Equilibrium
5 Capítulo 4 - Ovos voadores
O palácio em formato de dragão-serpente era bastante impressionante por dentro, não tanto quanto o lado externo — Mas, cá entre nós, uma obra arquitetônica simulando um dragão é bem impressionável. Suponho que os engenheiros de Dubai matariam para poder assinar uma obra daquela.
O saguão de entrada era quadrado e amplo, um dos trechos da "raiz". As paredes eram de mármore creme e tinham colunas decorativas de estilo jônico apoiada em segmentos do salão. No teto, em formato de abóboda, havia uns lustres enormes e metálicos.
Achei um desperdício, todo mundo sabe que se deve colocar afrescos em teto de abóbodas. Lustres pra quê? Alerta de spoiler: Se eu tivesse falado essa opinião para Ilithya, alguns problemas poderiam ter sido evitados. Ou seja, mau gosto atrai encrenca.
No centro do saguão, onde ele se dividia em corredores, havia uma estátua que quase alcançava o teto. Parecia mais antiga que Palas Atenas, o estilo ainda era rígido e não muito fluído. Era uma mulher segurando um tridente em uma mão e uma coroa na outra. Apesar de não ter o estilo dinâmico das obras gregas menos antigas, o nível de detalhes era altíssimo. O rosto da estátua não tinha aquele padrão de rosto comum de estátua — Você sabe, aquele nariz reto, boca semi-inexistente, formato de rosto triangular. Era claramente uma mulher jovem, com maçãs do rosto altas, lábios pequenos em formato de coração e um olhar… bem, aristocrático.
A propósito, os olhos dela eram preenchidos por uma pedra azul pálida que dava uma impressão bem realista que a estátua de mármore estava te encarando.
— Quem é essa aí? — Eu realmente não lembrava de nenhuma deusa com tridentes. Ok, nenhuma deusa com só um tridente, me desculpe, Kali.
— Você — minha mãe falou com a maior naturalidade do mundo. Parecia que ela acusava as pessoas de serem representadas em estátuas enormes todos os dias.
Bom, a única coisa inteligente que consegui pensar foi:
— Ué, mas meus olhos não são azuis — É, estava sendo um dia longo, não julguem meu pobre cérebro desgastado.
— Foi na outra reencarnação — Minha mãe explicou com um leve tom irritado.
Monstros, deuses, descendentes de deuses, dimensões… Por que não reencarnações, né?
— O que fiz para merecer uma estátua desse tamanho?
Admito, isso me pegou de surpresa. Apesar da minha autoestima ligeiramente alta, nunca pensei que seria o tipo que ganharia estátuas gigantescas. Talvez uma estátua menor e com Wi-fi, igual a de Tesla, depois que eu ganhasse um prêmio Nobel.
— Você quebrou um regime de extinção de descendentes de deuses que uma rainha tirana impunha. Praticamente todo descendente de deuses conhece a história de como Diana derrubou Trivia.
Sim, ela tinha acabado de dizer que eu tinha derrotado um Hitler mágico. Depois disso, comecei a notar que tinha algo errado no diagrama. Se eu era tão santa e todo mundo me amava, — as pessoas tendem a adorar heróis que derrotam genocidas — por que ela me criou entre os mortais? Não era mais fácil me criar como uma espécie de feiticeira desde o início?
Encarei ela e a minha gata. A gata olhava fixamente um ponto na estátua, aparentemente, gatos mágicos têm os mesmos hábitos que os comuns.
— Por que você não me criou por aqui?
O rosto dela continuou uma máscara impassível, só tive a leve impressão que os lábios dela se apertaram.
— Bom, lamento informar, mas você acabou exterminando uma quantidade considerável de humanos em seus planos de vingança. Achei que seria bom que você convivesse com eles para evitar repetir erros anteriores.
Ok, eu sei que vocês estão me julgando por engolir isso, mas de ponham no meu lugar: Imagine que você passou sua vida inteira pobre, virando sardinha enlatada em ônibus em horário de pico e de repente, sua mãe diz que é milionária e só queria te ensinar a ter uma vida humilde. É claro que você ficaria revoltado, mas a alegria de saber que estava rico engolia a revolta.
Era assim que eu me sentia. De repente, me tornei a filha de uma deusa primordial e não só isso, a reencarnação de uma espécie de uma heroína — não muito santa, mas quem é 100% bonzinho nesse mundo.
