Equilibrium

36 Capítulo 35 - Runas


Como sou uma narradora sincera, tenho que admitir que gosto de ver Alec se decepcionando e quebrando a cara em geral. Iria achar engraçadinho se não tivesse um monte de defunto se arrastando na nossa direção. De novo.

E gente, o cenário estava ainda mais nojento. Os defuntos estavam cada vez mais podres. O cheiro também não estava dos melhores. Sabe aquele cheiro de quando você queima o cabelo acidentalmente enquanto tenta apagar as velas no lugar do aniversariante? Era três vezes pior, no mínimo.

— Queima essas coisas aí — falei para Alec.

Ele parecia legitimamente exasperado.

— Espere eles chegarem mais perto para diminuir o gasto de energia.

Ah, é. Eu estava esquecendo que descendente de deuses eram igual baterias.

Esperava que não acabassem tão rápido quanto a do meu celular.

E mais uma vez, as chamas dispararam na direção dos mortos. Aquelas coisas horrendas viravam pó antes mesmo do fogo encostar. Dessa vez, não fiquei perdida no espetáculo, estava muito ocupada surtanto com a possibilidade de vir mais.

Em um ponto, as chamas ficaram tão intensas que eu nem consegui ver os mortos que estavam atrás. Ainda bem. Só conseguia ouvir o chiado de coisas sendo tostadas. A parte mais preocupante era que o chiadinho infernal não parava.

— Meu Deus, quantos defuntos estão enterrados perto da casa da sua mãe?

— Parece que ela está invocando todos os cadáveres de Niflheim para cá — Mare comentou.

Olhe, eu não duvidava.

— Ela não seria capaz de fazer isso, seria?

Como ninguém respondeu, comecei a achar a coisa inteira meio pessimista.

Em determinado momento, a coisa começou a piorar, os defuntos começaram a aparecer atrás da casa também e olhe que não tinha trecho de névoa por lá. Alec expandiu as chamas para aquela direção também.

— Ok, isso é demais até para Trivia. Expandir as fronteiras de Nilfheim e invocar mortos ao mesmo tempo não é normal — Damien disse — Ela deve estar usando runas.

— Não seja neurótico — Layla disse.

Layla normalmente gosta de ser otimista. Se Satã, o Leviatã e o Fenrir aparecessem anunciando Apocalipse em um holograma no céu, ela diria que as fake news estão se tornando cada vez mais tecnológicas.

O dilema é que a vida raramente é otimista. Notei que a névoa estava começando a aparecer na lateral direita e na frente também.

"Nah, não seja neurótica, Christine", pensei, "É só vapor do fogo contra a neve".

Infelizmente, meu lado sensato começou a berrar que se a neve não tinha virado água na região dos defuntos, não iria começar a virar vapor longe. Aparentemente, aquelas chamas negras não funcionavam contra água? Tudo o que eu precisava para me livrar de Alec e seus poderes era viver em uma piscina?

Aí uma maozinha surgiu detrás da névoa.

— Por tudo que é sagrado, queima esse defunto de criança logo — Falei, muito calmamente para Alec.

Defuntos de criança com sorriso bizarro deixam a atmosfera com muita cara de filme de terror.

— Vou fechar uma cúpula em torno da casa e alguém liga para o Sam tirar a gente daqui.

Fiquei bem feliz com isso. Com a cúpula de chamas negras cerradas em torno da casa, não dava para ver a cara horrenda dos cadáveres. Só dava para ouvir o tchhhhh quando eles encostavam na parede de fogo.

E o mais pasmante era que o ar ficou mais frio. Até parecia que o fogo era gelado. Senti uma leve tentação de passar a mão perto para testar, mas aí lembrei que aquela coisa dava delete nas almas. É, melhor deixar pra lá.

— Precisamos sair daqui. Alguém liga para o Sam? — Alec disse e aparentava estar um pouquinho desesperado.

Eu, por outro lado, já tinha passado dessa fase logo depois do defunto criança. Minha ideia exemplar era pedir para Idia virar um pterodáctilo e zarpar dali. Se desse tempo, ela poderia fazer rodízio para buscar os outros. Mas, pensando bem, chamar o Sam era mais rápido e menos arriscado. Quebrar o pescoço caindo de um dinossauro voador no século XXI seria uma causa mortis unusual.

Layla, que é a criatura mais rápida para achar as coisas em emergência, foi a primeira a sacar o celular e ligar.

— Tá sem sinal.

"Ah, cê tá de sacanagem com a minha cara"

Essas coisas só ocorrem em filme de terror clichê.

Cacei meu próprio celular e tentei ligar. Nada. A internet tinha ido e a Tim tinha me abandonado. Ia ter que ser método Jurassic Park mesmo.

