Epifanias
4 Capítulo IV
Ao nascer do sol. quando todos puseram-se a dormir, Darriane levantou-se. A princípio, ela não se lembrou de nada, sentou-se na cama, contente, mal sabendo porque trocara a noite pelo dia. Uma vaga memória lhe assaltou. Antes de dormir, chorara desesperadamente; não conseguira parar de chorar por um tempo, e a tristeza era tamanha, que logo não conseguia nem chorar. Sentira-se, ainda, desolada, mas extremamente calma também. Adormecera então, antes da lua se erguer, mas deixara as cortinas abertas, para levantar ao amanhecer, quando os outros dormem. Subitamente lembrou-se de tudo.
Darriane vestiu seu vestido de sacerdócio, de linho fino e seda, preto e azul. Trançou seu cabelo, que quando solto parecia mais um vé negro que desce até os joelho. Em todo tempo, evitou pensar, pois se pensasse em qualquer coisa que fosse, surtaria. Mas, contrariada, não poderia negar que sua primeira missão não saía de sua cabeça.
"Sei que sempre almejou ir ao Bosque dos Quatro Ventos, mas, agora, deixe a empolgação de realizar tal desejo e me ouça com atenção", disse sua amada mãe e rainha com a voz rouca "estou morrendo, mas já fiz o que tinha de ser feito. Quanto a você, cuidará de seus irmãos e irmãs. Sete dias após minha morte, saia do castelo durante o dia, quando todos dormem, vá ao meu quarto. Encontre um punhal com uma insígnia de um tornado e com gravuras abstratas em seu fio; ele lhe pertence. Pegue um livro, de cor vermelha; é meu diário. Encontre também um colar com pedras, e no meio, a mesma insígnia do punhal, feita de ouro branco. Depois vá ao bosque. Coloque o colar e o punhal no centro do círculo. Abençoada seja, minha criança."
Darriane subiu as escadas, indo para o quarto da mãe. Pegou um archote e entrou. O aposento parecia macabro; abriu as cortinas, deixando que a luz da manhã entrasse e talvez alegrasse um pouco o ambiente. Onde estariam o punhal, o colar e o livro? Procurou em gavetas, sob o colchão, nos armários e na biblioteca, entre as roupas, calçados, até que por acaso, atrás do armário, descobriu uma sala. Afastou as roupas, e esgueirou-se para o outro cômodo. Era cheio de prateleiras, como uma biblioteca, mas, apesar de ter alguns livros, tinha armas e pedras. No centro, sob uma mesa, havia um candelabro de ouro aceso.
Ela se aproximou lentamente. Como poderia estar aceso se a Rainha não passou sequer sua última quinzena de dias? olhou ao seu redor, cautelosa; e se alguém cuidava para que o fogo nunca se apagasse? Mas esqueceu de qualquer preocupação quando seu olhar pousou em um punhal. O fio era como garras do vento, como quando em uma tempestade, ele chicoteava árvores e plantas. Feito de prata, havia alguns desenhos incrustados em seu fio, que Darriane imaginou satisfeita, deveria causar uma dor ainda maior. Quando ela tocou a arma, sentiu tudo agitar-se. O ar materializou-se, em um espírito. O espectro surgiu, oscilando, ora cinzento, ora resplandecente.
– Filha do Vento, meus cumprimentos, filha minha.
A jovem sentiu-se desconcertada. Sabia que era filha do Vento, pois o mesmo a reclamou. E porque, também, ele e sua mãe a conceberam. Sentia-se viva durante tempestades, e quando sentia uma forte emoção o ar se agitava. Exceto tais conhecimentos, nunca tivera uma confirmação ou uma experiência a mais. Ela se ajoelhou. Não conseguiria sustentar o olhar da figura que a chamou de filha.
– Dê-me tua mão, criança. — a voz soou soprada, firme e paterna.
Darriane ergueu as mãos e sentiu um toque diferente de qualquer outro. Não era um toque cálido, nem frio. Não eram mãos sólidas enlaçadas nas suas, mas ela as sentia. Ele a levantou, mas ela continuou a fugir de seu olhar.
– Darriane Elsydeon, olhai para mi. Sou o Vento Ocidental, Impetuoso. Vós sois minha filha, o vento Fúria, A Guerreira da Tempestade, e hoje, abençoada seja. Continue a missão de hoje, encontrar os pertences que lhe dei.
– Pai, eu ainda não dominei o Vento. — ela contou, insegura de si.
– Ora, ora. — ele riu. — Vós sois a Ventania.
E dizendo tais palavras, ele não se encontrou no arsenal de armas.
Darriane percebeu que ele colocara o colar em seu pescoço. Era a mesma garra do Vento, desta vez girando em torno de si, como um tornado.
O livro com capa de couro vermelho estava ao lado do candelabro, agora apagado.
Apressou-se, estava ansiosa para ir ao bosque e tinha de comparecer à Reunião dos Juízes, quando alua se erguesse. Saiu do arsenal escondendo-o com cuidado. Desceu as escadas correndo, sem olhar para trás. Chegando ao estábulo, selou Íris, sua égua, e pôs-se a cavalgar com agilidade, buscando o Pomar de Prata, que guia diretamente ao Bosque.
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