Equilibrium
19 Capítulo 18 - Carolina Reaper
Algum tempo depois, quando eu já estava em casa após a conversa com Hermes, eu notei uma anomalia. Normalmente, naquela hora do dia, Layla estaria vendo Netflix comigo. É uma espécie de hábito dela, a criaturinha não consegue assistir nada sozinha porque não tem com quem comentar e criticar.
Senti um frio no estômago de ansiedade, pior do que qualquer tensão pré-prova. Decidi largar meu celular e o Lords Mobile para ir procurar ela.
Na sala só tinha Idia cochilando no sofá com a barriga felpuda pra cima. Ninguém nem sonharia com a extensão das garrinhas dela. Vanessa e Alec não estavam em canto nenhum e eu me vagamente lembrava dele ter batido na porta do meu quarto falando algo de mercado. Bem, é difícil prestar a atenção quando você está levando um rally no castelo, sabe. A cozinha estava vazia também para meu desespero.
Ela não teria saído sem avisar. Cacete, até Alec avisou que iria sair. Ela certamente avisaria, sabia que eu estava neurótica nesses tempos.
Pensei em gritar o nome dela, mas e se alguém tivesse feito algo com ela e ainda estivesse ali? Idia daria conta? Eu era uma inútil total e apesar dela virar uma onça gigante, algum ser bem mais forte poderia parar ela.
Minha boca estava seca por causa da tensão, mas de alguma forma, no meio de uma possível ameaça de perigo, minha mente continuou funcionando de modo analítico. Minhas adagas furtadas estavam no meu quarto e o lugar mais próximo com lâminas era o armário da cozinha, bem na minha fuça. Peguei uma faca de cortar carne. Não estava muito afiada, mas você não gostaria se alguém enfiasse aquilo no seu pescoço.
Então resolvi verificar os quartos do andar de cima. Eu não conseguia ver motivo pra ela estar no quarto de algum capiroto, mas era necessário verificar antes de surtar plenamente. Depois verifiquei os banheiros.
Nada.
E por fim, encontrei ela na varanda/lavanderia, encostada em uma cadeira de praia olhando o mar. Absolutamente imóvel, mas viva.
Ela se virou quando ouviu meus passos e estreitou os olhos.
— Christine, por que você tá andando por aí com uma faca gigante?
Fiz minha melhor expressão zombeteira.
— Ah, você sabe como é a neurose.
Era bem mais fácil do que dizer que quase tive uma crise pânico porque ela sumiu. Era irônico, considerando meu histórico. Nunca fui colada em ninguém, nem muito afetuosa. E lá estava eu, surtando por ela ter sumido.
As coisas mudam um pouquinho quando tem profecias anunciando que sua melhor amiga vai morrer.
— Idia me contou que você vai engolir Hermes vivo com sua maldade interior — ela riu — Nem eu sabia que ele tinha parido um cavalo.
Uma tentativa de desviar o assunto iminente. Não deve ser fácil ter uma profecia dizendo que você vai morrer. Não que você não saiba, todos sabem que vão morrer um dia, mas temos complexo de imortalidade — e devo imaginar que descedentes de deuses tenham um complexo mais intenso ainda — e é bom imaginar que isso nunca vai acontecer ou vai demorar muito. Uma profecia sobre morte dá a sensação que ela está próxima.
— Você está bem? — perguntei. Pergunta tosca que eu já sabia a resposta. Até eu sou estúpida ocasionalmente.
— Aham. Por que você não pediu a adaga logo quando ele perguntou o que você queria?
Decidi morder a isca e desviar do assunto mesmo.
— Ele não iria dar. Ou iria dar com alguma barganha absurda. Preciso verificar o que ele quer, o que precisa e do que tem medo para arranjar uma proposta vantajosas.
— As vezes, você não acha que as coisas são melhores quando são rápidas? — Ela voltou a encarar o mar.
— Ainda estamos falando de Hermes? — ergui uma sobrancelha.
