Epopeia Uchiha

1 Capítulo Único - Epopeia Uchiha


Notas iniciais
OLAAAR, Pra manter a tradição: eu reapareço de vez em quando. Dessa vez com uma fanfic shiita para comemorar a #shiitafallweek2021. Recomendo o AO3 e twitter para aqueles com acesso à esses sites. Essa história foi escrita há uns meses, mas faltava algo e acho que finalmente consegui aceitar ela... tive uma palestra de psicanálise sobre Ilíada, a obra de Homero, na sexta e isso ficou na minha cabeça... é preciso honrar os mortos. Sem mais delongas, o cap:

Danzou não achou o corpo. Ele nunca o acharia.

Itachi cuidou disso.

A cada passo dado seu coração parecia retumbar com força, provocando um zunido incômodo nas orelhas e o início de uma dor de cabeça. Concomitantemente, o sangue em suas veias parecia congelado, como se tivesse sido afogado nas águas gélidas do Nakano e acabasse morto tal como Shisui, quem carregava nos braços finos. Ao menos, ele trazia junto do peito o corpo musculoso que pertenceu ao primo. E agora que Shisui tinha partido sua alma pertencia aos mundo dos mortos permanecendo incólume, mas seu corpo ainda poderia ser mais violado. A possibilidade de Danzou corrompê-lo com suas mãos mesquinhas e ultrajantes fez com que Itachi se libertasse de seu estado de choque após a queda de Shisui e fosse ao seu encontro para lhe oferecer uma última proteção.

Ele desceu a encosta do desfiladeiro aos saltos e seguiu o rumo do rio pelo tempo necessário para que encontrasse o corpo de Shisui boiando. Seu tronco estava virado para baixo e parte da sua cabeça estava submersa, o que não deixou dúvidas ao herdeiro Uchiha acerca de seu estado vital.

— Shisui.

A voz soou estrangulada, revelando sua verdadeira essência de lamúria entre um gemido e uma súplica.

Itachi sentia as lágrimas quentes e espessas de sangue descendo mais uma vez por seus olhos, porém continuou a adentrar o rio e a se aproximar do seu alvo. Virou o mais velho em sua direção e observou como a pele alva, ligeiramente mais bronzeada que a sua, apresentava os primeiros sinais da morte devido à palidez horrenda que não combinava com Shisui. Seus lábios cheios estavam ressecados e beiravam o tom roxo-azulado que tantas vezes vira em outros corpos, àqueles de homens muito menos quistos para si. Suas mãos trêmulas tocaram o rosto amado, penteando os cachos molhados para trás a fim de observar uma última vez aquela face tão bonita para si.

— Shisui.

Itachi sentia sua visão embaçar mais uma vez pelas lágrimas que enchiam seus olhos, mas aquela cena nublada logo deu lugar à visão nítida e perspicaz propiciada pelo Sharingan. Uma última vez, o capitão anbu se permitiu gravar na memória o encontro de suas testas e o sabor de suas bocas unidas. Por mais doloroso que fosse, aquele era enfim o último contato entre ele e seu primo, seu amigo e amante.

Soluçando com pesar, Itachi carregou Shisui consigo e o levou no colo pela encosta de onde viera, correndo em direção ao único lugar que Danzou não poderia profanar: o distrito Uchiha. Por mais que doesse, ele tinha ciência da necessidade que possuía de dar um fim digno ao outro, dado que Shisui não seria homenageado por Konoha, a quem serviu com tanta lealdade. Era irônico pensar que seu refúgio seria o local que traíram juntos e que ainda assim as tradições Uchihas não o abandonariam nesse momento. O clã não iria permitir que o corpo de um deles fosse deixado à mercê de mãos cobiçosas, da mesma forma que condenava com brutalidade àqueles que lhes invejavam os olhos. Infelizmente, no caso de Shisui as duas coisas ocorreram. Ele sabia que precisava se adiantar antes que fosse interceptado por outros agentes da raiz, já que os demais remanescentes do ataque a Shisui estavam mortos por sua lâmina, então apertou o corpo frio contra si e correu o mais rápido que seus pés cansados conseguiram aguentar.

