Episódios Da Vida A Dois
18 Desolado
Notas iniciais
Grissom olhou para ela por longos minutos, naquele momento ela dormia tranquilamente. Ela havia reclamado de dor mais cedo, nos poucos minutos que permanecera acordada e ele chamara imediatamente o médico, que a examinara e lhe aplicara uma medicação mais forte. Agora ela dormia com uma expressão serena no rosto machucado. Beijou de leve sua testa, foi até a janela e observou o pequeno jardim nos fundos do hospital. O dia estava amanhecendo e com certeza seria quente como os anteriores. As lembranças daqueles dias voltaram com força.
Eles estavam seguindo uma pista sobre um dos filhos de Ernie Dell e quando entraram no apartamento dele o encontraram morto no banheiro e uma miniatura dele próprio em uma estante. Foi através disso e de uma digital com epiteliais femininas que eles conseguiram chegar a Natalie Davis. Grissom e Cath foram até o pai biológico da garota para tentar entender por que ele a havia deixado e quando ele chegou ao laboratório ligou para Sara. Queria atualiza-la com as informações que tinham conseguido.
Chegou a sua sala assim que finalizou a ligação e encontrou seu pior pesadelo sobre sua mesa. Outra miniatura. Olhou com desconfiança para a maquete, não sabia dizer por que seu peito se apertava a cada passo que dava para perto daquele objeto.
A miniatura mostrava um pedaço qualquer do deserto, com um carro capotado e um boneco embaixo dele. Ele levantou o carrinho para ver quem seria a vitima daquela vez e seu coração parou, depois começou a bater como um louco dentro de si, seus olhos se arregalaram. “Não, Deus! A Sara não, por favor, não!” Sua cabeça girou e ele sentiu náuseas.
Pegou o celular e ligou para ela, sua mente murmurava uma prece silenciosa, enquanto seus lábios pediam para que ela atendesse, mas isso não aconteceu e ele se sentiu desolado, perdido, sozinho. Seu coração chorava e o medo de perdê-la se apossou dele. Tinha que ter forças para encontra-la
Juntou algumas peças daquele quebra-cabeça de terror e logo estavam todos na sala de evidencias em redor da miniatura. Um número de série os levou a um caso anterior, que Sara trabalhara. Grissom pediu a Greg que puxasse as fotos do caso e lá estava Natalie os observando do meio da multidão de curiosos.
Ele se lembrava daquele dia, eles haviam tido folga na noite anterior e Grissom preparara um jantar para eles, depois assistiram um filme na televisão, deitados no sofá com o corpo dela completamente encaixado no seu e por fim, terminaram a noite fazendo amor por longas horas. Quando foram chamados para aquele caso ele aproveitara o momento para, disfarçadamente, deslizar a mão por seu braço macio, com a desculpa de ajuda-la com a câmera fotográfica.
Perdido nessas lembranças ele mal ouvia o que os meninos falavam, o que o despertou foram as palavras de Cath sobre aquele caso parecer diferente.
– É diferente – disparou sem pensar nas consequências. – Essa garota me julga responsável pela morte de Ernie Dell. Eu tirei dela a única pessoa que ela já amou e agora ela vai fazer o mesmo comigo.
Alheio aos olhares assustados e surpresos de seus amigos, ele saiu da sala, sua mente trabalhando rápido, tinha quase certeza que encontrara uma nova pista. Ele estava certo e isso os levou a prender Natalie Davis. Ele queria falar com ela e Jim permitiu. Conversando com a garota ele se esforçou para parecer simpático, tentando ganhar a confiança dela.
Ele falou sobre a maneira que ela havia matado Sara, sentindo seu coração morrer mais um pouco ao pronunciar aquelas palavras, só para sentir um pouco de alívio quando ela negou que Sara estivesse morta. Insistiu em saber de seu paradeiro, mas Natalie se perdeu em seu próprio mundo esquizofrênico sem lhe dizer nada e ele perdeu a paciência. Agarrou-a pelos braços sacudindo-a para que ela voltasse e lhe dissesse o que precisava saber. Mas o esforço foi em vão.
E quando viu a previsão de tempestades no deserto, ficou ainda mais apreensivo. Sara estava em algum lugar daquele deserto e se... Uma suspeita o atingiu em cheio e rapidamente ele pegou água em um recipiente e derramou sobre a miniatura. Ao ver a pequena boneca submergir uma dor aguda atingiu seu coração despedaçado.
