Equinócio
5 Entre lobos e vampiros
Narrado por Renesmee
A mulher continuava parada exatamente onde estava. Nenhuma de nós parecia disposta a dar o primeiro passo. Eu a observava com a mesma atenção que ela me observava, tentando descobrir se a conhecia de algum lugar, mas seu rosto era completamente estranho para mim. Ao mesmo tempo, havia algo curioso em sua expressão. Não parecia hostilidade. Também não era surpresa. Era como se ela estivesse tentando entender o que estava vendo.
Seus olhos percorreram meu rosto lentamente, depois desceram até minhas mãos e voltaram a encontrar os meus. Ela franziu a testa por um breve instante, completamente confusa, como se a simples existência de alguém como eu desafiasse tudo o que acreditava conhecer.
Abri a boca para perguntar quem ela era, mas não tive oportunidade.
Sem dizer uma única palavra, ela desapareceu.
Foi tão rápido que, por um segundo, cheguei a pensar que meus olhos haviam me enganado. No instante seguinte, o silêncio da floresta foi substituído pelo som pesado de algo correndo entre as árvores. Galhos grossos começaram a se partir um atrás do outro e o chão pareceu vibrar sob meus pés.
Virei-me automaticamente na direção do barulho.
Antes que pudesse distinguir o que se aproximava, ouvi outra voz atrás de mim.
— Renesmee.
Reconheceria a voz de Carlisle em qualquer lugar.
Ele surgiu entre as árvores acompanhado por Esme. Os dois chegaram até mim em poucos segundos e, pela expressão no rosto de meu pai, percebi imediatamente que alguma coisa estava muito errada.
— Você precisa sair daqui agora.
Olhei novamente para a direção por onde a vampira havia desaparecido.
— Quem era aquela mulher?
Carlisle aproximou-se mais um passo.
— As explicações podem esperar.
Ele segurou delicadamente meu braço, já me conduzindo para longe da nascente.
— Vamos.
Olhei para ele sem entender.
— Pai...
Não consegui terminar a frase.
Um rosnado profundo atravessou a floresta.
O som era tão grave que pude senti-lo vibrar no peito antes mesmo de identificar sua origem.
Todos pararam.
Esme soltou minha mão e, sem dizer uma única palavra, colocou-se imediatamente à minha frente. O gesto foi tão espontâneo que nem precisei pensar para compreender o que significava.
Ela estava me protegendo.
Meu olhar acompanhou a direção de todos.
Entre as árvores, dois enormes olhos escuros refletiam a pouca luz que atravessava a floresta.
Mais um passo.
Depois outro.
A criatura saiu lentamente da escuridão.
Meu coração acelerou.
Era um lobo.
Não.
Era impossível chamar aquilo apenas de lobo.
O animal era gigantesco. Seu dorso alcançava quase a altura de Carlisle e cada músculo se movia sob o pelo negro enquanto ele avançava lentamente. Os dentes apareciam entre os lábios erguidos e um rosnado contínuo escapava de sua garganta.
Nunca tinha visto nada parecido.
Esme permaneceu imóvel à minha frente.
Carlisle deu apenas um passo à frente dela.
Foi então que outra voz ecoou pela floresta.
— Sam.
Olhei para trás.
Edward aproximava-se rapidamente.
Seus olhos permaneceram fixos no enorme animal.
— Ela não sabia.
O lobo continuou rosnando.
Edward manteve a voz firme.
— Renesmee não conhecia o tratado. Ela cruzou a linha sem perceber.
Meus olhos alternavam entre meu irmão e aquela criatura, completamente incapaz de entender o que estava acontecendo.
Carlisle respirou fundo antes de falar.
— Sam... ela é minha filha.
O enorme lobo permaneceu imóvel.
Carlisle continuou.
— Minha filha caçula.
Foi naquele instante que compreendi.
Aquilo não era um animal comum.
Era um metamorfo.
As histórias que Carlisle havia contado tantos anos atrás deixaram de parecer apenas relatos distantes. Eles existiam. Estavam ali, diante de mim.
Antes que eu pudesse fazer qualquer pergunta, outros movimentos surgiram entre as árvores.
Rosalie apareceu primeiro.
Logo atrás dela vieram Emmett, Jasper e Alice.
Nenhum deles disse uma palavra.