Isso era muito clichê. Lembro de uma época que resolvi escrever resenhas e eu sempre criticava o clichê do Escolhido. Verdade seja dita, há alguns milhares de livros e fanfics em que o personagem principal é o mais forte e/ou escolhido para cumprir uma profecia, ou seja, tem um super destaque em relação aos demais. E olhe eu, a reencarnação de Diana.
Sinceramente, eu não via nenhum problema, se as Parcas fossem tão criativas quanto escritoras de fanfics bacião, tudo bem, melhor para mim. Saber que vai ganhar no fim da história sempre é consolador.
— Vamos, temos que ver seu quarto — minha mãe quebrou minhas reflexões — Você vai ficar no mesmo quarto que a sobrinha da regente daqui.
Ah, reencarnações e quartos dividimos. Ela realmente poderia esperar eu sentar antes de começar a despejar notícias.
Infelizmente, os quartos ficavam nos andares superiores, ou seja, escadas intermináveis. Nunca estive fora de forma, minha mãe sempre me colocou para fazer karatê e até ninjutso, mas juro, meus pulmões pareciam que iriam explodir. Em comparação, minha mãe e Idia estavam plenas.
Meu estado era quase o de um zumbi cardíaco quando cheguei no andar do bendito quarto. Antes de virar o corredor, ouvi uma voz estridente gritar:
— Alec, devolve meu carregador!
Suspirei e fechei os olhos dramaticamente. Eu conhecia aquela voz. A voz de Vanessa sempre subia algumas oitavas quando ela gritava.
Bem, eu conheci Alec e Vanessa há 6 anos atrás, quando eu era um diabrete de 11 anos. E pior, eu era o diabrete.
Estava sendo a pior férias da minha vida. Mamãe cismou de passar uma semana na casa do sítio de uma amiga dela, o problema é que a amiga dela era quase a Madre Teresa de Calcutá. Acordava todo dia às seis da matina, só comia coisas fitness — naquela época era natureba — com gosto de papelão e só dormia cedo. Claramente, eu tinha motivos para ser o diabrete.
Naquele dia em questão, minha mãe tinha comprado torta de morango para mim. Suspeito que ela estava achando que eu estava a um passo da crise de abstinência de comida não saudável. E justamente naquele fatídico dia, Vanessa e Alec iriam visitar a casa de Agnes, a madrinha deles.
Eu já estava no meu segundo pedaço de torta quando as batidas começaram. Aparentemente, o mundo estava acabando lá fora. Já contei para vocês como odeio gente exagerada? Eu detenho o monopólio do exagero e apenas eu.
— Christine, vá abrir a porta — mamãe falou.
Eu era a criatura mais próxima da porta e por algum motivo ainda não conhecido, adultos acham que crianças são mordomos. Qualquer coisa, chame o pirralho para resolver!
— Christine, vá abrir a porta — Agnes falou dessa vez. Eu já não gostava dela por natureza e ela ainda tentava me dar ordens…
Se eu já não estava motivada para abrir a porta, aquilo aumentou meu combustível interior de maldade.
— Eu vou abrir — um dia.
— Christine, a porta — Layla suplicou. Como sempre, a coitadinha foi arrastada para minhas encrencas. Bom, eu não poderia passar as férias no paraíso sem companhia.
— Ela pode esperar — A torta estava tão boa. Você nunca sabe quanto gosta de besteiras até ficar uma semana sem comer.
— Christine! — mamãe ralhou.
— Vá abrir a porta… — Layla murmurou concentrada em cortar seu pudim em três pedaços iguais. TUM, TUM, TUM!
TUM, TUM, TUM!
— A PORTA, CHRISTINE — Mamãe gritou, aparentemente, a semana ideal estava tendo alguns efeitos nela — CHRISTINE, LEVANTE DA SUA CADEIRA AGORA E VÁ ATENDER A PORTA ANTES QUE EU JOGUE UM OVO NA SUA CABEÇA!
Desculpem, eu realmente odeio escrever em caixa alta, mas ela gritou alto pra caramba. Eu precisava transmitir o sentimento corretamente para vocês.
Eu dei um sorriso maléfico diante da ameaça dela.
— Você não teria coragem.
Mamãe cravou o garfo em um dos ovos fritos sem óleo do prato e apontou para mim. Meu nível natural de maldade interior dobrou. Peguei uma maçã 100% orgânica e me empoleirei na cadeira.
— O ovo não! — Agnes implorou se levantando também com as mãos na cabeça.
— Não se iguale a Chris. Christine, vá abrir a porta. — Layla tentou mediar entre nós. Como sempre acontecia, a chinezinha era a voz da razão.