As buscas continuaram frenéticas e Nick descobriu uma pista crucial para o desfecho daquele caso. A pista os levou a um ponto especifico do deserto, limitando a área de busca. Logo encontraram o carro vermelho soterrado em meio a areia, Grissom e Nick correram e começaram a cavar com as mãos. Nick achou o colete dela e foi com alivio que viram que ela não estava ali. Mas onde estava então?
Grissom olhou ao redor e encontrou pegadas, seguiu-as junto com Cath, mas logo desapareceram. O tempo no deserto era implacável e imprevisível, cada minuto que passava as chances de encontra-la com vida diminuía. Mais uma vez ele olhou em redor com o binóculo, avistou três pedras uma sobre a outra. Ela havia deixado outro rastro, que também não durou muito, mais uma vez olhou em volta com seu binóculo e... um corpo!
“Não! Por favor, que não seja ela, por favor, não!” Ele suplicava em silencio, suas pernas queriam fraquejar, mas ele as obrigou a correrem. Enterrado na lama, de bruços, eles o viraram. Era um homem. Pobre rapaz, morrer de forma tão triste. Ele divagou sobre o calor, a desorientação, a desidratação e ouviu Cath falar que Sara era forte, ela aguentaria.
Era o que ele esperava, que ela aguentasse, não desistisse. Precisava dela como do ar que respirava, ela lhe dera uma vida, lhe dera amor, aconchego, carinho e algumas broncas brincalhonas, também. Ele a amava mais que tudo, não sobreviveria sem ela.
Foi com alivio que ouviram Nick avisar pelo rádio que ele e Sofia a haviam encontrado. Grissom dirigiu o mais rápido que pode e correu assim que chegou ao local. Ouviu os paramédicos falando sobre suas condições, enquanto prestavam os primeiro socorros. Ele ajeitou o boné e passou a mão no rosto limpando discretamente as lágrimas que teimavam em subir-lhe aos olhos.
Ajudou os paramédicos a colocarem ela no helicóptero e seguiu junto, sentado ao lado dela. Pousou uma mão sobre a dela, como se, com aquele gesto, pudesse lhe passar um pouco de sua força. “Vamos querida, volte para mim. Abra os olhos, por favor, não me deixe. Eu preciso de você!” Pensava apertando delicadamente a mão dela. Ele viu suas pálpebras tremerem e se abrirem devagar. Seu coração deu um salto dentro do peito, o alivio tomou conta de seu ser e ele lhe deu um discreto sorriso, que ela retribuiu.
Assim que chegaram ao hospital, a equipe médica, que já estava pronta para atendê-la, a levou por um longo corredor e ele sentiu alguém segurar seu braço e lhe informar que teria que esperar ali. Os minutos que permaneceu naquele corredor lhe pareceram horas e, quando já estava a ponto de invadir aquela área restrita além da porta, o médico veio até ele.
Ouvi-lo falar que seu estado era grave e que precisaria de uma cirurgia no braço esquerdo, pois estava quebrado em dois lugares, feriu seu coração como se tivesse sido apunhalado. Além do braço quebrado ela ainda tinha vários hematomas pelo corpo, um corte mais profundo e vários arranhões no rosto, estava com insolação e desidratada.
Logo que o médico o deixou seus amigos chegaram, perguntaram sobre o estado dela e o acompanharam na espera pelo fim da cirurgia. Quando o médico voltou foi rodeado por todos eles. Ele falou que a cirurgia havia ocorrido bem e que Sara dormiria até o dia seguinte, quando então poderiam vê-la.
– Acho melhor irmos então – disse Cath. – Todos estamos precisando de um bom descanso.
Grissom ficou parado no corredor vendo-os sair.
– Hei Gil, você não vem? – perguntou Jim chamando a atenção dos colegas para ele.
– Não, vou ficar aqui para o caso dela acordar ou...
– Acha mesmo que quando ela acordar, a primeira imagem de você que ela vai querer ver é essa? – ele apontou para suas roupas.
Pela primeira vez em muitas horas ele olhou para si mesmo e teve que concordar com seu amigo. Suas roupas, rosto e braços estavam cobertos de pó do deserto, estava suado, precisava de um banho urgente. Jim tinha razão teria que ir em casa mesmo que não quisesse.