Simplesmente ocuparam posições ao nosso redor.
Rosalie permaneceu ao meu lado direito.
Emmett ficou alguns passos mais à frente.
Jasper aproximou-se de Carlisle enquanto Alice parava atrás de mim.
Sem que eu percebesse, minha família havia formado um círculo.
Pela primeira vez desde que voltara para Forks, compreendi uma coisa.
Aquela proteção não era contra a vampira desconhecida.
Era contra o enorme lobo que continuava parado diante de nós, observando-me como se minha presença ali fosse tão inexplicável para ele quanto a existência dele era para mim.
O rosnado do enorme lobo voltou a ecoar entre as árvores, ainda mais grave do que antes. Por um instante, tive a impressão de que a floresta inteira havia prendido a respiração. Então outros sons começaram a surgir ao nosso redor. Galhos se quebravam em diferentes direções, folhas secas eram esmagadas contra o chão e, um a um, outros lobos gigantes deixaram a escuridão para se juntar ao primeiro. Eram menores que ele, mas não menos intimidadores. Em poucos segundos, percebi que estávamos cercados.
Meu olhar passou de um para outro sem conseguir acreditar no que via. Durante anos, Carlisle mencionou os metamorfos da reserva apenas quando julgava necessário. Eu sabia que existiam, conhecia a história do tratado entre eles e os Cullen, mas uma coisa era ouvir relatos. Outra completamente diferente era estar diante deles.
Edward continuava observando o maior dos lobos. Seu rosto permanecia impassível, mas seus olhos acompanhavam cada movimento do animal.
— Sam está confuso — disse ele, sem desviar o olhar. — Ele não entende o que ela é.
Carlisle assentiu lentamente.
— Eu posso explicar tudo.
O lobo não se moveu.
Carlisle continuou falando com a mesma calma que usava diante de qualquer paciente.
— Ela é minha filha. Foi criada por Esme e por mim desde que era um bebê. Renesmee nunca fez mal a ninguém.
O silêncio durou apenas alguns segundos.
Então uma voz masculina surgiu entre as árvores.
— Ainda assim... é uma sanguessuga.
Virei a cabeça na direção da voz.
Um rapaz saiu da mata caminhando sem qualquer pressa. Devia ter pouco mais de vinte anos e usava apenas uma calça de moletom completamente suja de lama. Estava descalço e os cabelos escuros pareciam ainda úmidos, como se tivesse acabado de atravessar o rio. Havia algo firme na maneira como caminhava, uma confiança quase irritante. Ele parou ao lado do enorme lobo negro e cruzou os braços, lançando um olhar rápido para minha família antes de parar em mim.
Por algum motivo, senti que ele me analisava com a mesma curiosidade da vampira ruiva poucos minutos antes.
Edward foi o primeiro a quebrar o silêncio.
— Jacob.
O rapaz desviou os olhos de mim apenas para encará-lo.
— O verdadeiro perigo continua sendo Victoria — continuou Edward. — Não a Renesmee.
Jacob não respondeu.
Foi Sam quem voltou a rosnar.
O som fez os outros lobos permanecerem atentos, mas nenhum deles avançou.
Edward ficou em silêncio por alguns segundos, como se estivesse ouvindo uma conversa que mais ninguém podia escutar.
Depois respirou fundo.
— Sam disse que vai deixar passar desta vez.
Carlisle relaxou discretamente os ombros.
Edward prosseguiu.
— Mas quer que Renesmee fique longe das terras da reserva. Ela cruzou a linha sem conhecer o tratado. Isso não pode acontecer de novo.
Meu pai inclinou levemente a cabeça.
— Diga ao Sam que agradeço pela compreensão. Não voltará a acontecer.
O enorme lobo permaneceu imóvel por mais alguns instantes. Então o rosnado cessou.
A tensão que tomava conta da floresta diminuiu pouco a pouco.
Esme aproximou-se de mim e passou um braço pelos meus ombros, puxando-me discretamente para perto dela. Só então percebi que eu continuava parada exatamente no mesmo lugar desde que tudo começara.
Meu olhar, porém, não acompanhou o dos outros.
Permaneceu preso no rapaz chamado Jacob.
