Equilibrium

23 Capítulo 22 - O mar


Na verdade, eu não queria que ele matasse ninguém. Eu só queria que ele evaporasse as bebidas caso Hermes tentasse me embebedar. Pois é, a vida tende a ser decepcionante nesse nível.

E Alec sempre foi muito dramático, vocês não deveriam ter se empolgar com as coisas que ele fala.

Antes de sairmos de casa, até me preocupei com assaltos, afinal, sair passeando pela madrugada não é o passatempo mais seguro. Mas lá estava eu, com uma jararaca dourada do braço e Alec, com aqueles olhos incandescentes. Acho que era suficiente para dar um treco em qualquer trombadinha.

— Tem certeza que não quer um exorcista? — perguntei porque o silêncio absoluto da criatura estava deixando o clima estranho.

Desconfio que ele ficou realmente p da vida comigo por causa dos calmantes. E pra valer, dessa vez.

Alec me lançou um olhar que indicava que ele queria me exorcisar no estilo Inquisição espanhola.

— Alguém que precisa de exorcista nunca admitiria — Idia falou com aquela voz sibilante e assustadora de cobra — Suponho que o demônio não deixaria.

Alec suspirou.

— A única coisa boa do dia é que me sinto o próprio Harry Potter.

— Lamento, mas o ofidioglota que te representa é o Voldemort.

— Pelo menos ele era o mais bonito.

— Até perder o nariz — Falei, angelicalmente.

Não estaria longe de Alec supor que eu era insana suficiente para cometer mutilação facial.

E, novamente, silêncio sepucral.

— Meus olhos não são estranhos — Alec falou subitamente — Existem piores.

Aparentemente, a autoestima de alguém estava abalada.

— Não duvido.

— Raphael fica com os olhos vermelhos quando fica irritado.

— O cara da sala de treinamento?

— Esse mesmo.

Fiquei feliz por ele não ter ficado realmente irritado comigo no dia que voei no ringue antes da aula começar. Se surgisse um cara de olhos vermelhos gritando comigo, eu iria correr. Ou começar o exorcismo que aprendi no Supernatural.

— Um bom tempo atrás, ele tinha brigado com a minha tia e saiu para uma espécie de baile no México. Ele estava na paz dos deuses dançando com uma moça e o irmão louco dela apareceu por lá, aparentemente, ela tinha saído escondida. De qualquer maneira, o mortal deu um soco na cara dele e ele ficou muito irritado por causa disso. Os olhos dele ficaram vermelhos, a moça teve uma síncope e uma penca de mortais saíram correndo convictos que Satã tinha aparecido no baile.

— Meu deus, eu juro que ouvi uma história dessa em algum lugar.

— Virou lenda urbana mexicana. A pobre coitada da moça ganhou um mol de adjetivos "por ter atraído o diabo" para o baile.

Como sempre, a mulher da história só se lasca.

— Esperançosamente, você não vai virar a lenda urbana da Sicília.



Como as ruas estavam vazias até chegarmos na casa de Hermes, suspeito que nenhum mortal viu algo. Isso foi bom porque hoje em dia existem câmeras como resolução de imagem alta.

Se bem que todas as imagens de OVNIs são borradas até hoje. Talvez o mortal tivesse crise de Parkison se nos visse andando na rua.

A casa de Hermes, bem, estava uma balbúrdia — Na definição mais gentil da minha parte. Para vocês terem ideia, não tive que me preocupar em entrar de penetra porque os portões estavam escancarados. Qualquer um que estivesse dando uma voltinha pela praia poderia entrar na casa dele.

Eu temia pela saúde do pobre mortal que tivesse essa má idéia.

Enfim, a festa de Hermes era o conceito do meu inferno pessoal posto em prática: Dance Monkey em volume estridente, luzes brilhantes e coloridas piscando, um monte de gente dançando — pior, existia a possibilidade de serem gente com poderes e bêbadas, o que não devia ser a combinação mais saudável. A coisa parecia projetada para matar meus ouvidos e minha retina.

Encarei Alec e ergui uma sobrancelha.

— Lembra do acordo?

Ele parecia estar com os olhos semicerrados também. Acho que luzes brilhantes mais insômia de dias não deve ser a combinação ideal.

— Um: Evaporar qualquer coisa que Hermes te dê. Dois: Não beber ou comer nada. Três: Não arranjar brigas. Quatro: Não sair com garotas, o que acho que é um pouco de ciúme patológico da sua parte — Revirei os olhos nessa parte — Cinco: Não desgrudar os olhos de Layla igual um stalker insano e convidar ela para sair depois de um tempo. E por fim, a mais importante, morrer de tédio.

Eu realmente esperava que ele tivesse tido a interpretação correta do verbo sair.

