Equilibrium
32 Capítulo 31 - E não sobrou nenhum
Na minha mente, havia uma listinha:
Layla — OKVanessa — OKSamir.Damien.Idia.Alec.Mare.
Um dos últimos cinco não verificados era Trivia. Então, que começassem os interrogatórios. Damien, Samir e Mare estavam sentados no sofá na minha frente. Vanessa estava de pé atrás deles — que era a posição ideal para cortar a garganta de uma Trivia desmascarada — e Idia deitava tranquilamente no braço do sofá. Não era tão ruim, eu meio que me sentia um tanto Hercule Poirot e o nervosismo deles era divertido.
Cruzei as pernas e olhei para a gatinha de olhos azuis. Ela seria a primeira, era a única que conhecia.
— Prove que você é a Idia.
Uma resposta em aberto era a melhor escolha da minha parte. Tive uma espécie de branco sobre coisas particulares da minha gata e também tinha certeza que mesmo lembrando, seriam coisas facilmente advinhaveis. Tipo, todo gato unha sofá, destrói uma ou outra coisinha. Meu medo era que a própria Idia não conseguisse achar nada e acabasse pagando o pato sem ter culpa.
Ela ficou pensativa por um bom tempo e depois disse:
— Você arruinou o lustre da sua mãe com uma bola de basquete — os olhos claros constratavam com a carinha escura, deixando o olhar mais julgador possível — e depois culpou os filhos dos seus vizinhos.
Pois é, era verdade. Para os curiosos, a minha prova de educação física iria valer nota e até o movimento padrão de quicar aquela bola no chão era impossível pra mim, a desgraça subia alto demais ou me fazia quase agachar para bater de novo. Enfim, subiu alto demais quando perdi a paciência e dei um tapão na bola. Como nunca fui fã de esportes chatos como basquete, minha mãe engoliu a história dos vizinhos.
E de fato era Idia. Não tinha como chutar sobre um lustre que nem existia mais. Nunca reparei que ela estava assistindo o show, mas vocês sabem como são os gatos, as coisinhas veem tudo. Provavelmente a coisinha sabia até a cor da minha calcinha.
— Aprovada.
— Sua mãe sabe disso — Idia disse — contei para ela. A Spezia não foi fechada, continuou funcionando normal, mas ela só não comprou pizza lá por três meses por castigo.
Olhei para Vanessa.
— Mudei de ideia. Corta as orelhas dessa fofoqueira fora.
A ruiva revirou os olhos. Idia, por sua vez, lambia as patas com uma satisfação que nem o Garfield conseguiria imitar após uma tonelada de lasanhas.
— Damien, Damien, Damien — Vanessa sussurou enquanto passava as mãos pelos ombros do coitado, que parecia determinado a fazer cosplay de tomate — Por que você foi condenado a lavar toda a louça do Campus?
Damien pareceu sair do topor. Até que ele era bonitinho corado, mas fofo demais para meu gosto.
— Por causa dele — apontou para Sam, que deu uma risadinha.
Vanessa pareceu bastante satisfeita com a resposta. Ok, então garoto-tomate e gata psicótica limpos.
— E o que você fez para o pobre Damien?
— Eu não ganho massagem?
— Vai ganhar uma massagem no meio da tua cara se começar com graça.
Ela foi bastante convincente. Samir começou a falar rapidinho, dava até para suspeitar que a vrykolaka tinha histórico de violência — Spoiler: ela tinha.
— Fiz um poeminha no lugar de uma questão da prova do seu tio. Quando Raphael leu em voz alta, Damien riu. Nego ter qualquer participação nisso, ele riu porque quis.
Vanessa assentiu para mim. Parecia bastante específico, Trivia não teria como saber de um acontecimento interno do Campus porque Érebo nunca seria trouxa suficiente para arriscar que ela fosse detectada de alguma forma.
A garota se aproximou de Mare.
— Qual era o poema?
Muito específico. Demais. Até desconfiei que Vanessa estivesse sendo propositadamente criteriosa para livrar a barra do irmão dela.
— "Roses are red
Violets are blue
The life is small
So are you"
Como Raphael era ligeiramente baixo para o padrão de descendente de deuses, eu conseguia imaginar aquela criatura ficando bem p da vida com isso. Talvez Damien tenha tido sorte em ser condenado apenas à louça.
