Notas iniciais
Oie capítulo grande

— Eu soube pela sua mãe. Tem certeza que não que me ver? — perguntou Gaspard do outro lado do oceano com seu sotaque francês charmoso.

— É sério, Gas, eu estou bem. Minha mãe que gosta de exagerar nas coisas — apoiei-me na raquete de tênis de minha mãe porque eu tinha esquecido completamente de trazer a minha. Meu celular havia tocado um pouco antes de eu conseguir esvaziar pela segunda vez o lançador de bolas. Meu ombro doía muito, mas eu não podia me dar o luxo de parar.

— Tem certeza? Sua voz me parece tão abatida. E sua mãe me disse que não tem dormido muito ultimamente. Não quer passar um tempo aqui em Nice? Tenho certeza de que Adèle adorará a sua companhia. Acho que Juliette pode te encaixar no próximo voo para Paris.

— Ei, espera! — o interrompi, enquanto me sentava no gramado sintético. — Acho melhor deixar a viagem para depois. Eu vou voltar para a escola na semana que vem e... — suspirei, cutucando a grama com o dedão.

— O que há? Ainda está ressentida com Adèle? Ora essa, deixe isso para lá, tenho certeza de que nem ela mesma é capaz de se lembrar.

Passei a mão pelo meu cabelo sujo e o prendi em um rabo de cavalo. Na verdade eu não tinha nada contra Adèle, não conseguia lembrar um motivo sequer. Nós fomos irmãs postiças por um bom tempo e brigávamos praticamente toda hora, então era bem difícil me lembrar do motivo exato da briga. E além do mais, nem era esse o meu real motivo de não querer ir, eu só não estava com vontade de sair da cidade e mudar o rumo da minha vida por causa das escolhas de Nate.

— Você se importa se eu ficar? — perguntei com um pouco de culpa. Gaspard às vezes era um quase pai tão perfeito que me cortava o coração ter que magoá-lo.

— Tudo bem, ma cherie. Se é assim que você quer, podemos dar um jeito.

Sua compreensão me comoveu. Como alguém tão ocupado poderia ter tempo para me mimar? Gaspard era gentil, alto e bonito. Juliette teve sorte de tê-lo fisgado bem depois que minha mãe e ele se separaram. Tinha toda certeza de que não era todo dia que se encontrava um cara rico que não fosse ridiculamente arrogante dando pinta por aí. Queria me casar com alguém assim quando crescesse.

— Tá certo então — respondi aliviada.

— Vou ter que desligar agora, querida. Precisam de mim no escritório. Eu te amo. Qualquer coisa me ligue, certo?

— Eu também te amo, Gas — assim que ele desligou coloquei o celular no gramado e tentei recuperar minha vontade de treinar. Respirei fundo e tirei o elástico que prendia meu cabelo e o amarrei novamente, só que de um jeito mais firme. A meta era treinar o suficiente para subir minha colocação no ranking nacional juvenil. Uma boa colocação me traria chances melhores em Columbia ou na Universidade da Califórnia. Levantei num pulo animado. Sim, eu recuperaria meu sétimo lugar daquela monstrenga musculosa do Tenessi.

— Acho que seu tempo acabou, Brooks.

Virei-me alerta com a raquete em punho, pronta para atacar seja lá quem fosse. Não fiquei nem um pouco aliviada ao ver que era apenas Jasper, meu vizinho, que para minha infelicidade treinava no mesmo clube que eu.

— Calma garota, não precisa me bater! — disse ele enquanto pegava sua própria raquete da case. Algumas mechas de cabelo castanho escuro caíram sobre seu rosto, criando uma espécie de cortina encaracolada. — Eu só vim avisar porque me mandaram te dizer que você não é a única sócia do clube e que não pode monopolizar a quadra o dia todo.

— Eu não monopolizei a quadra — retruquei enquanto apertava o controle remoto da lançadora de bolas para religá-la. Coloquei-o no chão e me preparei para rebater a bola. — Não estou aqui há muito tempo

— Desde que horas? — eu tinha quase certeza de que seus olhos castanhos brilharam em sinal de divertimento.