Dei um passo para dentro da festa de Hermes.

— E lá vamos nós.



Foi um ó para achar Layla no meio daquele bando de criaturinhas saltitantes, quase levei uma cotovelada na cara durante o processo. Me chamem de arrogante, mas odeio multidões ou lugares lotados, inclusive, adoraria ser carregada em um liteira sempre que sou obrigada a atravessar uma cidade grande em horário de pico.

Layla estava dançando com uma energia que eu nem sabia que ela tinha. E, deuses, como alguém consegue ficar se movimentando perto de tanta gente suando? Eu teria pavor de esbarrar em uma daquelas criaturas molhadas. Argh.

Sim, sou fresca, obrigado.

Me aproximei dela e mimetizei a dança ao redor — só para o caso de Hermes estar olhando de algum canto.

Meu espírito maléfico interior me implorava para que eu fizesse Idia deslizar pelo braço dela porque arrastar uma pessoa desmaiada seria mais fácil. Mas a criatura me viu antes que eu pudesse estruturar o plano.

— Idia? — ela franziu o cenho quando viu o braço.

— Não, a Papisa Bórgia.

Pareceu que Layla iria falar mais alguma coisa sobre a forma de serpente, mas aí ela olhou na minha cara.

— Devo supor que você está um pouco irritada comigo.

Um pouco era a definição de eufemismo.

— O que você gostaria que eu falasse para seus pais caso encontrasse você morta?

Jogar no lado emocional é sujo, mas funciona. Todo o semblante zombeteiro dela ruiu.

— Eu sei que você quer me matar, mas não é nada do que você está pensando.

— Só estou pensando em como você fugiu pela janela igual uma adolescente patética de filme besteirol americano. E, puta que pariu, isso nem é uma festa legal.

Ela franziu as sobrancelhas.

— Se você parasse de julgar e me deixasse falar...

— Ah, sim. Falar alguma versão patética e melodramática de como a sua vida pode ser breve e você quer aproveitar? Muito original, uma mistura patética de romantismo do século XVIII com Carpe Diem e hedonismo.

Layla suspirou e se aproximou de mim.

— Lembra daquela vez que meu tio me fez instalar umas micro câmeras de bateria porque achou que a esposa dele estava traindo ele? — ela sussurou bem baixinho — Fiz ele me mandar as câmeras pelo portal e advinhe onde elas estão?

Gelei. Aquilo iria dar merda, só podia dar. Era uma linha de pensamento simples: Hermes iria achar as câmeras, iria concluir que formos nós e mais tarde eu iria voltar para a casa com 2 hamsters — ou pior, porque não podemos subestimar a capacidade criativa de quem viveu alguns milênios — porque, esperançosamente, Hermes não faria nada comigo por causa da mamãe.

E para ser sincera, eu não estava convicta da sanidade de Hermes. O destino de zootopia não estava plenamente excluído.

E, ah, Vanessa iria me matar. Como eu iria explicar para ela que saí com seu irmão vrykolaka normal e voltei com ele… talvez fazendo muuuu?

Bem, era conclusivo que iríamos nos ferrar.

— Vamos dar o fora daqui — sugeri.

As coisas seriam piores se ele resolvesse se vingar com platéia assistindo.

— Vai ficar suspeito demais.

— Que nada, ele vai estar ocupado se achando o fodão que abalou meu psicológico.

— Fique calma, as câmeras são super discretas.

— Vamos todos morrer se vocês continuarem abrindo a boca — Idia relembrou.

Respirei fundo.

— Vamos cair fora daqui.

— Não.

Até hoje não sei o que ela estava gostando tanto: daquele caos de festa ou da adrenalina. Talvez os dois.

Caiu a ficha que não daria para convencer ela pelos métodos usuais. Então pensei: Vou trazer a criatura do Alec aqui e aí ela saí daqui. Não me interessava se Alec teria que fazer um streap tease para tirar Layla de lá.

Eu estava caminhando na direção de Alec quando um cara ruivo surgiu literalmente do nada. Ele estava de braços abertos e parecia animado ao me ver. Fiquei confusa até ele exclamar:

— Christine, querida!

Só podia ser Hermes em outra forma porque só ele ficaria animado em me ver. Especialmente se estivesse aprontando uma. Sorri amigavelmente como se nem estivesse com a cabeça na forca.

— Forma nova?

— Sim, eu tenho que parecer mais velho caso a polícia aparecer por aí.

E considerando o nível do barulho, isso não iria demorar muito.

Ele ergueu as sobrancelhas.

— Gostou dessa forma?

Inegavelmente bonita. Nunca fui fã de caras ruivos porque normalmente eles têm traçado do rosto infantil e sardas — que parecem spray de cheetos, a propósito. No entanto, a forma atual dele estava sem sardas e tinha traços definitivamente masculinos. Os olhos cinzas também pareciam legais na composição.