— A porta Christine — o garfo foi brandindo na minha direção. O ovo ameaçou cair.
TUM, TUM, TUM!
— Eu vou contar até três.
— E eu até cem. Você não vai joga-lo.
— Um...
Pulei da cadeira e me novo lentamente de costas para a porta. Minha mãe continuou me cercando com o garfo na mão. Ah, eu realmente não acreditava que ela estava caindo nesse truque.
— Eu duvido você ter coragem. —TUM, TUM, TUM! Mais cinco passos e eu estaria na porta.
— Dois...
Meu corpo tremeu quando minhas costas encostaram na porta que balançava por conta das batidas.
—Abra, Chris — Layla avisou cautelosa, alternando o olhar entre eu e o ovo.
—Três! — Mamãe lançou o ovo em um arco perfeito, que ia para direto na minha cabeça.
— Como quiser — Abri a porta, saindo do caminho do ovo voador.
— Até que enfim resolveram… — Paft! O ovo aterrissou na cara do menino que estava falando irritado.
Explodi em gargalhadas, meu estômago doía. Parado na porta, estava um garoto com gema na cara inteira. Ao lado dele, uma menina segurava um chihuahua de modo protetor — Será que ela achava que eu iria devorar aquele morceguinho?
Demorou uns 5 segundos para minha mãe notar que tinha dado um belo boas vindas.
— Oh! Por favor me desculpe! Eu não queria...— Ela começou se aproximando do garotoe começando a ajuda-lo. Ele livrou-se da mão dela com um safanão.
— É assim que vocês recebem suas visitas?— Ela disse mal-humorado, finalmente desgrudando o ovo do rosto. — Sei que é hora do café da manhã, mas não precisava tentar me fazer engolir um ovo logo de cara. Espere eu pelo menos me sentar.
Ao lado dele, a irmã estava começando a abrir um sorrisinho, afinal, não existe nada no mundo que é mais engraçado do que ver o irmão se ferrando. Layla correu pegar umas toalhas.
— Por favor, me perdoe. Eu não tive a intenção de acertá-lo — Mamãe parecia quase desesperada para obter uma desculpa.
— Então vocês atiram ovos em portas por pura diversão? — A menina parecia realmente espantado.
— Não! Eu queria acertar ela… — Ela virou-se para fuzilar uma Christine rolante que morria de rir.
— Ela é sempre assim? — A menina perguntou, me observando com incredualidade.
Ninguém teve coragem de responder.
Layla passou a toalha no garoto, deixando ele com uma quantidade menor de gema. Ele era bonitinho (Ninguém é realmente bonito aos 11 anos. Fofinho no máximo) e Layla ficou limpando o focinho dele mais que o necessário.
— Espertaaaa — sussurro e voltei a gargalhar.
Ela queria morrer de vergonha, acho. Levei uma discreta cotovelada no meu estômago.
Milagrosamente, depois de tudo isso, eles se apresentaram e fomos a mesa continuar o café da manhã. Salve, salve, poder de resiliência. Exceto eu, já que não tinha cadeiras, fiquei sentada encima da mesa.
— Christine? — Agnes chamou.
— Pois não? — Disse educadamente se virando para ela.
— Saia de cima da mesa.
— Mas é tão confortável aqui — falei esticando as pernas e a jarra de suco de laranja por pouco não foi atirada para fora da mesa.
— Desça da minha mesa, Christine.
— Você adora dizer meu nome não é? — perguntei — Chris. Chris. Christine. CRISTINE! Christine. Mas eu peço, ele é bonito demais para que o gaste tanto. Agora se quiser gastar Vanessa... Este sim pode ser usado. Vanessa...VANESSA!"
Gritei ouvido desta que estava distraída com a minha torta de morango. A garota pulou com o susto derrubando na toalha branca um pedaço de torta. Muito tragicamente, o copo de suco de laranja caiu no celular de Vanessa.
É, crianças, nunca usem celular enquanto comem. O vício pode custar caro.
A garota me encarou fixamente. O rosto dela estava tão vermelho quanto o cabelo dela.
— Presidente Au Au, pega! — ela gritou.
Demorou dois segundos para eu lembrar do Pepito. O chihuahua. Mais dois segundos depois, eu estava pulando para fora da mesa com um chihuahua preso no meu tornozelo.
E foi assim que nos conhecemos. Vanessa com um celular a menos, Alec com a cara gemada e eu com alguns pontos provenientes de uma miniatura de cachorro.
Obviamente, isso formou uma inimizade bem sólida.
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