Equilibrium
29 Capítulo 28 - Tudo pode piorar
Alec parecia normal. Exceto pela garganta dolorida, o que dava o ar bizarro para a situação.
A parte mais trágica era que algumas hipóteses minha dariam post cômico na página do facebook "Não suporto mais o jovem místico" — por favor, caras, não tirem print desse trecho para zoar de mim na próxima publicação.
Enfim lá vai, não riam de mim, a mente humana é um treco estranho: A teoria era que meu espírito imbecial, em vez de fazer projeção astral para descobrir os mistérios do outro lado ou espionar Trivia, resolveu ir dar um passeio pelo quarto do Alec. E de alguma forma, a facada espiritual se reverteu em dano físico minimizado.
Pois é, patético. A idéia de amassos em projeção astral me davam vontade de me afogar na pia de tão ridícula que era. E aquilo ainda abria a possibilidade de Alec "lembrar" o ocorrido, o que seria muito vergonhoso para mim. Se isso fosse verdade, eu iria fazer a sonsa se ele abrisse a boca e ainda iria zoar ele até a morte — É sério que você sonhou que cortei sua garganta no meio de uns amassos? Eita, eu não sabia que você curtia coisas tão intensas.
A outra hipótese era que finalmente meus poderes estavam se manifestando, transformando coisas que aconteciam em sonho em realidade — Se bem que de uma forma bem minimizada.
Rejeitei essa idéia porque parecia um tipo de poder bem capenga. Eu me recusava a ter passado todo esse perrengue sem poderes para a vida me ofertar essa porcaria chumbrega. Além disso, eventualmente, Henry Cavill e Jason Momoa começariam a sofrer dor no corpo.
Por fim, a tese mais racional era que minha mente fez uma reunião sobre tudo que estava me incomodando — Cortar gargantas, profecias sobre Alec me matar e logo, pensamentos de como matar ele antes — misturou com uma tonelada de hormônios e voilà: cenas pertubadoras — ou nem tanto.
— Você está estranha hoje — Layla afirmou enquanto puxava a cadeira e sentava na mesa.
Seria estranho se eu não estivesse estranha. Assassinato + decapitação + sonhos bizarros raramente geravam bom humor e sono tranquilo.
— Eu sempre sou estranha, Layla. Não notou ainda?
Ela parecia meio irritada comigo.
— Você está evasiva desde ontem — ela começou a batucar os dedos na mesa — e hoje está com cara que comeu algo azedo.
Engoli meu pedaço de bolo de padaria previamente testado para envenenamento.
— Bom, o bolo é de limão — sorri.
A meta era deixar Layla tão saturada de mim que iria parar de encher meu saco. Infelizmente, a criatura era persistente.
— Idia sabe. Vanessa sabe. Você acha que não notei ela sainto para te buscar? Como você acha que me sinto sabendo que você confia nela mais que em mim?
Era complicado. Layla ia fazer trabalho comunitário em prol de animais carentes comigo. Mesmo com as pegadinhas, ela só viu um lado bom de mim. E ela também era moralista, tinha esse ideal meio pacifista. Seria muito constrangedor contar que arranquei a cabeça de um homem. Toda a fé que Layla tinha no meu potencia de líder diferente iria ir nadar no ralo.
Vanessa, por outro lado, já estava acostumada com sangue voando.
— Não é nada disso que você está pensando — falei e tenho certeza que isso foi burrada. Usualmente, quando alguém diz isso é porque é exatamente isso que você estava pensando.
— Christine, eu quero saber o que você fez.
Como podem ver, Layla era péssima na chantagem emocional.
Alec abaixou o celular e abriu a boca, provavelmente para dizer alguma merda como "Só sei que ela voltou coberta de sangue. Mas pode ser sangue de açougue". Encarei ele com meu pior olhar e ele fechou a boca.
Layla ergueu as mãos para o alto, exasperada.
— Até ele sabe. Sou a única da casa que não sabe de nada.