— As sete e trinta, eu acho — Jasper já estava começando a me atrapalhar, o que não era tão raro assim, já que suas provocações se tornaram bastante comuns desde que eu terminei nosso namoro de dois anos.

— E você sabe que horas são pelo menos?

— Ah, sei lá. Oito? — parei e olhei para ele, tentando ficar calma. Quando saí de casa eu estava decidida a me concentrar no treino e não pensar em mais nada além da trajetória da bola até minha raquete. Jasper estava me tirando da minha bolha onde apenas não deixar o adversário marcar ponto era importante.

— Não, Brooke, são onze da manhã — abaixou-se para pegar o controle remoto, sua camisa pólo se ergueu, deixando aparente um pedaço de pele morena. — Eles falaram que se você não for antes do meio dia, vão chamar a sua mãe.

Não. Por que será que não entendiam que eu só queria treinar? E eu nem me sentia cansada, nem com fome, só com um pouquinho de sede e uma dorzinha no ombro, mas no geral eu estava bem e havia progredido muito. Meus reflexos estavam dezenas de vezes melhores do que da última vez que treinei.

— Essa direção é um porre. Preferia quando o outro diretor não ficava reclamando o tempo todo — cheguei bem perto para tentar pegar o controle e voltar ao que estava fazendo.

— Eles só estão evitando que a sua mãe processe o clube quando você morrer de insolação — Jasper escondeu a mão que estava com o controle nas suas costas e me encarou de um jeito que eu não conseguia diferenciar se era preocupação, decepção ou se estava me zoando. — Eu posso te dar carona se quiser, também estou indo para casa agora.

— Não, obrigada. Eu vou sozinha — peguei meu celular do chão e fui caminhando até o vestiário. Tinha quase certeza de que se minha mãe estivesse ali naquela hora teria me dado uma bronca por ter sido rude, dando as costas a alguém enquanto falava comigo, mas fora absolutamente necessário, eu não estava lá com muita vontade de me submeter aos jogos de Jasper.

— Vai mesmo andar uns dez quilômetros até Beverly Hills só para não aceitar minha carona? Porque pelo o que eu saiba, você bateu seu carro no do meu irmão, então...

Parei por um instante antes de entrar no vestiário.

— Vai mesmo ficar me seguindo até no chuveiro? — questionei, apoiando as mãos nos quadris.

— Quando a gente namorava você costumava gostar — vangloriou-se, enquanto encostava seu braço na parede atrás de mim, me deixando sem saída. Estava perto o suficiente para que eu conseguisse sentir o cheiro meio amadeirado meio cítrico inconfundível do desodorante Acqua di Parma misturado com suor. Na época em que namorávamos, eu não costumava ter toda atenção que eu queria, Jasper era meio grosso. Não que tenha mudado muita coisa.

— Caí fora, eu não vou transar com você — revirei os olhos impaciente. Eu precisava me decidir se ia para casa ou não. Na noite anterior, após ter fugido do funeral, fiquei andando sem destino certo até ficar entediada e voltar para casa por volta da meia noite.

— Calma, gata, eu só quero ajudar. Eu sei que você está mal com essa porra toda com o Nathaniel, mas você anda meio abatida, não acha? Eu ainda me preocupo com você, sabia? — explicou, tirando minha franja da frente dos olhos. Jasper sabia ser carinhoso às vezes. Eu poderia até voltar com ele, mas... Então me lembrei do verdadeiro motivo do nosso término. Não, melhor não.

— Tá, eu aceito — foi o melhor que consegui pensar. —, mas só que você vai ter que esperar aqui, do lado de fora. Entendeu?

— Sim, senhorita. Vou ficar aqui, só imaginando — fez uma imitação de continência e deu um sorriso sacana.

— Pervertido! — gritei antes de bater a porta.

