Equinócio

4 Primeiro amor


Narrado por Renesmee


As lágrimas demoraram pouco para apagar a floresta ao meu redor. O som da água continuava correndo diante de mim, mas já não era nele que eu prestava atenção. Bastou Edward mencionar aquele assunto para que minha mente voltasse anos no tempo, para uma lembrança que eu havia aprendido a esconder até de mim mesma. Durante muito tempo consegui acreditar que aquela noite fazia parte do passado, mas bastava fechar os olhos para perceber que algumas dores nunca deixam realmente de existir. Elas apenas aprendem a esperar o momento certo para voltar.


Eu ainda conseguia lembrar da música.


A festa acontecia em uma casa afastada do centro de Paris e o jardim estava cheio de gente da faculdade. Alguns dançavam perto da piscina, outros conversavam espalhados pelos bancos e havia um grupo tentando cantar junto com um violão completamente desafinado. Eu nunca gostei muito de festas, mas Miguel sempre encontrava um jeito de me convencer a sair de casa. Dizia que eu passava tempo demais escondida entre livros e cafés antigos e que precisava aprender a aproveitar a vida como qualquer garota da minha idade.

Qualquer garota.

Só de pensar nisso hoje, um sorriso triste surgiu em meu rosto.

Miguel apareceu ao meu lado segurando dois copos de refrigerante. Entregou um deles para mim e, antes mesmo que eu pudesse agradecer, segurou minha mão com aquele jeito espontâneo que fazia tudo parecer simples.


— Vamos dar uma volta.

Olhei para o jardim iluminado.

— Vão perceber que você sumiu.

Ele deu de ombros.

— Então deixo que percebam.

Sorri e o acompanhei. Caminhamos sem pressa até a floresta que cercava a propriedade. A música foi ficando distante aos poucos, substituída pelo som do vento passando entre as árvores. Sempre gostei desse silêncio. Era nele que eu conseguia esquecer, mesmo que por alguns minutos, que precisava esconder quem realmente era.

Quando encontramos uma pequena clareira iluminada pela lua, Miguel parou de andar e me puxou delicadamente pela cintura. Seu beijo veio calmo, sem qualquer urgência, e eu me permiti esquecer o resto do mundo enquanto sentia suas mãos segurando meu rosto. Naquele instante eu realmente acreditava que talvez fosse possível viver uma vida normal.

Foi ele quem interrompeu o beijo.

Miguel continuou me olhando em silêncio por alguns segundos, como se estivesse tentando criar coragem para dizer alguma coisa.

— Posso te fazer uma pergunta?

Assenti.

— Claro.

Ele passou os dedos delicadamente pelo meu cabelo antes de prender uma mecha atrás da minha orelha.

— Você percebeu que não mudou absolutamente nada desde que nos conhecemos?

Meu coração apertou.

Tentei sorrir.

— Todo mundo diz que eu pareço mais nova do que realmente sou.

— Não é isso.

Ele balançou a cabeça devagar.

— Faz mais de três anos, Renesmee. Eu tenho fotografias daquele primeiro semestre da faculdade. Você está exatamente igual. O mesmo rosto, a mesma pele, o mesmo olhar... você não envelheceu um único dia.

Desviei os olhos.

Era a conversa que eu mais temia.

Durante três anos consegui escapar daquele assunto mudando de tema, inventando desculpas ou simplesmente rindo da situação, mas percebi que já não conseguiria fazer aquilo outra vez.

— Algumas pessoas envelhecem mais devagar.

Minha resposta nem convenceu a mim mesma.

Miguel segurou minha mão.

— O que você está escondendo de mim?

Abri a boca para responder, mas nenhum som saiu. Como eu poderia explicar uma verdade que nem Carlisle conseguia compreender? Como dizer ao homem que eu amava que eu não sabia o que era?

Foi nesse instante que ouvi o galho quebrando.

O som ecoou forte entre as árvores.

Meu corpo inteiro ficou alerta antes mesmo de Miguel perceber que havia alguma coisa errada. Outro estalo veio logo depois, seguido de um rosnado grave que fez o silêncio da floresta desaparecer completamente.

Quando o enorme urso surgiu entre as árvores, senti Miguel prender a respiração ao meu lado. O animal era maior do que qualquer um que eu já havia visto. Seu focinho farejava o ar enquanto seus olhos permaneciam fixos em nós.

— Meu Deus... — Miguel murmurou.

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele me empurrou para trás e ficou na minha frente.

— Corre!

Não consegui me mover.

Meu olhar alternava entre Miguel e o urso.

— Miguel...

— Corre!

O urso rugiu e avançou.

