Epitáfio
2 Fim do mundo
Notas iniciais

O pior dia da vida de Edith começou muito bem. Ela e Carmen pegaram um ônibus vago; o trânsito a caminho da escola era praticamente inexistente; a professora de espanhol faltou, então toda a turma do segundo ano A teve um horário livre; e Edith conseguiu tirar um 8 na prova de física que fizera três semanas antes sem ter estudado quase nada — não fora lá uma nota honesta, mas quem ligava? Pelo menos estava a salvo da recuperação.
Tudo aquilo (menos a nota alta, claro) se devia ao caos generalizado que se espalhara após o bombardeio na capital da Geórgia, Atlanta, que aparentemente fora orquestrado pelo próprio exército estadunidense. Temendo acontecimentos similares, o Governo Federal exigira que todas as capitais do país fossem ser evacuadas por inteiro, tendo um prazo de um mês a partir do dia primeiro de novembro de 2010, tornando claro de uma vez por todas que tal doença havia finalmente ultrapassado o continente norte-americano e chegara à América do Sul. Os habitantes tinham a opção de se estabelecerem em cidades do interior ou irem em direção aos centros de refugiados, que situavam-se a poucos quilômetros dos grandes centros urbanos.
As gloriosas horas da manhã naquele dia, no entanto, passaram muito rapidamente, de modo que ao meio-dia e cinquenta em ponto, todas as turmas foram liberadas. A escola toda tinha um ar de despedida, mas não de maneira animada como nas férias: era quase como se estivessem no enterro de alguém. O diretor falou algumas poucas palavras de encorajamento aos alunos, pedindo para que fossem fortes, e desejou a todos boa sorte com um ar sombrio. A maioria dos estudantes foi embora com os pais, e logo Edith, Mai, Matteo e Carmen estavam sentados num banquinho da praça em frente à escola esperando avistarem os carros de seus familiares em meio aos outros veículos na rua.
— Você anotou o endereço, né? — perguntou Edith para Mai pela milionésima vez. Ela estaria partindo de carro naquela tarde (apenas uma semana antes do prazo final da evacuação, pois havia muitas questões burocráticas relativas à sua mudança que demoraram a serem resolvidas) para a casa de sua avó com sua mãe e, surpreendentemente, seu pai e sua madrasta. O homem decidira que a cidade do interior deveria ser mais segura e concordara em ir, para a surpresa tanto de Edith, como de Valquíria; não ficaria na casa de sua ex-sogra e sim na residência que sua família ainda tinha na região.
— Anotei — prometeu Mai. — Não se preocupe, na primeira oportunidade que eu tiver, estarei lá.
— Eu também — pronunciou-se Matteo. — Vou conversar direito com meu pai sobre isso hoje.
Edith assentiu, sentindo-se inquieta: a perspectiva de nunca mais ver seus dois melhores amigos era absolutamente aterrorizante para ela.
Novamente a atenção dos jovens se virou para a rua, onde os motoristas buzinavam e xingavam uns aos outros. Enquanto observavam, uma figura alta passou a pista correndo com um polegar erguido para os carros que iam em sua direção e tomou o lugar ao lado de Edith. Parecia ter se passado uma vida desde que Tobias a recebera em sua casa com Mai após o show; o rapaz assentiu na direção dos colegas e sorriu.
— E aí — cumprimentou. — Isso aqui tá uma loucura, não acham?
Houveram apenas murmúrios de concordância, mas nenhuma tentativa de continuar a conversa.
— Vocês já sabem para onde vão? — indagou Tobias.
— Vou para uma base do exército com meu pai — disse Matteo. — Estão recebendo alguns militares e suas famílias por lá.
— Eu vou para o litoral — respondeu Mai curtamente.
— E você? — perguntou Tobias para Edith.
— Vou pra casa da minha avó no interior — informou. — Você vai sair do país? — ela acrescentou, sabendo que o amigo tinha dinheiro suficiente para tal.
— Não — o rapaz balançou a cabeça. — Meu pai tentou comprar umas passagens, mas não tem mais nenhum aeroporto funcionando.
— White people problems — comentou Mai. Houveram risadas curtas antes deles mergulharem no silêncio esmagador novamente. Depois disso, não demorou muito para as coisas começarem a dar errado.
