Equilíbrio

24 Capitulos 24 - No templo.


Depois de caminhar por quatro horas dentro da floresta, chegamos enfim ao templo.

O templo continuava como eu me lembrava dele no sonho, o mármore era polido, e a primeira parte dele, a entrada, não tinha teto. Pelo que dava para se ver entre as colunas ele estava vazio.

Eu tecnicamente sabia que ele não estava vazio, por isso fui... Um tanto cuidadosa, resolvi acampar em um lugar que as árvores nos tampavam da visão que qualquer um que estivesse no templo.

— Por que vamos acampar? — Sam reclamou — Pensei que iriamos chegar aqui e espancar a sacerdotisa do mal...

Desde que contei meu sonho para eles, Sam estava incrivelmente motivado, ele achava que arrumar a balança e acabar com a guardiã dela iria dar uma boa historia para ele contar para as garotas.

Fiz uma careta para ele.

— Eu que decido as coisas por aqui.

Ele fungou.

— Mandona.

Jogamos nossas mochilas no chão e fomos comer mais alguma coisa, que no caso, infelizmente, foi mais sorvete de marshmallow, depois de comer marshmallow congelado por mais de dois dias, decidi que jamais irei comer nenhum tipo de marshmallow na vida.

Olhei para as Dames Blanches.

— Vocês já podem ir embora, já nos trouxeram em segurança até aqui.

Ao meu lado Sam fez um muxoxo. Não entendo a atração dele por garotas que destroem almas, mais tarde vou estudar a psicologia desse caso.

— Tudo bem, mas aonde vai ser o casamento? — Uma delas perguntou.

Fiz o meu melhor sorriso falso.

— Na França... Oh, me esqueci de falar, vocês serão as madrinhas. Se eu fosse vocês começaria a correr para chegar lá bem rápido.

Foi instantâneo. As criaturas começaram a soltar gritinhos alegres e começaram a correr na direção que vieram.

Depois de dispensar as servas de Trivia, sentei-me no chão e abri a minha mochila em busca de um livro para ler enquanto tirava um tempo de descanso, as minhas pernas estavam doloridas de tanto andar.

Revirei a mochila em busca de um livro. Parei quando o meu livro favorito caiu no chão. As mortes na ilha era o título dele, foi um dos livros da Agatha Christie que mais deram sucesso na época, por que ninguém conseguiu desvendar quem era o assassino antes do final. Eu também não consegui descobrir quem era o assassino quando li o livros pela primeira vez.

O mais interessante era que o assassino se... Então caiu a ficha e a resposta veio instantânea.

“Trivia”, pensei “Agora já sei quem é você”.

Me virei para trás.

— Cancelem o ataque ao templo, vamos fazer isso amanhã. Hoje eu tenho algo mais importante para fazer.

[...]

Desde que eu cheguei, eles ficaram me cercando e fazendo perguntas. “Onde você e meu irmão foram por quatro horas?”, “O que aconteceu?”, “Você e Alec foram dar uma fugidinha?”. Bom, a última pergunta foi de Sam e misteriosamente metade dos seus dentes sumiu.

Juro que não tive intenção de quebrar os dentes dele... Na verdade eu queria quebrar a mandíbula dele mesmo.

Essas criaturas são tão irritantes, você passa suas últimas quatro horas... Bem, tentando salvar a vida deles de modos não ortodoxos, mas mesmo assim tentando salva-los, e bem, é assim que eles reagem: Irritando-te e fazendo piadinhas.

Por que será mesmo que estou tentando salva-los?

“Na realidade, Christine, você só está tentando se salvar, e pouco se importa com eles” Alec começou a tentar dar lições de moral.

“Ah, é, você tem toda a razão sobre isso.”

Então chegamos na parte um do meu plano: Arrumar a balança. Não seria de nenhuma utilidade acabar com a raça de Trivia e deixar a balança desequilibrada para os deuses ficarem loucos e nos matar depois.

Por mais incrível que pareça, essa é a parte mais complicada e arriscada do meu plano.

“Teoricamente não é só seu plano” Ouvi a voz de Alec ecoar pela minha mente “Eu também planejei”

“Fica quieto, quem tem benção de Atena aqui sou eu!”

O chão tremeu subitamente. Bom, eu adoraria dizer que fui eu que fiz o chão tremer de raiva, mas infelizmente não fui eu.

— Christine, isso foi você tentando causar um terremoto? — Damien perguntou.

— Infelizmente não. E isso parece que vem do templo.

[...]

Aparentemente tinha alguém muito furioso no templo. E tinha mesmo.