Guardei a raquete no armário da minha mãe, já que eu tinha me esquecido da combinação do meu cadeado, mas ainda lembrava a dela. Peguei minha bolsa em que eu tinha levado algumas roupas e fechei a porta.

Eu não sabia ao certo se queria voltar, mas pelo menos eu tinha a certeza de que não iria andando.

Não havia muita coisa a se fazer, eu já tinha organizado todo o meu guarda roupa e classificado os filmes da minha mãe por ordem alfabética durante a madrugada. Até fiz um cadastro no eestranho.com, um site que Emma sempre fala, onde pessoas falam sobre suas experiências fora do comum e no fim perguntavam se é estranho.

Dando uma olhada, acabei descobrindo fóruns sobre pessoas que diziam terem visto desde cenouras assassinas a discos voadores. Tentei ser o mais clara possível, só que a única coisa que eu consegui foi um: “Minha mãe disse que sou prima do Hércules e quando eu fico nervosa a água parece criar vida própria, isso é estranho?”. Qualquer um que lesse o que eu escrevi, poderia não fazer sentido, até porque não fazia nem para mim. Porém era necessário e pareceu que minha mãe não esclareceu as minhas dúvidas por completo e eu tinha certeza de que ninguém descobriria quem é a verdadeira xícara_apaixonada876.

Eu sabia que estava quase perdendo o controle, mas eu não conseguia me desligar. Só a ideia de dormir e ter que sonhar com Natie pendurado do lado de fora da sacada, ou me lembrar de quando ele começou a falar estranho envolto em uma fumaça verde, eu já começava a tremer.

Encostei a cabeça na porta do meu armário e fechei os olhos. Eu não conseguia parar porque o medo de não conseguir me recompor era enorme, por isso, assim que vi minha mãe se arrumando para trabalhar, vesti meu vestido de tênis mais novo e pedi que me trouxesse ao Beverly Houston Club para treinar um pouco.

Já que eu tinha mais três dias até que voltasse a estudar, eu precisava me virar para ter algo para fazer para manter minha mente ocupada e não pensar muito no que aconteceu.

Era uma complicação a mais para resolver. Sorte a minha que eu podia tomar banho e deixar toda a perturbação descer pelo ralo. Quando a água entrava em contato com o meu corpo, eu me sentia mais forte, como se toda a preocupação desaparecesse.

O banheiro estava vazio, então não me preocupei em tirar a roupa na frente do espelho. Foi um pouco chocante encarar meu corpo nu. Sempre fui um pouco magra, mas meus ossos nunca estiveram tão aparentes. Se eu parasse para contar todas as costelas, não teria a menor dificuldade. Minhas curvas que já eram bem modestas haviam desaparecido quase por completo. Era de se admirar o fato de que eu ainda conseguia levantar as quase quatrocentas gramas que a raquete pesava. Que culpa eu tinha se não conseguia comer direito? A minha vontade de comer havia sumido. Nada me agradava, a comida havia perdido todo o sabor, o máximo que conseguia engolir era o suco que tangerina que minha mãe me obrigava a beber.

O problema era esse, quanto mais eu pensava em Nate mais miserável eu me sentia. Às vezes eu parava o que estava fazendo e tentava entender o real motivo de tudo isso ter acontecido. Foi tudo tão misturado. Primeiro, minha mãe estraga a minha oportunidade de concertar o que eu tinha com Nate, não me deixando viajar com ele e seus amigos e os Cohen para Nova York e me obriga a passar as férias de primavera em um acampamento de sobrevivência chato na Flórida, depois Nate volta totalmente desequilibrado e termina comigo, minha mãe diz que vai se casar com alguém que mal conhece, depois Nate volta comigo e se mata em seguida, eu começo a alagar jantares e Emma decide quase morrer bêbada. Minha vida estava um caos e eu estava com muito medo de não aguentar.

Droga! Eis o meu maldito problema. Pensar em Nate desencadeava uma enxurrada de sentimentos que eu não queria sentir.