Por volta das duas da tarde, Mai já havia avistado o carro de seus pais na rua, embora ainda estivesse a uma distância considerável; enquanto não chegavam, ela se despedia dos amigos com pesar. Entretanto, Edith viu logo que não iam a lugar nenhum quando um caminhão do exército bloqueou a passagem dos carros à frente. Um dos homens fardados desceu do veículo e começou a falar no megafone:
— Todos os civis, por favor deixem seus carros e sigam para o Hospital Regional — pediu. — Um oficial irá recebê-los lá. Isso não é um treinamento, repetindo, não é um treinamento.
Edith se levantou imediatamente, sendo seguida logo por seus amigos, e agarrou o pulso de Carmen como costumava fazer quando elas eram mais novas e iam atravessar uma rua; a própria caçula estava tão surpresa que nem resistiu.
— Mai, vamos atrás da sua mãe — chamou Edith.
A amiga assentiu e todos começaram a andar juntos até o veículo prata de onde Nomi e Kyoto Nakagawa desciam, confusos. Matteo e Tobias as seguiram, ainda prestando atenção na comoção à frente da rua, e Mai foi direto até os pais, que tiravam sua bagagem do porta malas do carro.
— Mãe — chamou ela.
— Mai! — exclamou a mulher, soando aliviada, abraçando a filha para logo soltá-la: — Temos que ir para o…
— HRF, nós ouvimos também — interrompeu Mai, assentindo.
— Vamos? — chamou Kyoto, fechando o porta malas.
— Vocês vão ficar aí? — perguntou Mai para Edith e Carmen.
— Não — respondeu a mais velha com firmeza. A menina de descendência japonesa se voltou para Matteo.
— Eu vou — informou o rapaz. — Tobias, é melhor esperar pelo seu pai no HRF, ele deve ir pra lá também.
O outro garoto assentiu e logo eles haviam pegue suas mochilas — e malas, no caso de Mai e sua família — e estavam caminhando em direção ao Hospital Regional, acompanhando a multidão de civis que deixava seus carros. Edith foi andando ao lado da amiga, os dedos firmes ao redor do pulso da irmã mais nova, que continuava sem protestar; Matteo e Tobias foram atrás delas, ambos em silêncio e olhando ao redor para tentarem achar seus pais; e Nomi e Kyoto foram à frente, abrindo caminho para os mais jovens.
O Hospital Regional ficava a apenas dois quarteirões de distância da escola na qual Edith estudara a vida inteira, o que era muito útil quando alguma criança maluca abria a testa brincando de pega-pega ou quebrava um braço ao tentar escalar a grande mangueira no pátio do colégio. Era um prédio de dez andares relativamente novo de fachada branca e verde com portas de vidro espelhado. A rua em sua frente, geralmente lotada de veículos, naquele dia tinha somente dois caminhões do exército, e diante destes, outro homem fardado dava as mesmas instruções que o pequeno grupo recebeu na praça:
— Isso não é um treinamento, repetindo, não é…
— Mat! — uma voz se destacou do barulho da multidão. Logo, todos avistaram o pai de Matteo, Rodolfo, caminhando em direção ao filho. O homem era basicamente uma versão mais velha e mais musculosa de Matteo; atualmente, ocupava o posto de Subtenente, e estava vestido com a farda do exército nacional. Rodolfo abraçou o menino com força antes de se endireitar. — Boa tarde — ele cumprimentou os outros.
— O que está acontecendo, Rodolfo? — perguntou Kyoto, preocupado. O outro homem comprimiu os lábios e balançou a cabeça negativamente.
— Estamos com um problema bem grande — disse.
Ele acenou para seguirem-no para perto de onde algumas mulheres vestidas de branco — enfermeiras — fumavam, nervosas, e mais fardados vigiavam os civis com grandes armas. Rodolfo conversou brevemente com um deles, que logo assentiu e cedeu passagem para todos; logo, o pai de Matteo os guiou para o caminhão da direita e abriu a portinhola do compartimento de trás para que entrassem.
— Não vou entrar aí — Carmen se pronunciou pela primeira vez, fazendo-se ouvir em meio à confusão de passos e vozes.
— Carmen… — Edith tentou ser razoável, mas foi interrompida pela irmã mais nova:
— Edith, a nossa mãe está por aqui em algum lugar — lembrou ela, soltando o braço do aperto de ferro da irmã. — Nós devíamos estar na escola, não aqui. Ela não vai saber onde nos procurar.