— Tem coisas que você não gostaria de ter visto — Alec sussurou.
Ah, pronto. Ativou a neurose da criatura. Alec era um meritíssimo filho da puta. Eu nem sentia remorso pela Christine do sonho ter cortado ele. Se eu fosse uma criatura sensata — ou com o Superego desativado, dependendo da perspectiva — iria dar replay do sonho com a faquinha de cortar bolo.
Mas iria ser muita sujeira na cozinha.
— Alexander está dramatizando. Quer a verdade? — dei o melhor de mim para parecer exaltada, o que foi muito difícil porque eu estava cansada. De algum modo, mesmo dormindo até o meio-dia, eu ainda estava o pó da rabiola — Convenci Hermes a me dar a adaga e ele me deu algum transtorno psicológico de presente junto com a faquinha abençoada.
E não era totalmente mentira, aí que está a malícia da coisa.
— Eu não acredito que foi só isso.
— C'est la vie.
Mais tarde, o sono estava me matando. Parecia que meus olhos estavam ressecados. Estava passando Crônicas de Nárnia na TV e sentei para assistir por saudosismo puro à minha infância — Quando eu tinha 7 anos, me enfiava em guarda-roupas pra ver se ia parar em Nárnia. Bem, em algum lugar, deve ter alguma parca rindo muito da minha cara.
Estava chovendo e o barulho de chuva me deixou mais sonolenta ainda. Então, capotei no sono. Felizmente, sem sonhos.
Em algum momento, ouvi barulho da campainha e acho que acordei por breves segundos. Tinha três pessoas na porta: uma menina morena mais baixa que eu e com cabelo curtinho, um garoto negro e de óculos — descendentes de deuses podiam ser míopes? Que azar — e um moreno com cabelo preso em um coque. O último garoto sacudiu o cabelo igual um cachorro molhado em cima da Vanessa.
Coragem, pensei, e capotei no sono de novo enquanto ouvia risadas.
— Ela está aí há quanto tempo? — ouvi uma voz feminina falando de longe.
— Ela não se move desde que chegamos — outra voz desconhecida — Será que tá viva?
Passos.
— Ela vai te transformar em um coelho, Sammy — a voz de mulher alertou.
— Quem derá — essa era Vanessa. Certeza.
Um suspiro de desistência.
— Me falta coragem.
Uma parte de mim ficou curiosa para o que o garoto queria aprontar comigo — Qual dos dois? —, mas estava sentindo meu corpo pesado e meus olhos mais ainda.
— Christine! Christine! Christineeee
— Mãe, me deixe dormir.
Um coro de risadas. Acordei, logicamente, porque nada mais desperta minha atenção do que gente rindo da minha cara.
Idia, que estava sentada em cima de mim a propósito, me deu uma leve patadinha.
— Temos problemas.
Eu não duvidava. Todo mundo estava reunido na sala igual em um velórios. Vanessa estava sentada no sofa entre os dois garotos novos. Layla e Alec estavam sentados na escada e a menina metamorfa estava encostada na parede.
Me sentei e encontrei a causa da reunião súbita: a porra do Hermes na nossa porta.
Como vocês podem ver, não consigo nem dormir em paz.
— Christine, querida — ele disse — precisamos conversar.
Naquele momento, eu podia escolher dois caminhos: Jogar algo bem pesado na cara de Hermes — como ele almejava, aposto, porque a desgraça adora um espetáculo ou o ignorar, deixando ele p da vida.
Sabiamente, saquei meu celular do bolso e comecei a ver os posts do meu facebook na maior calma do mundo. Sabe, Hermes adora um showzinho, foi por isso que ele concordou com a competição pela adaga — Acho que depois de um tempo, a vida imortal fica entediante — e vivia aprontando por aí.
Só que eu não iria fornecer show para ele.
— Christine, você é diferente das outras garotas — Pelo visto, foi dado início a sessão de cantadas patéticas. Era de se esperar que um cara vivo há sei lá quanto tempo soubesse fazer melhor.
