Equilibrium
44 Capítulo 44 - As ruínas
Acho que aquela foi a única vez que a minha mente e a de Vanessa agiu em harmônia perfeita. O único pensamento era: "Fodeu, vamos cair fora daqui".
Por dois segundos absurdamente constrangedores, a ruiva não conseguia acertar a chave da porta. Pensei que a gente iria morrer lá, trancadas e sangrando por todos os orifícios. Mas aí ela conseguiu abrir a porta.
Não senti nem medo de correr e ser zoada, porque ela estava correndo também e consideravelmente mais rápido do que eu. A gente parou na frente do elevador, que por acaso, estava quebrado. Ou estava magicamente alterado, não sei. De qualquer forma, talvez a criatura ruiva tivesse razão e a gente devia ter escolhido um apartamento luxuoso, lá, pelo menos o condomínio iria garantir que o elevador estivesse funcionando.
Enquanto a gente descia as escadas igual duas condenadas, minha mente voltou a funcionar.
— Liga pro Sam agora!
A gente tinha um cara que se teletransportava pra quê? Não era pra ficar de enfeite.
— Agora você não quer matar ele, não é?
— Você quer discutir isso, agora?
Afinal, o melhor momento para discutir ética e moral é quando você está fugindo do deus da morte, que acabou de matar o namorado com uma morte horrível. Se ele tinha feito aquilo com o cara que gostava, o que nos esperava?
— Não sei o número do Sam de cor — Vanessa confidenciou.
— Liga pro seu irmão.
— Eu também não sei.
Puta merda, a gente tava fodida. E a escada parecia que não acabava. A gente devia ter pegado um apartamento no térreo também. Como vocês podem ver, na vida real, tudo o que pode dar errado, vai dar errado.
Saquei meu celular e liguei pelo Sam pelo Instagram, coisa que eu sabia que existia só graças aos árabes taradões da internet. Por um milagre divino, ele atendeu.
— Christine? Você tá viva?
— Por enquanto, não sei se vai durar muito tempo.
Vanessa, no seu auge da má educação, arrancou o celular de mim.
— Preciso que você nos teletransporte de um lugar agora — e ela falou o endereço do canto.
— Eu sou um marem, não um GPS. preciso ter visto o lugar, nem que seja por foto.
Aí a gente tirou a foto mais rápida do mundo. A primeira saiu embaçada pra cacete.
Enfim, nunca fiquei tão feliz de ver uma pessoa quanto quando Sam apareceu. Acho que até abracei ele. Idia estava apoiada no ombro dele e me encarava com uma expressão de censura bem notável. Acho que ela estava irritada comigo.
— Vocês querem voltar para o hotel ou a coisa está tão complicada que precisam ir para pelo menos uma cidade de distância?
— O deus da morte tá atrás da gente — Vanessa falou.
— Rapaz, melhor ir para a outra cidade.
Em instantes, estávamos em uma cafeteria. Meu estômago queria ser posto para fora, não dava nem para saber se era por causa do teletransporte, da fuga ou de ter visto um cara sangrar igual um porco no abate na minha frente. Ah, como eu tinha saudades da época que meus problemas eram só umas provas bem complicadas.
— Então, o que as madames andaram fazendo depois de sumirem? — Sam perguntou.
— Merda, aparentemente — Idia disse.
Errada ela não estava. Decidi que não estava afim de contar tudo agora para um cara que podia ser Trivia disfarçada se divertindo com a minha cara. Vanessa, concordou comigo, milagrosamente.
— Um dia, te conto.
Então, ficamos lá, bebendo capuccino e olhando para o nada igual quatro idiotas. Tentei fazer carinho na orelha da gata, mas ela se afastou de mim, ainda p da vida pelo meu sumiço. Considerando que ela era uma gata, aquilo era o plot twist do milênio.
Vanessa, é claro, um ser incapaz de aceitar fazer as coisas pelo método mais fácil, começou a ter ideias.
— Então, Sam, me fala detalhe por detalhe sobre o que deu errado com o colar.
Vale ressaltar que na primeira vez que ele contou, ela estava mais ocupada com o Instagram. Mas tanto faz, se tinha algo que Sam amava falar, era sobre a frustração dele com o maldito colar.
