Equilibrium
39 Capítulo 39 - Chaos
Layla ficou insana com aquilo. Hermes conseguiu deixar ela mais desesperada do que a ameaça de Trivia à espreita — E admito, me desesperava muito mais, a sensação era bem pior. Então, em uma tentativa de manter Hermes longe, Layla inventou que viu algo correndo pelos corredores e indo na direção do meu quarto, o que serviu para aumentar a segurança.
Então, lá estávamos nós:
Alec, com os olhos parecendo faróis no escuro, sentado em uma poltrona do lado da porta. Não me sentia muito segura da capacidade dele de destruir Hermes, ele poderia incinerar almas, mas deuses tinham almas? E eu já tinha visto o infeliz ficando invisível, logo, ele podia ficar invisível e degolar Alec antes.
Layla estava deitada do meu lado. Ela estava tentando fingir que estava dormindo, mas o ritmo da respiração dela não estava estável igual de gente dormindo. Talvez ela pensasse que parecer relaxada me faria relaxar.
Mare estava no outro lado da porta, também em uma poltrona. As unhas dela estavam alongadas igual garras prateadas, suponho que para cortar a garganta de qualquer coisa que atravessasse a porta. Adoraria ver ela arrancando o saco de Hermes com aquelas garras.
Apesar de me sentir gelada, eu estava queimando em fúria. Uma das minhas motivações para aprender artes marciais foi a certeza que daria para esmagar a cara de qualquer desgraçado que tentasse me assediar. Nunca imaginei que isso ocorreria comigo, tinha a impressão que "bad girls" eram imunes a isso.
O pior de tudo, era que me sentia culpada pela minha situação. Meu cérebro traidor ficava revendo todas as interações que tive com o desgraçado e se perguntava se dei algum indício de interesse. O mundo te diz para ser esperta, desde que você é pequena. Não fale com estranhos, não saia nesse horário, cuidado com homens.
Quando ocorre alguma coisa, você simplesmente sente que não foi esperta o suficiente.
— Onde você vai? — Layla estreitou os olhos.
— No banheiro, não posso nem mijar em paz?
Layla olhou para Idia de relance.
— Vai junto.
— Tá de sacanagem?
— Gatos são famosos por serem acompanhantes de banheiro.
Idia estava com aquele olhar que poderia fuzilar alguém, mas me seguiu.
Chegando no banheiro, tranquei a porta e saquei a pasta de dente. "Concordo com o plano dela", escrevi no espelho, o que se era o mais sábio a fazer, considerando a audição aguçada de alguns.
Idia assentiu.
Tudo nessa vida é uma questão de escolha entre o ruim e o pior. Dificilmente vai aparecer uma solução mágica e ideal na sua frente. Para mim, colocar a cabeça em uma guilhotina que tinha 50% de chance de falha era melhor do que esperar um carrasco decidir me decapitar.
Era impossível passar o resto da minha vida sendo vigiada 24h por dia. Uma hora, Hermes iria decidir que minha escolta era inofensiva.
E não dava para contar para minha mãe. Eu conhecia ela, a cabeça daIquele ser iria ir parar no Alasca — o que era ótimo —, mas ela estaria mais frágil para um ataque de Érebo.
O pior de tudo sobre decidir aquilo foi a desconfiança. Eu tinha medo da minha própria mãe ter mandado Hermes para cima de mim como método de convencimento. Era conveniente para ela, e cá entre nós, eu já tinha sacado que os deuses não eram tão divinos quanto gostavam de aparecer.
Encarei meu reflexo enquanto apagava a pasta de dente do espelho. Se ela tivesse orquestrado aquilo, eu a faria pagar.
Para ser sincera, nem sabia como, mas daria um jeito.
