Equilibrium

37 Capítulo 36 - Altas taxas de mortalidade


Existem pessoas no mundo que amam discordar de você. Não importa se elas concordam, só vão discordar para ter o prazer de te azucrinar. Alec era assim, não consigo nem contar quantas vezes ele me atazanou nas aulas de retórica.

Vocês nem podem advinhar minha surpresa quando ele concordou em queimar a casa de primeira. Bom, sinal que a coisa estava grave.

— Pessoal, corre aqui, socorro! — gritei com minha voz mais desesperada. Alec ergueu uma sobrancelha, dando sinal que pelo menos a musculatura facial dele ainda não tinha pifado.

Parece dramático, mas foi um método muito eficiente para todos sairem da casa rápido.

Vazia, a casa queimou como uma pira. O fogo ficou concentrado na parte inferior, depois consumiu as janelas e madeira de madeira maciça e por fim, tudo começou a ruir.

— O que vocês estão fazendo? — Idia estava com os olhinhos azuis arregalados — Vocês tem ideia de quantas obras nunca expostas foram queimadas? Você está apagando o que Elise deixou na terra, moleque…

— Ela deixou metade do meu DNA — Alec disse — E acho que ela iria prefirir salvar isso do que quadros.

Idia ainda parecia que iria esganar ele, que por dua vez, parecia que iria cair morto a qualquer momento.

Lentamente, ele abaixou a barreira em torno da casa. Felizmente, os defuntos pareciam ter retornado para o estado normal — não animado — e a névoa estava só no local padrão. Então, eu estava feliz apesar de estar cercada por uma massa de corpos congelados e fumaça.

"Ah, toma essa, Trivia, você não esperava que a casa virasse tostado".

E, é claro, a sensação de alegria não durou muito.



Eu poderia encher linguiça facilmente contando a reação da pobre Vanessa e do Sam quando viram a gente no meio do caos — o sinal demorou pra voltar, então nem deu para preparar os coitados para o impacto. Mas vou resumir: Vanessa estava totalmente preocupada com o irmãozinho — que eu tinha deixado de me preocupar. Como Trivia não tinha nos matado, a possibilidade dele me matar voltou à tona — e me olhava como se de alguma forma, a responsabilidade de tudo fosse minha. Sam estava feliz por não ter sido pego no meio do caos, creio eu. Até achou tudo muito engraçado.

No fim, fomos todos via teletransporte para um hotel que Ilithya confirmou que era seguro.

Então, aí começa a parte interessante. Tinha uma visita no meu quarto.

Trivia? Defunto querendo me matar?

Não. Mamãe.

Ela estava lá, plena e calma, sentada na minha cama com as pernas cruzadas — evidenciando umas botas de couro incríveis — e com expressão de irritação.

Se fosse outra pessoa que tivesse me colocado nessa situação e depois aparecesse, acho que eu iria meter a mão na cara dela. Mas era minha mãe, então só me apoiei na parede e tentei parecer angelical. Pela cara dela, alguma merda eu tinha feito.

— Oi, mãe.

— Por que você queimou a casa? — Ok, nada de "Oi, Christine, lamento tudo isso, não esperava que as coisas saíssem do controle".

Parei um pouquinho. Me parecia uma pergunta muito óbvia, igual pegadinha de prova.

— Não gostei do papel de parede da sala.

Ela olhou para Idia.

— Ela não sabe a merda que fez.

— Ela não sabe de nada — Fiquei ligeiramente ofendida ao ser comparada com aquele traste.

Levantei a mão.

— Talvez eu não saiba de nada porque ninguém me conta nada. O que acham?

— O problema é sua imprudência e síndrome de querer ser heroína. Era só para deixar acontecer. Ele iria morrer naturalmente, seria consagrado um herói que morreu para salvar Diana.

Foi aí que comecei a captar que tinha caroço no angu.

— Não foi Trivia que invocou aqueles defuntos?

— Não. Você realmente achou que eu deixaria uma ameaça à minha filha andando por aí?

Fiquei até comovida. Desde que tinha descoberto que minha mãe era uma deusa e bem, toda essa confusão, comecei a ter aquela desconfiança de "nem minha mãe me ama" — Cá entre nós, dificilmente é uma prova de amor mandar sua filha roubar/adquirir adagas de deuses enquanto uma necromante possivelmente sociopata a persegue.

Enfim, fiquei aliviada dela gostar de mim suficiente para tentar matar Alec. Eu gosto de provas de amor peculiares.

— Acho que até te abraçaria se você não tivesse sido um porre comigo há alguns segundos atrás.

De qualquer forma, ela não gostava de abraços mesmo. Minha mãe me olhou com uma expressão mais amena, ou seja, sem a carranca de "Christine-você-fez-merda".

— Vou mover os palitos novamente para tentar matar ele. Você não vai interferir dessa vez.

Em minha defesa, como eu poderia advinhar que toda aquela manada de defunto queria a cabeça dele e não a minha? Eu poderia ter pulado do telhado — o que seria o desfecho de história mais idiota do mundo, logo depois de Romeu e Julieta.

