Notas iniciais
Um cara cuja a vida era repetitiva e completamente entediante apesar de sua pouca fama no palco e seus vícios. O vazio o preenchia e então a vida lhe respondeu de alguma forma.

Sem Face

Abri os olhos e vi a multidão naquela noite calorosa de sábado. Pessoas grunhindo meu nome, esperando que minhas baquetas rasgassem seus ouvidos, batendo instintivamente sobre a bateria. Ah... Eles ansiavam a sede disso... E eu dei para eles um momento alucinante em suas vidas tediosas.

O show acabou como uma farra relaxante. Triste, senti que faltava alguma emoção em meu peito. Tentei saciar essa nova sede, indo para fora com um cigarro na mão.

No meio do caminho em que percorria, ouvi tão solene, uma voz baixa que quase sem som, disse: "Eu te quero..."- A voz parecia sussurrar. Virei-me para todos os lados, até dar uma volta completa sobre o meu ponto de vista original, e percebi um aglomerado de pessoas, mas nenhuma delas com intenções de repetir o que fora dito.

Continuei meu caminho.

Chegando lá fora, em uma rua atrás da boate, com um cheiro de cidade e poluição no ar, pus os dedos sobre meu isqueiro, de forma que a chama apareceu trazendo um brilho fraco no meio da noite e pensei por alguns segundos.

Enquanto olhava para a chama que mantinha o cigarro acesso, vi de forma rápida, uma mulher.

Estava de costas e era formosa de corpo. Usava um vestido vermelho bem ajustado à postura de seu corpo, cabelo loiro e volumoso, com mechas pretas bem fracas, uma jaqueta branca sem nenhuma mancha e um pouco amarrotada.
Ficou parada de costas perto do beco escuro e sem luz, até que invadiu o local, fazendo um sinal com a mão, chamando-me, sem mostrar o rosto.

Parei de fumar, e pensei se não poderia ser aquela a dona da voz.
Corri para dentro do beco e ao me aproximar, vi a sua sombra. Aproximei-me mais cuidadosamente e ela correu como se fosse perseguida por uma fera sombria e assustadora.

A noite estava gelada fora da boate e correr até o fim do beco, me fez olhar em volta precavidamente, até ver no chão sua jaqueta, que já não aparentava ser mais tão branca quanto antes.

Ouvi de imediato um som de um ônibus veloz. Olhei como se procurasse algo por lá.
Ela estava sentada na janela a direita do motorista.
Reconheci pelo cabelo, e notei que ela se foi sem olhar para trás.
Não pude ver a sua face, imaginando como seria o mistério de nunca tê-la visto.
Lembrei-me da emoção que eu pensava estar faltando, e sua jaqueta ocupava minhas mãos como uma lembrança do que ocorrera.

Ao apertá-la entre os dedos, senti alguns volumes entre os bolsos. Cada um deles tinha uma coisa há mais.
Em um, uma rosa, cujo espinho me espetou, quase como se ela planejasse isso. E no outro, um rascunho em um papel meio amassado.
Este dizia:
“Eu te quero. Pois, achei em você o que já mais tive.
Mas você nunca me notou. Essa é uma história sem ponto final, ou estaria eu lhe dando um? Diga-me seus desejos e lhe direi qual o preço.”

Pensei no fim imediato. Ela me parecia familiar, e logo pensei, no fundo nunca tinha visto como deveria ver. Condenei-me há buscá-la para reparar a vida, mas ela sumiu como se nunca tivesse vivido, sem registro, sem marcas, sem o calor de sua presença.

Cavei um buraco para minha própria vida, eu não tinha nada, fui chutado e cuspido pela vida, não conhecia outros prazeres que não fosse meus vícios banais. Queria ter tido a chance de conhece-la, ela poderia ter reescrito minha história. Eu poderia ter um novo começo. Desejava por isso... Eu poderia ser...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.