Não fala nada... agora não. O “Eu avisei” pode esperar.
— Vem, ou te levar para minha suíte. – Otávio tenta segurá-la pelo braço, mas a garota se desvencilha. – Por favor, vem comigo. – Insiste.
— Será que é tão difícil entender que eu quero ficar sozinha?! – Flaviana explode.
As lágrimas já caíam por seu rosto e odiando-se por isso, ela se afasta do primo.
— Flaviana!
— X —
— Foi incrível.
— Foi você que falou que o sexo é muito bom. – Sofia passa os dedos pelos fios desalinhados ruivos adorando a sensação. Serguei por sua vez deslizava a mão de forma rítmica pelas costas da loira. – Muito bom.
— Poderia ficar com você assim pra sempre.
— Para sempre é muito tempo.
— Mas não tempo suficiente quando amamos alguém. – Sofia encara Serguei, um sorriso tímido brincando em seu rosto. – Confia em mim.
— Tenho medo... – Ela baixa o olhar, mas o ruivo a faz fita-lo novamente. Ele lhe sorria de uma forma tão doce que Sofia não podia resistir olhá-lo. – Era mais simples antes... não existiam expectativas. E vamos ser sinceros, existe muita coisa... pessoas contra nós.
— Não me importa o que as pessoas digam, me importa o que eu sinto. E você?
— É fácil falar, aqui, com o mundo muito distante... mas e no dia a dia? E quando tiver que dá explicações sobre o porquê de estar com a ‘Irmonstra’?
— Por favor, não fala assim... – Serguei segura o rosto de Sofia entre as mãos e a beija com carinho. Lhe doía ouvi-la se depreciar daquela forma, embora isso nunca tenha lhe interessado antes. Acontece que agora ele a conhecia mais profundamente e sabia não só dos defeitos, mas das qualidades que ela tinha e se empenhava tanto em esconder. – Você é muito mais do que a opinião idiota das pessoas... até mesmo a minha. Eu vejo você, a garota determinada e com uma personalidade forte que ama a mãe e os irmãos, que quer proteger a amiga de uma decepção... que é amiga de pessoas incríveis, porque você também é incrível... é por essa Sofia que eu estou apaixonado e não vou desistir até você entender que não é errado o que sentimos.
Serguei fazia parecer tão simples, pensou Sofia com um nó na garganta. No entanto, ela já estava calejada o suficiente para saber que palavras de nada adiantavam se ele não estivesse disposto a confiar nela. E pelo seu histórico, esperar isso dele seria como desejar tocar as estrelas: decepcionante.
— Eu não sou confiável... e talvez você tivesse que escolher. – Sempre haveria uma escola, refletiu com tristeza. – Eu te falei na festa da Júlia, eu já sei o resultado. Por mais que eu goste... esteja apaixonada, não vou me arriscar a passar por tudo de novo. Não quero que o que eu sinto se torne algo ruim, menos do que amor.
— E eu não aceito nada menos que isso... – Serguei abraça Sofia e a beija no rosto. – Me deixa te provar que podemos dar certo... que nosso amor vale a pena?
— Apesar dos obstáculos?
— Apesar de nós mesmos.
— X —
— Noite ruim?
Flaviana se sobressalta com a presença de Amanda. Ela tinha praticamente fugido de Otávio e se refugiado no banheiro para ‘lamber as feridas’ e não imaginou encontrar a outra garota ali. Através do reflexo do espelho, viu Amanda lhe sorrir maliciosamente ao aproximar-se devagar e por algum motivo desconhecido sentiu-se como presa em uma armadilha. Amanda parou ao seu lado, observando detidamente a maquiagem borrada de Flaviana por causa das lágrimas o que fez a morena encará-la.
— Quem te convidou? – Flaviana questionou sem conseguir disfarçar o nervosismo.
— Ninguém... – O sorriso da outra se ampliou. – Embora esse detalhe não importe muito agora... não depois que eu te falar o que um passarinho verde me contou.
Um arrepio perpassou por todo corpo de Flaviana diante da maldade na voz da ‘rival’. Amanda era uma pessoa com energia ruim e que lhe fazia ter um mau pressentimento.
— Seja o que for não quero escutar. Cai fora!
— Nem se eu disse que é sobre a sua amiguinha?
— Eu sei bem o que você pensa da Sofia e não vai ser uma mentira sua que vai me por contra minha amiga. – Flaviana se encaminha para a saída, mas tem o braço preso por Amanda. Ela a encara irritada. – Ficou maluca?
— Você pode até não reconhecer, mas eu estou aqui pra te fazer um favorzinho... A sua querida amiga não é nada do que você pensa. Ela é uma traidora que nesse exato momentinho tá enfiando uma faca nas tuas costas.
— Já falei... eu não acredito em nada! – Flaviana tenta se soltar, mas Amanda está disposta a fazê-la escutar tudo. – Me solta!
— Não antes de termos essa conversinha!
— X —
— O que me diz? Aceita?
Sofia meneou a cabeça em concordância. Afinal, o que ela ganharia mantendo-o longe? Um coração partido. E se terminar magoada era seu maior medo, como poderia fazer isso agora, rejeitando o sentimento de Serguei? O que ela própria sentia. Não, ela não era covarde e provavelmente se arrependeria muito no futuro, mas agora tudo o que mais desejava era estar com ele, viver o que sentia da forma mais sincera e verdadeira que podia.
— Se eu concordar... você precisa entender que vão haver muitas pessoas contrárias, que coisas ruins serão ditas sobre mim e que a maior parte delas é verdade.
— Posso lidar com isso.
— Você terá que confiar em mim... no que eu digo e não me dar as costas sem nem me deixar explicar. – Sofia soca de leve Serguei no ombro.
— Entendi... eu fui um idiota. – O ruivo deita com Sofia em seus braços. – Me desculpe.
— Espera, não acabei.
— O que mais falta? Eu estou apaixonado e você está apaixonada. Concordamos em ter confiança um no outro. Está tudo resolvido.
— Simples assim?
— Simples assim.
Sofia se recosta contra o corpo do ruivo e beija o braço com o qual ele a envolve. Serguei era um grande manipulador, pensou com humor e era bem capaz de convencê-la que a terra era quadrada. Embora por mais tentador que fosse ceder, tinha que demonstrar um pouco de independência.
— Eu acho bom você entender que não vai ser com sexo nem com palavras bonitas que vai me convencer a ceder sempre. – Sofia alertou-o sem muita convicção.
— E se for sexo, palavras bonitas e flores... talvez alguns chocolates? – O ruivo brincou para irritação da garota. – Bom, pelo menos as brigas já estão garantidas.
— Hahaha... tão engraçado você. – Sofia se desvencilha de Serguei e puxa o lençol para cobrir-se. – Pode ficar com seu senso de humor. Eu vou tomar banho.
— Hum... banho.
— Dessa vez sozinha.
— Não era o que você queria uma hora atrás... – Fala Serguei tentando puxá-la, mas Sofia sai da cama e lhe joga um beijo no ar com a mão. – Isso vai ter volta!
— Claro que vai!
Sofia ri da expressão contrariada de Serguei ao se encaminhar para o banheiro. Mas antes que pudesse entrar no local, escuta a voz de Flaviana vinda da entrada do quarto.
— Então... é verdade.
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