E ele o fez, foi até seu apartamento, tomou banho, fez a barba, colocou roupas limpas, cuidou da alimentação de Hank e voltou para o hospital. Passou a noite na sala de espera do hospital, na manhã seguinte eles a levaram para o quarto e lhe foi permitido ficar com ela. O médico passou para vê-la e explicou que, devido a tudo que ela havia passado e a medicação muito forte, ela dormiria a maior parte do dia, o que era bom , pois o descanso tornaria mais fácil sua recuperação.
Cath ligou querendo saber de Sara e ele lhe passou as informações, então decidiram que todos iam vê-la na manhã seguinte apenas, para que ela descansasse e pediu a Grissom que os mantivesse informados. Sara realmente passou o dia todo dormindo, abria os olhos apenas por um minuto e voltava a mergulhar na inconsciência.
O celular dele vibrou em seu bolso arrancando-o de suas lembranças, era Cath.
– Grissom – atendeu sussurrando.
– Oi Gil. Como ela está?
– Está melhor Cath, ainda está dormindo.
– Nós estávamos querendo vê-la assim que sairmos daqui.
– Claro, ela vai gostar muito de ver vocês.
– Ótimo, nos vemos depois, então.
Eles se despediram e ele guardou o telefone.
– Griss – ela o chamou, a voz baixa e rouca.
Ele a olhou ternamente e deu a volta na cama, sentando-se ao seu lado e segurando sua mão “boa”.
– Oi querida. Como se sente hoje?
– Bem melhor. Quem era no telefone?
– A Cath, todos estão ansiosos para vê-la.
Ela sorriu, seus amigos eram sua família.
– Você parece cansado – disse olhando com atenção para o rosto dele.
– Eu estou bem, não se preocupe. Sara – ele hesitou – é ... eu tenho uma coisa para contar para você...
Ouviram uma batida na porta e uma enfermeira entrou em seguida.
– Bom dia Sr. Grissom, Sara.
– Bom dia – responderam juntos.
– Sr. poderia nos dar licença? Temos que realizar alguns procedimentos com ela. Poderá voltar em meia hora.
– Claro – ele deu um beijo na testa dela. – Daqui a pouco eu volto amor.
Ele foi até a cantina precisava de uma xícara de café e aproveitou para pedir um sanduíche. Não estava com fome, mas precisava se manter forte, por ela. Ele engoliu o sanduíche sem nenhuma vontade e tomou o café, enquanto observava a rua pela janela. Estava voltando quando viu o médico e a enfermeira saindo do quarto. Eles se cumprimentaram.
– E então? Como ela está, doutor?
– Está reagindo muito bem à medicação, sinais vitais normais, os ferimentos estão cicatrizando. Ela está bem, logo poderá levar sua namorada para casa Sr. Grissom.
– Obrigado – ele os viu se afastarem e entrou no quarto.
A olhou com carinho, ela estava sentada, recostada na cama confortavelmente.
– Venha amor. Acho que tem algo para me contar – chamou-o batendo no colchão ao seu lado.
Ele sentou e pegou sua mão.
– Sara eu... contei a eles sobre nós.
– Como? – perguntou assustada.
Ele lhe explicou como havia revelado o relacionamento secreto deles, depois ficou em silêncio esperando a reação dela.
– Como eles reagiram?
– Não sei, ainda não falaram comigo a respeito, mas você precisava saber, por que eles estão vindo aí e talvez façam alguns comentários. Eu sei que não era assim que nós planejamos contar a eles, me desculpe.
– Tudo bem – ela soltou sua mão e acariciou seu rosto. – Vamos enfrentar isso juntos, não é?
– É claro querida, juntos.
A mão dela deslizou para sua nuca e o trouxe para um beijo.
– Sara...
– Só um beijinho, amor – a expressão dengosa e um biquinho lindo o derrubou. – Por favor.
Ele não resistiu, com cuidado tocou seus lábios nos dela. Sara o puxou um pouco mais para aprofundar o beijo, então ouviram alguém pigarrear, eles se separaram rapidamente e olharam em direção a porta. Estavam todos ali olhando-os com curiosidade. Um silêncio constrangedor pairou sobre eles até que Jim o quebrou.