O lábio inferior de Edith tremeu ao lembrar do que Valquíria havia lhe dito algumas semanas atrás, sobre ter de partir e não conseguir encontrar suas filhas. Não conseguiu pensar em nada para dizer para a menina mais nova, nenhuma mentira para convencê-la a entrar no veículo, simplesmente porque ela mesma não queria entrar: queria ficar e procurar pela mãe.
— Se vocês não forem, eu também não vou — disse Tobias. — Meu pai também vinha me buscar na escola, talvez se eu voltar pra lá…
— Não — disse Rodolfo com urgência. — Vocês precisam entrar.
— Mas a minha mãe… — Carmen tentou protestar.
— Vou procurar por ela — prometeu Rodolfo. — E pelo seu pai também, acredito que já o conheci em algum encontro de pais e mestres — ele se virou para Tobias. — Mas agora preciso que entrem no caminhão.
— Mas por quê? — indagou Nomi, as sobrancelhas franzidas.
O Subtenente respirou fundo e olhou em volta.
— Conheço um lugar — disse ele. — Teoricamente, só poderíamos levar os nossos familiares para lá, mas posso tentar burlar esta regra.
— Mas por que você quer nos levar para lá? — pressionou Kyoto.
Rodolfo novamente olhou em volta, fazendo um sinal para que diminuísse o tom de voz e olhando as enfermeiras ali perto, provavelmente não querendo ser escutado por elas, embora o rumor de passos dos civis que adentravam ao hospital fosse extremamente alto.
— Por que a infecção chegou aqui — esclareceu o homem, quase num sussurro.
Edith sentiu como se houvesse levado um soco no estômago e por um momento, achou que iria vomitar. Sabia, claro que sabia, que o Vírus havia chegado ali, mas ouvir outra pessoa confirmar tornava algo real e palpável. Ela deu alguns passos para trás, encostando-se ao caminhão, e tentou controlar sua respiração entrecortada ao mesmo tempo que sentia lágrimas subirem aos seus olhos; e se nunca mais encontrasse sua mãe?
Os outros não pareciam ter recebido a notícia melhor que ela; Edith viu Nomi agarrar-se ao marido, como se precisasse de apoio para ficar de pé, e Tobias se agachou no chão, a cabeça baixa, encarando o asfalto. Mai e Matteo se entreolharam, e no entanto Carmen não demonstrou reação alguma antes de se virar e tentar caminhar de volta para a multidão.
— Carmen! — gritou Edith por cima das outras vozes que tentavam impedir a menina de se unir aos outros civis.
Rodolfo foi até ela e pegou-a pelo braço, impedindo que se afastasse mais, e Carmen voltou-se para o homem, seus olhos escuros agora brilhando com as lágrimas que se uniam ali.
— Preciso achar a minha mãe! — exclamou ela, começando a soluçar em seguida.
— Vou procurar por ela — assegurou Rodolfo novamente. — Mas não garanto que ela tenha ao menos conseguido entrar no centro, filha. Já devíamos ter evacuado esta cidade por completo há muito tempo; estamos mandando todos os civis embora hoje, sem nenhuma exceção.
Carmen continuou a soluçar e Edith caminhou até sua irmã mais nova, abraçando-a.
— E essas pessoas? — perguntou Tobias, erguendo os olhos para encarar a multidão cada vez mais rala de pessoas que entravam no hospital. — O que vai acontecer com elas?
— Vão esperar o resto dos caminhões aqui — esclareceu Rodolfo. — Vamos levá-los para o centro de refugiados.
— Vamos para lá também? — Nomi finalmente reuniu forças para falar.
— Não — o Subtenente balançou a cabeça em negativa. — Nós vamos para outro lugar. Não sei exatamente onde fica, mas minha Major nos deu um local e horário de encontro; ela vai nos guiar até lá. Agora preciso que entrem, todos vocês. Vou procurar os seus pais dentro do hospital, mas novamente: não prometo nada.
Enquanto Matteo se despedia de seu pai, Edith conseguiu levar Carmen para dentro do caminhão, afagando seus cabelos enquanto soluços violentos sacudiam o corpo da menina mais nova por inteiro. Ela sabia que a reação de sua irmã devia-se ao medo de nunca mais ver a mãe, especialmente depois da forma como sua relação havia se deteriorado durante os últimos anos; a perspectiva de nunca mais ver Valquíria deveria ser aterrorizante para Carmen.