Estava na hora de acabar com todo esse sofrimento, entrei no box mais perto e liguei o chuveiro. Embaixo da água eu estava protegida do bombardeio de lembranças ruins.

...

Saí do vestiário me sentindo bem mais leve e até um pouco mais bonita. Claro que o crédito também pertencia aos jeans seven, que foram os únicos jeans de todo o guarda roupa que ainda continuavam razoavelmente apertados e que pareciam combinar perfeitamente com o cropped rendado azul que April havia esquecido na minha casa. Jasper não estava me esperando do lado de fora, então segui para o estacionamento, tendo quase certeza de que o encontraria lá. O dia estava um pouco quente demais e o sol do meio dia parecia cozinhar meu globo ocular. Coloquei meus óculos de sol que sempre levava na bolsa e fui procurar minha carona. Eu não conseguia me lembrar de qual era o modelo do carro de Jasper. Não sabia ao certo se ele continuava com a mesma Mercedes ou se tinha trocado por outro esportivo mais caro. E isso tudo era um pouco engraçado, já que nossas casas estavam paralela uma a outra. Achei que eu deveria saber pelo menos isso. Porém os últimos seis meses foram preenchidos por outra pessoa. Nathaniel Grant, o meu quase melhor amigo de infância que um dia me olhou de um jeito diferente e de repente eu me senti perdidamente apaixonada. E foi totalmente revoltante o jeito que ele me deixou.

Senti o ar faltar e me apoiei em um carro qualquer. Em questão de segundos eu não consegui enxergar nada mais que olhos verdes florescentes brilhando na escuridão. Os olhos de Nate.

O chão tremeu e ouvi o alarme de um carro soar a certa distância.

Os olhos brilhantes pareciam absorver todas as minhas forças.

— Ei, Brooks!

Senti mãos fortes segurarem meus ombros, me impedindo de cair no chão e com a mesma velocidade em que a escuridão apareceu tudo voltou ao normal.

— Vem aqui, vou te levar para casa — Jasper me ajudou a entrar em seu carro. Eu ainda estava intrigada com o que vi. Olhei para trás e vi fumaça sair de um carro que passava por perto. Voltei ao meu lugar e apoiei a cabeça nas mãos, eu estava saindo do controle. Mais uma vez.

O carro seguiu e eu fechei os olhos, tentando me acalmar. Jasper começou a correr e eu não prestei muito atenção no caminho. Eu sabia que era tudo a mesma coisa de sempre e com toda certeza não daria para prestar atenção em muita coisa já que meu motorista dirigia como um bandido que fugia da polícia. Na verdade ele era um, mas só que polícia.

— Fiquei sabendo na segunda — Jasper começou ao parar no sinal vermelho, me tirando do meu estado de dormência.

— Oi?

— Eu estava em Atlanta quando me disseram sobre ele.

— Ata — respondi meio distraída, enquanto procurava algo útil no porta luvas. Cigarros, camisinha, moedas velhas. Nada que eu pudesse aproveitar no momento.

— Ele era um cara gente boa, apesar de ter sido um babaca.

Eu ri, eles nunca se deram muito bem desde que eu conseguia me lembrar. Peguei um espelho pequeno e comecei a ajeitar minha franja.

— Vai ficar tudo bem, se você quiser é…

— Jasper! É sério. Eu não... Não tem problema em ficar calado.

Permanecemos em silêncio até chegarmos à rua em que morávamos. Tudo parecia tão intimidador, pequenos palacetes cercados de árvores que projetavam sombras densas no asfalto, carros de luxo casualmente estacionados como se quisessem demonstrar sua superioridade. Era o lugar que eu pertencia desde os sete anos e naquele momento acho que não tinha muita certeza se ainda fazia parte daquele mundo.

— Sua mãe deveria se importar mais com os mendigos que rondam a sua casa — comentou o cara ao meu lado, me trazendo de volta a realidade.