– Desculpe interromper, mas nós precisávamos vê-la, querida – ele se aproximou da cama e beijou a testa de Sara.
Logo todos queriam fazer o mesmo. Cath a abraçou com um olhar malicioso, Nick tinha lágrimas nos olhos. Greg sorriu e sussurrou em seu ouvido.
– Até que enfim conheci seu namorado, eu sabia que ele não me era estranho.
Sara riu do comentário dele e Warrick foi até ela com um sorriso largo no rosto e abraçou-a com carinho. Sofia, que também estava ali, abraçou Sara, seguida de Al que a cumprimentou como Jim havia feito, com um beijo na testa. Grissom que havia se afastado para dar espaço a seus amigos, voltou a ficar de pé ao lado dela.
– Então Sara, como se sente? – Cath perguntou.
– Estou bem, Cath. E gostaria de agradecer por vocês não terem desistido de mim, quando eu mesma já não tinha esperanças de ser encontrada.
– Nunca desistiríamos de você, somos uma família – disse Nick.
Ela sorriu para ele.
– Sara espero que isso não queira dizer que duvida da nossa capacidade como CSI’s – Greg provocou-a, piscando para ela.
Todos riram e o clima se tornou mais leve.
– Bom, isso nos leva a outra questão – disse Cath. – Vocês dois – apontou para Grissom e Sara – nos devem algumas explicações, não acham?
Os dois coraram até a raiz dos cabelos.
– Cath não é o momento para discutirmos isso. Sara precisa descansar.
– Eu sei, não queremos explicações agora. Queremos apenas que nos prometam esclarecer alguns detalhes.
Grissom engoliu em seco, Sara o olhou e depois encarou os sete rostos, que pareciam conter o riso, a sua frente.
– Claro que prometemos. Não é amor?
Os CSI’s se entreolharam diante do termo carinhoso com que ela se referia ao supervisor, ainda teriam que se acostumar com aquela nova situação.
– Tudo bem, vamos marcar um dia, assim que Sara sair daqui.
Eles ainda conversaram por um tempo e depois se despediram. Sara suspirou aliviada assim que todos saíram, deixando-a a sós com seu namorado. Havia sido mais fácil do que ela imaginara, pelo menos até agora. Ele voltou a sentar ao lado dela.
– Você está bem querido? Parece assustado.
– Quase enfartei quando Cath disse que queriam saber alguns detalhes.
Eles riram da situação, então ela o viu ficar sério e olhar atentamente para seu rosto. Ela viu dor em seus maravilhosos olhos azuis.
– O que foi Griss? Em que está pensando?
– Foi tudo culpa minha Sara – ele disparou.
Ela ficou de boca aberta, surpresa com aquela declaração.
– Não Gil, isso não é verdade.
– É sim. Aquela garota queria me punir pela morte de Ernie Dell e acabou usando você para isso. Eu deveria ter protegido você. Se eu tivesse... perdido... você. Nunca iria me perdoar. Eu não teria mais nenhum motivo para viver, por que você é minha vida Sara – algumas lágrimas rolaram pela sua face.
– Querido, não pode se culpar pelo que aconteceu comigo. Poderia ter sido qualquer um. Todos nós acreditávamos que ele fosse culpado pelas mortes das miniaturas – ela o trouxe para perto tocando sua testa na dele.
– Mas Sara....
– Chega Grissom, não quero mais falar sobre isso. A culpa não foi sua, não foi de ninguém e ponto final – ela secou suas lágrimas com beijos delicados, depois seus lábios encontraram os dele – Acho que agora podemos continuar de onde havíamos parado.
Ele sabia que ela se referia ao beijo que fora interrompido pelos amigos.
– Sara, se comporte. Você precisa descansar.
– Prometo me comportar, agora venha cá – ela voltou a puxá-lo para seus lábios.
Grissom a beijou, estava se perdendo naquela boca deliciosa, então se afastou.
– Sara... – disse ofegante – você prometeu que...
– Grissom, cala a boca e me beija.
E ele o fez, com tanta vontade, amor, cuidado e carinho que quase se esqueceu de que estava em um quarto de hospital. Sara se entregou completamente a maciez daquela língua que habilmente acariciava a dela. Sentia-se renovada, segura. De repente, sentindo o calor que emanava do corpo dele e o sabor de seus lábios, ela soube que tudo ficaria bem. Não ficaria?
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