Ela, Edith, não estava muito melhor. Observou vagamente enquanto os outros tomavam seus lugares nos bancos nas laterais do caminhão; notou que Kyoto não adentrou ao veículo, e que Nomi sentou-se próxima à portinhola, junto ao marido; Mai pegou o lugar à sua frente, e Matteo sentou ao seu lado; e Tobias decidiu isolar-se, sentando sozinho à esquerda de Carmen, olhando as últimas pessoas que adentravam ao hospital avidamente, com certeza em busca de seu pai. A menina notou tudo aquilo como se estivesse assistindo a um filme pouco interessante, mal sentindo sua irmã em seus braços e mexendo nos cabelos da menina com movimentos automáticos; seus pensamentos voltaram-se para seus pais, e ela imaginou onde estariam.
Do lado de fora, todos os civis haviam entrado no hospital; o homem fardado havia parado de gritar ao megafone, e agora se reunia com alguns de seus colegas, conversando e olhando ao redor nervosamente. Os únicos corajosos suficiente para permanecerem fora do hospital desarmados foram as enfermeiras e Kyoto, que ainda não havia subido no caminhão, e segurava as duas mãos de sua esposa, parecendo confortá-la.
Naquele momento, o tempo parecia não passar: o Sol não se movia no céu, a Terra não girava, e Rodolfo não voltava na companhia de Valquíria. Edith sentia-se inquieta, e ao mesmo tempo, dormente. Queria correr pelo centro da cidade gritando pelo nome de sua mãe, mas temia o que encontraria caso tentasse sair da segurança do caminhão. Ela havia fixado os olhos em um ponto no teto e não conseguia desviá-los, com medo do que veria caso o fizesse. Rezava para que algo — qualquer coisa — acontecesse, para que alguém quebrasse o silêncio palpável lá fora, para que quando desviasse seus olhos do teto visse Valquíria caminhando em sua direção. Entretanto, quando algo aconteceu de fato, Edith não sentiu de forma alguma que suas preces foram atendidas.
Dentro do hospital, um único grito soou, sobressaltando a todos dentro do veículo; os sete se entreolharam, e Edith notou vagamente as enfermeiras se movendo inquietas. Antes que qualquer um ali pudesse reagir ou mesmo dizer algo, mais gritos tomaram o prédio, e logo as portas se abriram, dezenas de pessoas abandonando o prédio, fugindo de uma ameaça que ainda não fora vista pela menina. Só então ela percebeu o cheiro de formol que havia subitamente saturando a rua inteira, e viu pessoas trajando camisolas do hospital — algumas até nuas — caminhando devagar no meio da confusão.
Olhando mais de perto, Edith notou que aquelas pessoas pareciam fazer um esforço tremendo para caminharem; a cada passo, eles soltavam gemidos, como se sentissem dor constantemente, e os sons se misturavam com a gritaria resultando num ruído ensurdecedor.
— O que é isso? — gritou Kyoto para o oficial mais próximo, mas o homem não soube responder. Nomi fez menção de que desceria do carro para ficar com o marido, mas ele ergueu uma mão, pedindo a ela que esperasse.
— Se afastem das janelas — pediu a mulher para os outros, e Edith lhe obedeceu prontamente, ficando de pé e ajudando Carmen a fazer o mesmo.
Todos no caminhão pareciam estar prendendo a respiração. Pela abertura à sua frente, Edith viu as enfermeiras começarem a se aproximar do veículo, apressadas, mas não entendeu o motivo; foi só depois de alguns minutos que a menina avistou outra pessoa caminhando devagar em direção às mulheres: um homem de meia idade, careca e muito pálido. Ele tinha uma barriga protuberante e soltava um grunhido a cada passo que dava, mas o que realmente lhe tornava assustador eram as feridas: havia uma em seu braço e outra logo abaixo da orelha, ambas muito grandes e abertas, ainda sangrando.
Carmen o viu também e soltou um ruído estrangulado, quase como uma tentativa de grito que fora interrompida por mãos ao redor de seu pescoço. O som, no entanto, foi suficiente para atrair a atenção dos outros dentro do veículo, e portanto todos estavam olhando quando o homem agarrou uma das enfermeiras, que o encarava perplexa, pelos ombros. A mulher nem mesmo foi capaz de gritar quando ele avançou em seu pescoço, esfacelando sua traquéia e arrancando de lá uma boa parcela de carne, tendões e sangue com uma potente mordida.