Mas eu nunca admitiria isso visto que Hermes era um tremendo babaca.

— Sei lá, algo não me parece harmônico — estreitei os olhos.

Para o crédito dele, ele não pareceu alarmado.

— Você parece estar passando mal.

— É o calor — e a preocupação de você descobrir que sua casa tem mais câmeras que um reality show.

— Vem comigo para a varanda — e então, fui praticamente arrastada.



Hermes não era burro. A varanda era ventilada e tinha uma cadeira reclinável com pompa de trono lá — que virou duas quando ele estalou os dedos. Lá de cima, ficamos observando a baderna lá embaixo.

Ocasionalmente, garçons passavam distribuindo bebidas. Hermes literalmente tacava os copos na minha mão, o que realmente me deixava preocupada com a intenção dele de me embebedar.

Lá embaixo, Alec não olhava para mim, mas os níveis do copo diminuiam gradativamente. Pelo visto ele estava se mantendo fiel a regra de ficar de olho em Layla.

Fechei os olhos e fingi que estava sonolenta enquanto pensava. O ângulo da varanda só dava vista para o quintal, se Hermes estivesse aqui enquanto Layla colocava as câmeras, talvez tivessemos alguma chance. Mas existiam outros fatores complicantes: E se Hermes tivesse câmeras na casa dele? Tudo bem que um deus não se preocupa com assaltos mais vai que… E se deuses tivessem algum tipo mágico de intuição?

Eu podia estar lascada ou não…

Então seria muito útil essas câmeras. Esperaria um dia para ver se conseguia captar uma imagem da adaga na casa dele — Hermes seria louco suficiente para usar um dos itens mais valiosos da Terra como faca para passar manteiga.

Se não estivesse lá, eu iria armar um jeitinho de ir parar lá. Naquela hora, não tinha nenhuma ideia de como fazer isso, mas iria dar meus pulos.

Ou então Hermes sabia de tudo e só estava se preparando para me arremessar da varanda.

Depois de um tempinho, quando Hermes parecia estar tão bêbado quanto uma divinidade pode estar, decidi que era hora de sacudir Alec para tirar Layla de lá.

— Vou ir dançar um pouquinho.

— Vai lá.

E foi assim que a desgraça aconteceu.



O fato é que descer escada rápido em uma casa lotada de bebuns não é a idéia mais inteligente. Algum asno deve ter derrubado algo e meu sapato, apesar de não ser de salto, era bastante deslizável.

E foi assim que caí lindamente das escadas.

É, patético. Seria engraçadinho se meu tornozelo não estivesse doendo para cacete. E, deuses, quase esmaguei Idia quando caí.

Quando digo que estava doendo, não é exagero. Naquele dia, consegui um belo rompimento ligamentar porque estava dando para ver o contorno da ponta da minha tíbia por baixo da minha pele. Eu só não comecei a chorar porque estava em choque.

— É claro que seria você — Alec disse, indo na minha direção — Porque sempre que tem um barulho catastrófico, é você.

A propósito, na última vez que eu estava ligada a um barulho catastrófico foi quando taquei uma bombinha no projeto de ciências dele.

— Vai chamar Hermes agora! — gritei. Nesse ponto, eu estava quase chorando.

Ele deu uma olhadinha na minha perna e subiu as escadas correndo. Com isso, vocês podem ver que a situação estava séria.



Bom, eu poderia escrever um livro e mais 2 sonetos sobre como entorse de tornozelo grau 3 é infernal, mas desconfio que ninguém se interessaria em ler, então, vai ficar para a próxima, pessoal.

Em resumo, Hermes desceu as escadas lentamente e me curou lentamente porque ele era um sociopata maldito. Porém, era melhor do que meses com tala no pé.

Uns 15 minutos depois, quando Hermes já tinha saído da minha cola, encarei Alec.

— Você ainda não falou com Layla?

Ele permaneceu inexpressivo. Inexpressivo demais.

— Ah, Jesuuuis, você levou um toco!

Aquilo era o sinal que nada era impossível no mundo. E que com o tempo, tudo evoluí.

Eu poderia ter rido da cara de frustração mal disfarçada dele, porém, a ficha caiu: Enquanto meu pé estava sendo destorcido, ninguém estava olhando Layla.

Andei até o topo da escada e olhei para baixo. Nada dela. Minha garganta começou a se apertar.

Respirei fundo, seria achar alguém naquele caos se eu estivesse ansiosa. Quando me virei, Hermes estava bem atrás de mim e me encarando.

— Você viu Layla?

É agora, pensei, ele vai admitir que descobriu tudo e deu um fim nela.