Estava ocupada rindo e pensando em bater um papo com Samir sobre pegadinhas e loucuras quando a ficha caiu.
E só sobrou um.
E o único que tinha sobrado era um cara que podia incinerar tudo, inclusive almas. Trivia jamais o colocaria em cativeiro porque era impossível. Só tinha uma maneira dela se livrar dele para assumir a forma.
— Vou dar uma volta na praia — Vanessa falou, a voz suave demais para o padrão dela.
Acho que ela atua bem normalmente, mas a máscara estava ruindo. Os olhos dela estavam brilhantes demais, mandíbula estava tensionada artificialmente, segurando choro, percebi. Saquei na hora que tinha sido o arauto da desgraça, devia ter pensado nisso antes, pelo menos questionado os três longe dela.
— Pode ir — Assenti.
Não foi de propósito. Eu jurava que era um dos três, na verdade, queria que fosse um deles. Eram desconhecidos para mim, e sinta-se livre de julgar o quanto quiser, mas eu estava me lixando para o que acontecia com eles. Meio que senti que o destino estava tentando me punir por isso. Você nunca pensou na família e amigos daqueles coitados que não teriam nem direito a velório. Olhe isso, agora.
Queria rir de tão patética que fui, pensando em mil teorias de quem era a rainha que Alec mataria e sobre o que fazer com ele. E ele já estava morto. No fim, era a Trivia lá, idiota, idiota, pensei.
E o último pensamento era desesperador. A única rainha que sobrava era eu. A rainha falsificada e patética.
E eu deveria parecer bem ridícula naquele momento: estática, sentada no sofá e encarando o nada.
Era sufocante. Nunca lidei com perdas, não tinha parentes, nem tive animais de estimação além de Idia — minha mãe não me deixava ter. Acho que a única pessoa que conheci e morreu foi meu professor de matemática. Mas aquilo era muito pior, não sei se parecia assim porque Alec era jovem. Ou talvez porque eu sabia que nunca conseguiria concluir qual foi o último momento que o vi.
Era muito irreal. Se subisse as escadas e abrisse a porta do quarto dele, iria ver ele estirado na cama e mexendo no celular. Trivia atuando lindamente.
Minha cabeça estava doendo tanto. Parte daquilo era uma pontade de remorso, sempre fui uma megera com Alec, mesmo quando ele tentava — raramente, diga-se de passagem — ser legal comigo. É horrível sentir remorso depois que alguém morre porque, em primeiro lugar, não há nada que possa ser feito depois de tudo. Além disso, ninguém passa 100% do tempo agindo como um santo com todos porque eles podem morrer um dia, é até doentio pensar nessa perspectiva.
Em algum dado momento, cansei de ficar sentada no sofá refletindo. Resolvi caçar Vanessa pela praia, tinhamos que cmatar Trivia enquanto ela ainda estava acessível e dar o golpe final para Vanessa parecia justo, afinal, o irmão era dela.
Quando saí de casa, constatei que tinha um pavor absurdo de encontrar Hermes acidentalmente. Peguei até o caminho mais longo e distante do centro da cidade para evitar esbarrar nele. Algum instinto interno me dizia que ainda não estava livre daquele karma.
Encontrei Vanessa na área mais deserta da praia, com as costas encostadas em um rocha e com a cabeça apoiada nos joelhos. Ocasionalmente, as costas dela tremiam.
Eu nem sabia como me aproximar. Até onde tinha ideia, a única família viva que ela tinha era Ilithya e o irmão. Nunca ouvia menção ao pai e minha mãe falou alguma vez algo sobre a mãe deles ter sido assassinada. E agora ela tinha perdido o irmão também. Perdido porque foi enviado como "segurança" da preciosa Diana. Indiretamente, tinha parte minha nisso.
Parte minha tinha até medo de Vanessa fazer alguma merda. Não me parecia razoável ela ter escolhido chorar em uma praia deserta e tão próxima de rochedos.
— Precisamos matar Trivia — falei —, ela vai notar que descobrimos alguma coisa.
Eu estava literalmente dando um objetivo para ela focar por enquanto.
— Quando isso aconteceu? — ela ainda estava com o rosto escondido e a voz soava mais desesperada.
