Equilibrium
48 Epílogo
Honestamente, eu esperava pelo menos uma explosão, um cataclisma, o céu escurecendo de repente ou uma chuva de raios. Mas quando sai do túnel, bem… tudo estava normal. Nem parecia que Nix e Erebo estavam se matando por causa daquela Balança, uma coisinha tão pouco resistente.
— Isso vai dar merda – Alec disse – Tenho certeza.
Ah, eu também tinha certeza. Porém, a cada segundo que passava e nada relevante acontecia, meu pessimismo estava esvaindo. Normalmente, as tragédias que me acometem são imediatas. Se aquilo fosse dar merda, eu viraria carvão na hora.
— Vamos ignorar isso – propus.
Alec parecia exasperado.
— Você acabou de quebrar um item cósmico. Nem os deuses sabem as consequências disso.
Acreditem, Alec tinha tentado remendar os pedaços do treco com arame e cola superbonder – Sim, ele carrega essas coisas na mochila por alguma razão. Nem isso funcionou. Fiquei horrorizada, nunca vi superbonder não funcionar.
— Vamos deixar eles descobrirem, então.
As consequências pareciam claras para mim. Nix e Erebo iriam parar aquela guerrilha idiota deles porque não teria Balança para manipular. Iriam parar de produzir filhos para servirem de fantoche nos interesses deles. Ah, eu tinha certeza, se a Balança continuasse intacta, eles dariam um jeito de roubar as adagas um do outro e começar tudo de novo. Basicamente, a destruição daquilo parecia o destino me dando uma chance de ter paz.
— Eu acho que vou tentar com SilverTape – Alec disse, por fim.
Ah, é claro que ele teria Silver Tape na mochila. Fiquei absurdamente feliz em saber que Vanessa estava dopada com uns 4 comprimidos de clonazepam. Ela iria pirar quando acordasse.
Enquanto Alec tentar consertar a Balança, fiquei sentada nos rochedos, olhando o mar abaixo de mim. Naquele horário, o cenário estava ainda mais bonito: O céu estava transitando do alaranjado para o azul escuro, entretanto, as nuvens cinzas e o vento forte indicavam que logo iria começar a chover na minha cabeça. Sendo honesta, eu duvidava que ele conseguisse arrumar aquilo, algumas coisas simplesmente não tem conserto.
— Você sabe o que fez? – Minha querida mamãe se materializou do meu lado.
Existe algo engraçado em ter pais divinos: quando você está correndo risco de morte, abuso ou ferimentos graves, eles nunca aparecem, mas experimente fazer algo que os desagrada.
— O mundo vai acabar? – perguntei, ligeiramente interessada.
— Hoje não, talvez mais tarde.
Então seria problema para mais tarde.
— O que custava não ser precipitada? Trazer uma lanterna.
Na verdade, isso tudo é culpa desses filmes de ação em que os lugares tem lamparinas que acendem quando os personagens entram na sala. E meu celular estava sem carga, também.
— Eu acho que colocar jovens para salvar o mundo é uma ideia estúpida. Não somos conhecidos por trazer as coisas – falei.
E eu estava certíssima, depois de me ver esquecendo o guarda-chuva em casa por mais de uma década, a criatura nem deveria se surpreender.
— Pensei que a criei para ser menos passional. Pelo visto, errei.
Segurei o riso.
— Aliás, devo te chamar de mamãe, papai ou Erebo?
A boca dele se contraiu de raiva por um único momento bem breve, tão rápido que as vezes me pego pensando se não imaginei. Ele estreitou os olhos, pronto pra jogar alguma desculpa, mas depois desistiu e suspirou.
— Há quanto tempo sabe? – Então, os olhos cinza-prateado começaram a avermelharem lentamente. O cabelo escureceu e cicatrizes finas percorrem o rosto e braços da forma que vai ligeiramente ficando mais masculina.
Em poucos instantes, estava vendo a forma real – ou o mais próximo disso que um mortal consegue ver – do ser que me criou a vida inteira.
— Faz um tempo que suspeito – Minto. É sempre mais conveniente fazer as pessoas pensarem que sou mais esperta que já sou.
— Você sempre foi esperta – Erebo sorri, os dentes afiados como os meus. Até mesmo o levantar irônico da sobrancelha.
Quando vi que o domo estava vazio, suspeitei que algo estava errado. Não havia nenhum outro sinal de ruptura na estrutura por fricção de adaga, ou seja, quem conseguiu tirar a adaga de lá, deveria ser um descendente muito forte. O mais estranho de tudo era a ausência de alarde, tirar aquele colar seria motivo de fama.
Exceto se a pessoa já tivesse fama e recorrer ao colar fosse motivo de vergonha. Mas até então, não parecia ser problema meu.
Então, vi as gravuras. Era muita coincidência que houvesse uma cobra derrubada com um crânio coroado acima e uma mulher-caveira tivesse estado junto com uma cobra gigante na minha alucinação bizarra. Além disso, havia uma figura lupina com olhos vermelhos e um homem com olhos vermelhos na alucinações.
Meus olhos são castanho-avermelhados.
Lentamente, as coisas começaram a fazer sentido. A expressão sarcástica de Hermes quando falou que eu era a filha de Nix mais esperta. O ódio da suposta Trivia – Ela me odiava demais para ser um caso de "oh, ela foi criada para te odiar", só tinha duas alternativas: a mulher lembrava da vida passada ou eu tinha feito algo muito grave contra ela nessa vida mesmo. O que seria pior que alguém roubar sua identidade?
E vendo ela, realmente, as minhas suspeitas cresceram mais. Olhos e mechas prateadas parecem condizentes com uma filha da deusa da Noite.
Uma vez, tinha perguntado de brincadeira para Idia o que aconteceria se alguém que o amor da vida é si mesma pegasse o colar. Talvez a punição fosse a perda da própria identidade. Se Diana e Trivia eram equilibradas em poder, o colar poderia ter pendido a balança para o lado de uma.
E cá entre nós, os deuses são coisinhas manipuladoras. Qual seria a melhor forma de garantir que sua filha vilã teria o apoio de legiões do que fingir que ela era a heroína? E a coisa fica ainda mais engraçada quando a heroína não pudesse reivindicar a própria identidade.
Lançei um olhar de desdém para as cicatrizes brancas.
— Quem te acertou estava com bastante determinação.
Pelo olhar de Erebo, vi que ele adoraria me jogar desfiladeiro abaixo.
— Torça para que aquilo nunca venha te acertar.
Não me senti nem um pouco assustada. Depois de tudo o que ocorreu aquele dia, me sentia anestesiada. Nem conseguia reunir raiva suficiente dele por ter me enganado. Se eu estivesse bem, estaria cogitando arremessar ele penhasco abaixo para testar a resistência de deuses. Pensei em perguntar se eu – Trivia – era tão ruim assim, uma déspota e assassina, mas desisto. Pareceria fraqueza.
— E o que você vai fazer agora que sabe?
Olhei para o horizonte.
— O que for preciso para sobreviver.
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