— Vi que ela saiu na direção da praia com um rapaz muito bonito — ele ergueu as sobrancelhas sugestivamente — Por que está tão desesperada atrás dela?

— Só estou precisando de absorventes — Foi a desculpa mais rápida e que ele não questionaria muito — Vou ver se acho a bolsa dela. Tchaaaau.

Desci as escadas com mais cuidado dessa vez.

— Vamos ir para a praia agora — puxei Alec.

— Você não acha que estamos sendo empata foda?

Olha, isso era um possibilidade. Mas algo me cheirava errado nessa situação, era difícil explicar, era muita coincidência que ela sumisse logo quando deixamos de olhar. E eu não confiava nos convidados de Hermes, que poderiam ser psicopatas — envenenadores também — e também não confiava no próprio Hermes, que poderia ter transformado ela em golfinho como vingança.

É claro que Layla ficaria muito irritada se eu interrompesse algo, mas… c'est la vie.

— Pelo menos, vamos evitar que ela pegue micose de praia nas partes — Idia sugeriu.

Como Idia era centenária — ou mais —, considerei esse comentário como salvo.

Alec torceu a boca.

— Bom ponto.



Até hoje, não me lembro com precisão da sequência de atos daquele dia. Mas me lembro da sensação de ansiedade enquanto corria para praia. O frio na barriga de quando você procura seu nome na lista de aprovados de uma olimpíada ou vestibular, só que intensificado. Para ser sincera, eu tinha medo do que podia encontrar.

E me recordo da praia vazia. Ninguém na areia, nem pegadas já que o vento marinho estava intenso. Estava muito escuro, mesmo com os postes iluminando o início da orla.

Idia deixou de ser cobra para virar onça e olhou todos os ângulos da praia.

— Nada. Deve estar na água, mas não consigo ver nada.

Eu sabia desde o início que algo estava errado. Um casal se pegando ficaria na areia ou no início da água, não tão fundo que seria difícil de ver.

Joguei minhas sapatilhas longe. Ela podia estar se afogando em algum lugar. Isso podia ser o troco de Hermes.

— Vanessa vai me matar se eu deixae você morrer afogada — Alec começou a tirar os sapatos — Você vai ficar sentadinha aqui enquanto eu olho na água.

— Bom, você vai ter que me amarrar — Não que eu não confiasse nele, duas pessoas cobririam uma área maior.

— Parem de escândalo, eu vou ir com ela, criança — Idia disse.

Antes que ele pudesse abri a boca, saí correndo com Idia ao meu encalço. Na água, vi um suave brilho e havia uma arraia com manchas claras e circulares do meu lado.

Em circunstâncias normais, eu ficaria feliz por ter um seguro que não iria morrer afogada.

— Você segue meus movimentos, ok?

Nem sonharia com outra hipótese, já que Idia era a única que enxergava no escuro.

E depos disso, tudo ficou difuso. Lembro da sensação de seguir a ondulação da água gerada pelo movimento da arraia gigante. Do escuro e do frio. E de me sentir perdendo tempo a cada vez que levantava a cabeça para respirar. A cada segundo, meu medo de ter que passar a noite procurando o cadáver da minha melhor amiga aumentava.

Em algum ponto, Idia me empurrou de leve contra algo. Contra um corpo.

Segurei com um braço e levantei a cabeça para fora da água. Era Layla e era parecia tão imóvel e gelada quanto os quadros de Ofélia. Comecei a perder o equilíbrio e noção de espaço. Demorou patéticos e preciosos segundos para notar onde ficava a praia.

Puxei ela com um braço e comecei impulsionar com as pernas e o outro braço. Era difícil, ninguém nunca ensina isso em aulas de natação. E também tinha dúvidas que conseguiria transportar Layla se não tivesse muita muita e muita adrenalina correndo pelas minhas veias.

Depois que estava no raso e o empuxo não não estava mais facilitando, era muito difícil arrastar ela. Era parecia muito pesada e a hipótese de estar carregando o cadáver dela me fazia soluçar.

Lembro de Alec correndo na minha direção, lembro de ter gritado para ele fazer RCP. Não pense que não sei fazer, inclusive já tinha ressuscitado o cachorro cardíaco de Layla uma vez. Mas a ideia de fazer isso com ela me deixava enjoada.

— Ela vai ficar mais feliz se acordar e estiver com você fazendo boca-a-boca — tentei brincar para parecer que eu não estava a beira de um colapso.

Me sentei na direção do mar enquanto Alec fazia RCP. Eu não podia olhar. Tentei respirar fundo, me controlar. Mas eu só sentia frio, o sal e meu cabelo grudando no meu rosto, o vento batendo nas minhas costas. E a sensação que nunca mais conseguiria encarar o mar se ela não voltasse.



Notas finais
Ainda vivos, fantasminhas?