Naquele segundo compreendi que não existia escolha. Miguel jamais conseguiria escapar e, mesmo assim, permanecia entre mim e o animal, disposto a morrer para me proteger.

Empurrei-o para o lado com toda a força que consegui controlar e avancei na direção do urso antes que ele nos alcançasse. Minhas mãos encontraram seu corpo ainda no salto, e o impacto foi suficiente para arremessá-lo vários metros adiante, até que atingisse uma árvore com violência.

O animal soltou um rugido de dor, levantou cambaleando e desapareceu no meio da mata.

Só então percebi o silêncio.

Virei lentamente.

Miguel continuava caído no chão.

Não havia gratidão em seu rosto.

Não havia alívio.

Só medo.

Um medo que eu nunca tinha visto em seus olhos.

Ele se levantou devagar, recuando um passo sem perceber que fazia aquilo.

Continuava olhando para mim como se estivesse diante de um completo desconhecido.

Sua voz saiu baixa, trêmula, quase sem ar.

— Que diabos... é você?


Ele não desviava os olhos de mim.

A luz da lua ainda iluminava a clareira quando dei um passo em sua direção, mas Miguel recuou imediatamente. Nunca vou esquecer a expressão em seu rosto. Não era apenas surpresa. Era medo. Um medo profundo, daqueles que fazem uma pessoa questionar tudo o que acreditava conhecer.

— Miguel...

Minha voz saiu quase em um sussurro.

— Eu posso explicar.

Ele balançou a cabeça várias vezes, como se tentasse acordar de um pesadelo.

— Não... não...

Levou uma das mãos à cabeça e continuou me encarando.

— Seus olhos...

Meu coração afundou.

Instintivamente, levei a mão ao rosto, embora soubesse exatamente do que ele estava falando. O esforço para enfrentar o urso havia despertado meus instintos e meus olhos nunca permaneciam exatamente iguais depois disso.

— Eles... eles mudaram de cor.

Tentei me aproximar outra vez.

— Miguel, por favor, me escuta.

Ele começou a se arrastar para trás sobre as folhas secas, afastando-se de mim sem conseguir levantar completamente.

— Fica longe de mim!

Cada palavra dele parecia atravessar meu peito.

Passei três anos imaginando aquele momento, ensaiando explicações, criando histórias na minha cabeça sobre como ele reagiria caso descobrisse a verdade. Em nenhuma delas havia aquele olhar.

Nunca aquele olhar.

— Eu continuo sendo a mesma pessoa.

Minha voz tremia.

— Nada mudou.

Ele riu, mas não havia humor algum naquele som.

— Você acabou de jogar um urso como se ele não pesasse nada!

Respirei fundo, tentando controlar o desespero.

— Eu sei como isso parece...

— Parece?

Ele finalmente conseguiu ficar de pé.

— Eu vi! Eu vi com os meus próprios olhos!

Estendi a mão na direção dele.

— Miguel...

Ele virou as costas e começou a correr.

— Espera!

Disparei atrás dele quase por instinto. Não precisei de mais do que alguns segundos para alcançá-lo. Dei a volta por entre as árvores e parei alguns metros à sua frente, bloqueando o caminho.

— Por favor, só me escuta por cinco minutos.

Miguel freou tão bruscamente que quase caiu.

Quando percebeu que eu já estava diante dele, o pouco de coragem que ainda restava desapareceu.

— Como...

Sua voz falhou.

Ele olhava da floresta para mim, completamente desnorteado.

— Como você chegou aqui tão rápido?

Senti um nó se formar em minha garganta.

Não existia resposta capaz de fazê-lo acreditar que ainda estava seguro.

Mesmo assim, tentei.

— Eu posso explicar tudo. Só preciso que você se acalme.

Ele começou a balançar a cabeça outra vez.

— Não...

Deu mais um passo para trás.

— Não chega perto de mim.

— Miguel...

— Socorro!

Seu grito ecoou pela floresta.

— Alguém me ajuda!

Fechei os olhos por um instante.

Aquilo estava saindo completamente do controle.

— Ninguém vai machucar você.

— Fica longe!

Ele voltou a correr.

Dessa vez, eu não corri atrás.

Permaneci onde estava, observando-o desaparecer entre as árvores.

— Miguel...

Minha voz saiu baixa.

— Espera.

Sabia que conseguiria alcançá-lo outra vez em segundos.

Mas também sabia que, quanto mais eu demonstrasse aquilo de que era capaz, maior seria o medo dele.

Por isso apenas comecei a caminhar.

Devagar.

Esperando que ele parasse.

Esperando que respirasse.

Esperando que me desse uma única oportunidade para explicar.

Foi então que ouvi.