Olhei para Idia. Será que eu chamava ela para falar em privado — O que certamente evitaria algumas "vibrações negativas" que alguns teriam se notassem que eu planejava deixar eles para trás temporariamente com um monte de cadáveres atacando — ou anunciava para geral?

Reparei na cara de Layla, era bem uma expressão de quem estava perdendo o otimismo. Ok, eu seria muito sacana de saísse sem aviso e pelo menos teria que falar com Alec para ele abaixar o "teto". Fiz a lista de ordem de saída mentalmente: Eu, Layla — obviamente, o favoritismo reinava, mas a gata-dinossauro era minha, então, escolha minha — depois Mare, e no fim eu ficava em dúvida sobre quem iria sair por último: Alec ou Damien?

Pra ser sincera, nunca fui muito com a cara do Damien. Bonitinho, sotaque legal, mas a possibilidade de apagar memórias me deixava com uma sensação desagradável. É igual ver uma aranha grande no seu quarto, pode ser que a bicha nem seja venenosa, mas você vai querer tacar uma chinelada só por via das dúvidas.

E Alec, bom, tinha aquela profecia. Se ele tivesse uma morte de figurante de The Walking Dead, minhas neuroses estariam resolvidas.

— Tenho um plano meio inconvencional — falei — A Idia pode virar um pterodáctilo ou outro bicho grande com asas e a gente saí voando daqui.

— Isso é rídiculo — Damien disse.

Ele foi promovido para o último da lista.

— Abre aí o teto — falei para Alec.

Alec não parecia muito convicto.

— Já estamos fodidos de qualquer jeito, não há nada a perder — ele deu os ombros.

Quando ele abriu o teto, cheguei a conclusão que estavamos fodidos mesmo. Sempre fui péssima descrevendo as coisas, mas acho que dava para escrever um poema de Poe baseado naquele cenário.

Em síntese, o céu estava coberto de corvos de olhos vermelhos aglomerados igual um enxame. A propósito, eles tinham presas afiadas e metálicas, reparei nisso porque eles abriram os bicos e começaram a voar na nossa direção quando as chamas se recolheram.

Alec, sabiamente, refez a barreira de fogo.

— Viva, a filha da puta quis garantir que não vamos sair voando.

Fiquei exasperada. Puta merda, a culpa era minha. Ocorre isso justamente no dia que mandei o cara que abre portais para uma pseudomissão. Era muita sacanagem com a minha cara. Voar não dava, ela iria continuar mandando mais defundo, Alec iria se cansar uma hora, aquela parede iria cair e todo mundo iria morrer igual figurante de The Walking Dead.

E pensar que eu estava me sentindo genial mais cedo por elaborar um plano pra analisar Sam enquanto enrolava o resto dos meus acompanhantes de viagem. Eu iria morrer entalada com minha própria arrogância.

Comecei a ter algumas ideias terríveis, como por exemplo, fazer Idia retalhar todo mundo naquela sala de surpresa. Pelo menos, haveria 4/7 de chance de acertar a Trivia e eu sair intacta.

Bem melhor que zero.

Estava me abaixando para sussurar as ordens para Idia. Iria dizer para deixar Layla por último e começar com Damien, mas Mare me interrompeu:

— Vamos procurar as runas, certo? Ela deve estar usando runas, como Damien disse, então deve estar em algum lugar da casa.

— Como são as runas, exatamente? Parecem nórdicas, hieróglifos egípcios ou lembram kanji? — pergunte porque vi runas mágicas exatamente zero vezes na minha vida.

Alec riu.

— O dilema é que nunca vimos runas que possam causar esse efeito.

Então, nem eles sabiam. Ótimo.

Depois disso, começamos a caçar runas pela casa, só Alec ficou lá fora, mantendo a barreira. Sabe caçada de ovos de páscoa? A única coisa que motiva as pessoas mais do que chocolate é ameaça de morte iminente. Layla, por exemplo, nunca gostou de procurar nada, sempre fazia corpo mole quando eu mandava ela procurar meus pentes que ela tinha perdido, mas naquele dia, deuses, só faltava a menina virar os móveis de cabeça para baixo.

Parece engraçado, mas depois de um tempo, literalmente virei os móveis de cabeça para baixo. Sim, seria difícil escrever runas no fundo do sofá, mas se a mulher fazia adagas sumirem no ar, nada era impossível. Pelo menos, se eu morresse, minha executora seria competente. Nada de "foi morta por um zé-ninguém aleatório" na minha lápide.

Não consolava muito porque eu iria estar morta de qualquer jeito.

Acho que os primeros vasculhados foram a parede e o piso. Arrancamos todos os quadros, depois tiramos das molduras só por via das dúvidas e nada. Só tinha umas cantadas do Gustave Courbet no lado oposto de um quadro de uma mulher com olhos azuis e cabelo preto. Aparentemente, a mãe de Alec tinha uma queda por pintores, considerando o número de retratos dela pela casa.