Edith gritou a plenos pulmões por puro desespero enquanto os soldados fuzilavam a enfermeira caída e o infectado, os dois sons se misturando horrivelmente em seus ouvidos. Duas das outras mulheres correram para longe da cena, mas logo foram pegas pelos portadores do Vírus que deixavam o hospital; a menina desviou os olhos para não ter a cena gravada em seu cérebro, mas os gritos foram ouvidos por todos ali.
A única capaz de escapar foi uma moça negra de cabelos lisos que fincou os olhos no caminhão e correu até ele, apoiando um pé sobre a roda traseira e jogando os braços por cima da abertura mais próxima de Tobias. O garoto ajudou-a a entrar no veículo, mas a mulher nem mesmo teve tempo de agradecer: colocou a cabeça para fora e vomitou no asfalto quente, logo atrás dos soldados que tentavam conter os outros infectados que se aproximavam.
— Se abaixa! — Edith gritou para sua irmã por cima do barulho ensurdecedor dos tiros, forçando a garota ao encontro do piso, e fazendo o mesmo. Nomi, Mai, Matteo e Tobias fizeram a imitaram, mas Kyoto não fez menção alguma de adentrar ao caminhão — o que o tornou um alvo fácil para a infectada que se aproximou por suas costas, na outra lateral do carro.
O grito de Nomi soou mais alto que qualquer tiro. Ao olhar para trás, Edith viu que uma infectada tinha a mandíbula presa no lado direito entre o pescoço e o ombro do pai de Mai, de onde arrancou um bom pedaço de carne com os dentes. Foi difícil para Edith imaginar que aquilo era um ser humano, com sua pele cinzenta, olhos leitosos e o cheiro de formol que emanava de seu corpo e viajou até as narinas da jovem, alojando-se lá. Enquanto ela mastigava, Kyoto cambaleou para frente, lamentando alto em agonia, tentando fugir da mulher e jogou os dois braços por cima da portinhola do caminhão.
— Nomi — chamou ele, a voz saturada de dor e os olhos marejados. — Nomi, por favor…
A mulher avançou para seu marido, içando-o para dentro pela portinhola aberta com ajuda de Matteo; o homem gritou quando foi puxado pelo braço direito e Edith se afastou com Carmen para dar espaço a ele. Mai deitou a cabeça do pai em seu colo, no chão, e suas calças não demoraram a ficarem empapadas de sangue.
— Papai — choramingou. — Olhe pra mim, não feche os olhos!
Do lado de fora, a infectada tentava seguir sua vítima. Ela parecia mais ameaçadora do que nunca agora com a boca e o queixo sujos de vermelho carmim, e esticava as mãos ossudas para dentro da portinhola que Tobias acabara de fechar. A enfermeira afastou-se o máximo possível, caindo estatelada no piso do caminhão, perto de onde Kyoto quase gritava de dor.
Edith levantou-se num salto e puxou Tobias para trás pela blusa, arrastando-o para longe da mulher infectada. No entanto, logo outros se aproximaram, desta vez pelas aberturas laterais do veículo: um menino talvez da idade de Carmen trajando a farda do colégio que frequentavam e ostentando horrorosas manchas de sangue nesta; uma mulher de cabelos curtos que não usava nada além da camisola do hospital; um homem alto de terno que possuía horríveis furos no peito e um tom de vermelho ameaçador ao redor da boca. Logo, estavam cercados, e o infectados esticavam, sedentos, as mãos ossudas para dentro do caminhão.
Quando Edith concluiu que estavam perdidos, no entanto, uma série de estrondos se sobressaiu aos outros tiros, agora distantes, e aos gritos das pessoas dentro do caminhão; parte dos infectados caiu e Rodolfo surgiu ofegante, uma grande arma automática de aparência ameaçadora em mãos.
— Pai! — exclamou Matteo aliviado, enquanto o homem corria em direção à cabine, atirando em diversos infectados no caminho.
— Mamãe, o que a gente faz? — perguntou Mai aos gritos, vendo o sangue de Kyoto espalhar-se no chão do veículo.
— Liga o carro! — berrou Tobias ao ver que os tiros haviam atraído mais infectados; eles avançavam num passo lento e arrastado, agora sem obstáculos, uma vez que a barreira formada por membros do exército havia se desfeito e muito fardados agora jaziam caídos no chão ou correndo dispersos pela rua.