Tenho que admitir, o colar me interessava, porque obviamente um colar que concede um desejo interessa todo mundo. Praticamente um gênio da lâmpada econômico. Só tinha uns detalhes desagradáveis, como por exemplo, que ele exigia a coisa mais importante da vida da pessoa em troca. Além disso, quando pesquisei colar de Harmônia na Wikipedia, apareceu bastante histórias de gente se ferrando, guerras e caos por causa do bendito colar.
Para vocês terem ideia, na mitologia dos descendentes de deuses, o colar gerou tanta encrencas que a própria Harmônia tacou ele dentro de um domo.
Mas não dava pra negar que dava pra resolver 98% dos nossos problemas com um colar e um pedido certeiro. Ah, isso não dava.
— Eu tinha a expectativa que iria conseguir pegar o colar. O domo de prata torna qualquer poder ou ataque contra quem lançou, mas como meus poderes não são agressivos, pensei que daria.
Ergui uma sobrancelha.
— Se desse certo, você ofereceria o colar para minha mãe arrumar a balança ou iria pedir imortalidade?
Pela cara dele, eu sabia qual era a resposta.
— Então…
— Bom, pelo menos você é esperto, eu faria o mesmo.
Brindamos os capuccinos com "nada de escravos de deuses". Vanessa tentou parecer desaprovadora.
— Você não precisa estimular Christine a ser irreverente — a ruiva disse — Ela consegue sozinha muito bem. Bom, mas se você nunca viu o interior do domo, como poderia ir pra lá?
— Eu consigo ir em um lugar que tenha um objeto que eu já tenha visto antes. Nunca vi o colar, mas fui para Chipre e Delfos com Sam e Mare, onde tinha gravuras dele. Testei antes, com a minha mochila e um desenho dela que Damien tinha feito, e como funcionou, realmente pensei que daria.
— Será que as gravuras estavam velhas demais para ter efeito? — sugeri.
— Não, elas estavam bem inteiras. Deve ter sido algum mecanismo mágico do domo mesmo. E foi assim que fui parar no Haiti.
A gata se estendeu na mesa de um jeito bem preguiçoso. Até me perguntei porque ninguém da loja tava criando caso com uma felina em lugar de alimentação.
— Bom, pelo menos você não ficou preso em algum lugar do espaço-tempo — foi a tentativa de consolo da felina.
— Deu muito trabalho pra chegar lá. Aquele lugar é um tanto amaldiçoado, passei por muita coisa e ossos dos outros que tentaram para chegar lá. Deu em nada.
De certa forma, eu entendia ele. Aquilo era a chance dele aumentar a expectativa de vida e cravar o nome na história como o primeiro que conseguiu pegar o colar. E deu em nada.
— O que você passou para entrar lá?
É claro, não bastando o domo, teria que ter uns extras naquele habitat.
— Não importa, cada um tem uma experiência diferente — e ele ficou encarando o café de uma maneira bem mais pensativa.
De qualquer forma, não gostei muito das palavras "ossos daqueles que tentaram chegar lá". Pareceu bastante literal. E também tinha a questão de perder o que mais amava na vida. Ah, gente, eu não tinha perdido o suficiente?
"Vamos voltar para o hotel, vamos tentar fazer uma última investigação" falei telepaticamente para Vanessa.
A última investigação envolvia um interrogatório com Idia com as garras no pescoço da vítima e ela utilizando os poderes para garantir que a criatura falaria a verdade.
"Não sei se isso funcionaria com Trivia".
"Vamos esgotar nossas opções antes de nos precipitarmos".
No caso, precipitar podia significar tanto matar geral quando tentar se matar atrás de um item mágico.
"Se um vrykolaka meia boca que ela mandou para te matar conseguiu ser resistente a interrogatório, quem dirá ela própria"
"Talvez ele fosse um idiota brincando"
"Ela não vai ser idiota o suficiente para brincar de atriz sem nenhuma barreira mental, de qualquer maneira.".
Honestamente? Vanessa estava com medo do interrogatório dar certo, começar uma luta e todo mundo morrer. Todo mundo, menos Trivia, o que seria um desfecho péssimo. E talvez fosse um desfecho bem realista, porque a realidade é uma filha da puta.
