Equilibrium

25 Capítulo 24 - Oportunidades iguais


Pensei que iria cair no sono igual pedra assim que me jogasse na cama. Ledo engano. Acho que tinha adrenalina demais no meu sistema.

Já que dormir estava fora de cogitação, comecei a pensar.

Existiam duas ramificações: A) Se Hermes descobriu tudo e B) Ele ainda nem sonha. Como vivemos no mundo real, a A era mais provável.

Aliás, a A explicava muita coisa controversa, como por exemplo, um monstro mitológico da América do Sul indo parar na Sicília para uma festinha. Tenho que admitir que era um projeto de vingança muito elaborado, mas efetivo se desse certo: Só iriamos encontrar Layla afogada — supondo que o leão marinho não comesse ela literalmente — e ninguém conseguiria acusar Hermes. Iria ser só mais um caso de adolescente morrendo afogada por nadar de madrugada.

Se eu fosse uma deusa, só iria transformar ela em sardinha mesmo. Mais rápido, sem corpos e queria ver nego achar uma sardinha no meio do oceano inteiro. Mas nem todo mundo gosta de simplicidade. Talvez Hermes fosse desse tipo.

O único problema dessa linha de raciocínio era Hermes me contando que Layla foi para a praia com um cara. Se a criatura ficasse quieta, eu iria perder uns 15 minutos procurando ela pela casa. E nesse tempo, daria mais do que o suficiente para certificar que ela estaria no pós-vida.

Talvez Hermes tenha problemas para calar a boca. Ou quis me torturar garantindo que desse para encontrar o corpo?

A outra hipótese era que Hermes não tinha culpa no cartório e a criatura foi invocada por Trivia. E isso não era tão improvável, considerando os bichinhos que ela já mandou atrás de mim.

E se isso fosse verdade, o timer já estava tocando na minha cabeça. A enrolação da falsa Christine estava começando ir por água abaixo e a suspeita dela estava concentrando em mim? Que maneira mais ideal de provar a identidade de alguém do que colocar a melhor amiga dela se afogando na madrugada para medir a reação?

Eu esperava que não tivesse parecido muito emocionada. Talvez meu momento bullying tivesse sido útil. Vamos ser sinceros, Layla tinha acabado de ser afogada por um ser bizarro e eu estava fazendo piadinhas.

Enfim, eu era uma filha da puta.

Mas aquilo foi útil até, além de ter me dado uma distração para evitar surtar na praia, pode ter passado uma impressão de insensível para Trivia.

Aquilo era uma excelente linha de raciocínio. Eu iria usar no dia seguinte para me justificar com Layla.

E também havia a probabilidade rasa que ninguém tinha invocado o treco. Hermes só tinha mandado convites para tudo que é lado e Layla era especialmente azarada.

De qualquer maneira, se Hermes sequer sonhasse com as câmeras, ele iria querer dar o troco. Sem dúvidas, qualquer afeição que ele tivesse por mim e por Layla iria virar pó de fada. Isso iria dificultar pra cacete os planos para pegar a adaga.

Pensando bem, pegar a adaga seria utopia. Provavelmente teríamos que sair correndo com os rabinhos debaixo das pernad e torcendo para não virarmos suricatos no meio do caminho.

Eu não consigo verbalizar quão vergonhoso seria chegar para minha mãe e dizer: "Bem, acho que não consegui nem a adaga 1".

De qualquer forma, vamos a parte B, que talvez não fosse tão improvável — sim, eu oscilo entre pessimista e otimista. Naquele caos de festa, Hermes poderia não ter visto Layla colocando as câmera. E eles não era difíceis de ser colocadas, tinham superfície aderente e funcionavam por bateria. Durariam pelo menos uns 3 dias.

E caramba, eu conseguiria fazer bastante coisa em 3 dias.

Lentamente, um plano foi se formando. Era a solução para meus problemas: um método de matar Trivia e conseguir a adaga. De quebra, com Trivia fora do cenário, eu seria a única rainha restante, aí ficaria bem mais fácil determinar os procedimentos quanto a Alec.

Eu só iria precisar de algumas coisas: Persuasão, uma adaga, muito sangue de galinha e um cabo de vassoura.



No dia seguinte, acordei às 16 horas. Aposto que você está pensando: Eita, tarde pra cacete, como você dorme, criatura. Em minha defesa, até que acordei cedo. Pelo menos, Layla e Alec acordaram mais tarde que eu.