— Você é enfermeira! — Nomi virou-se para a mulher negra, que havia se encolhido no canto mais distante da rua quanto possível. — Faz alguma coisa!
— Eu sou só técnica! — rebateu ela, o rosto pálido. — Eu nem queria trabalhar com isso, não posso ver sangue, só fiz o curso porque meu pai me obrigou…
— PAI! — berrou Matteo. — LIGA O CARRO!
— NÃO ESTOU ACHANDO AS CHAVES! — Rodolfo gritou também. — Vou fazer uma ligação direta, aguentem aí!
— Eu ajudo! — disse Edith, sentindo o desespero na garganta e se recusando a olhar para a rua, onde os gemidos se tornavam mais altos. Ela amarrou as tranças num rabo de cavalo e virou-se para a moça: — Me diz o que fazer.
Ela assentiu, aterrorizada, e pareceu pensar.
— Você precisa… hum… checar as vias aéreas dele — disse. — Tenha certeza de que está respirando e veja se tem obstruções.
— Eu estou respirando — Kyoto lamentou-se no chão, parecendo cada vez menos consciente.
— Tudo bem — disse a enfermeira. — Temos que estancar o sangramento. Precisamos de blusas, toalhas, lençóis, qualquer coisa que tiverem. Ah, e temos que cortar a blusa dele também, assim é mais fácil de tratar da ferida.
Assim, com a ajuda de Carmen, Nomi passou a revirar as malas que sua família trouxera em busca de algum objeto cortante e dos tecidos que Edith logo pressionou acima do ferimento de Kyoto conforme as instruções da mulher, que se apresentou como Angelina, após cortar totalmente a manga da camisa do homem. A primeira regata ficou empapada em segundos, mas a enfermeira orientou que não a tirasse de cima da laceração, ou atrapalharia o processo de coagulação do sangue; ao invés disso, a menina colocou outra blusa por cima.
— Vocês têm que acalmá-lo — disse Angelina em voz baixa quando Rodolfo finalmente deu a partida e o caminhão começou a andar. Àquela altura, as pálpebras de Kyoto estavam consideravelmente baixas, e as camisas em seu pescoço haviam formado um pequeno montinho que Edith seguia a apertar.
Mai e Nomi se entreolharam, ambas com os rostos longos manchados de lágrimas, parecendo não saber o que dizer. Foi Matteo, no entanto, que se aproximou do homem e segurou sua mão com firmeza, fazendo com que ele despertasse, piscando confuso.
— Seu Kyoto, o senhor vai ficar bem — prometeu ele. — Vamos cuidar do senhor, mas não durma agora.
— Olhe pra mim, papai — pediu Mai, encorajada pelas palavras do amigo. — Fique de olhos abertos.
Edith observou enquanto os lábios dele tremiam e a voz saía entrecortada para formar uma única palavra:
— Nomi… — chamou.
— Aqui — a mulher assegurou, pegando sua mão direita. — Não vou sair daqui.
— Pai, lembra de quando o senhor me levou no rancho e quase levou um coice tentando tirar uma foto com um cavalo? — perguntou Mai. O fantasma de um sorriso atravessou o rosto de Kyoto.
— E lembra daquela vez que o senhor levou a gente no parque de diversões — Matteo tornou a ajudar, o rosto muito pálido. — E vomitou na montanha-russa?
Desta vez, Kyoto conseguiu soltar uma risada fraca. Eles seguiram lembrando ao homem de histórias engraçadas e felizes enquanto Angelina auxiliava Edith de longe e Rodolfo dirigia como se estivesse numa cena de perseguição de Velozes e Furiosos. Tobias ajudou como podia, cobrindo o pai de Mai com lençóis para que ficasse aquecido, e logo passou a encarar as avenidas da cidade mergulhada no caos, parecendo muito abalado.
Levou a Edith quase uma hora para estancar o sangramento por completo e naquele meio tempo, ela sentia a temperatura do corpo do homem elevar-se cada vez mais. Quando terminou, esperou alguns minutos antes de acenar com a cabeça para Angelina, que virou-se para a cabine do motorista, falando algo em voz baixa com Rodolfo; poucos momentos depois, o homem lhe passou uma caixa branca com uma cruz vermelha que ela abriu ao lado de Edith.
— Vamos fazer um curativo — disse a mulher aos sussurros para não ser ouvida pelos outros, soando ligeiramente mais calma. — Bom, você vai fazer.