"Você banca a corajosa, mas é uma frouxa", provoque.
"Não sou imprudente"
O mais cômico de tudo é que quando era eu buscando soluções alternativas, eu era um fracasso de Diana. Mas quando era ela, ah, a coitadinha só era prudente.
"Não importa, vamos atrás desse colar".
De certa maneira, eu tinha inveja de Vanessa. Algumas ligações para a tia e para os amigos da tia e ela tinha conseguido uma pobre alma disposta a nos levar para a Síria em um jatinho feito com tecnologia de descendentes de Hefesto. Com algumas ligações, eu não conseguiria nem uma carona pra me buscar de graça na escola.
A propósito, a gente iria ir para a Síria, porque é claro que o bendito colar não poderia ficar em um lugar litorâneo, turístico, pacífico e agradável. Tinha que ficar em lugar geopoliticamente arriscado. E eu nem sabia se dava para sair de um continente para outro em um jatinho comum.
— Tem certeza que é seguro ir pra lá? — Era só uma pergunta de respaldo de consciência, porque eu já estava sentada no bendito banco do jatinho.
Tudo o que eu precisava era de explosões na minha vida.
Vanessa estreitou os olhos.
— Você não confia em mim?
— Não.
— Acredite em mim que os problemas não vão ser os mortais.
Não era consolador. Aliás, todo o plano era desesperador.
— O problema vai ser se removermos a adaga e sua ideia não funcionar — Idia relembrou.
Lancei meu olhar fulminante para a ruiva. Tinha sido um trabalho do cão esconder essa adaga literalmente na minha própria carne.
— Aí a gente vai esconder no seu rabo — sugeri.
A ruiva revirou os olhos.
— Vai funcionar.
Idia virou a barriga pra cima igual uma gatinha fofinha no meu colo. Resisti a vontade de agradar, aquilo parecia armadilha pra cravar as unhas na minha mão.
— Qual das duas vai fazer o desejo? — A gata perguntou.
— A ideia não foi minha — Me defendi.
— Eu tenho muito a perder — Vanessa disse — ainda tenho familiar viva.
Senti como se fosse um corte lacinante. O que eu tinha a perder? Layla estava morta. Minha mãe? Eu já tinha perdido a minha mãe, pelo menos, a mãe que eu pensava ter.
Comecei a piscar com maior frequência, para evitar ter uma crise de choro em um jatinho particular. A única coisa que amo e que daria para perder seria eu mesma. Por dois segundos, fiquei curiosa como o colar faria isso: Eu iria simplesmente cair morta no chão? Minha aparência iria mudar? As pessoas esqueceriam de mim? Eu não poderia revindicar minha identidade? Meu CPF seria literalmente cancelado?
— Eu pego, está bem? — Idia disse.
E isso foi um alívio. Agradeci e comecei a encarar a janela de novo.
A entrada para o ponto de Nilfheim onde o colar estava ficava em Palmira, uma cidade que tinha sido ponto importante da rota da Seda e agora era um monte de destroços deixados pelo Estado Islâmico.
Honestamente, não parecia muito auspicioso.
— A gente vai morrer — Constatei, quando encarei o lugar.
— Disso eu tenho é certeza — Idia disse.
Aquilo supostamente era para ser o templo de Baal-Shamin, uma obra arquitetônica romana para Enil, uma versão de Zeus da Mesopotâmia. Não se parecia com um templo mais, o único indício eram as colunas despedaçadas no chão, o que não era a maior fonte de certeza, porque os romanos amavam usar colunas em tudo. Vanessa e Idia alegavam sentir um "puxão" que apontava na direção certa para o portal.
Para mim, restava esperar que elas estivessem certas e a gente não estivesse prestes a abrir um portal em uma ruína dos banheiros públicos romanos.
— Pronto — Vanessa parou em frente de uma metade de coluna que soava igual a todas as outras.
E aí ela sacou uma adaga da blusa. Como eu lia a mente daquela coisa, sabia o que ela iria fazer.
— Pô, precisa disso mesmo?
— Larga mão de ser frouxa.
