Epifania
1 Capítulo Único- Insanidades
Notas iniciais
O líquido, preto e amargo, escorria quente por sua garganta arrancando-lhe um breve suspiro de satisfação.
Tudo ali era tão quente e amargo quanto o café que queimava-lhe a língua e roubava-lhe todo o resquício de doce da boca. Havia se tornado tão parte de si, que era um pecado não se permitir saborear o amargo que o café e a sua vida tinham.
Ou quase amargo...
Para ser muito sincera consigo mesma a vida vinha tendo sabores agridoces e um tanto quanto azedos desde que aquele homem cruzará seu caminho, ousara tocar-lhe os lábios e roubar não só um beijo mas secretamente também a sua sanidade. De repente, e ela não sabia ao certo em que momento, Aurélio Cavalcante vinha perturbadoramente invadindo seus pensamentos, sonhos e desejos mais proibidos.
A xícara de café fora depositada sobre a mesa e ela se levantou ajeitando o vestido, impedindo que qualquer fio estivesse fora do lugar, trazendo perfeição ao que já estava perfeito. O som do sapato ecoava pela sala vazia e se perdia pelos outros cômodos voltando em ecos comprovando que estava sozinha. Em passos lentos ela seguiu em direção a entrada onde suas rosas estavam e sorriu brevemente ao toca-lás.
Tudo era cinza, teu corpo, tuas vestes, tua vida! A casa, o quarto, a cozinha... tudo a engolia. Devolvia-lhe exatamente o mesmo que ela lhes dava... a inexistência de cores e de vida... mesmo as rosas, tão vermelhas quanto o sangue que corria em suas veias e que por vezes duvidavam que ela possuía, haviam sugado um pouco de sua energia, e não eram mais tão brilhantes quanto deveriam.
Seus olhos se perderam nas flores e no tempo. O silêncio a invadia e consumia todos os seus pensamentos... haviam tantas coisas para serem resolvidas, papéis a serem assinados, negócios a serem fechados... Camilo, Jane a ideia infame de um casamento... e Ele.
Inúmeras coisas a serem decididas e por vezes ela voltava a se perder nele!
Em que momento perdeste a razão, Julieta?
Quem a conhecia jurava jamais ter visto mulher mais fria e arrogante que ela. Uma verdadeira Rainha, e não somente do café, como costumavam chamá-la... Havia construído um império, rios de dinheiro e terras, tudo com garra e trabalho. Era sim uma Rainha, mas era a Rainha de sua vida, dona absoluta de suas escolhas e de seus sentimentos, inatingível, inabalável... inalcançável?! Há quem descorde de tal afirmação... ele com toda certeza discordava.
O som do cavalo invadiu seu silêncio particular sobressaltando-a, quem ousara interromper seu único momento de paz?
Seus olhos procuraram de onde vinha o barulho inoportuno e revirou os olhos cansada.
—Insolente! -A rosa ia aos poucos se perdendo em sua mão e a força aplicada sobre as pétalas as matava aos poucos. –Como ousa entrar em minha propriedade?! -O homem ainda não havia se aproximado o suficiente, ainda que as perguntas voassem de sua boca e o desejo de se esconder fosse tão grande quanto o de expulsado, mas não maior que o de beija-lo... uma terceira vez? Mas quem estava contando?
—Boa tarde, Julieta. -A voz saia cantada e a largos passos o homem se aproximava dela.
—Senhora! Para você é senhora, já não lhe disse isso outra vez? -Aurélio revirou os olhos voltando a se aproximar a sentindo recuar encostando-se no batente da porta. –O que faz aqui, Aurélio? -Era uma ótima pergunta, ele não sabia.
Ha muito tempo não sabia porquê todas as suas ações o levava à ela. Em que momento o passeio a cavalo se tornou uma visita aquela mulher, já havia prometido a ela e a si mesmo que não a procuraria mais. Que tipo de homem era ele? Que tipo de homem havia se tornado?
—Achei que fôssemos amigos, Senhora.
—Amigos? -perguntou incerta.
—Não vai me convidar para tomar uma xícara de café, Majestade? -O sorriso presunçoso a irritava em graus absurdos, mas o calor que percorria suas veias a impedia de tomar qualquer iniciativa que não fosse aceitar que ele entrasse em sua casa, e esperar que fosse tão ousado e abusado como em todas as outras vezes.
