Equilibrium
24 Capítulo 23 - Quase um caso de criptozoologia
Ocasionalmente penso que comecei a devanear por causa de início de hipotermia — pode parecer exagero, mas entre na água gelade de madrugada e curta um tempinho com vento forte e gelado.
Alguma coisa não fazia sentido no todo. As malditas parcas tinham dito que ela morreria envenenada. Envenenada, não afogada. Então, minha parte racional gritou que podiam ter envenenado ela antes de deixá-la para se afogar. Se bem que parecia muito exagerado. Para quê dois procedimentos se uma garganta cortada faria o mesmo trabalho e mais rápido? Logicamente, era impossível que ela morresse e as parxas estivessem certas.
E mesmo assim, lá estava eu, ouvindo a pressão das mãos de Alec no esterno dela e alguma coisa que ele estava murnurando. Fazia quanto tempo e nenhum sinal?
Outra coisa me incomodava: as malditas parcas. Como alguém poderia saber o futuro? Me parece impossível até definir passado, presente e futuro com precisão. O passado não era fixo, nada mais do que um bando de lembranças acumuladas que poderiam ir de alterando aos poucos ao longo do tempo na memória e na história. O presente é o mais complexo, a última letra que digitei a milésimos de segundos atrás já é passado, meu último pensamento já era passado. E o futuro? Como as parcas podiam determinar um futuro retilíneo se qualquer mera ação no presente pode alterar tudo?
Se analisarmos, a vida é uma espécie de RPG com milhares de escolhas que se ramificam. Escolhas pequenas, grandes e as duas com potencial de alterar tudo. Como as parcas poderiam determinar que Layla não iria escolher a ratificação errada um belo dia e terminar atropelada no farol? Como elas poderiam determinar que não encontrariam alguém debochado que se profetizado para morrer, sei lá, queimado, não se suicidasse lá mesmo e alterasse o futuro previsto?
Parecia irreal. Parecia que eu estava em um mito grego em que forças superiores teciam meu destino em alguma espécie de fio mágico. E naquele momento, o mais bizarro de tudo, eu apreciei a sensação porque se isso fosse verdade, Layla iria viver. Além disso, acima de tudo, se isso fosse verdade, eu seria uma personagem de mito, eu não seria real e logo, todas minhas preocupações também não seriam.
Minha alma nunca poderia ser apagada por chamas negras, afinal, nem eu e nem chamas existiriam. Eu seria só pó de sonho condensado na imaginação de uma parca.
Por um momento, juro que não senti minhas próprias mãos.
Então, ouvi Layla tossir. De repente, todo aquele pensamento parecia inútil. Não importava a maneira que o destino era feito, não importava sobre como éramos feitos. De qualquer jeito, estavamos em um mundo cheio de riscos e precisavamos viver e bem, eu gostava de estar viva. Ficar refletindo demais sobre essas coisas não me seria útil em nada. Talvez me ajudasse se resolvesse ser filósofa, mas ouvi que filosofia não está dando muita grana hoje em dia.
— Oi — Ela disse como se nem tivesse quase passado para o pós-vida.
Me aproximei dela. E dei um soco bem na mandíbula dela.
— Isso foi por escapar pela minha janela e acabar quase morta no fim da noite.
Alec começou a gargalhar.
— Eu estava esperando uma cena comovente digna de filmes de drama.
— Se você fosse esperto, saberia que sou uma criatura imprevisível.
— Imprevisível e violenta — Layla disse.
Me estendi na areia e olhei para o céu. Quase nenhuma estrela, obrigada poluição luminosa. Que noite, meus amigos, que noite…
— Eu iria abraçar você, Layla, mas Christine acabou com todo o clime dramático. E, pensando bem, talvez você não mereça abraços.
Layla suspirou.
— Eu vou ouvir pelo resto da minha vida.
— E será merecido — Adicionei.
Layla se virou para me encarar.