Assim que cheguei na frente do templo senti uma enorme vontade de correr para debaixo da cama, só que me lembrei que minha cama estava á milhas de quilômetros dali.

Sabe, a sua ideia de entrar naquele templo sozinha é muito boa — Sam disse — É muito corajoso da sua parte não nos arrastar para a morte.

Lamentei-me de ter a ideia de entrar sozinha naquele templo. Ah, deuses, estou começando a odiar meus planos.

— Teoricamente, não estou arrastando vocês para a morte, ela está vindo voando atrás de vocês.

Imediatamente, várias cobras voadoras começaram a surgir no céu. Nem contei quantas eram, mas eu tinha certeza de algo: Eram apenas os mensageiros de Trivia, estavam ali só para dizer “oi” e o verdadeiro exercito deveria ter várias dessas serpentes e mais alguns demônios extras.

Na parede do templo havia duas fechaduras de porta com o formato das duas adagas. Enfinquei as duas adagas ali e a parede se abriu.

Acenei para eles.

— Tchau e boa sorte. E se vocês morrerem a culpa é de vocês! — Falei e entrei na parede.

[...]

Não sei o que eu esperava ver. Talvez uma mulher nova, por volta dos seus vinte anos, igual da visão, sentada em trono provocando um terremoto. Ou ouvir a risada de deboche da sacerdotisa.

Certamente, não esperava aquela cena.

No chão, na minha frente, tinha uma velha tremendo no chão. A balança reluzia no altar como sempre, só que agora tinha um peso sobre um de seus lado, a fazendo pender para o lado do caos, mas isso não me surpreendeu, o que me surpreendeu foi a velha.

— Não vai ajudar uma velhinha a se levantar? — Ela perguntou e por um momento vi os olhos lacrimosos de ela brilhar sombriamente.

Eu ri.

— Reconheço uma armadilha quando vejo uma, Henet.

Ela se levantou. Me lembro muito bem dela na visão, era uma mulher jovem com cabelos escuros. Agora os cabelos pretos dela eram apenas tufos brancos pendendo em uma cabeça careca, o rosto dela estava flácido e marcado por várias rugas que nem tentei contar, por que senão ficaria ali até o ano que vem. A coluna da sacerdotisa estava totalmente curvada e os olhos dela estavam desfocados, como se ela estivesse cega, coisa que eu não ousaria duvidar.

— Eu adoraria ver o seu rosto. Dizem que você não parece com a sua mãe, mas não me importa, o que me importa é que hoje eu vou matar uma cria da noite.

É muito difícil crer que uma velha que aparenta ter cem anos possa causar um dano á algum esquilo, quanto muito á mim.

— Tudo o que você está vendo foi causado por sua mãe — ela continuou a tagarelar — Naquele dia ela tirou a minha juventude, beleza, a minha visão, os meus poderes, tudo! E me condenou a ficar pela eternidade aqui, se arrastando nesse maldito chão.

Ela parecia uma vítima. Mas, não, ela definitivamente não é uma vítima, ela é uma assassina que matou a própria mãe para ficar com um cargo.

— Você não queria o seu maldito cargo? Pois bem, você ficou com ele pela eternidade. — Falei friamente.

Ela se virou na minha direção e por um momento tive a impressão que ela estava olhando diretamente para mim.

— Foi exatamente isso que Nyx disse antes de me aprisionar aqui.

Não perdi meu tempo com dramas de uma velha assassina, fui direção da balança. Seria extremamente fácil, eu iria tirar o peso de cima de um dos lados e pronto, tudo voltaria o normal e depois seria só acabar com a raça de Trivia.

Então senti como se algo tivesse me lançado para longe dali, o impacto foi tão grande que senti minhas costas se chocarem com a parede á mais de dois metros do chão.

Primeiro eu pensei que tinha um campo de força protegendo a balança, só depois que reparei que foi Henet.

— Se eu fosse você, garotinha, aprenderia a história dos idosos — Ela sorriu.

Percebi que algo estava me prendendo acima do chão. Tentei me debater para me soltar mas o aperto aumentou.

— Eu não tinha dito á você que Erebo veio me fazer uma visitinha esses dias — Ela sorriu, exibindo fileiras de dentes podres — E ele me trouxe um presente: Meus poderes e minha juventude novamente, coisas que sua mãe tirou de mim.

Assim que ela começou a falar, os tufos brancos dela começaram a ganhar uma coloração escura e fios de cabeço começaram a crescer nela. As rugas foram sumindo lentamente, a coluna se endireitando, o corpo perdendo a flacidez e voltando ao corpo de uma mulher jovem.