— Você consegue me explicar como vocês chegaram em casa molhados igual um pinto? — Vanessa perguntou calmamente enquanto bebia cházinho.

Deliberei se contava ou não.

— Mergulho noturno.

Ela ergueu uma única sobrancelha. Devia ser dom genético de fazer isso.

— Interroguei Alec quando ele estava na fase REM do sono.

— Isso funciona?

Nós tivemos uma professora de inglês que dizia que interrogava a filha enquanto a coitada dormia e funcionava. Antes de tudo, quero enfatizar que não concordo com esse tipo de comportamento.

Já pensei em testar, mas me faltava coragem para tentar com a minha mãe. E se ela acordasse do nada e me pegasse em flagrante? Eu me sentiria uma palerma.

— Ele falou coisas muito confusas sobre leões marinhos.

Pois é, funcionava.

— Por mais estranho que possa parecer, provavelmente tudo que ele falou sobre leão marinho é verdade.

Ela pareceu decepcionada.

— O plano de pegar a adaga de Thanatos é meu — a ruiva disse — Perdi toda a diversão aqui.

Eu poderia argumentar que ficar o dia na piscina era mais gostoso que sair dando mergulhos de madrugada.

— Vai sonhando — A pobre iludida achava que teria parte dois do plano.

Depois disso, cacei o notebook de Layla pela casa, o que foi um tanto difícil porque nunca consigo achar as coisas. Parece até déficit de atenção, não consigo achar coisas na minha cara. Felizmente, Layla não tinha trocado a senha — Turing — e o aplicativo das câmeras continuava lá.

As câmeras mostravam o quintal, as duas salas principais, a cozinha e um dos quarto, ou seja, uma área considerável. A propósito, a festa de Hermes tinha varado o dia seguinte.

Pensando no ângulo positivo, Hermes talvez tivesse tirado as câmeras se descobrisse elas dando sopa. Provavelmente enfiaria elas na boca de nossos cadáveres de suricatos. Ou então ele deixou lá para me dar expectativa.

Vai saber como funciona a mente de deuses.

— Isso aí é Hermes indo com mais 3 pessoas para o quarto? — Vanessa perguntou, erguendo o pescoço para ver por cima do meu ombro.

Voltei a prestar atenção na tela. E era mesmo.

Joguei o notebook no colo de Vanessa.

— Observa aí se rola alguma coisa altamente vergonhosa que dê para extorquir depois.

Ela sorriu perversamente.

— Será um prazer.



Infelizmente para mim, Hermes não tinha nenhum esqueleto escondido debaixo da cueca. Nada de broxisse ou ejaculação precoce. Nada que desse uma boa chantagem:"Me passa a adaga ou o Olimpo vai saber que você não é deus dos mortos, mas convive com algo bem mortinho".

Desonesto e anti-ético, mas como estamos falando do deus da trapaça, que certamente fez coisas piores do que isso em seus milênios, não soa tão ruim. Que os meios se danassem, eu precivasa daquela adaga.

Então, horas mais tarde, fui negociar com Hermes, só eu e uma gata falante.

— Você deveria estar com uma escolta maior — Idia falou no meio do caminho.

— Chances altíssimas da escolta voltar latindo.

Latindo era uma opção gentil para o que Hermes faria se estivesse planejando se vingar. Hermes não iria fazer nada comigo por causa da minha mãe, suponho, mas isso não se aplicava aos outros.

— Bom saber que você não se preocupa com a minha saúde — Idia bufou.

— Pff, você já é uma gata. Ele não seria tão estúpido ou esquisito.

Juro que perdi alguns segundos da minha vida filosofando se uma gata metamorfa conseguiria mudar de forma após uma divinidade transformar ela em um bicho específico.

— Perdemos a oportunidade de trazer Alec. Hermes poderia transformar elw em um peixinho-dourado — Idia constatou.

— Aí era só dar ele de janta pra você e acabou nossos problemas — ri da cara horrorizada da gata.

Depois disso, ficamos quietas até chegar na casa de Hermes. Como sempre, a criatura estava estendida igual um lagarto do lado da piscina.

Visto que não tinha nada a perder, pulei na piscina com o máximo de força para espirrar água nele.

— Pô, essa água tá gelada.

— Agora a princesa é feita de açúcar — falei — Saia do estado de ectodérmico paralisado, precisamos conversar.