— Se eu tivesse morrido…
Previ uma lição de moral ou alguma coisa chata do tipo, então, interrompi:
— Mas não morreu. Aliás, me explique como você foi parar nas portas da morte.
O que era um modo elegante de perguntar: Ei, como você decidiu que nadar de madrugada e em uma água perto dos 0°C era uma boa ideia?
— Bem, tinha um cara bonito e depois ele não ficou mais tão bonito.
Eita.
— Explane mais — Alec ergueu uma sobrancelha. Considerando que ele tinha levado um fora dela mais cedo, a parte sádica dele devia achar hilário.
— Estavamos dando uns amassos na areia, ele sugeriu irmos para a água, eu aceitei, né. Então, quando eu estava distraída, ele virou uma coisa meio leão marinho com escamas. Não vi direito. Coisa horrorenda e com escamas. Então ele me empurrou para baixo da água — Ela estremeceu — Tentei empurrar ele para longe com telecinesia, mas era igual empurrar uma montanha.
Não foi agradável saber que além de ter mergulhado no escuro em uma água super gelada ainda tinha criaturas esquisitas e afogadoras por lá.
— Layla, você não deve acreditar em nenhum homem que diga que quer transar na água fria — Alec disse.
Gargalhei até minha barriga ficar doendo. Se fosse dia, as bochechas de Layla estariam escarlates.
— Só por curiosidade acadêmica, rolou algo antes da tentativa de afogamento? — perguntei.
Alec colocou a mão no peito.
— Eu me sentiria muito magoado se tivesse levado um fora para depois você ir trepar com um peixe-boi.
Rolei na areia para mais perto e dei um tapinha consolador no ombro dele.
— Alec, você não entendeu, Layla gosta dos bons nadadores.
— Sabe, não sei se isso conta como infração de alguma lei de defesa dos animais.
— Certamente conta. Pobre leão marinho.
— Deveríamos chamar o IBAMA.
— E eu aqui, inocente, pensando que Layla era uma puritana.
— Lindo, até declararam trégua para me infernizar — Layla parecia frustrada.
— A puritana Layla janta leões marinhos… — Alec estreitou os olhos na minha direção e o canto da boca dele curvou — Tenho até medo de descobrir o que você faz, Christine.
Ergui minhas sobrancelhas levemente.
— Talvez eu goste de amarrar garotos intrometidos.
Ele sorriu.
— Isso me parece aceitável.
Layla chutou areia na nossa direção. E, quinto dos infernos, juro que entrou areia até no meu nariz.
Ela se levantou.
— Vamos, não é lá muito sensato passar a noite aqui — ela suspirou — E vocês estão muito animados para quem tomou um banho de água fria — Ela lançou um olhar de censura para mim.
É claro que ela me considerava a traíra que estava flertando com o "crush" da melhor amiga.
Ergui as mãos para o alto.
— Juro que eu estava só brincando — Pisquei inocentemente — E você escolheu o leão marinho, então…
Ela fechou os olhos.
— Eu não deveria ter contado isso.
— Não deveria mesmo. E a propósito, eu não transei com um monstro. Ele estava mais ocupado tentando me afogar.
— Ok, desculpa.
Um tempo depois, quando estávamos a caminho de casa, eu estava tremendo de frio e meu cérebro começou a trabalhar revirando o meu setor de mitologias. Eu me sentia cheia de enegia ansiosa e já tinha esgotado todas as brincadeiras que poderiam ter sido feitas com Layla. Enfim, eu precisava fazer algo antes de surtar completamente.
Monstro afogador, leão marinho… Definitivamente nada grego ou egípcio. Sobrava mitologias africanas, asiáticas e indígenas. Risquei mitologia maia e asteca. Se tivesse algum monstro afogador lá, certamente seria meio cobra.
— Eu já ouvi falar de uma criatura assim — falei — Acho que na mitologia Tupi ou Guarani. Iupiara,
— E o que um treco desse estava fazendo na festa do deus da trapaça no meio da Sicília? — Alec apontou.
Era uma boa questão.
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