— Eu preferiria morrer logo de uma vez. Morrer dormindo seria o ideal, mas não ocorre com descendente de deuses, mas aceitaria uma facada rápida ou os dentes de alguma coisa — ela piscou — Desde que fosse rápido e que eu não tivesse tempo para pensar sobre isso. Eu não suporto sentir que tem um timer pairando encima da minha cabeça. Não suporto você agindo como uma canguru superprotetora e forçando Alexander a provar todas as comidas antes de me deixar comer. Não suporto a expressão impassível que ele faz para tentar disfarça a pena. Não suporto o fato que Nessa me abraçou de manhã porque acha que vou estar morta na semana que vem.
E ela falou tudo isso calmamente, olhando a praia. Parecia tão contraste, que ela estivesse tão furiosa e não aparentasse.
— Eu não sei o que fazer — Uma parte de mim se sentia atacada. Eu estava tentando proteger ela de morrer envenenada, não era justo ficar iritada — Nem sei se acredito em destino direito, não sei os mecanismos de funcionamento das Parcas. Pode ser que você morra envenenada por beladona daqui 500 anos, você mesma disse algo do tipo.
Talvez eu estivesse sendo um porre. Mas era o melhor que eu podia fazer com que eu tinha em mãos. Por um tempo, pensei em mitridatismo, fazer ela tomar pequenas doses de belanoda até desenvolver imunidade. Mas talvez ela tivesse algum tipo de alergia grave a algum composto da beladona e morresse tentando se tornar imune com uma pequena dose. Puff, profecia completa. As outras alternativas eram óbvias: Não comer fora de casa, supervisionar a comida e colocar alguém para provar antes, só por garantia. Também fiz Idia cheirar a cama e as roupas dela para ver se tinha resíduo de veneno. Obrigada Agatha Christie por me ensinar sobre venenos absorvíveis pela pele.
— Não é sua culpa — ela disse, por fim e ficou encarando a praia mais uma vez.
— Bom, todos nós podemos estar com os dias contados — suspirei — Não gaste eles imitando uma estátua reflexiva.
— Alguns estão com o timer mais no limite — ela me encarou — Você vai matar ele, não vai?
Ah, cacete, só assunto complicado.
— É o caminho mais fácil. Vou fazer isso depois que resolvermos a questão da balança. Talvez, até lá, ele mesmo mate Trivia e isso não seja necessário — Eu duvidava disso, nada na vida é fácil — Enfim, como ainda não sou rainha oficialmente, parece que tenho uma sobrevida. Mas se eu fosse você, aproveitaria que ele está vivo ainda e…
Ela gargalhou
— Alguma sugestão, Christine?
— Dê umas batidinhas na porta do quarto dele de madrugada e pronto. É na simplicidade que se consegue as coisas. A propósito, aproveitando que a casa tá vazia de capirotos, use o meu protetor solar amanhã.
Um sorrisinho surgiu no canto da boca dela.
— Como nos velhos tempos?
— Como nos velhos tempos. E eu recomendaria que você fosse rápida, ela vai ficar um pouquinho danificado depois de amanhã.
Mesmo gargalhando, Layla passou a noite no meu quarto, encarando o teto.
No dia seguinte, eu estava prontissima para fazer Hermes se divertir com minha maldade interior.
Eu precisava descontar minha frustração em algo, afinal.
Durante o café da manhã, Idia, conforme o combinado, fez a maior cena dizendo que queria ir para a praia.
— Mas você é uma gata — Layla olhou desconfiada enquanto mastigava lentamente uma torrada.
— Incrível observação, querido Watson.
— Elementar, meu caro Watson — corrigi.
— Que seja — ela torceu os bigodinhos felinos. Lembrei que desde que descobri o potencial dela, nunca mais a espremi como uma bolinha de pelo fofa.
— Onças gostam de água, vai saber — Vanessa disse com os olhos brilhando — Talvez não seja uma ideia tão ruim.
No fundo, Vanessa já estava cansada de ficar enfurnada em casa sem fazer nada. Ela nem teve a amostra de adrenalina de ter tido um papinho com as parcas.
— Não sei se é boa ideia — Alec falou — Só os deuses sabem o que pode aparecer na praia.
E lá estava ele, arruinando meus planos.
— Eu não me surpreenderia se o Kraken aparecesse para te arrancar debaixo do guarda-sol — ele me encarou.