Apesar da logística do distrito ser um dos motivos que levaram ao distanciamento dos outros moradores da Vila dos Uchiha, dessa vez Itachi estava agradecido pela chance de voltar para seu lar sem a presença de olhos alheios seguindo seus passos. Ninguém deveria ver isso. Ninguém poderia saber disso.

Shisui deveria ser lembrado pela forma como ele era no dia a dia: cumprimentando comerciantes, flertando com algumas meninas pelas ruas e bares, sendo um valioso ativo para Konoha e, até mesmo, para o clã, já que os habitantes viam nele alguém em quem confiar e gostar. Shisui tinha uma imagem a ser zelada e, apesar de seus esforços, Itachi não o deixaria ser conhecido como um suicida sem honra.

Chegando próximo a estrada do distrito, Itachi fez questão de olhar para o quartel de espionagem na torre, onde sabia existir um telescópio que os observava nesse instante. Ele queria que sua mensagem, sua audácia ao comando de Danzou, fosse passada adiante. Todos se lembrariam desse dia, porque a dor de ter colocado a voz de seu coração na escuridão não seria esquecida.

Ele soube disso assim que cruzou o portal do clã, caminhando devagar, esperando pelo reconhecimento dos outros moradores acerca de quem carregava. Aos poucos, os burburinhos começaram a aumentar, as vozes foram se mesclando, o nome de Shisui foi lançado ao vento, um choro ou outro foi ouvido, e no fim todos pararam suas atividades para observarem com tristeza e assombro o melhor ninja deles caído. Itachi também ganhou olhares de desconfiança, cheios de raiva e até mesmo xingamentos foram direcionados a si. Eles o odiavam por servir à aldeia e, ao que ele imaginava, pela fantasia de que ele seria capaz de matar Shisui. Itachi era inteligente o suficiente para saber que as lágrimas de sangue encrostadas em sua face eram um detalhe final para que as teorias conspiratórias se tornassem verdades indestrutíveis na mente dos outros.

Pouco a pouco as ruas largas e vazias foram se estreitando e se enchendo de Uchihas, formando uma pequena multidão que o observava caminhar em direção ao coração do distrito. Em meio a massa de cabelos pretos arrepiados, Itachi vislumbrou um cabelo liso castanho, dois tons mais claros do que o comum, e então parou. Izumi tinha a mão sobre a boca, os olhos arregalados e uma expressão de choque e horror.

— Itachi? – ela murmurou, dando um passo à frente, mas um movimento na lateral a fez parar.

O herdeiro Uchiha estava tão absorto em sua dor e no peso que carregava que não se atentou ao fato de estar bem à frente da estação de polícia do clã; onde alguns oficiais estavam paralisados na porta e outros caminhavam afoitos em sua direção, enquanto mantinham os olhos em Shisui.

— Traidor. O que você fez?! – Inabi vociferou – Shisui!

Quando o homem, desprezível segundo Itachi, se aproximou, ele se esquivou com um movimento fluído rodopiando na terra e tirando Shisui do alcance de suas mãos calejadas. Suspiros surpresos soaram ao redor, quando a população viu os olhos enegrecidos de Itachi cederem lugar ao Mangekyou assassino. Inabi não tinha hierarquia suficiente no clã para menosprezar Itachi como havia feito, mas o delito do anbu era muito maior. Usar os olhos contra um membro do clã era uma infração séria. É claro que Itachi não iria atacá-lo, mas a mera possibilidade de Shisui ser tirado de si fez com que os globos oculares ardessem e o chakra fosse redirecionado de modo involuntário e urgente, tal como o grito de uma criança assustada na frente de um predador.

— Você não vai tirá-lo de mim.

