Equilibrium
21 Capítulo 19 - Primeira jogada oposta.
Antes de tudo virar um caos, eu gostava de alardear que tinha duas qualidades: não era falsa e nem hipócrita. Constantemente, essas qualidades eram a desculpa ideal para falar tudo que passasse pela minha cabeça e sem censura.
Lá pelos meus 9 anos, minha mãe me arrastou para uma reunião de professores universitários. Fiquei jogada no canto da sala enquanto eles discutiam um monte de coisas pedagógicas e entendiantes, hoje, sabendo que ela era uma deusa, me pergunto como ela teve saco para aguentar aquilo. Bom, algumas coisas são inexplicáveis. Não estava tão ruim, meu celular e um monte de livro em pdf estavam comigo e a cadeira só me daria dor nas costas mais tarde. O dilema era a fumaça de cigarro de menta.
Pô, nicotina já é um porre, aquilo parecia pasta de dente vaporizada.
Muito educadamente, fui até a professora fumante e comecei a citar os malefícios do cigarro igual aprendi no Proerd.
— Já sei tudo isso, lindinha — disse a dignissíma fumante. Suponho que eu realmente fosse uma criatura fofa naquela idade.
— Então vá fumar lá fora, não quero morrer junto.
Naquela noite, mamãe me repreendeu pela minha suposta falta de educação e me fiz de sonsa dizendo que estava sendo sincera. Depois de um tempinho, ela concordou — Acho que nem ela tava aguentando a fumaça.
— Antes sinceridade demais do que falsidade — minha mãe deu os ombros e a desculpa que eu iria usar pelo resto da vida.
E assim me tornei um monstrinho que só falava verdades — especialmente quando elas eram desagradáveis para alguém que eu não gostava. Quando uma professora que me irritava cometeu um descuido e falou que o corpo humano não era condutor, mandei ela enfiar o dedo na tomada. Se eu não ia com a cara de alguém, não falava nem oi, afinal, estava sendo sincera.
Então, era insuportável encenar bom humor para Hermes. Todos meus instintos gritavam: faça sua cara de criatura cruel — que é, basicamente, minha face mais inespressiva com um olhar maligno —, derrube o celular caríssimo dele na piscina acidentalmente, mande ele enfiar a vodka em um orifício circular…
Mas se eu fizesse alguma dessas coisas, Hermes iria ronronar igual um gato satisfeito. Ele queria me provocar e eu não daria essa satisfação para ele. Fiquei indiferente enquanto ele entupia minha melhor amiga — que nunca tinha bebido antes — de um monte de bebidas que ele invocava.
Nadei na piscina, continuei fazendo piadinhas sobre filmes, mostrei memes do facebook e até joguei videogame com o desgraçado. Tudo isso mantendo meu bom humor.
— Você sabe que vai ter uma ressaca desgraçada amanhã, certo? — falei para Layla quando saímos.
E será muito bem feito, meu lado maléfico pensou.
— Talvez amanhã seja meu último dia de vida — Layla falou — Me deixe aproveitar.
Decidi que não gostava muito da Layla dramática.
Minhas esperanças era que ela, por ser oriental, portasse o gene que deixava ressacas mais intensas e isso a desmotivasse. No dia seguinte, descobri que ela não portava.
Mais tarde, milagrosamente, Hermes não começou a conjuração exarcebada de álcool. Juro que até pensei que tinha sido neurótica, que a criatura nem tinha feito aquilo para me azucrinar. Que ele nem sonhava com minhas tendências anti-alcoól.
Então, quando estavamos em casa, notei que Layla estava fuçando no guarda roupa.
Estreitei meus olhos.
— O que você está caçando aí — perguntei.
— Hermes me convidou para uma festa.
Quase dei um salto da cama. Festas têm comidas. Festas têm muitas pessoas. E certamente uma entre as muitas pessoas poderia envenenar uma comida e sair despercebida.
Vamos ser sinceros, eu estava tendo um trabalho do cão todos os dias para garantir que a criatura não morresse envenenada. Nada de comida comprada fora. E eu também tive um trabalho do cão para escravizar os irmãos capirotos no trabalho de prevenção. Vanessa cozinhava, porque ela era a única que fazia algo levemente comestível — para quem fez um curso de culinária (pelo menos ela alegava), não era grande coisa.
E Alec era o provador de comida. Isso era o que eu chamava de resolver dois problemas de uma vez, caso algum igrediente da geladeira tivesse sido envenenado, ele iria ir para o além primeiro e eu nem teria que sujar minhas mãos com a merda da profecia. Meia hora depois que ele comia e não caia morto, eu considerava válido pegar a colher.