De manhã, era o turno de Vanessa e Sam. A neurose dos dois estava tão absurda que não me deixaram nem ir tomar café no saguão do hotel. Segundo Sam, para Layla ter ficado tão preocupada e ter se recusado a dar detalhes, a merda deveria ter voado no ventilador. Errado ele não estava. Vanessa, por sua vez, achava que a minha cabeça era dela para arrancar. A concorrência com outros seres devia a deixar severamente desapontada.
Então, lá estva eu: deitada, jogando Candy Crush e extremamente entediada. Não estava me sentindo no clima para estudar ou ler, nada parecia bom na Netflix. Se fossem minhas últimas horas, seriam uma merda. O que a rainha (fake) Diana fez nas últimas horas? Chegou na fase 1700 do Candy Crush.
Sam e Vanessa estavam conversando sobre um treco chamado colar de Hemera, que estava em uma cúpula prateada. Aparentemente, Sam tinha ido parar no Haiti quando tentou passar a cúpula. Eu queria prestar a atenção na fofoca, mas entendia um total de nadinha.
De repente, silêncio. Ergui os olhos do celular e vi que os dois estavam… bem, apagados.
— Idia! — Comecei a ficar alarmada.
— Quieta, não acorde eles — Idia sussurrou — pegue a adaga.
A adaga estava dentro do meu colchão, o que me deu um trabalho significativo porque a criatura da Vanessa estava deitada na cama. Enfim, a criatura pesava pra cacete, apesar de não parecer. Qualquer que fosse a magia que estava deixando eles apagados, era das boas, porque Vanessa não acordou quando ela deixei ela se estatelar acidentalmente no chão.
— Agora, é só esperar Hipnos.
Estava sentada na cama, refletindo sobre como deuses eram atrasados e sobre a probabilidade da lâmina cair na minha cabeça, quando um pássaro dourado apareceu na janela.
Ah, não, pássaros, não, pensei antes de capotar.
A primeira coisa que notei quando acordei foi o vazio. Nenhum som, nenhuma cor, só escuridão. Não conseguia sentir minhas pernas e nem minhas mãos, era como se tivesse algo me prendendo. Me prendendo ao que? Eu nem mesmo sentia uma sensação gelada de chão sob as minhas costas.
Tentei gritar, mas não ouvi nada. Ou talvez não consegui mover a boca.
Entrei em pânico. Será que tudo tinha dado errado? Eu estava morta?
Não fazia o menor sentido. Devia ter algum céu ou algum inferno. Lembrei de um professor falando sobre o pós-morte fenício, em que havia um caminho para o paraíso ladeado por lava. A qualidade do "caminho" era proporcional á integridade da pessoa e ficava cada vez mais reforçado após a pessoa cair na lava e voltar, por exemplo, uma cordinha se tornava duas, que viravam quatro, até ter uma ponte meia boca.
Sempre achei o pós-morte fenício o mais refinado. Nada de agonia eterna, mas bastante sádico. Com chance de redenção, mas com punição.
Por isso, eu treinava equilíbrio. Qualquer cordinha meia boca servia.
Mas não tinha nenhuma cordinha. Poxa, eu não tinha sido tão ruim assim. Merecia pelo menos uma corda de nylon.
Mas, com a ausência de lava, comecei a me resignar que os fenícios estavam errados. Talvez eu não tivesse sido boa suficiente para ir para um lugar bom e nem má o bastante para ir para um inferno.
E então, eu ficaria presa entre um vazio pela toda eternidade, onde nem meus gritos poderiam ser ouvidos.
Pensando bem, aquilo me parecia bastante com o conceito de inferno.
"Está assustada, pequena demoniozinha?"
Voz estranha e sinistra provavelmente arrecadava mais uns pontinhos na teoria de que eu estava em um pós-morte punitivo.
Pensei em começar a argumentar. Cá entre nós, nunca fiz coisas realmente ruins. Umas tachinhas aqui, um pó de mico lá, nada muito prejudicial à saúde. E fiz algumas coisas boas tipo…
Deu um branco na hora, sinceramente.