Ela também tinha uma queda por políticos, achei até uma carta do Nicolau II. Inegavelmente, a moça tinha bom gosto haha.

Depois, foi a vez dos móveis. Nada. Caí no desespero de vasculhar cada lençol e coberta porque não tinha regra falando que não podia estar em tecido. Nada também.

Ah, o pior era a neurose. Apesar de cada um ter sido designado para área x da casa, eu não confiava. Eles poderiam ser a Trivia e deixar as runas passarem.

Juro que conheci cada canto daquela casa. E nada das runas.

Caí no desespero de vasculhar o lado de fora. Estava até conferindo o lado externo das janelas enquanto Alec me olhava com um olhar zombeteiro.

— Isso, ria mesmo — falei — Você vai morrer junto com a gente se ninguém achar.

— Você vai ser a primeira a morrer se cair daí.

Talvez eu estivesse pendurada na janela mais alta, que também não tinha runa. Comecei até a questionar se eu teria que olhar o telhado.

Desci até o chão — não quebraria o pescoço, escalada era um dos meus talentos — e comecei a dar uma segunda olhada no lado externo da porta.

— Tentem passar um pano em cima das coisas — Alec disse — Não existe regra sobre as runas serem visíveis.

Fazia sentido. A praga poderia ter deslizado os dedinhos sobre a janela ou espelhos. Talvez alguma tintura invisível também?

— Olha, não é só bonitinho, parece que pensa também.

A hipótese dava certo conforto. Antes daquilo, eu estava prestes a analisar livro por livro daquela casa — O que certamente levaria minha vida, ou pelo menos, o restante dela.

Posso dizer que a Mansão Kroell nunca ficou tão limpa. Literalmente passamos pano em tudo, até nas paredes e teto.

Resultado: nada.

Fiquei desesperada.

— Alec — cutuquei o ombro dele. A criatura estava sentada no chão e parecia um pouco exausta — Acho que a gente vai ter que começar a queimar os livros.

Olhar folha por folha nunca daria certo. Tempo demais. Estávamos naquele caos por algumas horas, Alec iria acabar desmontando.

— Que seja.

Ele parecia bem pálido, bem mais que o normal, e as pupilas dele estavam mióticas, o que definitivamente não parecia ser bom sinal.

Então, depois disso, comecei a me sentir aqueles caras da Igreja Católica que queimavam obras ilustres. Deuses, quantos documentos históricos foram parar naquelas chamas esquisitas? Me dava até aperto no coração. Mas melhor eles do que eu.

Quase comecei a passar mal quando tostei um monte de preciosidades históricas e o efeito foi nulo.

Mas Alec estava passando mal de verdade. Notei que tinha sangue escorrendo dos olhos dele, apesar dele tentar limpar rápido — O que era bastante inútil, porque espalhava ainda mais na cara dele.

Sentei do lado dele. Era isso. Ele iria morrer — Pelo visto, descendente de deuses tinham bateria igual um celular e a de Alec estava nos 5% — a barreira iria cair e eu iria morrer.

— Nós vamos todos morrer — murmurei, com aquele desespero na alma.

— Nós vamos morrer — Alec ecoou e apoiou a cabeça no meu ombro.

— Vou morrer puta da vida porque você acabou de arruinar minha camiseta lindinha com sangue.

— Iria ser arruinada por dentes de cádaveres de qualquer maneira.

Senti um calafrio. A morte, por si só, é uma coisa aterrorizante. Ninguém tem 100% de certeza sobre o que acontece depois e pode literalmente ser o Nada ou um inferno. Mas morrer devorada por dentes podres e cercada de carne fria em putrefação? Muito pior.

— Acho que vou pular do telhado.

— Você é tão sortuda que iria só quebrar as pernas.

Gargalhei. Era exatamento o tipo de coisa que ocorreria comigo. Supondo que eu tivesse coragem para pular.

Encarei ele. Mais sangue, hematomas aparecendo na lateral do rosto. Não iria durar muito tempo. Definitivamente não era o Assassino de Rainha. As Parcas teriam errado?

Existia outra hipótese: Eu não conseguiria me matar e nem aguentar a hipótese de ser devorada viva, então pediria para ele me matar antes.

O pior seria a escolha do método. Facada no coração demora alguns instantes para morrer de vez. Garganta cortada deve doer pra cacete. Decapitação tem toda aquela história se o cérebro ainda funciona ou não por quantos instantes.

Tudo isso por uma série de más decisões e falta de competência para achar uma runa em uma maldita casa cheia de tranqueiras.

— Alec — Tive um estalo.

— O que? — ele levantou a cabeça do meu ombro.

— Queime a casa inteira.



Notas finais
Algum fantasminha pra me dizer oi?