De vez em quando, Alec encenava que estava morrendo envenenado. Na primeira vez, Layla quase ligou para o Samu, mas agora todo mundo previa isso.
Meu lado perverso se perguntava se um dia isso iria acabar como a fábula do pastor e das ovelhas.
— Só vou ligar para o Samu se começar a ficar roxo — falei, um dia — Ou talvez alguns minutos depois disso.
Vanessa cada dia ficava mais p da vida. Ela, assim como eu, amava pizza, frituras e todas essas besteiras que matam mortais de aterosclerose. Meio que ficamos de dieta com essa história de envenenamento. Acho que ela ficava mais irritada ainda por usarmos o irmão dela de cobaia e também odiava que eu a supervisionasse cozinhando.
— Você tem que ficar me encarando igual uma sociopata? — a ruiva me perguntou uma vez.
— Claro, vai que você coloca veneno aí.
Ela revirou os olhos.
— Meu irmão que vai provar isso primeiro, caso tenha esquecido.
— Se eu tivesse um irmão igual ele, também iria querer colocar chumbinho no omelete dele.
Vanessa soltou um risinho.
— Tô ouvindo isso aí — Alec gritou da outra extremidade da casa, o que arruinou minhas ilusões de privacidade.
Enfim, estávamos tendo muito trabalho com a questão de Layla. Vanessa estava oferecendo a mão de obra; Alec, a vida e eu, minha sanidade. Era até comovente, mesmo sabendo que eles nunca fariam isso por mim. Mas era um trabalho do cscete para Layla não cair estendida no chão.
E eis que a anta iria sair para uma festinha. É claro que apelei para a chantagem emocional.
— Eu não acredito que você vai fazer isso. Toda essa história de veneno tá me deixando louca, quase cogitei comprar um macaquinho igual dos Borgias — Não mencionei que usar Alec era mais barato e não infringia leis de proteção aos animais — Estamos todos sem comer coisas boas, só essas paródias de MasterChef da Vanessa. O coitado do Alec, até eu tenho que admitir, tá virando testador de comida.
E usar o Alec era uma certeza de chantagem emocional visto que ela tinha uma quedinha por ele.
— Ele está colocando a vida em risco por você. Você realmente vai desperdiçar isso com Hermes?
Parei por alguns segundos para calcular o que falar. Devia parecer dramático, mas não dramático demais.
— Tudo bem, prometo que não vou comer nada.
— Vou fazer Vanessa ir com você — decidi.
Bom, garantias são necessárias. Eu mesma iria se não detestasse festas, o excesso de som me dava dor de cabeça e isso não é drama, fui oficialmente diagnosticada com hiperacusia leve. Luzes piscando, gente pulando, cheiro de suor e de monte de perfume misturado eram um bonus.
Para ser sincera, acho que o inferno é um salão de balada lotado tocando Dancing Monkey em volume máximo.
— Eu não preciso de babá.
— Não reclame se não vou te amarrar no quarto.
Ela abriu a boca para falar besteira, aposto.
— No quarto de Alec — Acrescentei maliciosamente.
Ela riu.
— Talvez eu fique.
Olha, não seria difícil. Alec já era o provador de comidas, promover ele a escravo sexual seria fichinha.
Então, saí do quarto e fui invocar Vanessa. Esse foi meu primeiro erro da noite.
Naquele horário, Vanessa estava ocupada tapeando e fazendo de trouxa a população do Tinder. A cada 3 minutos, ela me contou uma vez, ela tiva tirava um print para mandar para a "Print de machos passando vergonha". Considerando o que sei sobre aplicativos online, isso devia ser verdade. Vanessa tinha uma paleta de instrumentos de tortura para macho escroto: stickers de "que piroquinha mixuruca", videos de capirotos horrendos que ela colocava com algum hack — nunca descobri onde ela arranjava essas imagens — para quando solicitavam chamada de vídeo e um monte de outras coisas que poderiam dar cadeia por tortura psicológica e chantagem.
Quando descobri isso durante a viagem, tive que dar o braço a torcer. Vanessa era interessante. Se ela não agisse como uma filha da meretriz comigo, ela seria o tipo de pessoa que gosto — diabólica.
Não foi difícil convencer Vanessa. Ela estava cansada de passar a maior parte do tempo enfurnada em casa, já que minhas favoritas para sair eram Layla e Idia. Depois, passei na sala para buscar a gata, que estava ocupada assistindo TV — pelo visto, até felinos mágicos gostam de ver imagens se movendo rápido —, só por garantia, caso Vanessa não ficasse atenta o suficiente em Layla.
Então, só descobri que fui feita de trouxa quando entrei no quarto e ele estava vazio.
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