"Consegue imaginar como seria ficar nadando no vazio pela eternidade?"
Que sorte a do capiroto, ele estava nadando, eu estava presa mesmo.
Do nada, não estava mais presa. Mas eu não era eu — Não tem um jeito fácil de dizer isso, a sensação era diferente. Me sentia absurdamente mais forte, mais alta e mais viva do que nunca. Era como se estivesse com sono a vida inteira e finalmente me sentisse desperta.
Também não estava presa no vazio. Ao meu redor, tinha palmeiras baixas e areia alaranjada. O sol estava muito forte e brilhante, mas não me incomodava. Na minha frente, tinha um pequeno lago verde-azulado.
A água estava tão calma que dava para ver o reflexo do sol, das palmeiras e de mim no lago.
Meu rosto não era o meu. Pele morena mais escura do que a minha era (exceto no verão), olhos totalmente pretos e cabelo escuro e liso.
A coisa que era eu não ficou satisfeita com aquele reflexo. Mudou a aparência diversas vezes: rostos femininos, masculinos, com presas, garras nas mãos, partes de animais. A sensação de mudança era agradável, como um formigamento.
Em um momento, ela parou no rosto de uma mulher morena com os olhos afiados e sobrancelhas arqueadas. O ser metamorfo sentiu uma espécie de reconhecimento estranho e parou.
Do outro lado do lago, uma cobra marrom brilhante se aproximou. Parecia bastante ameaçadora. Propicia para dar medo.
Então, eu era uma naja gigante. Escamas brancas, porque achei bonito o brilho no sol. Presas enormes e olhos dourados.
Parecia bom.
Acho que todos tem um momento na vida que se sentem extremamente vivo. Quando tive esse momento, nem era eu mesma e estava no corpo de um monstro. E nem foi muito ético, já que a cobra estava dilacerando pobres mortais.
Mas a sensação era boa, onde quer que meu corpo forte deslizava, o chão ruia. Tremores percorriam o solo e relâmpagos cortavam o céu. Parecia que tinha energia no ar, a sensação de provocar uma tempestade no deserto me deixava estranhamente satisfeita. Minhas presas estavam cobertas de sangue de seres que não passavam de destroços no chão. Sabe a sensação agradável enquanto faz exercícios? Multiplique por dez.
Eles tentavam jogar flechas, lanças e outras infinidades de coisas afiadas. O efeito era nulo, as escamas eram mais duras e as armas ricocheteavam para trás. Senti uma pontada de divertimento quando uma lança atingiu um mortal.
Silvei e o ar crepitou. Todas as armas arremessadas viraram na direção oposta, acertando os pobres humanos.
Uma gargalhada do meu lado. Era uma mulher, pelo menos tinha o corpo de uma em uma armadura de metal escuro. O rosto era um crânio com olhos vermelhos e longos cabelos negros. Havia um aro dourado com pedras vermelhas na cabeça daquilo, provavelmente arrancada de algum rei morto.
Senti uma onda de insatisfação.
Lembranças que não eram minhas me inundaram. Três seres, os mais fortes abaixo de mim, discutindo. A mulher-caveira, sem o aro dessa vez. Um homem bonito, com cabelos castanhos e pele morena, mas olhos totalmente vermelhos e ramificações prateadas percorrendo o rosto, pescoço e mãos. Outro homem, de costas, mas com asas de morcego e cabelo negro comprido. Me parecia patético que eles escolhessem forma semelhante a de humanos. E isso ocorria com maior frequência, para o meu desgosto.
Os dois homens diziam que ser cultuado era melhor, mais viável que a destruição. A mulher, por sua vez, parecia indiferente, mas eu sabia que no fundo, ela preferia o caos. Contudo, os seus consortes poderiam a influenciar.