O café foi servido e como se fosse um velho conhecido, e amigo, ele se sentou ao sofá e desfrutou do líquido e da companhia.
—Não acredito que esteja aqui por acaso. -A afirmação escapou de seus lábios. –O que quer? Achei que já tivéssemos deixado tudo claro e que não voltaríamos a nos encontrar a sós se eu não acatasse o seu...
—Tens razão. -a cortou –Eu não estou aqui por acaso. Assim como não acredito ter entrado por acaso em sua vida... -A divagação era consigo, e em baixíssimo tom, ainda assim ela o ouvirá. –Eu vim saber como está após o atentado, nos vimos muito rapidamente e eu não tive a chance de saber como estavas...
—Como podes ver estou inteira!
—A arrogância com toda certeza esta! -Sua boca se abriu em um perfeito “o” e ele sorriu se aproximando. –A beleza também permanece intacta! -seus dedos tocaram-lhe o rosto se permitindo suspirar ao lembrar que a muito não a tocava.
—Não terás o quer de mim, vá embora.
—Mas o que peço é tão pouco... -O coração entrou em descompasso e a respiração já havia a muito perdido o ritmo, que efeito era aquele que aquele homem tinha sobre si? –Seja minha, Julieta. Minha, e me deixe ser teu. — Seus rosto aos poucos se aproximava do dela tocando-lhe a bochecha, e a barba roçava na pele de seda a arrepiando. –Deixe-me desvendar teus segredos. -Tua boca sussurrava próximo ao ouvido, roubando o resto de sanidade que possuía. – Deixe-me amá-la e me ame. -Os sussurros acompanhados de selinhos pelo rosto eram uma deliciosa tortura onde podia perder-se facilmente...
A quanto tempo não era tocada por um homem? Havia sido realmente tocada em algum momento de sua vida, ou simplesmente usada, como a maioria das mulheres de sua época era? Em algum momento foi amada? E amou?
Os lábios dele tocaram os seus com toda a delicadeza que possuía, ele não aprofundaria aquela carícia, se ela quisesse tomaria o controle como em todas as outras áreas de sua vida, e o beijaria.
Suas mãos largaram o tecido do vestido, ao qual se agarrava tentando não ceder, e enfim se perderam nos cabelos grisalhos o puxando mais para si. E o inocente selar de bocas já não era mais o suficiente. Seus lábios se entre abriram procurando pelos dele, em algum momento aquele toque havia se tornado uma necessidade, não era mais sobre controle ou a perca dele, ela precisava daquilo, como precisava do ar que respirava.
Os lábios eram delicados como o botão de uma rosa, macios como algodão doce, e seus, completamente.
Suas línguas enfim se tocaram, rouba-a de si. Nada nunca antes havia sido tão quente e tentador, era sempre a mesma sensação desde o primeiro beijo... O corpo esquentava a temperaturas inimagináveis. As bocas se deleitavam com toda a delicadeza e vontade que sentiam... As roupas em seu corpo já não significavam nada, ela estava nua, diante dele. Completamente despedida de todos as suas armas e ferraduras, e secretamente desejava, como nunca antes, ser despida também de trajes.
A Rainha estava aos pés de um homem, ele não sabia, mas se insistisse mais a teria de todas as formas humanamente possíveis.
O ar pediu por atenção, e por breves centímetros se separaram. As respirações irregulares misturavam-se. Julieta permanecia de olhos fechados, Aurélio a olhava dos pés à cabeça, procurando decorar cada centímetro, cada suspiro alto, aproveitado a oportunidade que não sabia quando teria outra vez.
—Isso é uma loucura! -Sua voz voltou a subir dois tons. –O senhor precisa parar de me agarrar todas as vezes que sentir vontade! Principalmente dentro de minha propriedade.
—A senhora que me beijou. -afirmou, ainda sentado. –E continuaria a me beijar se não precisasse de ar. A quem está querendo enganar, Rainha do café? A mim, ou a ti mesma? -A essa altura o corpo pequeno já se colocara de pé, de costas para ele. –Eu vou embora, de sua casa, de sua vida... não prometo que vá também de seus pensamentos, porquê tu não irás do meu. -O botânico se aproximava aos poucos, e mesmo sem vê-lo sentia sua presença e o cheiro cada vez mais forte. –Apenas faça o que sente vontade antes, apenas deixa-me toca-lá... como eu sei, como você sabe que quer ser tocada! -Seus saltos giraram no piso e intensamente voltou a encara-lo. –E antes que interprete isso de forma desrespeitosa, eu apenas quero poder tocar em ti.