Depois de tudo o que fiz, ainda era chamada de frouxa. De qualquer forma, devo dizer que levar um corte na palma da mão dói mais do que esses filmes de Hollywood dão a entender. Pense na dor de corte fino de papel e multiplique por 20.
O sangue da mão da ruiva começou a pingar na parte quebrada da coluna. Por dois segundos, ocorreu nada e eu estava prestes a abrir a boca para zoar. Então, senti meu ouvido zumbir. Dei um passo para frente e de repente, não estava mais no mesmo lugar.
Desconfio que eu tinha problemas com experiências de alteração dimensional. Na primeira vez que mudei de uma dimensão minha mãe literalmente me jogou de um penhasco. Na segunda vez, quase enfiei a cara em uma árvore, o que era contrastante por que Palmira tinha clima desértico e o ponto correspondente Nilfheim era uma floresta tropical.
Depois de quase precisar de uma cirurgia de reparação para nariz, outra coisa que notei foi um barulho estrondoso. É bem típico de mim, né, conseguir ir para uma outra dimensão bem na hora que tivesse ocorrendo um terremoto.
— Não é um terremoto. É uma marcha.
Tudo o que eu via era árvore e mais árvore, mas Vanessa, provavelmente por causa da audição sobrehumana dela, conseguiu de alguma maneira encontrar o caminho. Então reparei que estávamos uma espécie de colina, bem no topo, em uma região onde tinha várias outras montanhas.
E a ruiva não tava errada tinha realmente no exército abaixo, serpenteando entre os mares de morros.
Para mim na minha pobre visão de mortal eles pareciam soldadinhos de Lego agrupados e algumas coisas disformes difíceis de identificar. Porém, conseguia perceber o quê Vanessa via se vasculhasse a mente dela. Instintivamente, voltei para trás das árvores quando vi uma espécie de ave que já conhecia sobrevoando por cima dos soldados.
Garras curvas igual adagas, olhos dourados, penas escuras. Senti a sombra de uma dor na garganta, onde uma praga daquelas tinha cravada as garras.
Um exército de Trivia, então.
"Quantos?"
"Bastante" Vanessa respondeu telepaticamente, porque nenhuma de nós era trouxa para fazer algum barulho "Eles estão indo para leste, acho que vão ir na direção da Balança".
"Sem as adagas?"
"Vão ficar de barreira para o caso de conseguirmos elas".
E eu não podia ignorar que aquilo era uma demonstração de poder para os outros descendentes de deuses. Nilfheim era mais perigoso que o mundo mortal, levar um exército por lá mandava a mensagem que ela estava se lixando para qualquer perigo.
"Volte a observar, veja se tem algo interessante lá embaixo", sugeri.
Pela visão dela, dava para ter uma visão melhor do meio do exército. Poucos descendentes de deuses usando armaduras prateadas e uma quantidade maior de bestas. Leões albinos e do tamanho de um guarda-roupa. Serpentes escuras com algumas escamas douradas que tinham um tamanho descomunal do tipo que engoliriam um humano facilmente com uma bocada. Lobos de diversas cores, tamanho aumentado e dentes metálicos. Algumas coisas que pareciam ser feitas de sombras e não dava para enxergar nem com a visão avançada de uma vrykolaka.
E mais a frente, tinha uma linha de descendentes de deuses (pelo menos eu supunha que fossem, pela forma humana) liderando o exército. Estavam de costas naquele ângulo, então não dava para ver bem. Na frente deles, tinha uma forma feminina montada em um cavalo preto, usando armadura de de metal escuro com uma lua crescente traçada em prata. Essa mesma mulher tinha cabelo preto e liso e usava uma coroa prateada pequena.
Olhei para Vanessa. Trivia não deixaria outra pessoa liderar o exército dela com uma coroa.
Uma suspeita começou a crescer. Sam não tinha dito que alguém sumiu do hotel e mobilizar um exército daquele certamente levaria mais de um dia. Cabelos pretos. Então, lembrei da sensação de arrastar um corpo gelado para fora da água. Lembrei como tinha ficado paralisada e atordoada achando que minha melhor amiga estava morta.
Então, a mulher se virou. Ela ainda mantinha o rosto da minha melhor amiga como zombaria a mim.
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