Silêncio quando entrei. Eram estúpidos, mas não tanto. Ser idolatrada não era ruim. Monumentos, templos, canções, "profecias" e até um faraó com meu nome. Bom, mas não o suficiente. Os outros como eu me consideravam apenas caos e poder descontrolado, mas ninguém ocuparia meu posto por tanto tempo sem pensar.
Quem fosse mais cultuado, seria mais forte. A hierarquia não seria mais definida pela força de destruição, mas por culto. Com sorte, um dia, conseguiriam me derrubar.
Então, enquanto todos se distraiam com os mortais no campo de batalha, cerrei as fronteiras, para garantir que ninguém pularia para se curar em outro plano. Cravei meus dentes na mulher coroada.
Surpresa, ela caiu no chão, agonizando. Duraria dias até morrer definitivamente e sem cura.
Senti os olhares chocados e irados dos dois restantes, vermelho e dourado queimando. Os outros, mais fracos, se afastaram. O temor deles me fortalecia, bem mais que o pânico de mortais. Cogitei se deveria matar um por dia. Não parecia bom, acabaria rápido demais.
Retribuí o olhar para eles, mas nenhum ousou revidar. Sentindo profunda satisfação, deixei o campo de batalha.
— Conversei com Pátroclo, uma vez — Ouvi Idia sussurar — Ele era uma pessoa bem melhor que Áquiles, mas a história gosta de preservar os canalhas — uma bufada exasperada.
" Ele me contou que Áquiles era diferente quando criança. Nada de glória dourada, só o filho de uma nereida, uma divinidade menor com um rei de um reino insignificamente. Ele tinha lábios muito finos, era pequeno em comparação com outros garotos e apanhava direto por isso. Peleu era rígido e achava que as Parcas tinham enlouquecido ao dizer que o garoto seria maior que o pai."
Lá estava eu, imobilizada naquela cama e Idia estava tentando contar histórias de superação. Provavelmente, você nunca teve essa experiência, então posso te fornecer uma base para imaginação: Imagine a sensação de ler aquelas fics absurdas de arco íris voando e lição de moral do LinkedIn durante um dia de merda, agora múltiplique esse sentimento mil. Pronto, você tem uma ideia de como me senti.
"Áquiles era idota, esqueci de contar isso. Ele decidiu que iria ir viver com a mãe entre as nereidas, Pátroclo, é claro, sabia que isso era má ideia. Aquiles ignorou todas as advertências e um dia, enquanto estava na água, ele começou a nadar e nadar e nadar…
Quando Pátroclo percebeu, ele estava longe demais e se debatendo na água. Por ser filho de uma divinidade marinha, suponho que ele achou que poderia respirar debaixo d'água. Uma vez, um filho de Poseidon contou para Áquiles que a sensação era como ter os pulmões pegando fogo por alguns minutos e depois, a água era como ar. Por isso, ele continuou nadando mesmo enquanto se afogava.
Pátroclo entrou em desespero. Se nadasse até Áquiles, iria morrer junto. Se ficasse lá, parado, iria viver com aquela cena. Assim, ele gritou por Tétis.
Tétis fez algo para manter o filho vivo. Me pergunto se ela se arrependeu. Anos depois, Pátroclo iria morrer e Áquiles morreria por causa disso. Se ela tivesse deixado a criança morrer, não interfirido no curso natual, alguma coisa teria mudado em Tróia? Será que tanto sofrimento teria sido evitado?
E Áquiles? Será que valeu a pena o manter vivo, apenas para ele viver em guerra durante toda a vida?
Me pergunto se cometi o mesmo erro que Tétis."
Não sei mensurar quanto tempo fiquei dormindo/alucinando, mas quando acordei, as coisas não estavam muito boas. Tinha sangue espalhado no chão, um cara loiro com a garganta cortada, um Sam desmaiado e uma Vanessa com os lábios roxos e o pulso sangrando do meu lado. A propósito, Idia continuava calmamente deitada no travesseiro.
Eu tinha muita inveja da calma felina.
Fale com o autor