Levantei a cabeça e vi o garoto de cabelos emaranhados de casaco de inverno do dia anterior parado olhando para minha casa. A medida que fomos nos aproximando, foi percebendo a nossa presença e como um gato assustado começou a nos encarar de maneira desafiadora. Senti meu corpo todo se arrepiar e tirei o sinto de segurança.

— Ele não é um mendigo — protestei desconfortável. — Eu o conheço.

— Então qual é o nome dele?

— É... Não sei — o desconhecido deu as costas e começou a andar na direção contrária a nossa.

— Então não o conhece. Acho que deveria tomar cuidado com quem anda, talvez deva chamar a polícia.

Revirei os olhos, já irritada. Jasper conseguia ser insuportavelmente e chato às vezes.

— Você e seus amigos ladrões de bancos vivem andando por aqui e nem por isso alguma vez já chamei a polícia.

Saí do carro e fui correndo para casa sem me despedir. Sua preocupação era considerável, por um lado eu me sentia ameaçada, mas não havia provas de que o desconhecido quisesse algo comigo e mesmo se fosse, seria um pouco perigoso irritá-lo chamando a polícia.

Entrei pela porta da sala e não resisti a vontade de trancá-la. Logo percebi que havia uma mala parada perto do sofá.

— Mãe? — perguntei enquanto tirava minhas sandálias e as colocava ao lado do sofá.

— Oi? — chamei mais uma vez, ouvindo minha voz ecoar pelas paredes azuis.

Tudo estava tão quieto. Liguei a televisão e fiquei mudando os canais até ter uma ideia do que fazer. Mais de cem canais e nenhum realmente chamava minha atenção, era tudo tão inútil e superficial, no canal de notícias só havia coisas ruins e o TMZ era chato. Não estava passando The Blacklist, então nada parecia interessante.

Franzi a testa um pouco surpresa quando vi As Virgens Suicidas quase no topo da lista de filmes que eu costumava gravar. Apesar de ter perdido a conta de quantas vezes o assisti com a minha mãe, nunca tinha entendido o direito o motivo das irmãs Lisbon. E por um instante eu tive a esperança de que talvez a história de Nate pudesse fazer sentido ao ser misturada com a do filme. Quem sabe não guardava uma mensagem oculta que me fizesse entender o porquê de tudo aquilo estar acontecendo? Apertei o play e deitei no sofá apoiando a cabeça em uma almofada de couro.

— Brooke querida, quem te trouxe? Por que não me ligou? Eu ia te buscar.

Minha mãe entrou na sala sobre um de seus Manolos Blahnick de saltos baixos que costumava usar em viagens longas. Pausei o filme para encará-la um pouco. Ela vestia jeans de lavagem escura junto com uma blusa branca que ficava por baixo de um kimono estampado. Sim, alguém iria viajar. Isso explicava muito bem as malas perto da porta.

— Não vai me levar? — senti meu coração martelar no peito.

— Não posso. Reese me ligou hoje de manhã e eu tenho que resolver a papelada da locação de Johanesburgo.

— E eu vou ficar sozinha? — fitei seus sapatos que eram de um tom marrom escuro que combinariam facilmente com qualquer coisa, principalmente com o pôr do sol da África do Sul. — Eu não quero ficar aqui sozinha.

— E não vai. April e Emma vão ter que ficar aqui, já que Natalie também irá comigo. E vocês vão para a escola na segunda. Tudo vai ficar bem, querida.

Acariciou minha bochecha com seus dedos finos e macios. A manga do kimono acabou escorregando, deixando sua tatuagem de condor visível. Eu costumava ter medo dele quando era criança, até que ela me explicou que aquele pássaro significava que há possibilidade de ser imortal mesmo em meio à podridão.

Ah, imortalidade. Eu bem queria que fosse real.

— Eu não vou ficar bem, mãe. Acha mesmo que vou ficar bem com as Cohen me lembrando toda hora que eu não fiz nada pra salvá-lo? — comecei a gritar. — Eu não quero ficar com as Cohen.