Ele ainda estava ao lado de Sam, completamente tranquilo em meio aos enormes lobos, como se pertencesse àquele lugar tanto quanto as árvores ao redor. Não havia simpatia em seu rosto, mas também não encontrei o ódio que esperava depois da maneira como se referira a mim. Havia apenas desconfiança.
Por um breve instante, nossos olhares se encontraram.
Ele franziu levemente a testa, como se tentasse entender alguma coisa.
Eu fiz exatamente o mesmo.
Voltamos para casa em um silêncio que dizia muito mais do que qualquer conversa conseguiria dizer. Eu fui no banco de trás ao lado de Esme, enquanto Carlisle dirigia. Pela janela, a floresta passava depressa, mas minha cabeça permanecia presa àquela clareira. A vampira desconhecida. Os lobos. O rapaz chamado Jacob. Em poucas horas, Forks havia se tornado muito mais complicada do que eu imaginava quando decidi sair de Paris para colocar juízo na cabeça de Edward.
Assim que entramos na mansão, Carlisle pediu que todos fossem para a sala. Ninguém pareceu discordar. Emmett largou-se no sofá, Rosalie permaneceu de pé ao lado dele, Jasper encostou na parede com os braços cruzados e Alice ocupou o lugar de sempre no braço da poltrona. Edward foi o último a entrar. Encostou-se próximo à janela e ficou olhando para a floresta como se esperasse que alguma coisa surgisse entre as árvores a qualquer momento.
Esme permaneceu ao meu lado durante todo o tempo.
Carlisle respirou fundo antes de começar.
— A vampira que você encontrou na floresta se chama Victoria.
Assenti lentamente.
O nome já não era novidade.
— Eu conheço a história.
Carlisle continuou.
— Ela era companheira de James.
James.
O vampiro que havia caçado Bella.
Sabia daquela história praticamente de cor. Alice havia me contado tudo por telefone quando aconteceu. James não estava atrás dos Cullen. Estava atrás de Bella, e isso acabou envolvendo toda a família.
O que eu não imaginava era que aquilo ainda não tivesse acabado.
— Então ela voltou por vingança.
Carlisle confirmou com um movimento discreto da cabeça.
— James foi destruído por nós. Na visão de Victoria, Bella é a responsável por tudo o que aconteceu. Ela acredita que fazê-la sofrer seja a única forma de se vingar.
Passei a mão pelos cabelos, tentando organizar tudo o que havia acontecido desde minha chegada.
Primeiro Edward resolvera se entregar aos Volturi por causa de Bella.
Agora descobria que a companheira do vampiro que tentara matá-la também estava de volta.
Quanto mais eu aprendia sobre aquela história, mais tinha a impressão de que Bella funcionava como um ímã para problemas.
Suspirei.
Tudo estava muito mais complexo do que imaginei quando embarquei em Paris.
Fiquei alguns segundos em silêncio até que outra dúvida voltou à minha cabeça.
Olhei para Carlisle.
— Quem é Jacob?
Antes que meu pai respondesse, percebi Esme me olhando com um pequeno sorriso curioso.
— O que foi? — perguntei.
Ela riu baixinho.
— Nada. Só achei curioso você perguntar justamente sobre ele.
Dei de ombros.
— Estou perguntando porque Edward parece bastante íntimo dele. Achei estranho.
Foi a pior justificativa possível.
Emmett explodiu em uma gargalhada tão alta que fez Alice rir junto.
— Íntimo! Essa foi boa!
Franzi a testa.
— O que foi que eu disse?
Rosalie também sorria, claramente se divertindo muito mais do que deveria.
Edward fechou os olhos por um instante.
Quando voltou a abri-los, olhou diretamente para Rosalie.
— Não se atreva.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Acha mesmo que vai me impedir?
— Rose...
Ela o ignorou completamente.
— Jacob Black é um dos cachorros.
Olhei para ela sem entender.
— Cachorros?
— Os lobos da reserva.
Assenti.
— Ah.
Rosalie sorriu ainda mais.
— E também é o rival particular do Edward. Os dois vivem implicando um com o outro desde que se conheceram.
Meu olhar foi automaticamente para meu irmão.
Edward permanecia exatamente onde estava, com aquela expressão de quem já esperava que a conversa tomasse aquele rumo.
Pensei em fazer mais uma pergunta.
Na verdade, pensei em várias.
