Epifania

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Eu tenho sim, um sonho sim, que esse seja o verdadeiro fim...

Assim que cheguei em casa, tudo o que queria fazer era finalmente voltar para a minha cama depois de tanto tempo morando em um trailer, porque finalmente consegui uma forma de ajudar meus pais a pagarem as despesas.

Olhei para aquele meu teto enfeitado com as estrelas que brilham no escuro, e logo senti um nó na garganta. Minha visão ficou embaçada com as lágrimas.

– Amy... – choraminguei, bem baixinho.

Ergui o celular pela milésima vez naquela hora. Nenhuma resposta das minhas mensagens, nenhum retorno das minhas ligações. O que eu tinha feito?

Fiquei muito tempo com o rosto enfiado no travesseiro, chorando. Eu a beijei, isso foi o que fiz. Acabei com tudo. Nunca colegas de quarto. Nunca vivendo em casas vizinhas. Nunca melhores amigas para sempre. Nunca mais.

– Karma? – minha mãe me chamou, na porta do quarto.

– Me deixa em paz – respondi em um soluço.

– Ah, querida... – ela se sentou ao meu lado e começou a acariciar meu cabelo. – tente viver um pouco. Se ficar presa à Amy assim, o tempo todo, não vai conseguir seguir em frente. Não quer entrar em uma faculdade, garantir um futuro para você? Vamos sair juntas para ir ao cinema. Ou jantar fora.

– Mãe, você não vê? – tirei o rosto do travesseiro, os meus olhos com certeza inchados, e me sentei do lado dela. – nós quase não nos sustentamos aqui, e você quer ir ao cinema? E eu e Amy somos almas gêmeas, eu não consigo dar um passo sem pensar que podíamos estar dando esse mesmo passo juntas. É sufocante.

Minha mãe só assentiu. Então abraçou meu ombro com um braço e apoiou minha cabeça em seu ombro.

– Ela só vai passar o verão lá, não é? – ela quase sussurrou.

– Sim.

– Tente aguentar firme até lá, e então vocês conversam direito, está bem? Ficar se lamentando enquanto ela não quer falar não vai te levar a nada. Faça alguma coisa para colocar isso longe dos seus pensamentos.

+ + +

Meu telefone tocou. Olhei para a tela, cheia de esperanças. Mas ali estava a carinha de gatinho pidão, com os olhões escuros. Liam.

– Achou seu pai? – foi como atendi o celular.

– Sei onde ele está – ele respondeu. – eu e Zita estamos planejando a viagem, porque vai ser longa...

– Onde ele está?

– Ao menos acho que é ele, e vive em Washington. É a minha chance de descobrir quem eu sou, Karma.

– Meus parabéns. Boa sorte.

– Obrigado.

– Ah, e... Conseguiu falar com a Amy?

Ele deu um longo suspiro, obviamente desapontado por eu tê-la mencionado.

– Como eu já suspeitava, se ela não conversa com a melhor amiga, com certeza não iria conversar comigo. Já não tentou falar com a mãe dela?

– Nem com a própria mãe ela fala muita coisa, só mandou algumas fotos, vídeos e diz como passa os dias de uma forma extremamente superficial, sem informações que, para ela, parecem desnecessárias.

– E Shane?

– Mesmo se falasse com ele, ele não repassaria. Sabe como ele é comigo. Eu sou a garota que tornou miserável a vida amorosa dos dois grandes amigos dele. Sem ofensas.

– Ao menos tente...

– Não adianta.

– Karma, preciso ir. Mas preste atenção... Tente.

Desliguei o celular e encarei o teto mais uma vez, não chorando de novo. Só sentindo um aperto forte no peito e muita saudade. Quando éramos crianças era sempre tão fácil...

Então me levantei, determinada, e saí correndo de casa. Por mais que a bicicleta rosa que eu usava fosse tão humilhante, eu precisava dela para chegar até a casa de Shane mais rápido. E lá estava ele, na escada da varanda, mandando mensagens sem parar.