Em resposta mamãe começou a ajeitar meus cabelos e prende-los em um coque. Como ela podia ser tão calma no meio disso tudo?

— Por que fica gritando que não fez nada? Você chamou a ambulância, filha. Pare de se torturar com isso. Quando o hospital te buscou ele ainda estava vivo.

Olhei para ela com surpresa. Não me lembrava de absolutamente nada, só de estar na viatura da polícia, mas nada mais que isso.

— Brooke, eu não posso ficar aqui discutindo com você. Meu voo sai daqui a algumas horas e ainda tenho que resolver algumas coisas com a produtora. Miranda vai estar aqui amanhã e domingo. Vocês vão ficar bem — me deu um beijo na testa e se levantou, ajeitando a roupa. — Seus calmantes estão guardados no armário do banheiro.

Balancei a cabeça em concordância, dando play no filme mais uma vez. Porém, antes de deitar lembrei-me de uma coisa importante.

— Mãe! — corri até ela e segurei seu pulso.

— Não adianta começar de novo que eu não vou te levar.

— E os outros remédios? — perguntei, fingindo que não ouvi o que disse.

— Que outros remédios? — questionou confusa.

— Os da dislexia.

— Você não precisa tomar remédio para dislexia. Acho que mesmo se precisasse não iria tomar, já que não criaram ainda — falou como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

— Então por que eu não tenho conseguido ler muito bem?

— Ah, querida. Você só tem estado muito nervosa ultimamente — a preocupação ficou ainda evidente em seus olhos. Eu sabia que ela não queria me deixar. — Foi exatamente por isso que eu te disse para tomar os comprimidos que a Dr. Dernier receitou. Agora tenho que ir, minha filha. O avião não vai me esperar para sempre. Apenas tranque a porta, okay?

— Tudo bem — acabei reconhecendo que teria um fim de semana difícil.

— Eu te amo, filha — recebi um abraço apertado e reconfortante, que resisti para não sair.

— Eu também te amo mãe — encostei-me ao umbral da porta e fiquei a vendo ir, até não conseguir mais enxergar seu Audi prateado.

Tranquei a porta já com os olhos inundados por lágrimas. Não parecia ser muito justo eu ter que ficar sozinha daquele jeito. Desliguei a TV e fui para o meu quarto. Eu tinha o filme salvo no pen drive e podia muito bem assisti-lo deitada na minha cama.

Tirei a calça e me enfiei debaixo do cobertor. Bonnie não demorou em se aninhar ao meu lado. Deixei o filme rolar, afinal eu não tinha muito o que fazer além de aceitar meu fim de semana que horrível.

Fixei meus olhos na tela plana em minha frente e esqueci que havia mundo fora dela.

...

Lux Lisbon acordou sozinha na madrugada azulada. A pobre menina assim como eu havia sido abandonada pelo seu amor. Eu podia sentir sua dor. Eu estava lá tão bem.

— April, já faz uma hora e ela nem notou a gente — a voz aguda de Emma parecia tão distante.

— Deixa a garota aí — a voz de April continha raiva e amargura. Se eu não estivesse tão longe poderia abraçá-las.

— Mas ela voltou o filme de novo, todo mundo sabe o final. Acha que ela quer morrer também?

— Cala boca e dorme, Emma.

Talvez. Eu não sabia o que ia fazer da vida, mas tinha quase certeza de que não queria acabar como Lux Lisbon e suas irmãs.

Mais tarde, quando o filme voltou ao seu início, eu ainda não tinha conseguido dormir. Quase não senti bem April acariciar meu braço de um jeito quase mágico.

— A gente te ama, Brookster.

Eu também as amava.

Notas finais
Capítulo grande, né? É que eu não queria enrolar nessa parte. Ah, e a Bellarke do blog Perfect Design me ajudou betando pra mim. Espero que tenham gostado porque eu demorei uma eternidade pra terminar. Beijos e até a proxima.