— Krakens não existem — disse Idia, com toques de sabedoria ancestral. Bom, eu me lembrava vagamente dela dizendo algo oposto a isso
— Eu não posso entrar na água — apontei pra minha barriga — Pontos. Se eu não vou para a praia, ninguém vai.
E foi nesse exato momento que Alec e Vanessa se convenceram que eles queriam muito ir para a praia.
Não foi difícil fazer cara de insatisfeita enquanto eles estavam na água. Eu sempre adorei praia e o mar da Sicilia era tão azulzinho que parecia que alguma divindade tinha colocado filtro do Instagram nele.
Fiquei deitada na cadeira de praia em modo inclinado, com uma saída de banho branca para cobrir minha barriga do sol e com o chapéu de madame da Vanessa tampando meus olhos do sol.
— Você está parecendo quarentona sexy de filme classe B — Uma gaivota de olhos suspeitamente verdes pousou na cadeira de praia vazia.
Dei um suave pulinho.
— E você tá parecendo alguém que cagaria na cabeça dos turistas.
E Hermes ficou lá, observando as criaturas nadarem igual golfinhos alegres. Idia, uma gatinha fofa nada do, tinha virado a atração turística da praia.
— Eles caíram?
— Direitinho.
No início, pensei simplesmente em trocar o protetor solar deles por um bronzeador, mas descobri que bronzeadores têm coloração e textura bem diferente. Bom, eu nunca precisei usar bronzeador com a minha belíssima pele morena natural, então era totalmente desinformada. Aí pedi para Hermes trocar o líquido do frasco por um líquido semelhante e sem efeito fotoprotetor, não seria necessário muito, a pele dos dois era bem pálida por natureza, eles tinham até uma tia albina.
Aquilo ia dar umas queimaduras solares do cão.
O mais engraçadinho é que eles se cuidavam. De 3 em 3 horas, mais ou menos, eles iam reaplicar o protetor solar. Pobres iludidos. Aliás, humanos, não façam essa pegadinha com seus amigos. Não tem casos de descendente de deuses morrendo de câncer de pele, ao contrário de mortais.
— Você está secando eu ou meu irmãozinho, Christine? — Vanessa perguntou em dado momento. Acho que ela registrou minha expressão de segurando riso de maneira errada.
Ah, não que eu não tivesse dado uma olhada ou duas na musculatura de Alec. Eu gosto de coisas bonitas e sempre gostei de anatomia. A criatura ergueu uma sobrancelha para mim.
— Os dois — sussurrei e pisquei um olho.
Vanessa ficou tão constrangida que voltou para a água. Gargalhei igual uma condenada. Hermes, a gaivota, parecia chocado.
Alec espantou a gaivota divina da cadeira e sentou-se do meu lado. Eu continuei rindo mais ainda da expressão indignada da gaivota. Hermes ficou paralisado encarando Alec como se dissesse: mortal, você está dizendo xô pra mim?
Eu apostaria que se ele soubesse a procedência da gaivota, ele ameaçaria sentar em cima dela só na pirraça.
Mas, de qualquer forma, Hermes saiu voando.
— Você está aprontando alguma coisa.
Ele parecia bastante convicto. Talvez porque fosse verdade.
— Você sempre acha isso de mim — mostrei minha melhor expressão zombeteira.
— Talvez porque você seja um pouco malvada.
O fato é que eu não era um pouco malvada. Eu era bastante.
Algumas horas depois, ele e Vanessa estavam igual dois camarões vermelhos e descamando.
Lá do meu quarto, escutei Vanessa falando:
— Porra, parece que esses protetores solares vieram direto do Paraguai.
Talvez Hermes tivesse conjurado um diretamente de lá mesmo.
— Você trouxe creme hidratante.
Eu podia imaginar Vanessa revirando os olhos.
— Sempre trago creme hidratante.
Era exatamente com isso que eu contava. Existe algo chamado pimenta nuclear, um professor meu era obcecado com isso na época do ensino fundamental. Em resumo, é uma porcaria de pimenta extremamente difícil de achar por aí, ele até usava luvas para não queimar as mãos quando mexia com as pimentas do cão.
Talvez eu tivesse sugerido para Hermes colocar só um pouquinho de Carolina Reaper no creme hidratante.
Os gritos que ecoaram pela casa comprovaram que Hermes acatou minha sugestão.
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