—E então irás embora?
—Tens a minha palavras, até que me procure, ireis embora. -O silêncio os invadiu e por segundos ela apenas procurava a lucidez, qualquer sinal de que não faria o que queria fazer... Seus saltos voltaram a chocar contra o chão e ele a seguia de perto, mesmo sem saber se tinha sua permissão. A porta do escritório fora aberta e ela o adentrou abrindo passagem para ele, e assim fechando a porta. Suas mãos se fecham sobre a maçaneta apenas garantindo que ninguém ousaria os interromper.
—Toque-me então.
Toque
O mais íntimo entre todas as intimidades. O toque que marca, que desvenda, que fica... toque que queima, arrebata, alucina. A quanto tempo não era tocada?
O ar se prendeu em seus pulmões quando os dedos dele tocaram em seus cabelos puxando o grampo que o prendia, libertando os. Os cabelos castanhos caíram como cascatas sobre seus ombros. Talvez aquele fora um de seus principais anseios, tocar-lhe os cabelos. Seus dedos afastaram um pouco os fios, deixando a nuca exposta, sendo coberta por seus lábios... ele não faria nada que ela não quisesse, apenas a tocaria, como havia prometido. Seus lábios continuaram beijando-a, com toda a delicadeza que possuía, como se ela fosse a mais preciosa de suas flores. Os pelos do corpo se arrepiavam a cada novo toque, sentia-se incendiando por dentro e entregue como nunca havia se sentido antes.
O que aquele homem estava fazendo com ela?
Seus braços a envolvera pela cintura a virando de frente para si. Os cabelos se moldavam ao rosto a deixando ainda mais desejável do que era, se é que era possível desejar ainda mais aquela mulher.
—Estou completamente apaixonado por ti, Julieta. -As mãos firmes se perderam por entre seus cabelos apenas para decora-lá. –Eu prometi que não voltaria à procurá-la, e não voltarei. A não ser que queria, que precise... tanto quanto eu precisarei... mas não torne nossa ausência dolorosa, só porque terás o poder para isso. -Seus olhos se encontraram e no fundo deles a súplica era maior... quem ali se importava com os encontros ou desencontros? Outra hora ela pensaria sobre, outra hora teria tempo para lidar com aquilo, não ali, não agora. Suas mãos subiram pelo terno, parando em seus braços o apertando forte.
—Seu tempo está acabando, sugiro que faça logo o que tens vontade e vá embora.
Sem esperar que meio segundo se passasse, deixou por fim ser tomado por todo desejo e paixão que sentia por ela e se deleitou em seus braços deixando que os lábios se encontrassem novamente e pudessem enfim, escorados naquela porta, se deliciarem com o gosto um do outro. As mãos nos cabelos guiavam as bocas, enquanto a outra descia por sua cintura a mantendo o mais perto que pudesse de si.
Todo seu corpo estava bagunçado! Os cabelos, a roupa, a boca... a alma. E no auge da entrega se deixou levar pela perfeita imperfeição a qual se encontrava e o beijou com toda vontade que reprimia dentro do corpo, o beijou com alma, o beijou porque queria, porque sentia vontade e pela primeira vez em anos, porque era mulher, e porque merecia.
Três toques na porta os despertou, trazendo-os de volta para a superfície. As respirações incontroladas eram o único som no ambiente, enquanto apenas se olhavam, sobressaltamos, esperando que a outra pessoa enfim se pronunciasse e pudessem se separar sem fazer barulho.
—Julieta? -A voz de Susana invadiu os ouvidos e Aurélio revirou os olhos afastando-se minimamente dela. –Querida, está aí? -Após longos segundos procurando por sua própria voz respondeu-lhe.
—Sim, Susana. O que deseja?
—Precisamos conversar sobre as decisões...
—Sim, sim. -A cortou. –Daqui alguns minutos eu a procuro! -O som do salto se afastando a fez relaxar e xingar Susana de todos os nomes possíveis. –É melhor que vá. -decretou pro fim.
—É isso que queres?
—É o que preciso!
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