Inabi ativou o próprio Sharingan e estudou a postura de Itachi, que estava vulnerável devido aos braços ocupados com o corpo de Shisui. Aquela era a melhor chance de um confronto com o primo em que não correria um risco fatal e aproveitando-se disso, Inabi jogou uma kunai em sua direção. O herdeiro Uchiha foi obrigado a resgatar uma kunai de seu próprio coldre e redirecioná-la, o que fez a primeira arma ninja se fincar na parede ao lado da estação, bem no centro do símbolo da família. Todos observaram o ato chocante desacreditados, tamanha desonra vista.

— Itachi! – a voz grave e retumbante fez com que os nervos do menino estivessem mais uma vez à flor da pele. Itachi sentiu um arrepio gélido passar por seu corpo enquanto a multidão se calava ansiosa pela intervenção do líder.

Pai estava ali. Ele não deveria estar. Itachi não queria encontrá-lo, não naquele momento. Pai era a lembrança constante do conflito entre os Uchihas e a Vila, conflito que foi responsável por causar a morte de seu amor. Itachi não queria olhar para seu pai. Ele tinha receio do que faria ao vê-lo, principalmente agora que seus olhos doíam e ele sentia as lágrimas escorrendo novamente.

— Itachi! – o patriarca chamou de novo, e ele estremeceu.

Itachi apertou com mais força o corpo de Shisui contra si, como se o abraçasse, e virou ligeiramente o rosto para olhar de esguelha ao mais velho, como se o desafiasse a tentar uma aproximação. Fugaku, no entanto, tinha os olhos duros e uma carranca de desagrado ao perceber a cena pública que seu filho havia criado. Não importava quem ele segurasse, mesmo que fosse um excelente homem deles, aquele escarcéu não era digno de um Uchiha. Do clã como um todo.

— Ele está morto? — falou, apenas porque queria a confirmação para averiguar as faculdades mentais do primogênito.

Itachi aquiesceu e seu queixo tremeu. Fugaku olhou para a figura maltrapilha do filho e se resignou.

— Izumi, leve Shisui para Mikoto. Diga a ela para prepará-lo para seu funeral com as cerimonialistas do clã. O resto de vocês estão dispensados. Vão para suas casas, celebrem suas famílias hoje. À noite, o fogo do nosso clã irá queimar.

A multidão não ousou desobedecer a ordem direta, nem mesmos os oficiais mais próximos ao líder. Um a um, todos desceram a escadaria da estação e se encaminharam para suas casas ou ofereceram apoio àqueles que choravam copiosamente a morte de Shisui. Itachi permaneceu parado no centro da rua, absorto na sensação do corpo de Shisui colado ao seu, o que fez com que Izumi se aproximasse devagar. O medo de ser atacada por aqueles olhos doloridos e perigosos estava claro em sua face, mas sua coragem não vacilou. Passo após passo ela chamou o nome dele baixinho, avisando-o de sua aproximação e quando suas mãos tocaram as de Itachi com o intuito de liberá-las das roupas quase secas de Shisui, os olhos do moreno se fixaram nela.

— Eu preciso levá-lo, Itachi. Nós vamos cuidar dele. Eu, Mikoto-san, Kiyomi... vamos dá-lo um fim digno. Prometo.

Itachi ainda mantinha o aperto forte, ao ponto de as juntas de seus dedos estarem brancas. Fugaku, que receava um colapso nervoso do filho e um ataque à kunoichi, se aproximou e segurou a parte traseira de seu pescoço, fazendo com que o toque firme oferecesse algum apoio sólido com que Itachi pudesse sentir segurança para soltar o primo. Isso de fato aconteceu, o aperto se afrouxou e Izumi entrou em seu espaço, ofereceu-lhe um abraço — com Shisui em meio a eles – e depois o carregou para longe do corpo esguio.

Restavam Fugaku e Itachi ali. Paralisados enquanto observavam suas esperanças se afastando juntamente com o homem que as carregava. Ironicamente, era Shisui quem os uniria dali em diante.

— Quem o matou? — a pergunta dura fez com que o mais novo se encolhesse.

Um agente raiz.

Danzou.

Konoha.

O clã.

Você.

Eu.