— Ele está com febre — informou Edith no mesmo tom baixo.
— Podemos lhe dar Paracetamol — sugeriu Angelina, remexendo no kit de primeiros socorros. — Certo, você vai tirar isso aí de cima bem devagar e me dizer como está a ferida.
Edith umedeceu os lábios e começou a puxar as blusas de uma por uma, colocando-as de qualquer jeito no chão atrás de Mai. Quando chegou na primeira camisa, retirou-a com extremo cuidado e o fedor que subiu da ferida fez com que seus olhos ficassem marejados. A menina estudou a mordida: o sangue acima dela havia coagulado, formando uma crosta vermelho-escura, e ao seu redor, havia uma área de pele vermelha que dava a sensação de que a derme estava fervendo; já o cheiro era uma mistura de formol, sangue e mofo que fez o estômago da jovem se embrulhar.
— E então? — sussurrou Angelina, levando uma das mãos ao rosto para se proteger do fedor; Edith desejou poder fazer o mesmo, mas suas mãos estavam cobertas em sangue.
— Está… coagulando — murmurou Edith com dificuldade. — O sangue. Mas a pele ao redor está muito vermelha e o cheiro…
A enfermeira fez um muxoxo.
— Você vai aplicar álcool ao redor da ferida — disse a mulher, remexendo no kit. — Cuidado para não cair dentro, ou ele sentirá muita dor e afetará o processo de cicatrização. Aqui — ela estendeu um par de luvas de borracha descartáveis para Edith.
Angelina embebeu uma porção de algodão em álcool e entregou à jovem, que passou lentamente ao redor da mordida, limpando o pus e o excesso de sangue que continuava ali e tentando não deixar os solavancos do caminhão lhe atrapalharem. Ao terminar, recebeu um pedaço de gaze molhado com soro fisiológico que aplicou sobre a ferida em si; estranhamente, Kyoto nem mesmo protestou. Depois, era hora de fazer o curativo propriamente dito: com um cotonete, Edith aplicou uma fina camada da pomada gosmenta que Angelina lhe passara, colocou uma atadura em cima e a prendeu ali com pedaços de fita que lhe foram entregues pela enfermeira.
E assim, havia acabado. A menina afastou-se do pai de Mai e sentou-se, trêmula, num dos bancos laterais recebendo olhares agradecidos de Nomi e de sua filha enquanto tirava as luvas e secava as mãos, sujas de vermelho até os pulsos, numa toalha branca e felpuda. Carmen sentou a seu lado, entregando-lhe sua garrafinha de água e sabonete líquido retirado da mala de Mai para que se lavasse, e logo não havia sinal de sangue na menina.
As duas observaram enquanto Angelina tomava medidas para baixar a febre de Kyoto, sentada ao lado de Nomi e sendo seguida pelo olhar de Mai. Tobias e Matteo conversavam em voz baixa perto da portinhola e só então Edith percebeu que o Sol se pusera e tudo lá fora estava muito escuro. Ela se levantou novamente, caminhando com dificuldade no veículo em movimento, e tornou a sentar-se no banco ao lado de Matteo, sendo seguida por Carmen, que ficou a seu lado.
— Saímos da cidade tem meia hora — disse o rapaz de cabelos claros em voz baixa.
Edith abraçou sua irmã mais nova e tornou a olhar para fora do veículo, sem reação alguma além de choque. Não acreditava nas cenas que havia presenciado, e novamente sentiu como se fosse somente uma espectadora da cena, assistindo de fora de seu corpo. Ela vagamente notou que encontravam-se numa rodovia alta de onde era possível que vissem as silhuetas dos prédios e casas claramente, bem como suas luzes ainda acesas. Quando seus olhos encontraram os de Tobias, ela soube que estavam pensando a mesma coisa. E se seus pais estivessem naquele hospital? Teriam agonizado como as colegas de Angelina? Teriam sido infectados também? Ou teriam conseguido fugir?
Em poucos momentos, não importaria. Onde quer que sua mãe estivesse na cidade, Edith percebeu que seria irrelevante quando viu os aviões que voaram acima de suas cabeças pairarem acima dos edifícios. Em segundos, tudo que fora o local onde a jovem passara a maior parte de sua vida, onde vira sua irmã nascer e o casamento de seus pais desmoronar não passava de uma pilha de tijolos flamejantes.
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