Era uma boa questão. Quando Trivia conseguiu matar um cara que podia invocar chamas que extinguiam almas? E, principalmente, como?
— Antes do encontro com as Parcas, tenho certeza — No fim, parecia que aquelas desgraças estavam previndo que Trivia iria me matar.
— Fui eu que induzi minha tia a nos mandar — Vanessa confessou — Alec tem aqueles poderes bizarros dele e eu não sou nada mal. Auxiliar a reencarnação de Diana a salvar o mundo traz boa reputação e só os deuses sabem como precisamos disso.
Respirei fundo e me sentei na areia.
— Você não tinha como adivinhar que tudo isso iria ocorrer — Verdade seja dita, um mês atrás, se algum maluco me contasse que iria estar disfarçada de reencarnação de uma lenda, sendo perseguida por uma louca que estava me confundindo com outra e caçando adagas mágicas por aí, bem, eu iria rir muito e recomendar uma visita ao psiquiatra. Enfim, o destino tem o talento de se ramificar nos cenários mais estranhos.
Vanessa me encarou, com raiva da minha condescendência.
— Tá, era um trabalho de risco. Mas seres humanos, ou seres com poderes, que seja, tem o costume de pensar que nada de ruim vai acontecer com eles. É aquele senso que acha que tragédias ocorrem com todos, menos com ele. É a única lógica para explicar as atitudes arriscadas que as pessoas tomam, como por exemplo, sair trepando sem camisinha em um carnaval quando sabe que existe HIV nesse universo.
A expressão de Vanessa parecia aterrorizante.
— Você está comparando a morte do meu irmão com trepar sem camisinha?
Congelei. É agora que ela me mata, pensei. Aquela era o tipo de frase que soava ótima na minha cabeça e era desgraça quando falada.
A ruiva ergueu as mãos para cima.
— Respira, praga. Ele iria achar engraçado. O humor dele é questionável. Era.
Acho que a pior parte da morte é a substituição verbal. Tudo preso no pretérito eterno e a autocorreção e a correção alheia. Era, tinha, gostava. Esqueceu que fulano está morto?
— Eu fui uma péssima irmã. Nem trazia um refrigerante quando ele pedia.
— Fui uma megera com ele e a maior prova disso é que não te acho uma péssima irmã por não trazer refrigerante para ele. Eu diria que ele tinha pernas para buscar.
Ela riu.
— Como ele era meio masoquista, aposto que adorava quando você era uma megera.
— Então ele me adorava na maior parte do tempo.
Vanessa riu.
— Meu irmão jamais admitiria isso.
— Talvez esteja se revirando no Hades e planejando métodos de como puxar seu pé à noite por ousar falar isso.
Não sei o que aconteceu, começei a lacrimejar depois daquela frase. A sensação que Alec jamais iria planejar mais nenhuma maldade bateu forte. Também jamais iria ter a oportunidade de admitir algo.
Em poucos segundos, eu era mais uma criatura chorosa na areia. Passei o fim da tarde ali, conversando com Vanessa sobre as maldades que fazíamos uns contra os outros na infância e chorando o mais disfarçadamente possível. O pensamento que nunca mais iria poder comer amendoim fazendo barulho e sentada na carteira atrás dele durante uma prova e que nunca mais Layla iria reclamar para parar de o infernizar me atormentava. Também nem tinha ideia de como iria contar aquilo para a chinezinha, seria até melhor matar Trivia primeiro.
Vanessa estava bem pior que eu. Era um tipo de dor que eu não entendia, no máximo poderia observar igual um astrônomo faz com planetas: por mais que saiba milhares de coisas sobre, jamais será tangencialvel. Quando era mais nova, sempre quis ter um irmãozinho ou uma irmãzinha e pedia literalmente mais um para minha mãe. Naquele momento, naquela praia, fiquei feliz por minha mãe não ter acatado meus pedidos. Tudo tem um preço e o preço do amor é a perda.
Mais tarde, ainda a tempo de arrumarmos as coisas para a viagem para a Escócia, voltamos da praia.
— Eu que vou matar ela — Vanessa disse no meio no caminho.
Ela tinha todo o direito do mundo de se vingar, mas…
— Você acha que aguenta? — Matar um ser que tem o rosto do seu irmão morto não deve ser fácil.