— Vocês duas bem que poderiam ter me contado antes.

Idia levantou uma patinha.

— Desconfiei que se você não parecesse preocupada suficiente, iriam começar a desconfiar.

— Mas eu atuo bem.

— Nem sempre. Você sempre fica com cara de satisfação quando está aprontando.

Cheguei a conclusão que a gata era míope, obviamente.

— Mas, você não vai dar nenhum indicio que sabe de algo na próxima. Certo?

— Certíssimo.

E considerando a metodologia dela, eu nem preciria fingir porque seria algo tão aterrorizante quanto defuntos saindondo nada.

— Então, já vou indo — Minha mãe se levantou e começou ir para porta.

— Espere, preciso falar uma coisa.

Bom, ela já achava que eu era uma toupeira — inustamente, devo dizer — mesmo, então, o que podia piorar?

— O que foi? — mamãe parou.

Respirei fundo e joguei a bomba:

— Eu não estou mais com a adaga de Hermes.

Minha mãe ficou estática por dois segundos. E quando digo estática, quero dizer tanto "parada" quanto fazendo o ar crepitar. Depois, ela semicerrou os olhos e sorriu.

— Tudo bem, você quase me pegou.

— Não é pegadinha — ergui as mãos — mas não precisa se preocupar, ela sempre devolve.

Minha mãe estava com aquela cara de quem queria me esganar. Idia até parou de lamber a pata para ver o espetáculo.

— Trivia?

Era bastante óbvio que era, mas evitei falar isso, parecia ser a receita para a incineração.

— Ééé, eu escondo a adaga, ela acha, some com a adaga e depois faz aparecer pra mim de novo. Sinceramente, achei que ela estava tirando uma com a minha cara.

— Oh, você acha?

Eu realmente odiava quando ela começava a virar a ironia dela para mim.

— Mas ela também pode estar fazendo isso para motivar você a interferir e ficar mortal por instantes.

— Érebo é estúpido se acha que vou cair em um truque barato desse.

Se Érebo tivesse 13 do QI da filha, duvidava que ele fosse estúpido.

— Fique calma, vou dar um jeito na questão da adaga. Vou fazer alguém criar uma réplica com níveis de energia parecido e vou pagar alguém Pará teletransportar ao redor do mundo pelo menos três vezes por dia.

Me parecia bom. Até me senti meio besta por não ter conversado com ela antes.

— Mas vou ter que esconder essa adaga em você.

Algumas cenas no mínimo muito bizarras voaram na minha mente.

— Humm, não, obrigado.

— Preciso colocar em um descendente direto de um primordial para camuflar os níveis de energia.

Dei os ombros.

— Você não pode pagar alguém?

— E correr o risco dessa pessoa se voltar contra mim de alguma forma?

— Ok, mas não gosto de procedimentos invasivos, então nada feito.

Ela fez um gesto de desdém com a mão.

— Fica calma, é quase igual uma tatuagem, vou esconder a adaga na forma de runas.

— É, fica calma — Idia disse — Só tem uma taxa alta de mortalidade, mas fica bastante estético.

Eu não gosto de altas taxas de mortalidade, então fiz questão de expressar isso. E cá entre nós, esconder uma adaga poderosa no corpo (em forma de runas, que seja) deveria ter algum efeito semelhante a comer césio 137.

— Eu vou dar um jeito para que não precise recorrer a isso.

O jeito era: matar Trivia o mais rápido possível. Como? Onde? Quem? Bom, eu daria um jeito.

— Bom mesmo — Idia disse — Você lembra o que ocorreu com aquele cara que tentou esconder a Caledfwlch?

Eu nem sabia o que era aquela porcaria, nem porque alguém tentaria esconder, mas dava para supor que o desfecho foi ruim.

— Só por curiosidade estritamente academica, o que aconteceu?

Minha mãe fez um gesto para Idia ficar quieta, mas a gata falou mesmo assim:

— Entrou em combustão espontânea. A sala fede até hoje.

Lindo.

— Motivador.

— Ele era só um filho de Ares. São facilmente quebráveis.

Facilmente inflamáveis também, pelo visto.

— Bom, vou dar um jeito. Não precisa disso.

Minha mãe parecia cética.

— Uma hora, Érebo vai se cansar… e o desfecho vai ser 100% de probabilidades de você morta, caso ele tenha controle pleno.

Por que nada na minha vida era fácil?

— Bom, vou indo — Minha mãe disse — Idia, quero que você mate todos os necromantes do contrato que não fazem parte da minha linhagem.

Ah, não seria nada bom se chegasse no ouvido de Ilithya que Nix deu ordens para matar o sobrinho dela de esgotamento.

— E Christine, preciso que você dê ordens para Idia matar uma mulher chamada Dana Yaslev — ela sorriu, um tantinho diabólica — No contrato dela, ela exigiu que não poderia ser morta por mim ou por alguém que eu enviasse.

E então, ela faria outra pessoa mandar.

Fiz uma nota mental de não fazer acordo com deuses, era praticamente vender a alma para Satã.