– Ela fala com você? – disparei, encarando-o.

– O quê? – ele se levantou e ficamos cara a cara.

– Amy, ela conversa com você?

– Sim.

– O que ela diz? Ela está bem? Ela...

– Ei, quem é você para tirar satisfações comigo? Não te interessa o que ela conversa comigo, porque quando você podia ter essa chance, você jogou fora. Ela está lá por sua causa, e agora que Liam está indo atrás do pai, eu vou ficar sozinho.

– Minha culpa? Eu estava bêbada! Eu já pedi desculpas a ela! O que mais você quer que eu faça, finja que tenho sentimentos além de amizade por ela só para que ela volte?

– Você começou com tudo isso, desde que a obrigou a fingir que eram lésbicas! – ele apontou o indicador para a minha cara.

– Você que tirou a gente do armário! – afastei seu dedo.

– Você poderia ter me corrigido!

– Eu só quero saber da minha melhor amiga! Apenas me diga, como ela está?

O celular dele tocou. Olhei para a tela. Era Amy.

Shane apertou o verde do celular e atendeu.

– Oi.

.........saudades........soube.......................Liam?

– Ele achou o pai, e sai da cidade em alguns dias.

Desculpe..............sozinho.

– Não tem problema.

E a Karma?

Ouvi aquilo perfeitamente, e abri um sorrisinho.

– Ela está aqui na minha frente – ele respondeu, com um olhar de desgosto.

......................voz?

– Pela cara dela, ela ouviu que você perguntou dela, mas não, a ligação não está em viva voz.

Silêncio.

Posso.............ela?

– Não.

– Ela quer falar comigo? – falei quase sem deixar a voz sair.

Shane...

Ele me passou o celular. Coloquei na orelha. Esperei alguns segundos.

– Amy?

– Oi, Karma.

– Ai meu deus, como é bom ouvir a sua voz de novo. Você está bem?

– Sim. Olha, quero te falar uma coisa.

– O quê?

– Acho que não volto tão cedo quando você pensa.

– Como assim?

– Um cara de uma faculdade de cinema me viu trabalhando com a câmera e falou que sou muito boa. Me ofereceu aulas experimentais na universidade, em New York, e caso eu gostasse, uma das vagas seria minha. E eu quero muito isso. Talvez eu tenha me achado.

– Mas...

– Eu sei o que você vai dizer, mas não. Não quero voltar para mais uma decepção.

– Amy, isso está realmente virando o começo do fim.

– Talvez tenha que ser assim. Passe de volta para o Shane, por favor.

Relutei, mas devolvi o telefone.

– Estou de volta – ele disse.

....seja.......ela.

– Okay, mas não prometo nada.

Ele desligou.

– O que ela te falou? – prosseguiu ele.

– Ela talvez tenha conseguido uma vaga em uma faculdade de cinema.

E, de novo, lágrimas se acumularam nos meus olhos.

+ + +

Fiquei a madrugada relembrando cada momento meu com Amy.

Quando colamos as estrelas no teto.

Tudo isso tem aconteceu graças a você. Melhor namorada do mundo.

Quando nosso castelo de papelão desmanchou na chuva que veio de repente enquanto brincávamos no jardim da casa dela.

Tudo com o que você sonhava era achar o seu príncipe encantado. Eu só ficava feliz de dividir um castelo de papelão com você.

Quando eu contava para ela das minhas paixonites bobas de menina.

Vocês se apaixonaram pelo seu melhor amigo. Eu mataria para passar o resto da minha vida com essa pessoa.

Quando demos tanto significado ao nosso primeiro “eu te amo”.

Eu também te amo, Amy. Só que não assim.

Quando ela fugiu para morar em casa por três dias porque quebrou um porta retrato da mãe e achou que ela a odiaria por isso.

Quem se importa com o que a sua mãe pensa. Eu sou sua família.

Nosso beijo no ginásio... Nosso beijo no ménage fracassado... Nosso beijo na piscina...