O som agudo dos pneus riscando o asfalto atravessou a floresta como um grito.

Logo depois veio o impacto.

Um barulho seco.

Violento.

Meu corpo inteiro congelou.

Por uma fração de segundo, recusei-me a acreditar no que tinha acabado de ouvir.

Então corri.

Nunca corri tão depressa em toda a minha vida.

As árvores desapareceram ao meu redor enquanto eu atravessava a mata até alcançar a estrada.

Quando saí da floresta, tudo parecia acontecer ao mesmo tempo.

Um carro havia parado atravessado no acostamento.

O motorista descia desesperado.

Pessoas gritavam.

Alunos da festa corriam na direção da estrada, atraídos pelo barulho da colisão.

E Miguel...

Miguel estava caído sobre o asfalto.

Meu coração pareceu parar.

Corri até ele e caí de joelhos ao seu lado.

— Miguel!

Segurei seu rosto entre minhas mãos.

— Miguel, olha para mim.

Não houve resposta.

Passei a mão por seu cabelo, completamente sem conseguir controlar as lágrimas.

— Por favor...

Minha voz se partiu.

— Fala comigo...

Balancei seu ombro delicadamente, como se ele apenas tivesse desmaiado.

— Miguel... eu estou aqui.

Nada.

Nem um movimento.

Nem um suspiro.

Foi então que o silêncio me atingiu.

Não havia batimentos.

Nenhum.

Durante três anos, eu conheci o ritmo do coração dele melhor do que qualquer música.

Agora...

Não existia som algum.

Olhei para o rosto pálido diante de mim enquanto as lágrimas escorriam sem que eu conseguisse impedi-las.

Miguel não estava mais com medo, não estava mais correndo.

Miguel estava morto.

E, por mais que o carro tivesse sido o responsável pelo acidente, foi naquele instante que eu senti o peso da culpa cair sobre mim.

Se eu tivesse contado a verdade antes...Se eu tivesse ido embora...Se eu não tivesse corrido atrás dele...

Talvez ele ainda estivesse vivo.

E essa foi a primeira vez que odiei profundamente aquilo que eu era.


───


O som da água continuava correndo diante de mim, mas minhas lembranças já não acompanhavam o ritmo tranquilo da nascente. Permaneci imóvel por alguns minutos, observando meu reflexo distorcido pela correnteza enquanto tentava controlar a respiração. Chorar nunca resolvia nada. Aprendi isso cedo demais.

Passei as mãos pelo rosto, enxugando as últimas lágrimas, e fechei os olhos por um instante.

Foi então que um aroma diferente alcançou meu olfato.

Meu corpo inteiro enrijeceu antes mesmo que eu pensasse.

Vampiro.

Abri os olhos imediatamente.

O cheiro era forte, desconhecido e não pertencia a ninguém da minha família. Também não era um dos poucos vampiros que eu conhecera ao longo da vida. Permaneci imóvel, tentando identificar de onde ele vinha, enquanto minha audição buscava qualquer movimento entre as árvores.

O vento trouxe novos cheiros, agora conhecidos por mim, um galho estalou alguns metros atrás de mim me fazendo olhar naquela direção.

Sorri de canto — Emmett, é você?

Continuei olhando para a água.

— Você sempre faz isso.

Esperei ouvir sua gargalhada.

Ela nunca veio.

O silêncio permaneceu tão absoluto que comecei a sentir um desconforto crescer dentro de mim. Emmett jamais conseguiria ficar calado por tanto tempo.

Virei-me devagar.

Entre os troncos dos pinheiros, uma mulher me observava.

Ela estava completamente imóvel, como apenas um vampiro conseguiria permanecer. Os cabelos longos e vermelhos caíam sobre os ombros como uma chama em meio ao verde escuro da floresta. A pele pálida parecia refletir a pouca luz que atravessava as copas das árvores, e seus olhos fixos em mim carregavam uma curiosidade que eu não consegui interpretar.

Nunca a tinha visto.

Passei rapidamente pelas poucas lembranças que tinha dos vampiros conhecidos dos Cullen.

Ela não fazia parte delas.

Por um breve instante, nenhuma de nós se moveu. Apenas nos observamos em silêncio.

A mulher inclinou levemente a cabeça, como se estivesse analisando cada detalhe meu. Seus olhos percorreram meu rosto com evidente estranhamento, demorando um pouco mais do que o normal, até que um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.

— Se perdeu na floresta, passarinho?

Sua voz era calma, quase gentil.

Mas havia alguma coisa nela que me colocou em alerta imediatamente.

Não era apenas o fato de ser uma vampira desconhecida.

Era a maneira como ela me olhava.

Como se estivesse diante de algo que jamais esperou encontrar.