Queria entender por que um vampiro e um metamorfo conseguiam conversar sem tentar arrancar a cabeça um do outro. Queria saber por que Jacob parecia tão à vontade ao lado de Edward e, principalmente, por que aquele rapaz não saía da minha cabeça desde a floresta.
Mas bastou olhar para meu irmão para desistir.
Nossa discussão daquele dia já tinha ido longe demais.
Cruzei os braços e sorri de leve.
— Acho que minha cota de brigas com você já se esgotou por hoje.
Edward soltou um discreto suspiro de alívio.
— Fico feliz em ouvir isso.
— Não comemora muito. Amanhã ainda é outro dia.
Emmett começou a rir outra vez.
Ignorei.
Olhei para Esme.
— Se ninguém se importar, eu vou tomar um banho e dormir. Acho que hoje já vivi emoções suficientes para uma semana inteira.
Esme acariciou meu braço.
— Vá descansar.
Subi os primeiros degraus ainda pensando em tudo o que havia acontecido desde a manhã. Eu tinha saído de casa acreditando que o maior problema seria convencer Edward a recuperar um pouco do bom senso e, antes mesmo do fim do dia, descobri que uma vampira sedenta por vingança estava de volta, que a floresta era protegida por uma matilha de lobos gigantes e que, aparentemente, meu irmão mantinha uma amizade bastante peculiar com um deles. Minha cabeça parecia incapaz de organizar tantas informações ao mesmo tempo.
Estava quase alcançando o corredor do segundo andar quando ouvi a voz de Edward.
— Renesmee.
Parei no meio da escada, mas não me virei imediatamente.
Sabia pelo tom de voz que aquilo não tinha nada a ver com Victoria.
Depois de alguns segundos, olhei por cima do ombro.
Edward permanecia no pé da escada, as mãos nos bolsos, exatamente do jeito que fazia quando não sabia muito bem como começar uma conversa.
— Preciso me desculpar pelo que falei mais cedo.
Fiquei em silêncio por um instante, apenas observando meu irmão. Edward raramente pedia desculpas. Quando fazia isso, era porque realmente acreditava ter errado.
Cruzei os braços.
— O papai ameaçou cortar sua mesada?
Por um segundo ele apenas me encarou.
Depois sorriu.
Um sorriso discreto, mas sincero.
— Mais ou menos isso.
Não consegui evitar a risada.
A tensão que existia entre nós desde a discussão começou a desaparecer na mesma hora. Era impossível permanecer brava com Edward por muito tempo. Eu tentava, mas nunca conseguia.
Balancei a cabeça.
— Está bem.
Ele esperou.
Sorri.
— Eu te perdoo.
Edward respirou aliviado, como se não soubesse que aquela seria minha resposta desde o momento em que me chamou.
— Obrigado.
Olhei para ele com um sorriso divertido.
— Mas não faz disso um hábito.
— De me desculpar?
— De perder o juízo.
Ele soltou uma pequena risada.
— Vou tentar.
— Você vai tentar... ou a Bella vai deixar?
Edward passou a mão pelo rosto, derrotado.
— Achei que você tinha encerrado nossa discussão por hoje.
— E encerrei.
Continuei subindo a escada.
— Isso foi só uma provocação de despedida.
Ouvi sua risada me acompanhar até o corredor.
Era bom saber que, apesar de todas as diferenças entre nós, algumas coisas nunca mudavam. Edward continuava sendo meu irmão, e eu continuava incapaz de deixar passar uma oportunidade de implicar com ele.
Entrei no meu quarto e fechei a porta atrás de mim. Tudo permanecia exatamente como eu havia deixado meses antes. Esme mantinha aquele cômodo impecável, como se esperasse meu retorno a qualquer momento. Minha estante continuava cheia dos mesmos livros, algumas fotografias ainda ocupavam a cômoda perto da janela e o velho violão permanecia encostado no canto, onde eu o havia deixado na última visita.
Aproximei-me da janela e afastei levemente a cortina.
A floresta estava silenciosa outra vez.
Quem olhasse dali jamais imaginaria que, poucas horas antes, eu estivera diante de uma vampira desconhecida e de uma matilha de lobos gigantes.
Sorri comigo mesma.
Paris realmente parecia muito mais tranquila.
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