Woah...

Eu estava apaixonada.

– Eu estou apaixonada – falei bem baixo. — Eu sei — respondi para mim mesma.

Eu quase caí da escada, de tão apressada que estava. Até acordei meus pais. Bom, era a minha intenção.

– Significou sim! – comemorei, enquanto eles me viam quase dançar na sala. – aquele beijo significou alguma coisa. Significou, Amy!

– Karma, o que está acontecendo? – meu pai perguntou.

– Preciso falar com o Shane. Agora.

Voltei para o meu quarto, rindo. Peguei meu violão. Desci as escadas mais uma vez. Saí de casa. Correndo mesmo, cheguei até a casa do Shane.

– Shane! – gritei.

– Eu estou dormindo! – ele reclamou, surgindo na janela. – o que você quer?

– Nosso beijo significou alguma coisa.

– Eu não te beijei, eca!

– Não, meu beijo com a Amy. Me leva para onde ela está, agora. Tenho que falar pessoalmente com ela. Por favor.

Ele não demorou muito para se vestir. Depois de uns poucos minutinhos, já estávamos no carro dele, indo em direção à estrada.

No caminho, enviei uma mensagem para meus pais, dizendo que eu tive uma epifania e tinha que concertar uns erros meus.

– Qual é a do violão? – Shane me perguntou em meio a um bocejo.

– Vou cantar para ela. E fique acordado!

O resto da viagem foi muito silencioso. Fiquei retomando aquela minha música que escrevi para o Liam, mas fazia mais sentido para ela. Não tinha um nome, só aquela letra pequena e inacabada. Eu esperava que fosse o suficiente.

Onde ela estava era um prédio meio que caindo aos pedaços. O lugar por dentro era empoeirado.

O apartamento dela, segundo Shane, era o 28. Bati na porta.

Quem atendeu a porta foi uma garota de olhos puxados e roupas pretas.

– O que você quer? Primeiro atrasa a nossa viagem, e agora me acorda de madrugada?

– A Amy está aí? – perguntei.

– Pelo jeito dela quanto a você eu não deveria te deixar entrar...

– Karma? – uma voz veio detrás da porta.

Ela estava de pijama. O cabelo estava todo bagunçado. Mas ela estava lá.

Ergui o violão, pronta para começar a cantar. Mas ela segurou o braço do instrumento, com uma expressão bem enfurecida.

– O que você quer?

– O beijo significou alguma coisa – disparei.

Ficamos nos encarando por muito tempo. Ela surpresa, e eu esperançosa.

– Como assim? – ela finalmente perguntou.

– Epifania. Tive uma dessas um tempinho atrás. Eu tenho sentimentos por você.

Um sorriso começou a surgir no canto de seus lábios.

– Não está meio tarde para você me dizer uma coisa dessas? Tipo, em horário?

– Gosto de pensar que está cedo o suficiente. Espero que esteja.

Sorrimos juntas. Agora, o que eu fazia em seguida, eu não tinha ideia.

Amy deu um passo para frente, segurou meu pescoço com uma mão e me puxou imediatamente para um beijo. Retribuí, segurando seus braços e a colocando mais perto.

– Woah... – murmurei.

– Eu sei – ela respondeu.

Nos beijamos de novo.

– Só uma coisa – ela disse, interrompendo o beijo só por alguns segundos. – eu inventei sobre a faculdade de cinema para passar mais tempo longe.

– Essa foi a melhor coisa que eu ouvi desde que você foi embora. Mas você vai é voltar mais cedo, não é?

Ela fez que sim, me beijando mais uma vez.

– Karmy, vocês são uma graça, devo admitir... – Shane começou a falar, o que fez com que parássemos de nos beijar. – mas amanhã eu tenho que trabalhar, assim como você, Ashcroft, então acho que ficar se beijando não é a melhor opção agora. Temos que ir.

Sim, tínhamos que ir. Eu e ela.

E Shane, consequentemente.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!