Equilibrium

13 Capítulo 12 - Gelato e escaladas


Alexander estava encarando a traseira arruinada do carro com uma expressão de sofrimento mais autêntica que a de muitos atores em cenas de velório.

— Sinto muito — Layla deu as condolências.

Revirei meus olhos.

Aí Vanessa não pode perder a oportunidade.

— Tá revirando os olhos por quê? — ela disse — O carro vale mais que sua alma.

Aí refleti sobre minha alma: cheia de ócio, entupida de gula, com umas pontadas de luxúria nas situações menos éticas, recheada de soberba… talvez eu também fosse mão de vaca igual mamãe? 5/7 no bingo dos pecados capitais. Não, não,6/7. Eu também sentia aquela pontadinha de inveja de quem tinha poderes.

— É, talvez você esteja certa — refleti.

E com esse pensamento super positivista, entramos no aeroporto.

Olha, para ser sincera, o período do aeroporto e da viagem não foi tão interessante. Fiquei a viagem inteira lendo meu livro de psicologia comportamental — Manual de Persuasão do FBI, recomendo para vocês, mui útil. Vanessa reclamava ocasionalmente sobre como a culpa de tudo era do meu estômago e as vezes tirava um tempinho para criticar meu livro. Alec e Layla entraram em coma profundo. É, talvez eu estivesse errada e os dois realmente fossem almas gêmeas.

Ah, e não posso me esquecer da Idia. Ela amou ir com os outros animais dentro de uma caixinha.

Tirando a parte da Idia, tudo transcorreu na normalidade do possível.

A parte interessante é a Sicília. Tenho que tirar o chapéu para Hermes, que filho da mãe de bom gosto. Enquanto pegamos o táxi para ir para a casa que minha mãe alugou — Vou falar disso depois — dava para ver umas praias magníficas. A água era azulzinha, nada daquela cor esverdeada típica de mar. Para ser sincera, o cenário parecia tão perfeito que parecia ter sido editado com filtro. E não posso me esquecer da arquitetura da cidade, as casas coloridas empilhadas no relevo montanhoso.

Era muito trágico não poder ficar de férias. Muitíssimo. Mas só por via das dúvidas, eu tinha trazido biquíni na mala.

Aí vamos para a parte da cobertura. Mamãe, notória e conhecida mão de vaca, decidiu alugar uma casa na San Vito Lo Capo. E não era uma casa modesta.

— Que lugar pequeno — Vanessa resmungou.

Revirei tanto meus olhos que acho que minha íris foi conhecer o esfenóide.

Bom, eu não tinha nada que reclamar. Meu quarto tinha uma vista direta para a praia. Tinha uma montanha na lateral e a água era azul clara no início e ia ficando azul escura perto do horizonte. E tudo tinha cheiro de maresia e ar fresco.

Me joguei na cama, estiquei os braços e fechei os olhos. Bem, se eu iria morrer, por que não curtir a vida um pouco?

— Christine — Ouvi Vanessa gritar da sala.

Como vocês podem ver, sou uma santa porque não tornei a Vanessa em uma vítima de homicídio ao longo da viagem. A criatura parecia ter feito um acordo para não me deixar ter um segundinho de paz.

E o que eu fiz? Nothing, nadie, nada. Eu não sou um totó para ser invocada com um grito, ué.

— Christine — Alec abriu a porta.

O filho da mãe ficava tão bonito com o contraste da luz do sol e das sombras do quarto, os olhos dele ficavam até meio esverdeados. Eu imaginei um cenário bastante positivista em que eu estava de férias no mediterrâneo com um garoto gostoso.

— Vem para a sala, por favor. Pra quê começar a encrenca agora? Se poupe, nos poupe — ele suspirou.

Aí ouvi mais um grito me chamando.

O meu cenário positivista virou pó. Não era férias, era uma tentativa de salvar o mundo dos descendentes de deuses — que aliás, eram filhotes da meretriz que iriam me matar quando soubessem dos meus probleminhas. O garoto bonito estava com cara de mau humor — Como alguém consegue parecer mau-humorado naquele lugar paradisíaco? Tudo bem, isso não era de fato um problema, talvez eu goste de criaturas más —, tinha uma irmã que era o Satã — isso era um Problema — e era a paixonite — me recuso a usar neologismos como crush — da minha melhor amiga.

Me levantei da cama e encarei ele profundamente.

— Você é uma decepção.

Ele piscou. Não deve ter entendido nada, coitado. Garotos não entendem nada. Se eu, a criatura pérfida que sou, fosse ele, eu teria entendido. E eu iria provar que não era uma decepção. Mas, ignore meus hormônios, salvar o mundo gera algumas reações confusas.

— Pode preencher uma ficha de avaliação no fim da viagem — ele sussurrou.

Sempre achei positivista a certeza que ele tinha que teria um fim da viagem.

Vanessa nem esperou eu me sentar no sofá.

— Qual é o plano?

O animal espiritual dela era um chihuahua tremendo de ansiedade. Decidi fazer a sonsa.

— Que plano?

— Como assim que plano?

— Quer que eu ligue perguntando o plano de viagem para minha mãe? Ela deve ter comprado um — Sorri angelicalmente.

Layla pisou no meu pé de leve.

— Christine…

Ergui as mãos para o alto.

— Tá. É o seguinte, se não há nenhum plano, não tem como o plano dar errado.

A cara de Vanessa estava tão escarlate quanto o cabelo.