Era bem mais fácil conversar na piscina enquanto nadava. Em uma mesa, ele poderia notar algum tremor na minhal mão, um pé batendo. Na água, dava para mergulhar e bater os pés e ainda passar a imagem de criatura descontraída.

Como vocês podem ver, eu não dou ponto sem nó.

— Que foi? — A imagem da inocência.

— Lembra da adaga? A causa número um da minha vinda?

— Certamente a causa dois foi infernizar a vida de pobres seres e a causa três foi se esparramar na minha piscina.

Fiz um gesto de desdém com a minha mão.

— Detalhes, detalhes — Dei meu sorriso mais angelical e amigável — Bem que você poderia facilitar minha vida…

Era o momento decisivo. Caso ele soubesse das câmeras, ele iria soltar algum "Que engraçado, quer ajuda depois de ter entupido minha casa de câmeras".

Hermes abaixou os óculos escuros.

— Meu bem, eu sou mais neutro que a Suiça. Sem chances.

Bem, poderia ser pior. Já tinha previsto isso, seria muito utópico de a criatura simplesmente fosse para a cozinha e voltasse com a adaga.

— Bom, por onde posso começar a te convencer… — mergulhei novamente — Você está ciente que Érebo está controlando o pedágio divino e qualquer hora pode ir atrás de você, sabe, uma garantia que a adaga vai ser dele e o controle de tudo também.

Ele levantou a mão.

— Assim como sua mãe se eu entregar a adaga. Sei que ainda é uma jovem imatura e inocente, mas sua mamis não é tão legal — Revirei os olhos — E por enquanto, Érebo não fez nada demais.

— Claro, ele sabe que estou atrás da adaga. Se ele aprontar uma, ele mesmo vai criar um argumento para mim.

— E dois: pode não parecer, mas estou salvando sua vida. Pegar adaga de mim é fácil, quero ver tirar do Thanatos. Melhor já ir se decepcionando e desistindo desde já.

— Você fala da minha vida, mas quem está entre a cruz e a espada aqui não sou eu. De qualquer ângulo, Nix ou Érebo vai ficar com uma adaga e um ou outro vai ficar puto com você.

— Aí é que você se engana. Érebo já tem a sacerdotisa trabalhando por ele. Thanatos, o filho dourado dele já tem uma adaga e não vai dar para Nix, então ele já tem a garantia de controle pleno. Posso seguir minha vida em paz tomando solzinho porque minha adaga é inútil pra ele.

Respirei fundo. Esse era o ponto que refleti a noite inteira até me lembrar de Layla falando da quantidade alta de descendentes de deuses que se suicidam.

— O domínio dele depende da sacerdotisa que está trancada lá há só os deuses sabem quantos anos. Você acha que ela gosta de ficar a vida inteira olhando para o nada? Tenta advinhar o que Érebo prometeu em troca da ajuda dela?

Hermes franziu o nariz.

— Que perspectiva mais humana.

Se os descendentes de deuses normais e soltos por duas dimensões saiam pulando de pontes, imagine uma coitada trancada em um templo no meio do nada.

— Sem a sua adaga, ele não solta ela. Quando ela parar de colaborar, Érebo não vai poder substituir também.

— Que seja, então entrego a adaga para ele e acabou. Se manter do lado do poder vigente é mais fácil.

Mergulhei de novo.

— Aí que entra seu probleminha: Você vai estar quebrando seu tratado de Suiça e minha mãe vai ir atrás de você.

Nix era uma deusa capaz de tirar a imortalidade dos deuses, ou seja, não é a pessoa que você quer irritar.

— Érebo vai ir atrás dela antes.

— Será que ele vai ser rápido o suficiente? De qualquer forma, ele vai ser bem grato enquanto estiver com as duas adagas e você envelhecendo até virar um velho caquético.

Que nada, Hermes morreria de cirrose antes de envelhecer.

— Então você está sugerindo que eu rompa minha neutralidade, entregue minha adaga para você e fique sem nenhuma garantia que você vai conseguir a segunda? Aí já morro logo quando Érebo descobrir?

Enfim, tinha chegado o momento.

— Talvez não seja necessário que você quebre a neutralidade — sorri — E se você oferecer oportunidades iguais entre mim e Trivia para pegar a adaga.

Notas finais
Admitam, quais são suas suspeitas sobre o cabl de vassoura e sangue de galinha?