Em poucos instantes, tinha uma mulher de vinte e cinco anos na minha frente. A única coisa que continuou a mesma foi seus olhos desfocados. Aquilo era uma pequena vantagem para mim, embora ela fosse poderosa e jovem, ela ainda era cega.

— A única coisa que ele não me devolveu foi a visão. Mas assim que te matar, tenho certeza que ele vai arranjar um jeito de me recompensar.

Respirei fundo.

— Você era mais simpática com a aparência de vovó.

Aparentemente ela se irritou, por que o aperto me invisível me soltou. Se eu não fosse rápida e rolasse no chão para absorver o impacto, provavelmente minha coluna estaria quebrada.

Ela franziu a testa.

— Estranho... Eu esperava ouvir o som dos seus ossos quebrando.

Eu sorri maldosamente.

— É, vovozinha, eu também tenho meus truques.

Tirei as katanas que estavam presas na minha cintura. Vi a prata reluzir enquanto caminhava na direção da sacerdotisa. Então as katanas começaram a tremer na minha mão, soltei-as imediatamente sabendo que tinha alguma macumba fazendo efeito ali.

As katanas continuaram a tremer no chão e aos poucos começaram a entortar. Não tentei impedir, tinha medo de a minha mão entortar junto. Foi trágico ver minhas preciosas katanas virarem uma sucata amassada, pensei em quantos séculos elas estavam conservadas intactas e em todas as batalhas que ganhei com elas na minha vida passada e nas lutas mais recentes dessa época.

Minhas pobres katanas, estão amassadas. Henet riu

— Filhos de Nyx... sempre usam armas de prata. São tão previsíveis...

Não sei o que aconteceu em seguida, só me lembro da dor de cabeça. Meu crânio começou a doer, pensei que ela estava fazendo algum truque de pressão sobre mim, mas depois percebi que ela estava tentando me enlouquecer.

Senti-a vasculhar todos os fatos que já ocorreram comigo no meu subconsciente, em busca de algo que me fizesse ter remorso. Não deu certo, eu nunca tive nada para ter remorso, embora sempre aprontasse, era só coisas leves, algumas tachinhas e pó de mico.

Aquilo começou a virar uma dor física. Só esperava que aquilo não distraísse Alec lá fora e ele acabasse devorado por um serpente voadora, eu não estava ouvindo os comentários irritantes dele, só tem duas explicações para isso: Ou ele morreu ou o templo bloqueia qualquer tipo de telepatia, se ele morreu, provavelmente eu só tenho alguns minutos antes de ir para o além.

Aquela sacerdotisa não jogava ou atacava fisicamente, ela atacava mentalmente.

“Eu sou uma filha de Nyx e não vai ser uma mera sacerdotisa que vai me matar”

Imaginei que era Henet que estava no meu lugar sentindo aquela dor lancinante e como seria engraçado ver o feitiço se virar contra ela.

Não sei o que aconteceu em seguida, mas foi estranho. Henet caiu no chão subitamente, e minha dor de cabeça passou, em poucos instantes que estava se contorcendo era a sacerdotisa, que ao contrario de mim, não segurou os gritos e os tremores.

Talvez aquele fosse meu primeiro poder se manifestando. O de fazer os poderes dos outros virarem contra eles mesmos.

[...]

Foi tão fácil que me espantei. Peguei o amassado que antes era a minha katana e bati com tanta força na cabeça da sacerdotisa que ela foi fazer uma viagem só de ida para o submundo.

— Espero que as Erineas chicoteiem sua cara — sussurrei quando ela caia inerte no chão.

Tirei o peso extra da balança e o joguei no chão. Imediatamente a balança voltou ao normal.

Quando saí de lá, todos estavam vivos e tinha várias serpentes mortas ao redor deles. Idia e Tigre estavam com a boca ensanguentada, embora eu desconfie que era sangue de serpente.

Mary estava segurando uma corrente de ouro com vários espinhos de rosa nos fechos, que também estavam cobertos de sangue de serpente. Ao ver ela lutando, ergui uma sobrancelha.

A última serpente voadora caiu quando a corrente enrolou no tronco dela, o quebrando.

Olhei para eles.

— Ninguém me dá oi?

Alec revirou os olhos.

— Oi, Chris. Matou a sacerdotisa e arrumou a balança? E que diabos foi aquela dor de cabeça?

— A balança está arrumada e tem uma sacerdotisa de crânio esmagado lá dentro. E aquela dor de cabeça só foi a minha recepção. Que tal sairmos daqui antes que Trivia apareça?

— Tarde demais.

Me virei para o lado, e ali, bloqueando a nossa saída estava Trivia seu exercito.