Existe algo trágico nessa vida, essa tendência de fracasso generalizado. Você pode ser uma pessoa impecável, bom em tudo e a partir do momento que fracassa em uma coisinha, o povo começa a pensar que é um fracassado geral e vai arruinar tudo. Como podemos ver, só foi descobrir que eu não tinha poderes e Vanessa me considerou uma fracassada geral.

Sério, ela achava que eu, o ser genial que sou, não teria nenhum planinho.

— Se você quiser, posso elaborar algo — Alec comentou.

Ótimo, mais um que achou que eu tinha virado uma anta.

Joguei uma almofada nele só para descontar o ódio. Infelizmente, ele pegou no ar.

— Bom, vou fazer algo, mas vocês não precisam saber.

Foi nesse momento que Vanessa virou a cabeça para o teto e começou a sussurrar:

— Vamos todos morrer, vamos todos morrer, vamos todos morrer.

Para você ter ideia, esse é o nível de fé que as pessoas têm em mim.

— Então — Layla esticou o "o" do então — seu plano é ultrassecreto ou você só não queria falar para eles?

Layla estava empoleirada na minha cama enquanto eu arrumava as malas.

— Adivinhe.

— Nem existe mesmo?

Sorri angelicalmente e apontei para o Manual de Persuasão do FBI.

Ela estremeceu.

— Nem quero saber o que vai fazer com o pobre Hermes — ela disse — Mas vai ser difícil levar ele para Guantánamo.

Deixei escapar uma risadinha.

— Os ares do mediterrâneo ativam seu humor negro — observei — isso é um comentário que esperaria de um ser malvado como eu.

— Você é uma péssima influência.

— Na verdade, o plano é bem simples. Só que Alec e Vanessa iriam me zoar até a morte.

O fato é que a maioria das pessoas têm uma visão curta, imaginam que pegar uma adaga de um deus envolve um plano complexo de assalto a là La Casa de Papel ou uma lutas de série de ação. O meu modesto plano seria alvo de risadinhas.

Quero relembrar que Hermes é o deus do roubo. Só um idiota tenta roubar o deus dos ladrões, cacete. Lutas? Meu filho, eu não conseguia nem erguer um papelzinho com a força da mente, quem dirá nocautear um deus.

Então, meu plano era fazer Hermes ir com a minha cara, ou caso você não seja versado em regionalismos, fazer ele gostar de mim, pelo menos um pouquinho.

Sabe, dar a adaga para mim era uma medida racional porque ninguém em sã consciência quer que Erébo tenha controle sobre as dimensões e consequentemente, sobre os deuses. E Hermes era um deus, logo, ele não gostaria de estar sob controle. A questão era que Erébo certamente iria querer ferrar ele diretamente, o que, dependendo da perspectiva, poderia ser pior que estar sob controle.

A minha tarefa era fazer ele ver que dar a adaga para mim poderia ser mais vantajoso. E é bem mais fácil fazer as pessoas fazerem o que você quer quando elas gostam de você.

Então, minha meta era obter a simpatia do deus da trapaça.

Pode parecer fácil fácil, o dilema é que deuses são seres neuróticos, malucos, velhos, espertos pra caramba e com síndrome de superioridade. Citei tudo, não é?

Na parte de trás da cartinha da minha mãe havia uma lista do cronograma básico de Hermes.

Dias da semana:

Acorda às duas horas da tarde, come um café da manhã capaz de matar um mortal de hipertensão e depois vai fazer escalada no San Vito de lo Capo. Depois de quatro quilômetros de penhascos costeiros escalados — Admito que fiz uma pausa e soltei um eitaaa quando li isso — ele vai comer gelato em um restaurante beira-mar às 16:30 (segue o endereço do restaurante). Depois disso, ele volta para a casa (endereço da casa) e fica lá assistindo séries humanas.

Fins de semana:

Passado em baladas e em outras esbórnias que definitivamente você não vai pôr os pés (isso é uma ordem), copulando com turistas.

Como vocês podem ver, Hermes tinha a vida de um deus aposentado. Se eu fosse uma deusa, também seria assim, tirando a parte da escalada. Pra quê tantos quilômetros se você pode controlar sua forma física?

Aparecer na casa dele igual testemunha de Jeová seria uma péssima ideia. Oi, você poderia me fornecer um minuto da sua atenção e uma adaga mágica em nome de Nix?

Na esbórnia, como mamãe dizia? Não, não, não queremos deuses com interpretações erradas das minhas intenções. Graças ao meu vasto conhecimento de mitologia grega, mortais que se envolvem romanticamente, sexualmente ou apenas são desejadas por deuses só se lascam no fim da história. Eu não daria uma boa constelação ou seria uma boa novilha, obrigada.

Então, só me sobrava o gelato. Vamos lá, ninguém fica infeliz comendo sorvete — algum especialista em culinária para reclamar que gelato não é sorvete? — e ainda tinha o privilégio da atribuição equivocada. Exercícios liberam endorfinas, ou seja, fazem a pessoa (ou deus, que seja) se sentir bem. Gelatos tem o mesmo efeito, desde que eles estejam bem feitos. E se alguém está bem consigo mesma, ela é bem mais provável para gostar de você.

Então, esse era o cerne do meu plano baseado em gelatos e escaladas.

Notas finais
E aí, pessoal? Tudo bem? Eu espero que vocês e suas família estejam ok. Fiquei um pouco lerda para postar esse capítulo, mas ok. Me dêem um sinal de vida, ok? O que acham que vai acontecer com o plano — ele é bom ou "vão todos morrer"? Tá, Christine está mais tarada que o normal — efeito quarentena?