— É claro que aguento.
Por via das duvidas, quando cheguei na casa, forcei Sam ser a garantia. Se Vanessa falhasse, ele realocava do lado de Trivia e cortava a garganta dela. Fácil e rápido.
— Nem a pau — Samir disse — Já disse que vou viver pouco e você quer encurtar ainda mais o meu tempo?
Dei os ombros.
— As chances de dar errado são baixas. Uns 10%, no máximo.
Ele me encarou, cético.
— Se você não me ajudar, vão ser 100% de chances de eu contar para Ilithya que você se negou. E aí você vai ter pelo menos 90% de chances de ser caçado pelos descendentes de deuses como um covarde que fugiu de uma missão com a própria Diana.
Ele aceitou, de muita má vontade por sinal.
Vanessa pegou uma espécie de pistola da bolsa. Como não entendo nada de armas de fogo, isso é o máximo que consigo descrever. Mas a coisa parecia ameaçadora.
— Foi feita por um filho de Hefesto. Nunca erra um alvo — ela disse quando notou minha atenção.
— Até um alvo móvel?
— Até um desses.
Não era má escolha de arma. Subi as escadas calmamente para o quarto de Alec enquanto Sam e Vanessa realocaram do lado da porta, tudo para manter a ilusão que estava sozinha.
Nem bati na porta. Trivia não merecia privacidade. A criatura estava lá, esparramada pela cama e concentrada no celular.
— O que foi? — ergueu as sobrancelhas para mim.
Me encostei na porta.
— Talvez tenha um kraken na pia.
— Eu acreditaria se você falasse que era um ninho de cobras — Ele se sentou no canto da cama, com um sorrisinho de lado. Trivia
— Não me olhe com essa cara de cachorrinho — falei — Me diga algo que prove que você não é Trivia.
Por alguns segundos, a expressão de bom humor dele o abandonou. É agora, pensei. Do outro lado da porta, Vanessa engatilhava a arma.
— Hum… Uma vez, encontrei você antes da aula de karate — O canto da boca dele estava curvado em um sorriso novamente — E depois de tudo você disse "Fique satisfeito, é a última vez que faço isso".
Mesmo depois de quase um ano, ele ainda parecia puto da vida comigo, embota tentasse disfarçar com sorrisinhos.
Fiquei paralisada. Não por pudor e santidade súbita, mas porque isso era uma coisa que só Alec saberia. E pelos meus brilhantes cálculos, não sobrava mais nenhum suspeito, o que era um problema enorme.
Vanessa reparou minha inexpressividade e mandou o plano todo para os quintos.
— Qual era a cor favorita da mamãe? Raphael é alérgico a que? Por que te joguei no laguinho quando éramos criança? — A ruiva começou a bombardear ele com perguntas
E cada vez que ele respondia certo, eu tinha mais certeza que era ele mesmo. Comecei a me sentir meio tapeada por ter passado a tarde chorando enquanto a criatura estava viva.
Mas se me senti tapeada, isso era nada comparado com Vanessa. Em algum dado momento, ela me lançou um olhar assassino e me jogou pelo pescoço contra a parede.
A propósito, doeu pra cacete.
— Eu sempre esperei o pior de você. Mas nunca esperei algo desse tipo. Você iria me fazer atirar na cabeça do meu irmão por causa da sua profecia idiota — Ela gritou na minha cara.
Minhas orelhas estavam querendo morrer tanto quanto meu pescoço naquele momento. Incrivelmente, a filha da puta tinha entendido tudo errado. Pô, ela me achava com cara de vilão do mal que engoliu Maquiavel. Admito que sou um pouco maquiavélica, mas não tanto.
— Temos problemas maiores que suas conspirações — falei e como é dificil falar sendo estrangulada, meus deuses — Como todos eles acertaram as perguntas? Alguém está ajudando Trivia propositalmente ou pior.
Na categoria de pior, eu colocava as opções: "Trivia consegue memórias dos corpos em que de transforma" e "Alguém é Trivia desde o princípio". Poderia ter mais opções, mas acho que meu fluxo de oxigênio estava reduzindo consideravelmente.
— E eu, aqui, só querendo saber o que aconteceu antes da aula de karate — Sam disse.
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