— E você é igual todos os homens — Vanessa disse.
Juro que foi necessário muito esforço para não rir.
— Sua amiga ruiva é criativa — Hermes comentou e caminhou lentamente até mim.
Continuei focada em ignorar ele. A desgraça devia estar ficando surtada naquela altura.
— Se você chegar perto, vou testar se as cabeças de deuses crescem novamente depois de arrancadas — Idia ameaçou — Você sabe como estou ansiosa para testar essa teoria há séculos.
Hermes recuou. Aparentemente, até maníacos podem desenvolver bom senso com o tempo.
A coisa se sentou na mesinha no centro da sala, deixando bem explícito a vontade interior que ele tinha de sempre ser o centro nas atenções.
— Como vocês devem saber, sou o mensageiro dos deuses.
Aposto que era a primeira coisa que a Wikipédia dizia quando buscavam por Hermes.
— Então, venho aqui oficialmente em nome de Nix para informar que ela descobriu que Trivia está entre você nesse exato momento.
Eu poderia dizer que tive milhares de reflexões naquele momento, mas meu único pensmento foi: Por que ela não me mandou uma mensagem por Whatsapp, poxa?
Quase falei isso em voz alta, mas me mantive fiel ao plano de ignorar Hermes.
— Como podemos ter certeza que isso é verdade? — Layla perguntou, afinal, ela sabia que deixar todos nós surtados por nada seria uma coisa bem típica de Hermes.
— Juro pelo Estige que só estou falando verdades.
Gostaria de dizer que foi puro drama, mas um trovão anormalmente alto estalou. Juro que até a janela ficou branca por uns segundos.
— Tenho que ir. Foi bom conhecer vocês.
E ele sumiu do nada, deixando um bando de criaturas atordoadas para trás.
Ah, droga, pensei.
Alec levantou a mão.
— Sejamos sensatos, Nix não detectou nada quando éramos só nós aqui — Ele estreitou os olhos na direção dos novos chegados.
Isso era um bom ponto. Por outro lado, Trivia pode ter se deixado detectar com a chegada deles propositalmente para redirecionar a culpa para longe dela.
O garoto de óculos começou a abrir a boca, aparentemente muito insultado.
Bati as mãos na mesa.
— Ordem! Ordem no tribunal!
Eu sempre quis falar essa frase. Infelizmente, nunca tive muito talento para Direito.
— Isso foi ridículo — Vanessa sussurrou.
Ignorei ela.
— Antes do caos começar, deveriamos nos apresentar — disse o garoto de olhos verdes — Meu nome é Damien e esses são Samir e Mare.
— Que coisa, eu estava pretendendo chamar vocês de Um, Dois e Três — falei.
Não foi a coisa mais educada do mundo, mas eu não estava no clima para desvio de assunto. Meio que comecei a suspeitar do cara, sabe?
— Qual seria minha numeração, só por curiosidade? — Samir sorriu.
— Três por que rima com cala a boca de uma vez.
— Christine, controle seus espírito da primeira série.
Um fato desagradável sobre mim: Eu fico engraçadinha demais quando estou nervosa. Mecanismo para disfaçar, acho. E naquele momento, eu estava nervosa. Não bastanto o trauma do dia anterior, a ansiedade natural por causa da segunda adaga, profeciais inconvenientes, sonhos bizarros, Trivia ainda resolvia brincar de among us.
Isso não era justo. Quando pedi animação na minha vida, eu não queria tanta.
Ergui as mãos. Lentamente, uma ideia começou a se formar. Uma coisa errada e cruel, mas inegavelmente eficiente
— Não se preocupem — sorri — Vou resolver esse problema com Trivia. É o seguinte: vou matar quem falhar na sua parte no plano de recuperar a segunda adaga. Óbvio que Trivia não quer que isso dê certo e essa é uma medida eficiente para nos livrarmos de colaboradores dela ou incompetentes.
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