Itachi listou os nomes em instantes e tremeu novamente, sabendo que a temperatura do dia nada tinha a ver com os calafrios que seu corpo sentia. Seus olhos embaçaram mais uma vez, o que não passou desapercebido por seu pai. Fugaku, muito atento ao mais novo, apertou com mais força seu pescoço e disse com firmeza:

— Ele está em casa agora. Você também. Vamos cuidar de vocês dois.

Fugaku não esperou por uma resposta, simplesmente caminhou para o templo onde sua esposa provavelmente estava cuidando do Uchiha caído. Itachi o seguiu, sentindo que não havia outro caminho para seguir... no fundo, apesar de todo seu esforço e empenho, foram os Uchihas que os receberam e quem lhes ofereceram proteção. Itachi não tinha certeza de quais pensamentos rondavam a mente de seu pai, mas sequer se importava no momento. Tudo o que lhe vinha à mente era o desejo inconsolável de ter Shisui em seus braços mais uma vez, mas ao ver o corpo dele sobre o tatame do templo do clã caiu em prantos. Nem mesmo o abraço de Sasuke foi capaz de acalentá-lo.

— Deixem-nos a sós – a voz de Mikoto soou no templo altiva.

As outras Uchihas não esperaram por uma segunda ordem, recolheram-se com uma mesura delicada e levaram Sasuke que chorava junto a Itachi. O anbu estava tão desolado que nem mesmo lutou para permanecer com o mais novo. Os gritos de Sasuke partiram seu coração, mas foi a mão macia de Mikoto que o fez erguer seu queixo e fixar seus olhos naqueles idênticos ao seus.

— Você entende agora, minha criança? – os orbes escuros dela estavam frios, calculistas como se o avaliassem com cuidado.

Itachi não costumava receber aquele olhar da mais velha, mas seu silêncio pareceu ser suficiente para ela, porque em um piscar de olhos o Mangekyou Sharingan dela brilhou à frente. O herdeiro Uchiha abriu sua boca espantado, ele não sabia que sua mãe tinha aquela habilidade ocular. Uma lembrança lhe veio à cabeça de súbito e ele entendeu.

— Você a amava.

— Eles me tiraram isso. Eles me tiraram ela.

Itachi conseguiu ouvir a dor na voz da mãe e se lembrou da expressão desolada que ela tinha na maternidade de Konoha enquanto olhava para um bebê louro de olhos azuis. O filho do Yondaime era a última lembrança de que Mikoto poderia ter de sua antiga amiga, mas o Conselho de Konoha jamais permitiu que eles adotassem a criança com a Besta.

— Kushina-san morreu no ataque da Nove Caudas – tentou rebatê-la.

— E você acha mesmo que eles não nos afastaram de propósito? Nós poderíamos tê-la salvado. Nós poderíamos ter salvado Shisui. Junte-se a nós Itachi, ajude-nos a fazê-los pagar. Se não por nós, por Sasuke, afinal, quantos outros Uchihas precisarão morrer para que Konoha se sinta satisfeita?

Itachi não queria ver, não queria aceitar... Mas a visão de Shisui caindo daquele penhasco foi o suficiente para que a dor em seu coração nublasse seus sentidos e pensamentos ou que, na verdade, o possibilitasse ver as coisas como elas realmente eram: Konoha não queria paz, Danzou não iria deixar.

Os Uchiha precisavam se reerguer e agora eles tinham um motivo para isso, porque se antes as emoções estavam afloradas por um confronto, agora que lançavam chamas sobre o corpo de Shisui tinham se decidido a fazer a Vila queimar com eles. A fagulha que faltava se espalhou. Fugaku faria com que se arrependessem por terem menosprezado os Uchiha, Mikoto os ensinaria porque era errado que seu povo fosse conhecido pelo seu ódio quando na verdade amavam demais e Itachi os faria se lembrarem da esperança em pessoa que mutilaram. E assim uma nova Era se iniciaria.

Danzou não achou o corpo. Ele nunca o acharia.

Os Uchiha cuidaram disso.

Notas finais
Espero que tenham gostado!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!